Espertos

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A poesia salva. Eu e um amigo, também poeta, saíamos de um lançamento de um dos nossos livros. Era madrugada. O banco de trás do carro estava abarrotado dos encalhes dos nossos queridos exemplares recém-lançados, além de alguns presentes literários de outros tantos poetas que foram nos prestigiar. A cidadezinha dormia tal qual um bebezinho no berço. As ruas eram todas nossas. Eu cochilava um pouco pelo cansaço e também por algumas taças da pinot noir. Meu amigo dirigia como se escrevesse versos pelo asfalto. Logo ao dobrar uma esquina havia um carro parado, bem no meio, impedindo nossa passagem. Paramos, de supetão, claro, quer dizer, o meu amigo parou, enquanto eu ainda voltava de um dos meus tantos mergulhos nos lagos dos olhos de Morfeu. Olhei a cena e não gostei nada. Nisso, pedi que meu amigo desse ré no carro, rapidamente. Pequenos segundos repletos de universos. Mas o meu amigo estava paralisado. Pedir que fizesse alguma coisa era como esperar que as ruas nos cantassem hinos. Foi quando apareceram três rapazinhos. Dois ficaram na frente do carro e um, mansamente, veio em nossa direção, e logo debruçou seu rosto de lua cheia bem na cara assustada do meu amigo ainda paralisado. Depois de algumas perguntas totalmente sem respostas e um silêncio AlfredHitchcockiano, ele nos perguntou: "O que é isso ai atrás?" O meu amigo pigarreou e quase num engasgo disse, livros. "Livros de quê?" de poesia. "Hum. deixa eu ver". Folheou, folheou e logo começou a rir. Leu outro poema e riu ainda mais, agora sem controle. Pra minha infelicidade, pela capa, percebi que era um dos meus livros. E o cara ria e até já chamava um dos parceiros pra dar também uma conferida no troço aberto em suas mãos. E agora os dois riam sem parar, enquanto o terceiro já se inquietava de tanta curiosidade, e eu me encolhia ainda mais. Ele pediu outro livro. Meu amigo, sem olhar para trás, assim como quem tira uma carta de baralho num jogo de azar, puxou outro. E agora o cara se rachava de tanto rir. De repente ficou sério e disse: "é disso que vocês vivem?" Meu amigo disse, não é que... "Tá, entendi. Vocês são loucos. Gostei dessas coisas ai. É poesia, né?". E nesse momento ele olhou pra mim e nisso pude ver seus olhos acesos feito dois besouros de fogo lutando com a noite. Eu disse, sim... é... "Tá. As que a professora me pedia pra ler na aula eram uma merda. Então, manos, vão andando, beleza? Que a gente precisa trabalhar" Imediatamente, respondemos juntos, eu e meu amigo: SIM. Logo ao sairmos, ainda podemos ouvir um "Que malucos, mano" e ainda mais risadas. Foi a melhor crítica literária que já tivemos. As outras foram um tanto agressivas. Já faz tanto tempo. Lembrei-me disso porque senti saudades do meu amigo. Só a poesia salva.

(Reynaldo Bessa)

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