Quando os caminhos eram longos e meu campo de ação ia só até onde
alcançava o grito do meu pai: "ei, menino", eu queria ver a rua logo que
a noite adormecia com suas longas mechas caindo sobre o assoalho. Todos
os barulhos sobrevoando a cabeça dessa bela moça de cílios longos e bem
negros. Os grilos, a cachorro latindo ao longe (nunca me parecia com
aqueles cachorros sonolentos sob os balcões dos frigoríficos, no dia
seguinte) um choro de bebê saindo pela fenda de alguma janela,
passos na rua, às vezes até um sussurro. Eu queria ver a rua na noite,
assim, deitada em seu leito e em sono profundo, mas eu não podia. Além
das advertências do meu pai, eu precisava de um querer ainda maior que o
meu medo da noite, daquela rua tão deserta, misteriosa e além de mim, e
cheia de barulhos que só surgiam quando o dia saía de fininho feito um
aluno matando aula. Eu queria. Ai eu cresci, e lá estava eu, sem nem bem
perceber, diante da rua, em plena noite escura. E os caminhos ficaram
curtos e não havia mais os gritos do meu pai: "ei, menino". E havia o
quê? Não era a mesma coisa. Aquela rua no meio da noite não era a mesma
que eu queria ver, cara a cara. Eu havia crescido ou a noite havia
diminuído? Ai pensei, um pensamento em gotinhas salgadas cheias de tempo
ainda morno: eu podia ter alfinetado aquela minha rua como eu fazia com
minhas borboletas, eu podia ter colado em meu álbum em cima de alguma
figurinha da qual eu não gostava muito, eu podia ter colocado moldura
nela, na minha rua, e pregado-a aqui, bem no meio do meu peito, mas não,
deixei-a só em minha lembrança, feito aquela música que só a ouvimos
quando sentimos que não há mais nada para querermos ver. Há noites
assim.
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