Um país, para ter um grande romancista, precisa ter também um bom dentista. São coisas que caminham mais ou menos no mesmo passo. Não se pode ter uma medicina pré-histórica ao lado de um grande romancista como Tolstói. Não é possível. O clima intelectual é homogêneo. Para se ter um Tolstói, precisamos de uma dezena de sub-Tolstóis, que através dos séculos, foram trabalhando até amadurecerem ali, naquela cabeça. Por que certos países da África não têm literatura? Porque não existe ambiente cultural. Por que países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos tem uma vida intelectual intensa? Porque lá há um ambiente cultural e intelectual intenso. Tais coisas se acumulam. Um grande romancista precisa de um passado intelectual. (Wilson Martins – Crítico literário - Trecho retirado “das melhores entrevistas do rascunho”)
Citei esse trecho acima do crítico Wilson Martins, porque gostaria de fazer um paralelo, não sobre o que se ouve em Mossoró, minha cidade natal, mas sim sobre o que não se ouve mais. Não vou me debruçar sobre o que se ouve, por dois motivos: primeiro, porque isso, infelizmente, todos nós já sabemos e também porque não vou perder meu tempo escrevendo sobre intérpretes, compositores, bandas, grupos, trupes e sei lá mais como devo chamar essas máquinas de fazer dinheiro, que aparecem e desaparecem com a rapidez de um flash. Há exceções? Sim, claro! E ainda bem, mas muito poucas.
Wilson Martins foi o último grande critico literário (Faleceu em 2010) e nesse trecho acima ele fala do ambiente cultural necessário para o surgimento de um grande romancista, no caso, Tolstói, mas esse ambiente não se limita somente a literatura. Ele abrange qualquer profissão. Em se tratando de arte, ele abrange qualquer seguimento, seja, teatro, dança, performance, literatura, música e etc. Nesse meu texto me refiro mais especificamente a música. Para que surja alguém de extrema qualidade no cenário musical de um determinado lugar, é preciso um ambiente cultural intenso, construído num passado intelectualmente sólido. Nada surge do nada.
Mossoró tem uma tradição de música de qualidade. Digo isso porque quando morei lá, vi de perto. Vi muita gente boa tocando na noite, nas rádios, casas de shows, em todos os lugares. Lembro de um público brigando pra ver Nando Cordel, quando ele ainda nem tocava as canções que Elba ramalho, Bethânia e tantas outras, imaginavam que um dia iriam gravá-las. Lembro de praças lotadas para ver Zé Ramalho, Fagner, Belchior e tantos outros.
Nos finais de semana, podíamos ouvir grandes grupos de serestas. Lembro muito de João de Orestes. Gostava de observar aqueles músicos tocando com alegria, desenvoltura e muito bom gosto. Perdia-me diante de dedos elétricos surrando as cordas de instrumentos que só faltavam pedir a palavra. Quem quisesse assistir João de Orestes e sua eletrizante banda, tinha que reservar mesa com muita antecedência. Havia sempre muita briga pelos ingressos.
Gostava também de todos os dias, logo pela manhã, dar uma passadinha pela CA discos, onde, Marcelo, meu amigo e mentor musical, trabalhava e tinha o maior prazer em me mostrar as novidades. Depois de muito tempo, chegavam à loja, os recém lançados discos do Milton Nascimento, Djavan, Tom Jobim, Caetano, Gil, Chico Buarque, Fagner, Paco de Lucia, Ednardo, Paulo Diniz, Belchior, Bethânia, Simone, Gal, Luiz Melodia, Lulu Santos, todo o pessoal do boom do rock nacional. Quer mais? Ora! aqui não há espaço suficiente para tanta qualidade. Depois de me extasiar de tanta coisa boa, alucinado, eu ia para igreja e orava para ser um músico reconhecido nacionalmente como aqueles que eu acabara de ver nas capas dos discos e enquanto orava, cantava trechos das musicas que acabara de ouvir. Aprendi que Deus é esperto. Gosta de boa música.
Gostava também de todo final de tarde, pegar um café e ficar do outro lado da rua ouvindo “Seu Totó” sob o jasmineiro, em frente de sua pacata casa, tirar do seu velho violão, clássicos do cancioneiro brasileiro: Abismo de Rosas, Lamento, Tico-tico no fubá, Carinhoso e muitos outros. Eu ficava ouvindo-o enquanto folhas de jasmins iam colorindo o asfalto. Como se pode permanecer indiferente ao som de “abismo de rosas” enquanto folhas caem ao chão? Não se pode. Eu não podia.
Quando descia pra Tibau, (Em Janeiro, Mossoró desce em peso para o litoral e só volta depois do carnaval) costumava ir ao clube Álibi para ouvir uma bandinha de três rapazes: guitarra, baixo e bateria. Ficávamos ali, eu, Tácio, Ana e outros tantos amigos amantes da boa música brasileira, ouvindo essa bandinha tocar nossos artistas prediletos. Djavan tinha acabado de lançar o disco Pétala e as músicas desse disco, até mesmo as do lado “B” tocavam sem parar. Ele foi trilha sonora de um dos meus primeiros romances da adolescência.
Sempre me pergunto “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” não importa, mas da parte que eu consigo lembrar, vejo meu pai ouvindo Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Chico Alves e tantos outros desse naipe.
Mossoró não é só uma cidade de tradição musical de qualidade, mas também tem um perfil original e inovador, para não dizer revolucionário; foi a primeira cidade a libertar seus escravos. Alguns costumam argumentar “Ah! mas eram só setecentos escravos” não importa. Liberdade é liberdade e pioneirismo é pioneirismo. Fomos pioneiros nisso. Também foi em Mossoró o primeiro voto feminino da América do sul. Conhecem o episódio de quando Lampião tentou entrar em Mossoró? Não? Só para resumir, Lampião, se vivo, gostaria de enfrentar qualquer cidade, menos Mossoró.
Citei esses fatos, só para mostrar minha inquietação, de como uma cidade com essa carga históricamente densa e propícia pode se deixar arrastar devastadoramente por essas ondas de constantes modismos e sem querer parecer agressivo, mas do que posso também chamar de “arrastão do mercado fonográfico” ou o “pegue enquanto é tempo e depois se mande sem deixar aviso.“
Não sou contra nenhum estilo musical. Sou contra o excesso e principalmente a exclusão de artistas que ajudaram a construir a história da verdadeira música brasileira.
Citei esses fatos, só para mostrar minha inquietação, de como uma cidade com essa carga históricamente densa e propícia pode se deixar arrastar devastadoramente por essas ondas de constantes modismos e sem querer parecer agressivo, mas do que posso também chamar de “arrastão do mercado fonográfico” ou o “pegue enquanto é tempo e depois se mande sem deixar aviso.“
Não sou contra nenhum estilo musical. Sou contra o excesso e principalmente a exclusão de artistas que ajudaram a construir a história da verdadeira música brasileira.
Sei que a decadência do gosto popular acontece no mundo todo, mas não quero brigar com o mundo, é despender energia demais, quero apenas afirmar a minha antiga preocupação perante a cidade em que nasci e que só não permaneci porque um menino de dois anos não pode simplesmente chegar para os seus aflitos pais e dizer “Podem ir, eu fico aqui”
Repito, Mossoró tem uma tradição de música de qualidade, por isso me pergunto, "para onde foi essa tradição? Estará em alguma sarjeta, encolhida e trêmula esperando que alguém lhe traga um agasalho e um prato de comida? Até onde mais teremos que descer?
Monteiro Lobato disse: um país se faz com homens e livros. Eu digo que se faz com homens, livros e músicas. Músicas de qualidade, obviamente. Assim como acredito que somos o que comemos, somos o que ouvimos.
Quando morei na Europa, vi com muita frequência os pais e seus filhos tomando café da manhã, almoçando ou jantando ao som de Beethoven, Mozart, Chopin, Liszt, Brahms e tantos outros. De quem será que esses moleques lembrarão?
Correndo o risco de me tornar repetitivo (na verdade é isso que quero) repito: Mossoró tem uma tradição de música de qualidade e não podemos esquecer, negar, apagar, rejeitar, deletar essa tradição, porque abdicar dessa história, dessa qualidade, desse passado intelectualmente sólido é assumir um preço muito alto a ser pago num futuro próximo. Não só nós pagaremos esse preço, mas também nossos filhos, netos, bisnetos. E aí eu me pergunto: é justo nossos descendentes pagarem por uma conta que não lhes pertencem? Se nada for feito, mais cedo ou mais tarde, a cultura potiguar mandará essa conta, e pode estar certo, alguém terá que pagar.