Espertos

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Quando os caminhos eram longos e meu campo de ação ia só até onde alcançava o grito do meu pai: "ei, menino", eu queria ver a rua logo que a noite adormecia com suas longas mechas caindo sobre o assoalho. Todos os barulhos sobrevoando a cabeça dessa bela moça de cílios longos e bem negros. Os grilos, a cachorro latindo ao longe (nunca me parecia com aqueles cachorros sonolentos sob os balcões dos frigoríficos, no dia seguinte) um choro de bebê saindo pela fenda de alguma janela, passos na rua, às vezes até um sussurro. Eu queria ver a rua na noite, assim, deitada em seu leito e em sono profundo, mas eu não podia. Além das advertências do meu pai, eu precisava de um querer ainda maior que o meu medo da noite, daquela rua tão deserta, misteriosa e além de mim, e cheia de barulhos que só surgiam quando o dia saía de fininho feito um aluno matando aula. Eu queria. Ai eu cresci, e lá estava eu, sem nem bem perceber, diante da rua, em plena noite escura. E os caminhos ficaram curtos e não havia mais os gritos do meu pai: "ei, menino". E havia o quê? Não era a mesma coisa. Aquela rua no meio da noite não era a mesma que eu queria ver, cara a cara. Eu havia crescido ou a noite havia diminuído? Ai pensei, um pensamento em gotinhas salgadas cheias de tempo ainda morno: eu podia ter alfinetado aquela minha rua como eu fazia com minhas borboletas, eu podia ter colado em meu álbum em cima de alguma figurinha da qual eu não gostava muito, eu podia ter colocado moldura nela, na minha rua, e pregado-a aqui, bem no meio do meu peito, mas não, deixei-a só em minha lembrança, feito aquela música que só a ouvimos quando sentimos que não há mais nada para querermos ver. Há noites assim.

(Reynaldo Bessa)

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