Espertos

domingo, 30 de janeiro de 2011

Para onde foi essa tradição?

Um país, para ter um grande romancista, precisa ter também um bom dentista. São coisas que caminham mais ou menos no mesmo passo. Não se pode ter uma medicina pré-histórica ao lado de um grande romancista como Tolstói. Não é possível. O clima intelectual é homogêneo. Para se ter um Tolstói, precisamos de uma dezena de sub-Tolstóis, que através dos séculos, foram trabalhando até amadurecerem ali, naquela cabeça. Por que certos países da África não têm literatura? Porque não existe ambiente cultural. Por que países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos tem uma vida intelectual intensa? Porque lá há um ambiente cultural e intelectual intenso. Tais coisas se acumulam. Um grande romancista precisa de um passado intelectual. (Wilson Martins – Crítico literário - Trecho retirado “das melhores entrevistas do rascunho”)

Citei esse trecho acima do crítico Wilson Martins, porque gostaria de fazer um paralelo, não sobre o que se ouve em Mossoró, minha cidade natal, mas sim sobre o que não se ouve mais. Não vou me debruçar sobre o que se ouve, por dois motivos: primeiro, porque isso, infelizmente, todos nós já sabemos e também porque não vou perder meu tempo escrevendo sobre intérpretes, compositores, bandas, grupos, trupes e sei lá mais como devo chamar essas máquinas de fazer dinheiro, que aparecem e desaparecem com a rapidez de um flash. Há exceções? Sim, claro! E ainda bem, mas muito poucas.

Wilson Martins foi o último grande critico literário (Faleceu em 2010) e nesse trecho acima ele fala do ambiente cultural necessário para o surgimento de um grande romancista, no caso, Tolstói, mas esse ambiente não se limita somente a literatura. Ele abrange qualquer profissão. Em se tratando de arte, ele abrange qualquer seguimento, seja, teatro, dança, performance, literatura, música e etc. Nesse meu texto me refiro mais especificamente a música. Para que surja alguém de extrema qualidade no cenário musical de um determinado lugar, é preciso um ambiente cultural intenso, construído num passado intelectualmente sólido. Nada surge do nada.

Mossoró tem uma tradição de música de qualidade. Digo isso porque quando morei lá, vi de perto. Vi muita gente boa tocando na noite, nas rádios, casas de shows, em todos os lugares. Lembro de um público brigando pra ver Nando Cordel, quando ele ainda nem tocava as canções que Elba ramalho, Bethânia e tantas outras, imaginavam que um dia iriam gravá-las. Lembro de praças lotadas para ver Zé Ramalho, Fagner, Belchior e tantos outros.

Nos finais de semana, podíamos ouvir grandes grupos de serestas. Lembro muito de João de Orestes. Gostava de observar aqueles músicos tocando com alegria, desenvoltura e muito bom gosto. Perdia-me diante de dedos elétricos surrando as cordas de instrumentos que só faltavam pedir a palavra. Quem quisesse assistir João de Orestes e sua eletrizante banda, tinha que reservar mesa com muita antecedência. Havia sempre muita briga pelos ingressos.

Gostava também de todos os dias, logo pela manhã, dar uma passadinha pela CA discos, onde, Marcelo, meu amigo e mentor musical, trabalhava e tinha o maior prazer em me mostrar as novidades. Depois de muito tempo, chegavam à loja, os recém lançados discos do Milton Nascimento, Djavan, Tom Jobim, Caetano, Gil, Chico Buarque, Fagner, Paco de Lucia, Ednardo, Paulo Diniz, Belchior, Bethânia, Simone, Gal, Luiz Melodia, Lulu Santos, todo o pessoal do boom do rock nacional. Quer mais? Ora! aqui não há espaço suficiente para tanta qualidade. Depois de me extasiar de tanta coisa boa, alucinado, eu ia para igreja e orava para ser um músico reconhecido nacionalmente como aqueles que eu acabara de ver nas capas dos discos e enquanto orava, cantava trechos das musicas que acabara de ouvir. Aprendi que Deus é esperto. Gosta de boa música.

Gostava também de todo final de tarde, pegar um café e ficar do outro lado da rua ouvindo “Seu Totó” sob o jasmineiro, em frente de sua pacata casa, tirar do seu velho violão, clássicos do cancioneiro brasileiro: Abismo de Rosas, Lamento, Tico-tico no fubá, Carinhoso e muitos outros. Eu ficava ouvindo-o enquanto folhas de jasmins iam colorindo o asfalto. Como se pode permanecer indiferente ao som de “abismo de rosas” enquanto folhas caem ao chão? Não se pode. Eu não podia.

Quando descia pra Tibau, (Em Janeiro, Mossoró desce em peso para o litoral e só volta depois do carnaval) costumava ir ao clube Álibi para ouvir uma bandinha de três rapazes: guitarra, baixo e bateria. Ficávamos ali, eu, Tácio, Ana e outros tantos amigos amantes da boa música brasileira, ouvindo essa bandinha tocar nossos artistas prediletos. Djavan tinha acabado de lançar o disco Pétala e as músicas desse disco, até mesmo as do lado “B” tocavam sem parar. Ele foi trilha sonora de um dos meus primeiros romances da adolescência.

Sempre me pergunto “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” não importa, mas da parte que eu consigo lembrar, vejo meu pai ouvindo Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Chico Alves e tantos outros desse naipe.

Mossoró não é só uma cidade de tradição musical de qualidade, mas também tem um perfil original e inovador, para não dizer revolucionário; foi a primeira cidade a libertar seus escravos. Alguns costumam argumentar “Ah! mas eram só setecentos escravos” não importa. Liberdade é liberdade e pioneirismo é pioneirismo. Fomos pioneiros nisso. Também foi em Mossoró o primeiro voto feminino da América do sul. Conhecem o episódio de quando Lampião tentou entrar em Mossoró? Não? Só para resumir, Lampião, se vivo, gostaria de enfrentar qualquer cidade, menos Mossoró.

Citei esses fatos, só para mostrar minha inquietação, de como uma cidade com essa carga históricamente densa e propícia pode se deixar arrastar devastadoramente por essas ondas de constantes modismos e sem querer parecer agressivo, mas do que posso também chamar de “arrastão do mercado fonográfico” ou o “pegue enquanto é tempo e depois se mande sem deixar aviso.“

Não sou contra nenhum estilo musical. Sou contra o excesso e principalmente a exclusão de artistas que ajudaram a construir a história da verdadeira música brasileira.

Sei que a decadência do gosto popular acontece no mundo todo, mas não quero brigar com o mundo, é despender energia demais, quero apenas afirmar a minha antiga preocupação perante a cidade em que nasci e que só não permaneci porque um menino de dois anos não pode simplesmente chegar para os seus aflitos pais e dizer “Podem ir, eu fico aqui”

Repito, Mossoró tem uma tradição de música de qualidade, por isso me  pergunto, "para onde foi essa tradição? Estará em alguma sarjeta, encolhida e trêmula esperando que alguém lhe traga um agasalho e um prato de comida? Até onde mais teremos que descer?

Monteiro Lobato disse: um país se faz com homens e livros. Eu digo que se faz com homens, livros e músicas. Músicas de qualidade, obviamente. Assim como acredito que somos o que comemos, somos o que ouvimos.

Quando morei na Europa, vi com muita frequência os pais e seus filhos tomando café da manhã, almoçando ou jantando ao som de Beethoven, Mozart, Chopin, Liszt, Brahms e tantos outros. De quem será que esses moleques lembrarão?

Correndo o risco de me tornar repetitivo (na verdade é isso que quero) repito: Mossoró tem uma tradição de música de qualidade e não podemos esquecer, negar, apagar, rejeitar, deletar essa tradição, porque abdicar dessa história, dessa qualidade, desse passado intelectualmente sólido é assumir um preço muito alto a ser pago num futuro próximo. Não só nós pagaremos esse preço, mas também nossos filhos, netos, bisnetos. E aí eu me pergunto: é justo nossos descendentes pagarem por uma conta que não lhes pertencem? Se nada for feito, mais cedo ou mais tarde, a cultura potiguar mandará essa conta, e pode estar certo, alguém terá que pagar.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O sussurro nos vãos dos dias

Impressões sobre Outros Barulhos, de Reynaldo Bessa - pela poeta Beatriz Bajo

Eu não sabia o que ia acontecer até ler este livro
posso dizer que ele não saía da minha bolsa
e era um atrevimento de espionar o que de tão meu poderia caber
ao seu lado – tudo bem, com meu consentimento –
mas eu estava totalmente
ingênua nisso
em relação ao sopro que ele exerceria sobre meus dias
silenciosos.
É isso...o barulho de Outros Barulhos vem de seus olhos
refletidos nos de sua mãe
e das palavras, sempre elas que
“se chocam no ar, outras rolam pelo chão” (30)
O ritmo do poeta-músico é forte como a gravidade
da nota acertada no meio do peito-livro
– que “se enche de universos” (86) –
em que me debruço
ao mesmo tempo em que desliza tênue sobre as ideias folhadas
assim dispara Reynaldo: “Escrevo/ porque sou viciado/ no movimento/
das incertezas (83)
e foi então que ele (o poeta) disse-me com a palavra
mais deslavada, assim, numa audácia de trincar os olhos
os seguintes versos requintados:
"construo bombas para um dia
explodir os seus silêncios" (94)
ok! explodir meus silêncios faz parte dessa arquitetura
besseana de deflagrar meu assombro diante de sua obra
haja vista que “isso não é um poema é uma vida, a dele./
há sangue nas entrelinhas.” (grifo meu, 114)
a poesia de Bessa é arrebatadora exatamente por isso,
porque é de uma sinceridade comovente, à espreita da vidinha,
aquela que está ao alcance de qualquer um que a olhe com os canais
do estranhamento ligados pela intimidade com o arrepio do existir
falar de Outros Barulhos não é difícil pelo seu imediato
reconhecimento no contexto literário,
nem porque Reynaldo Bessa é um músico e compositor talentoso,
com especial habilidade para tratar de palavras e sons
mas, porque agora ele lida com outros barulhos, os de dentro
dentro desse silêncio atordoante que é a poesia,
porque ele trabalha com o silêncio que dói
que entala, que nos engasga...como diz:
“e esse mundo preso na garganta que não desce nunca?” (27)
um mutismo que pode nos destronar,
mas também pode ser construtor, no seu caso, de mundos outros
o poeta escolhe versos curtos, flashes cotidianos
embaçados pelos tempos que se embaralham dentro
da vida: “apenas um dia/ que despencou do/ calendário” (37)
e essa vida é recheada de reveses, desapontamentos,
desencontros, e demasiada sensualidade.
tão adaptado ao trabalho manual de pegar as palavras,
tropeça com a pele de palavras que escrevem o corpo desejado:
“seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar” (104)
ainda, descreve um coração insubordinado, relutando
com as profundezas de um ser compartilhado consigo
próprio. Reynaldo oferece-se partido ao presente,
“meu coração é um filho rebelde
ouve música às alturas, usa piercing,
fala estranho e está cagando pra mim.”,
em que peleja entre o racional e o emotivo,
novamente conjuga tempos e transita
entre os papéis hierárquicos existentes
na instituição familiar, tão aclamada neste livro
de ascendências no entanto, há momentos de declinações flagrantes
que perturbam nossas percepções como “uma notícia estupidamente vermelha,”
deflorando a banalidade dos dias: “é dura feito pedra e/ voando veloz estilhaça a/
janela dos meus sonhos (53)
na obra que caminha em busca de alcançar o espectro da
paternidade, insígnia desfraldada pela voz tão proeminente masculina
dos versos de Outros Barulhos, o poeta conta que se lembra bem
apenas de um homem:
“costeletas aparadas e
cheirando a creme de barbear
caminhava com o andar que agora é meu
trazia os olhos longe, um sorriso torto e
estradas entre os dentes...” (88)
morando entre adeus adiados, Reynaldo nunca se despedirá
da fragilidade pueril de seus tempos miúdos
porque carrega a delicadeza
no colo dos versos: “meus pés balançavam as estrelas,”
e entende a brutalidade da vida sublimada na poética
das sutilezas: “como pode alguém com fome/
ter medo de relâmpagos?” (18)
Bessa fabula exatamente relâmpagos neste livro.
há momentos de versos cintilantes que
permanecem latejando por dentro
dos entendimentos
ou resplandecendo onde não se entenderá nunca nada
pois, se o poeta diz: “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (107),
eu digo que seu livro está na minha cabeceira,
de olhos desabotoados
comendo minhas quietudes,
vasculhando o que há na minha bolsa
e não parará de fazer uns, certos, vários, todos
os mesmos ou outros barulhos.


referência:
BESSA, Reynaldo. Outros Barulhos. Belo Horizonte: Anome Lvros, 2008

 
BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). a face do fogo é seu livro de estreia, pelo selo [e] editorial (uma parceria da Annablume com a Demônio Negro). O segundo livro, : a palavra é, foi lançado  pelas editoras Atritoart e Kan, de Londrina. Traduziu o livro Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora e trabalha atualmente com uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem. Além deste blogue, http://lindagraal.blogspot.com/ divide com seu parceiro Marcelo Ariel a manutenção do Esquina Literária (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 4 em Londrina.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sobre o dia em que te vi dormindo

orei diante da sua panturrilha,
aquela com pulseirinha.
pensei: aqui construiria uma igreja e
todo final de tarde, sem falta
viria tocar os sinos e
antes de morrer, pediria:
aqui quero ser enterrado .
lembro do silêncio do quarto feito um vigia sonolento após uma farta refeição e de
sua panturrilha escapando sob o cobertor e a pulseirinha correndo logo atrás.
como um homem que pensa que o tempo da colheita depende da rapidez com que se planta, plantei milhões de beijos silenciosos, desesperados, famintos sobre ela, lá, esparramada sobre a cama como uma flor impossível
não preciso lembrar-me de mais nada
moraria sob essa lembrança
faria um exílio em cada poro dessa eternidade branca de doer,
dessa visão, dessa epifania, dessa sei lá o que, que só a mim pertence.
um dia verei esse fruto despencar do galho
sim, eu verei e vou mordê-lo
porque esse sentimento
deve ser mordido.
essa é a verdadeira essência da vida:
morder o que nos dilacera ou
nos deixar ser mordido por ele.
sua panturrilha e sua pulseirinha são os únicos utensílios
dessa casa vazia que construí pra morar comigo

você

me deu um belo pedaço da vida
me deu a lembrança de um dos sorrisos mais lindos que já vi
e quando as coisas apertam, eu tento tocar esse sorriso
está lá no fundo do bolso e vez em quando deslizo meus dedos sobre ele
é aquele que você deixa cair um pouco o queixo
e sua boca fica aberta por alguns segundos
depois você se mexe na cadeira
impaciente e feliz
porque eu disse algo que você concorda
ou disse uma coisa que você discorda,
mas de um jeito engraçado e convincente

domingo, 16 de janeiro de 2011

Like a serial killer

já sei como funciono
é uma historia que me acompanha há muito tempo
quando entro é pra valer
carrego isso comigo
sei como entrar
gosto de entrar
mas também gosto de sair
é um tipo de impermeabilidade
gosto dessa aura
dessa metade de romance
e aí, a fuga, antes que o brilho da festa se apague
é um defeito
talvez
nessa coisa de amor
necessito ser escravo
busco isso
quando não acontece
sou senhor
e um senhor bem cruel
porque aponto no outro a incompetência de
não ter conseguido me fazer corresponder
apenas quero que me arrebate
como o serial killer que no fundo mata só para ser preso
"Não adentramos o paraiso sem o crachá do inferno"
"Navegar é "preciso" viver não é preciso: será que Fernando Pessoa chegou a ver uma mulher passar o batom nos lábios ou prender os cabelos?"
"A angústia é silenciosa, mas faz um barulho danado"
"Há um momento em que você para porque voltar é impossível e
o futuro nada mais é do que uma bela casa vazia.
Porque tornar-se distante do que mais nos habita?"
"Quando eu estava sob a máquina Singer da minha mãe,
em alta velocidade, eu percorria as estradas e não tinha
nenhum medo das curvas perigosas da vida"
"O fogão da minha mãe. Ah! o fogão da minha mãe.
Acho que só ele a conheceu de verdade"
"Mas eu não sofro por você, essa mulher que agora me olha.
Eu sofro por uma outra mulher que está em algum lugar dentro de você"
_Preciso de ajuda.
_Diga como
_Eu preciso escrever um ivro
_Quanto menos ajuda dos outros, melhor.
_Estou muito arrasado
_É assim mesmo que se escreve
_Eu quero ter a certeza de que vou ser publicado
_Essa certeza você não pode ter.
_Adianta escrever se ninguém vai ler?
_Adianta, sempre.
(trechos do primeiro parágrafo de "O Caso Morel" - Rubem Fonseca)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mergulho

Você é o cheiro
da  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e
que vem desse
a
  b
     i
        i
           i
             i
                i
                   i
                      i 
                         s
                            m
                                o..................................

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lindeza

"Passei por ela e
me deliciei vendo-a
tropeçar em seu sorriso"

More sob a chuva

quando o enterrei
estava um sol de rachar,
que foi esfriando, esfriando
até chegar o momento em
que era quase ouro em pó.
cílios dourados varrendo a tarde.
começaram a fechar o túmulo:
era como se estivessem fechando os meus pulmões
quando pensei que ele não podia voltar comigo e
falar sobre esse sol pó de ouro e
sobre a chuva que caiu logo depois,

decidi que iria viver duplamente,
por mim e por ele
quando sinto o cheiro do vento,
sinto pelos dois

quando estou sob a chuva,
conto-lhe como foi o meu dia

Velhinhos em estantes

"As jovens e belas mulheres tocam e olham os velhinhos
como se estivessem limpando enfeites empoeirados de suas estantes"

Não, não

"Tudo pode ser perdoado, menos uma vida tacanha"

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Show com poemas musicados.

“John Lennon disse uma vez que Os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Reynaldo Bessa pode não ser tão popular quanto os dois, mas com certeza é mais conhecido que o 14° convidado presente à Santa Ceia. Seu show já foi visto por mais de um milhão de cegos, ouvido por mais de um milhão de surdos e aplaudido por mais de um milhão de pessoas sem braços, mas ele confessa que a lista dos que disseram que iam assisti-lo e não foram é ainda maior, portanto, essa é a sua grande oportunidade de prestigiá-lo.”

O músico e escritor, potiguar, Reynaldo Bessa, radicado em São Paulo há mais de 25 anos, apresentará o show “Poemas Musicados” onde cantará poemas de diversos autores (Bukowski, Alice Ruiz, Ademir Assunção, Leminski, Auta de Souza, Ricardo Corona, Fabrício Carpinejar, Wilmar Silva, Edson Cruz, Paulo César de Carvalho, Alphonsus de Guimaraens, Tanussi Cardoso, entre outros) musicados por ele, mas também promete cantar seus hits mais desconhecidos, como: Por amor (Parceria de Bessa e Zé Rodrix gravada pelo grupo Ira!) De dentro pra Flora (música vencedora de diversos festivais) Por onde a saudade sabe entrar, Lamento urbano, entre outros. Bessa subirá ao palco sozinho e será escudado por seus dois melhores companheiros: Um violão aço e um violão nylon. Além das canções, o artista também fará leitura de alguns poemas do seu primeiro livro de poemas “Outros Barulhos” (Prêmio Jabuti – poesia 2009 e um dos livros concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009) lançado em 2008. Bessa também contará com algumas participações.

Reynaldo Bessa: voz / violão aço & violão nylon
Duração: 80 minutos
Produção: Marilia de Lima

*Ligue para colocar com antecedência seu nome na lista e ganhe desconto e concorra a brindes:
9584-2388 (Vlado) ou 2386-4915
 
sábado - 22/01/2011 - 21h
 
Rua Clélia, 2023 [esquina com a Jeroaquara] - LAPA -
apoio: Cooperativa Cultural Brasileira

"Saudação à Alvorada"

"Concentre-se, portanto, no dia de hoje, pois ele é vida, a vida da própria vida. Em sua breve jornada repousam todas as verdades e realidades de sua existência: a bem-aventurança do aprendizado, a glória da ação, a alegria do conhecimento. Ontem não é mais que um sonho e amanhã não é mais que uma visão. Mas o hoje bem vivido torna todo ontem uma visão de felicidade e todo amanhã um sonho de esperança. Concentre-se, portanto, no dia de hoje"

Kaladasa, poeta indiano.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Reynaldo Bessa no Feito em Casa

Início: 13/12/2010
Fim: 13/12/2010
O poeta e músico potiguar Reynaldo Bessa, radicado em São Paulo, é o convidado do programa desta segunda-feira. Não perca!
Feito em Casa vai ao ar às 22h na Rádio Inconfidência FM 100,9 - Brasileiríssima. Reprise no sábado, às 11h.


http://www.inconfidencia.com.br/modules/extcal/event.php?event=480Ver


Rádio Inconfidência
Reynaldo Bessa no Feito em Casa
www.inconfidencia.com.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia Ligada na Tomada - Circuito Interações Estéticas da Funarte.

Eu, Ademir Assunção, Chacal, Marcelo Montenegro, Mário Bortoloto, Madan, Marcelo Watanabe e Caio Góes vamos nos apresentar no projeto Poesia Ligada na Tomada, dentro do Circuito Interações Estéticas da Funarte, no próximo sábado (27/11) em Belo Horizonte.

Sede da Funarte (Rua Januária, 68 – Floresta), às 20 horas. Galpão 6.

Mais informações aqui:
http://www.cultura.gov.br/culturaviva/o-circuito-interacoes-esteticas-chega-a-belo-horizonte/
 
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E no dia 30 - às 18h30 - Terças Poéticas (também em BH), no Palácio das Artes, junto com o grande poeta e meu brother, Ademir Assunção.

Curadoria: Wilmar Silva

mineiras, apareçam!

domingo, 21 de novembro de 2010

O Homem e o Mar - letra de Reynaldo Bessa - Prêmio Melhor Letra no 36° Festival Nacional MPB de Ilha Solteria 2010

O HOMEM E O MAR
(Letra: Reynaldo Bessa / Música: Eduardo Santhana)

Sob o azul e celeste manto
Finge dormir o guerreiro
Nos olhos traz todo encanto
Nas mãos um dardo ligeiro
Senhor da vida e da morte
Baú de tantos segredos
Enquanto assovia pra sorte
Traz o revés entre os dedos
Mar de guerras, lendas e mitos
De viajantes e corsários
Mar do bem, mar maldito
Dos amantes solitários
Mar de Verni, de Pessoa, mar de Caymmi, Camões
De cantos, versos e loas
Mar de tantos brasões
De derrotas, muitas conquistas,
Alegrias, dissabores,
Mar dos bravos, dos artistas,
De escravos e senhores
Ó meu doce mar salgado
Braços abertos ao léu
Quanto sangue derramado
És testemunha ou réu?
Ó grande espelho do mundo
É em ti que o Sol se penteia
A Noite mergulha fundo
Pra transformar-se em sereia
Quando te vejo
Os meus olhos
Içam todas as tuas velas
Sou quilha cortando ondas
Meus sonhos são caravelas
Ó grande espelho do mundo
É em ti que o Sol se penteia
A noite mergulha fundo
Pra transformar-se em sereia
Mar de arrecifes, abrolhos
Senhor da imensidão
Se não cabes nos meus olhos
Cabes no meu coração

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mulheres

"Gosto das mulheres que caminham como se me levassem junto. Nunca me apaixono pelo pássaro, mas sim pelo seu voo"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

..........

"Sua saliva é o meu prato predileto"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Escrever

"Nasci emaranhado em um cordão umbilical de palavras. O cortaram. Agora tento uni-lo novamente"

domingo, 24 de outubro de 2010

Consegue ver?

Existem pessoas que não entendem suas dores e as que quase as entendem.
Quando eu não fazia parte do segundo tipo, não ia lá muito com a cara dos frequentadores de bares.
Hoje eu os amo, sim, eu os amo e não me perguntem por que.
Só observe esse homem riscando seu isqueiro enquanto tenta acender o seu cigarro.
Consegue ver uma dor pendurada nesse ângulo de 90° graus?
E essa mulher gargalhando alto, consegue perceber seus sonhos de asas esmigalhadas?
Observe esses dois sulcos profundos sob os olhos do homem de aproximadamente sessenta anos, lá no canto. Consegue ler quantas lágrimas e quantas noites mal dormidas precisaram para cavar esses caminhos? E essa mulher de sorrisso líquido que cambaleante vai ao banheiro como se fosse desaparecer de vez do mundo. Consegue ver? Se sim, não me perguntará por que os amo.
Simplesmente os amará.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pai

pai
palavra doendo
no sapato
novo do
passado

Mormaço

gostaria que lembrasse o que meus olhos tentaram te dizer
que escutasse as orações que fiz em silencio, ao seu ouvido, quando dormia.
gostaria que guardasse o que pensei enquanto você estava fora
que lembrasse o que minhas mãos sussurraram quando se esconderam em seus cabelos
gostaria que lembrasse da trepidação dos meus lábios, quando enfim! você me deu aquele beijo que há muito ansiava
e que veio de supetão, quase roubado
nesse momento você sugou minha alma
ela está sob sua língua
encolhida e trêmula
se alimentando de sua saliva
sei que você está lendo tudo isso
bebendo cada sílaba
fuçando cada palavra
tocando cada frase
posso te ver mordiscando seu lábio inferior
posso te ver tropeçando nas letras e caindo nas entrelinhas no afã de encontrar um lugar em que possa ver minha imagem refletida
posso ver seus olhos ruminando cada frase
não sei de onde tiro tudo isso
vem mais ou menos como o vento batendo na janela
sem licenças e sem desculpas
sinto por você o que o amor ainda desconhece
quando penso em você lembro-me de Veneza
quando olhava IL Grand Canale
enquanto tomava meus sprits
acho que já pensava em você
pensava que do outro lado das minhas lembranças

ainda doendo, ia ter alguém assim.
como me ensinou, quando me canso, deixo essas coisas virem que nem um mormaço
me deixe morar em seu corpo,
em seu casaco. Isso é como deslizar entre as nuvens
escrevo rapidamente como se subisse uma escada em sua direção
não se escore em minha poesia, mas sim
em meu ombro e me olhe sem dizer nada
quero ver minha vida em seus olhos
essas frases saem cortando tudo
é como tentar tirar alguém maior do que eu dentro de mim
ela salta sobre as frases como no jogo da amarelinha
o que você vê nos espaços vazios do seu quarto?
o que você desenharia ou escreveria entre um móvel e outro?
olho ao meu redor, como se procurasse algo e respondo de pronto:
desenharia minha infância
o que você acha que eu desenharia? Ela pergunta
acho que desenharia um mundo pra habitar
desenharia uma porta daquela em cada espaço vazio do seu quarto
é o que eu acho.
ela diz que desenharia talvez o cheiro
que sente dos lugares, músicas saindo dos travesseiros, mas que
trocaria as cores das coisas
genial!
por isso quero beber todas as suas lágrimas
arquivarei todos os seus sorrisos
sua ausência é um corte profundo
provocado pelos movimentos das lâminas afiadas
dos ponteiros do relógio.

domingo, 17 de outubro de 2010

Terças Poéticas - Poeta homenageado - Roberto Piva

Palácio das Artes

Ademir Assunção
& Reynaldo Bessa
 
30 de Novembro - Belo Horizonte - MG

18h30

Circuito de Interações Poéticas / FUNARTE

Poesia Ligada na Tomada

Sinopse: Poesia eletrificada em leituras/performances

Marcelino Freire,
Chacal,
Marcelo Montenegro
Reynaldo Bessa
Ademir Assunção

10 de novembro (20h30): Recife
27 de novembro (20h30): Belo Horizonte

20h30

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Oh! esses acordes menores...

Ouvimos Simon and Garfunkel até o começo da madrugada. Meu irmão olhava pra radiolinha como se esperasse que a dupla saísse dali a qualquer momento. Eu o olhava de soslaio. No dia seguinte ele embarcaria pra São Paulo. Ele e um amigo. Nesse tempo meus pais diziam que todos os empregos estavam nessa cidade sonhada e distante. Minha mãe entrava e saía de casa constantemente. Eu sabia que ela precisava se mexer para não desabar. Era a primeira incursão do meu irmão mais velho numa aventura longe de casa. Para mim, ir à São Paulo era o mesmo que ir à África. Tudo além das fronteiras da minha infância. O mundo parece mesmo encolher enquanto crescemos. Uma ex-namorada teimava em me dizer que o bolo que minha mãe fazia não devia ter o tamanho de uma geladeira como eu costumava afirmar. Dizia que eu é que era pequeno demais em relação as coisas. Eu continuo teimando com ela, mas confesso que já estou quase convencido disso. O que me sobrará depois?

Peguei no sono. Quando acordei ainda estava escuro e a casa mergulhada em total silêncio. Levantei-me e fiquei parado diante do meu irmão. Dormia. O mirei durante um bom tempo. Meus olhos pareciam lhe dizer; “não acorde, não acorde. Você prometeu nunca me deixar, lembra?” Acho que meus olhos fizeram tanto barulho, que ele, sem abrir os seus, disse: “vai dormir pirralho” Depois me deu as costas. Deitei-me silenciosamente com receio de despertar as horas.

No dia seguinte havia muito movimento em casa. Todos pareciam ter muito o que fazer. Meu pai tinha agora um bom motivo para vestir o seu linho branco impecavelmente passado pela mãe. Ia levar meu irmão ao aeroporto. Isso era sempre um grande programa. Meu irmão desengonçadamente abraçou primeiro os amigos, os curiosos, depois minhas irmãs e quando foi abraçar minha mãe, esta, por fim desabou em seus braços. Parecia abraçar um filho que acabara de morrer. Seu desespero, suas lágrimas eram uma forma de dizer que não estava nem um pouco de acordo com tudo isso. Ela só o largou porque meu pai, já impaciente, disse: “você vai matá-lo sufocado. Largue-o. Ele só está viajando. Ele é um homem” Com exceção do meu pai, todos agora choravam. Eu me perguntava por que meu pai nunca chorava. Nunca. Com nada. Parecia sempre imune a tudo. Ou era isso ou disfarçava muito bem. Mas já estávamos acostumados.

Quando meu irmão veio me abraçar eu já não o enxergava. Enquanto mais eu tentava enxugar meus olhos, mais eles transbordavam. Era como tentar sufocar uma fonte. Senti sua barba em meu pescoço. Ainda hoje, sempre que vou me despedir de alguém, sinto uma barba em meu pescoço. Chorei até vê-lo desaparecer de vez da nossa frente.

A casa esvaziou-se de música e encheu-se de silêncio. Ninguém tinha a coragem de ligar a radiola. Não queríamos cavar o que já estava demasiado fundo. Minha família parecia não funcionar direito com um a menos. Tentamos almoçar juntos como de costume, mas, com exceção do meu pai que não abria mão do seu espaço sagrado à mesa, nos dias seguintes, cada um de nós passou a comer num espaço diferente da casa. Não queríamos enfrentar aquela cadeira vazia.

Só depois de um mês consegui entrar em seu quarto e me senti como se entrasse numa igreja. A radiola vermelinha era seu altar, seus discos eram seus santos. Mexer ali era como violar um templo sagrado. Eu sabia disso, mas minha saudade era uma profana. Peguei em seus discos como se folheasse um pergaminho. Meu coração martelava.  Parecia querer arrombar alguma porta lá dentro. Eu queria apenas um disco: Simon & Garfunkel e eu tinha predileção por uma música: Homeward Bound. Com dedos trêmulos deslizei minha mão pela contracapa do disco. Ao deitar a agulha da radiolinha sobre o vinil, sentei-me como se fosse orar. Senti mesmo vontade de ajoelhar-me. Nos primeiros acordes percebi que não conseguiria terminar aquela oração. Mas me segurei. Enquanto ouvia a música, só conseguia pensar que aquele homem vagando por estradas distantes, cidades desconhecidas, cantando tristes canções e com o sonho de voltar pra casa pulsando em seu coração solitário, do qual falava a letra, era o meu írmão.

No destino de casa
Casa para onde meus pensamentos fogem
Casa onde minha música toca
Casa onde meu amor se deita esperando

Não deu mais. Uma revoada de lembranças veio com tudo. Não conseguia mais parar todos aqueles acordes menores escorrendo pelo meu rosto. As vozes de Simon and Garfunkel pareciam o choro silencioso do meu irmão sob alguma marquise de alguma cidade indiferente ao seu sonho de voltar pra casa. Ainda chorando e como se procurasse um lugar ainda mais escuro para esconder o meu choro de mim mesmo, corri para o quintal, mas ao divisar um vulto entre as árvores, estaquei.  Podia ouvir os acordes iniciais de América vindo lá do quarto do meu írmão. Limpando as lágrimas dos olhos para evitar tropeçar em algo, silenciosamente me aproximei o máximo que pude. Agora, de onde eu estava, podia ouvir tudo muito nitidamente. Por fim, entre as bananeiras, pude divisar um homem, pra lá e pra cá, chorando desesperadamente. Era o meu pai.

Ao som de: Homeward Bound (Simon & Garfunkel - Live in concert in the Central Park)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

sabe o que eu ia dizer? deixa pra lá...

no Graal
sob a chuva
uma frase afiada
atravessa o pescoço do que
eu ia dizer
numa hemorragia interna
sem futuro
meu sonho
vai morrendo

ao som de: no surprise (radiohead)

Sobre vagalumes, estradas e mais e mais...

guardo as emoções feito vagalumes
dentro de um vidrinho que carrego há anos
só os melhores
e nenhum deles morre
não posso tocá-los com as mãos
só com a memoria
esse vidrinho está em meu bolso
e quando a coisa aperta
eu o tiro
eu o olho
lágrimas e sorrisos espalham-se pelo ar
enchem e esvaziam minha vida
dor e delicia se misturam
e chego a sentir o gosto de algumas lembranças feito bolachas no leite
agora espero minha vó gritar lá de dentro que o jantar está na mesa
ainda ouço sua velha cadeira de balanço
e o arrastar de seus chinelos
e posso me ouvir pensando..."lá vem ela me chamar"
e ela com uma voz carregada de anos e sonhos mofados, faz uma força e diz "bessa, o jantar está na mesa, vem logo menino, se não esfria”
e só pra fazer com que ela grite de novo, pois nao existe som mais bonito, faço de conta que não ouvi e quando ela se demora...por fim...grito...”o que foi vó, hein?”
da metade do caminho, ela volta, cansada.
posso ouvi-la puxando novamente o ar dos fracos pulmões
“menino surdo,,,,o jantar tá na mesa”
ai eu rio enchendo minha alma de prazer
e corro pra ela e estalo um beijo em sua face flácida cheirando a pó comprado por R$ 1,99
e depois corro pra mesa
ela ri cansada
tenta colocar o que resta de alegria pra fora
seus olhos me dizem tanto
tanto que eu não aguento
e sonho inventar um aparelho que cristalize o tempo nesse exato momento
mas não é possivel
tenho que esquecer isso por alguns momentos para poder saborear a comida da minha mãe.
minha mãe está ficando parecida com minha vó e eu ficando parecido com meu pai e eu não sei mas quem é quem.
termino o jantar e ainda mastigando, corro pra rua.
preciso espanar as impossibilidades.
ainda minha vó: à noite posso ouvi-la se aconchegando em sua cama que também cheira a pó
são movimentos tão simples, silenciosos
ela sussura como um cachorrinho
dorme como um calmo rio
e eu me pergunto
e amanha?
e amanhã?
ouvirei seu cálido grito crescendo dentro da área e
chamando meu nome?
"menino, tá ficando surdo? o jantar tá na mesa"
e arrastando seus surrados chinelos pela sala?
as vezes tem que se segurar numa porta, nas paredes
e eu penso “ela matava galinhas com a força de dois homens”
e eu ainda estou tentando inventar essa merda de aparelho que cristalize o tempo
eu ainda estou tentando
e vou morrer tentando
pois toda a minha vida está dentro dos olhos da minha vó
tenho receio que esse vidro se quebre
está tudo lá dentro
tudo, tudo
e eu preciso dele
preciso mesmo
sou ele há muito tempo
quando desperto todos os dias é a primeira coisa que procuro
esse vidro
e todos os vagalumes estão lá
todos os dias eu os conto
todos os dias
todos os dias
todos os dias
todos

*qdo vc morrer vai morrer cristalizando

é, morrer cristalizando
é por ai
penso em vc e vejo uma longa estrada
e está anoitecendo
as casas ao longe começam a acender suas luzes
é um mergulho no escuro
nem sempre é facil voltar a superficie
não há nada na superficie
e quero sempre mergulhar mais fundo
quero procurar esses olhos lá no fundo, no fundo do que sou
no mais profundo dessa confusão brotada sem minha autorização
sem minha permissão
sem meu consentimento
sem meu aval, minha assinatura
mas preciso parar
pois vc entende tudo
até o que não quis dizer
até o que eu nem pensei em escrever

*the space between em sua homenagem agora!!!!!!!!!!!
*tô morrendo ouvindo esse som
*me vejo bem agasalhada, viajando por estradas de santa catarina cheias de fazendas com plaquinhas da perdigão

me vejo sozinho, a noite, em algum café de alguma estrada
depois me vejo saindo e deixando o ar frio entrar em meus pulmões
há alguém que lembro
mas sigo caminho contrário ao desse alguém
mas tá tudo certo...tudo foi resolvido
quase tudo
acho.
é tempo de delicadezas
de novas descobertas
de recomeços
estarei com quarenta e cinco
quando retomo a estrada já estou sorrindo
é o sorriso da sabedoria
a custa de muito esforço
olhos, sorrisos, flashs passam num segundo
agora o café e a xicara, com minhas digitais vao ficando cada vez mais longe
as cortinas dos sonhos sempre baixam quando uma música acaba
baixam não, despencam
assustada comigo?

*familiarizada
*vc falando de como é a sabedoria de conseguir deixar as coisas para trás

bela frase
dificil tarefa
gostaria de saber, e obviamente nunca vou saber, como vc realmente me ver e me pensa
talvez me veja como um grande oceano e tenha uma vontade enorme de mergulhar fundo na tentativa de descobrir os mistérios
talvez eu seja mesmo esse grande oceano,
mas meus mistérios mudam constantemente
de tempo e lugar

*parece que tem um balao dentro de vc
*vc pega fôlego e o enche
*e ele vai esvaziando ate a próxima parada
*e pelo jeito q vc fala , olhar para trás basta pra o encher novamente

vc escreve coisas que eu fico estupefato

*tô dando risada do ESTUPEFATO!

eu sei
imaginei
as palavras te põem pra dançar
escrevi de propósito
seu corpo é a única realidade que me interessa
será mesmo uma realidade?
se for, é uma terra maravilhosa
seu corpo é uma ilha
há acordes sob sua pele
vamos dormir?
boa noite
bjs
estupefato
estupetato
e o aparelho que penso em inventar, hein?
estou tentando...
tentando...
ainda...
sim, morrerei cristalizando

*P...
ao som de: the space between (dave matthews band)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eu vinha de algum lugar...

ouço o seu nome
num melancólico solo de sax
dentro de uma noite quente
leio seus olhos nas entrelinhas
de um romance de Philip Roth.
não me ouço
não me leio mais


ao som de: La trama y el desenlace (Jorge Drexler)

ah! essas guerras internas.

Minha religiosidade está abandonada
como uma árvore sozinha
numa estrada escura.

Já posso me despedir de mim

Suas mãos eram pequenas, brancas, macias.
Silenciosas como nuvens.

Adeus! Henderson. Gru-tan-molani!!!!

Terminei Henderson, o rei da chuva (Samuel Bellow) na estrada. Este foi o livro em que mais me demorei. Não queria terminá-lo. Sabia que se o terminasse, me sentiria como um órfão. Mas percebi que até mesmo os órfãos precisam aceitar que existem outras dores no mundo. Quando terminei a última linha, meu corpo ainda vibrava como as cordas de um piano que acabara de receber a última estocada de um acorde menor.

No tempo quando o tempo for

não anseio o verão
quando estou sob a chuva e
muito menos clamo pela primavera
quando as folhas já não mais
me acenam.
quero estar no tempo quando o tempo for.
não somente diante das coisas
quando estas me piscarem os olhos,
mas sim, dentro destes.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Isso é o que importa.

5h da manhã,
como um índio,
pelo quarto,
danço sobre cabeças
do terceiro sono,
o Menino-Sol faz
seus primeiros rabiscos
sono?
não.
dormirei
outros
dias.
outros tantos
dias.

domingo, 19 de setembro de 2010

Céus de Londres

Ao som de: London Skies- Jamie Cullum

há poucas primaveras em suas mãos.
à sua volta elas caem como folhas
muitas ainda por vir
você caminha inquieta sob os Céus de Londres
seu presente tamborila sem parar
longe, meu futuro debruçado sobre o
balcão de um pub qualquer, pensa em você
enquanto procura pisar firme pra nao escorregar
dessa corda bamba

Estilhaços de 15h.

*Ao som de "Miracle" - Foo Fighters

eu quero vc pra mim
e quando digo isso, eu quero tudo que é seu
o vestido de ontem
alguns fios de cabelo no pente
a marca do seu cigarro
sua preguiça e sua disposição
quero sua tpm
quero o jornal que vc lê e
quero vc rindo muito com suas amigas
quero vc na cama
ou sonhando com uma viagem
quero o seu pedido de um tempo
pra ficar mais comigo
quero suas digitais deixadas na porta de um taxi que vc tomou antes de me conhecer
vc perguntou, eu só estou respondendo, é verdade
quero que vc troque de roupa na minha frente, mas nunca se esqueça de que está nua
sim, quero toda a intimidade que vc possui quando tira o seu vestido
quero isso
quero essa cumplicidade
eu amo a intimidade
é um código secreto
a chave é o olhar
olhou errado e a porta não se abre
o ser humano é fantástico né? num importa quem o inventou, mas veja: quando eu digo "venha" a minha mente sabe que é impossível, mas por um pequeno tempo ela não aceita e ai o corpo vibra, mas logo depois se chateia quando percebe a impossibilidade
tudo funciona num ínfimo tempo
num átimo, como dizem os eruditos
num milésimo de segundo acredito que vc vai balançar as chaves na minha porta
num milésimo de segundo acredito que vou ouvir seus saltos estalando no corredor
e depois seu perfume vai entrar com tudo,
num milésimo de segundo
seria lindo.
vc poderia me ouvir pensando seu nome
conversar com vc é como fazer amor
é o antes o durante e o depois.
Ora! é muito mais 
que isso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maria Rita Kehl: Cultura pra quê?

Neste artigo assinado pela intelectual e ensaísta Maria Rita Kehl, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo de 21/8, ela critica as medidas de "contingenciamento" da TV Cultura. Principal TV pública do país, após anos de resistência, vem sofrendo sistematicamente a política de "corte de gastos" proposto pelo governo tucano em São Paulo.


Um dia a massa há de provar o
biscoito fino que fabrico.
(Oswald de Andrade)


Que pena. Cada vez que me decido a escrever uma crônica mais leve nesta coluna (não ouso dizer literária. Bem, já disse), o sentimento do mundo me pega não como a doce melancolia do poeta, mas como um paralelepípedo na testa. Não sou capaz de recusar o debate público. Deve ser um sintoma grave, desses que não têm cura depois de certa idade.

Desta vez, a acalorada discussão em torno do projeto de desmanche da TV Cultura me pegou pela cabeça e pelo coração. O economista João Sayad é um homem público respeitável. Conseguiu botar em ordem as finanças da Prefeitura de São Paulo depois da calamitosa gestão Celso Pitta. O ministro Fernando Haddad contou que foi em conversa com ele que surgiu o projeto dos CEUs, oásis de cultura e sociabilidade a quebrar a aridez da vida nos bairros mais pobres da cidade. João Sayad não precisa de prestígio. Já tem.

Por isso não entendo o que o levou a assumir a presidência de um empreendimento que ele não conhece, não parece interessado em conhecer e, acima de tudo, evidentemente não gosta. Até o momento não li nem ouvi falar de nenhuma proposta criativa de Sayad para a TV Cultura. Nenhum novo projeto de programa, de modificação na grade, nenhum novo conceito sobre o papel da única tevê pública de canal aberto do Estado mais rico do Brasil. Tudo o que se sabe é que o economista veio para cortar gastos. Demitir ¾ dos funcionários! Impossível imaginar que a Fundação abrigasse 1.400 empregados inúteis. Tal enxugamento da folha de pagamentos visa a exterminar o quê? A própria programação.

Tudo leva a crer que Sayad não tinha ideia do que a TV Cultura já fez e ainda faz; em reunião interna demonstrou desconhecer até mesmo um diretor da importância do Fernando Faro, embora não haja sinais de que vá interromper o melhor programa musical do País, que além do mais se tornou um arquivo vivo da memória da música brasileira. Fora isso, terá vindo apenas para encolher os gastos da emissora, com a fúria de um exterminador do futuro? Não haverá argumento que o convença da importância de usar dinheiro público para a experimentação, a invenção e a aposta em programas de qualidade, diferenciados da mesmice das emissoras comerciais? As primeiras notícias falam em venda dos estúdios e dos equipamentos, demissões em massa e redução da TV Cultura a um pequeno e mesquinho balcão de compra de enlatados. Faz tempo que uma decisão política não me causava tristeza tão grande.

Sendo a economia de verba sua única proposta, gostaria de saber qual o destino de todo o dinheiro que ele haverá, sem dúvida, de poupar com o encolhimento da Cultura. Que se revejam as contas da emissora para eliminar possíveis desperdícios e inoperâncias, vá lá. Mas por que um Estado rico como o nosso precisa ser tão mesquinho nos gastos com sua TV pública? Uma Secretaria (infelizmente entregue a outro homem que não gosta disso) que pode manter a Osesp para usufruto da elite paulista, que pode construir um luxuoso Teatro da Dança, outro da Ópera, para a mesma elite - não pode manter uma TV experimental para um público, não necessariamente elitista, mas pequeno? O argumento é que ela é irrelevante em termos de Ibope. Então, tá. Quantos milhões de telespectadores são necessários na planilha do atual gestor para justificar a existência de uma emissora que funciona como laboratório de programas ligados à cultura brasileira e internacional, e que conta com um público muitas vezes mais numeroso do que o que cabe na Sala São Paulo? Não escrevo isto para criticar a Osesp. Que floresçam mil Osesps pelo Estado, pelo País. Uma só Osesp é mais progressista do que todas as pontes e viadutos que um governo possa construir. Faço a comparação para mostrar o absurdo de se desmontar, com argumentos de planilha, uma televisão pública que utiliza sua verba para oferecer biscoito fino à massa.

Escolho, para terminar, o triste exemplo de um programa que já foi extinto pela atual direção: Manos e Minas. Um corajoso programa de auditório dedicado ao hip hop, levado ao ar ao vivo nos sábados à tarde sob o comando de Rap in Hood, que estreou em CD lá por 2000, cantando: "eu tenho o microfone/ é tudo no meu nome". Ter acesso ao microfone e falar em nome próprio: na plateia, meninos e meninas de pele escura, "bombeta e moleton", não se distinguem dos mesmos meninos e meninas que sobem para dar seu recado no palco. Enfim, alguém teve a ousadia de dar visibilidade à atividade musical dos jovens da periferia de São Paulo, acostumados a só existir na mídia quando algum dentre eles comete um crime.
Manos e Minas não precisa de argumentos de segurança pública para se justificar. Dar espaço ao rap na televisão é importante por si só. Mas a decisão de acabar com o programa nos faz refletir sobre o modo como a elite paulista concebe a inclusão simbólica da periferia na produção cultural da cidade: não concebe. Daí que a pobreza, aqui, seja um problema exclusivo de segurança pública. A extinção de Manos e Minas lembra, não pelo conteúdo, mas pelo princípio operante, as desastradas políticas de "limpeza" da cracolândia. Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia?
ainda fiquei no corredor,
pois achei que você fosse sair uma hora
fiquei lá algum tempo
fiz mais um cigarro
e esperei
era dificil saber o que se passava pela sua cabeça
nem pela minha eu sabia

sábado, 4 de setembro de 2010

Me curvei diante do seu corpo
como um índio sob a Lua cheia.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um tempo desvairado

O relógio do meu peito
parou às três da manhã
há um escuro de unhas afiadas e
barbas longas

um céu negro entre os pelos
não, não há estrelas
o que seus olhos veem
é minha alma pálida escapando
pelos furos dos punhais
de um tempo desvairado.

sábado, 24 de julho de 2010

Are you lonesome tonight?

Ela apareceu de repente. Foi como se tivesse esgueirado-se pelas fendas do irreal e se postado bem ali na minha frente, dentro do real, onde tudo ainda doía: as paredes, os quadros, as ruas, as árvores, as folhas, os semáforos, o chão, os carros, as pessoas, as luzes, a tarde, tudo. Tudo isso ainda doendo sob as pálpebras do tempo. Quando ela me olhou de frente, mais ou menos como uma execução sumária, perdi completamente a noção do que acontecia à minha volta. Ela já tinha o controle de tudo, não sabia, mas tinha. A primeira coisa que me tirou o fôlego e a capacidade de tentar escapar dessa armadilha foi a sagacidade verde que emanava do seu olhar. Ah! Os seus olhos: duas lâminas verdes e afiadas. Eu os olhava e me dava uma tremenda vontade de mergulhar fundo. E eu mergulhei. Não devia, mas mergulhei. O que eu poderia ter feito? Digam-me. Até porque também havia sua boca cheia de beijos arquivados e histórias sob a língua. Histórias, que no breve curso dessa explosão, eu as ouviria com olhos famintos e coração trepidando.

Convidei-a para um café com receio que ela fizesse como a menina, que vez ou outra invadia meus sonhos: toda vez que eu tentava tocá-la ou mesmo me aproximar, escapava e a única coisa que me deixava era a incerteza de voltar um dia. Para meu espanto, ela aceitou, e exultante, esqueci, por um momento, a menina dos meus sonhos e as coisas doendo lá dentro.

Entre um gole e outro de café, enquanto a xícara tocava seus lábios imponentes como uma catedral, eu me perguntava se deveria ficar ali ou sair o quanto antes, pois o medo; esse bebê chorão bem no meio do meu peito não me deixava em paz. Ele e sempre ele.

Começou a chover. Saímos sob um guarda-chuva estropiado pelos ventos alucinados de um Fevereiro úmido. O que aconteceu depois? Ora, o que um homem e uma mulher podem fazer quando acham que não existe nada, nada mais além dos dois?

Um dia saí de sua casa e caminhei quilômetros a fio. Não conseguia parar. Não tinha medo de nada. Sentia-me como que caminhando numa outra camada da noite. Como se as pessoas pudessem me ver, mas não me tocar, entendem? Então eu caminhava, caminhava e nada teria me parado. Depois de muitas horas, cheguei em casa e continuei caminhando por ela e continuaria assim, se por um átimo, não tivesse pensado que o êxtase também pode carregar o poder de aniquilar.

Lembro-me de nossas voltas melancólicas, quando ela, cheia de energia, resolvia me acompanhar até minha casa. Deslizávamos pela madrugada tão silenciosa que até podíamos ouvir o estalar dos semáforos como ossos se partindo. Nos postes, sob os bocais, escorriam lágrimas douradas. Eu olhava as ruas. O que elas tinham que mexiam tanto comigo? Porque toda essa nostalgia quando eu estava diante delas? Os néons continuavam tentando me dizer alguma coisa. O Elvis vibrava no discplayer, mas era como se estivesse ali, entre nós, no banco de trás e eu pudesse, a qualquer momento lhe perguntar alguma coisa. Eram canções que eu tinha ouvido muito na adolescência, mas que só agora entendia perfeitamente o que realmente diziam:...Você olha para a porta e me imagina ali? Seu coração está cheio de dor? será que eu voltarei? Diga-me querida, você está solitária hoje? Ou:...querida você mentiu quando disse que me amava... mas eu prefiro continuar ouvindo suas mentiras a viver sem você...Ou: ...agora o palco está inutilizado e eu estou aqui parado com o vazio à minha volta e se você não irá voltar pra mim, então faça com que baixem as cortinas...

Nos olhávamos e ponto: tudo estava dito. Tudo já havia sido feito. Vez ou outra ela assumia um jeito muito peculiar de dirigir o carro: apenas um dedo de cada mão, agora não lembro se era o indicador ou o médio, tocava a direção. Era como se ela quisesse, por algum tempo, colocar todo o restante pra descansar, mas sei muito bem que não era isso. De esguelha eu olhava seus lindos dedos sobre o volante e pensava “Esse é um daqueles detalhes que não vou esquecer muito facilmente” O Elvis continuava destilando todas as suas dores e as ruas pareciam entender muito bem disso. Eu podia ouvir seus lamentos sob os pneus.

Não é só a infelicidade que nos impede muitas vezes de seguir em frente, a felicidade, por incrível que pareça, pode também conseguir isso. Sem falar nos conflitos entre você e o outro dentro de voce mesmo, entende? Eu sei, nem eu, mas a coisa é assim e lembram-se do bebê chorão que falei no começo? É, aquele que não me deixa em paz? Pois é, quando eu tentava, enfim! Esquecer-me em seus braços macios e sob seus cabelos cheirosos - isso sempre me fazia lembrar de um lugar onde um dia realmente  me senti seguro e que sei muito bem, saí contra a minha vontade - esse bebê barulhento sempre dava umas de me despertar. Trazia notícias de longe e me fazia perguntas que até hoje não sei se existem respostas.

Alguém disse um dia que o mundo todo foi dividido pelo medo. Sim, o medo dividiu nosso planeta em hemisférios, continentes, países, cidades, bairros, ruas e sei lá mais o que. Temos medos. Eu com os meus e os outros com os deles e pra que isso dispare num precisa de muita coisa não, quero dizer, num precisa de nada, pois de qualquer jeito ele virá à tona, mesmo que não queiramos. Afinal a confusão precisa continuar. Então, numa bela madrugada – chamo-a de “bela” para tentar atenuar o quão trágica foi - em que todos os meus demônios resolveram correr para o playground, parti com meus pés explodindo tudo. Parti com tanta força que meus passos de ferro derrubaram todas as pontes e caminhos que havíamos construído. Até a convicção pode ser uma charlatona. Em que mais podemos acreditar? Quando alguém me enche o saco sobre a provável existência de Deus, costumo argumentar que até acredito, mas não confio nada Nele. Mas voltemos a convicção, pois é. Saí puxado pelas mãos dessa senhora como os ratos ludibriados pelo som do flautista. E até onde eu poderia chegar?

Numa dessas madrugadas frias e sem rosto em que a lua é extraviada e todos os cães são silenciados. Quando você tem que retirar a armadura porque o corpo não aguenta mais arrastá-la. Quando você tem que depor todas as armas porque não há mais forças para empunhá-las. Quando a dor que se traz sob a pele não é resolvida em farmácias, hospitais, igrejas, bares, lojas de conveniências, postos de gasolina e sei lá mais aonde, eu ia lhe dedicar uma oração enquanto minha alma desertaria  meu corpo e vagaria por desertos longínquos. Numa dessas madrugadas estropiadas eu entregaria os pontos e diria; tudo bem, eu perdi... eu aceito..eu perdi..aqui estou. Não há o que dizer, o que esconder... estou nu e moído até o osso...não preciso fingir pra mim mesmo, pois essa é a pior mentira...não preciso arrancar o rosto para sobrepor um outro...Sim, numa dessas madrugadas em que um segundo pode lhe custar a vida, eu ia tentar reconstruir todas as pontes, todos os caminhos de volta, mas carregando em mim uma dor que ainda achava que podia ser mais do que isso, eu ia enfim! perceber que não era mais possível. Não, não era. Ficaram as canções do Elvis. Escrevi esse conto ouvindo: Are you lonesome tonight? (no repeat)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Eu estou com saudade de você

"Maravilhas no país de Alice"

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ainda algumas lembranças III

Passei meus dois últimos dias em Londres conversando com meu amigo mexicano Juan em um pub que ficava a somente cinco metros do hostel em que eu estava hospedado. Juan era o barman. Falávamos ora em inglês, ora em espanhol. Ele era de DF. Enquanto lavava as tulipas me perguntou: so, did you call her? olhei por cima da minha Guiness e lhe respondi: não, not yet. Antes preciso de mais umas três dessa. Ele soltou um vale! e continuou seu trabalho. Eu estava super excitado, pois acabara de voltar da Irlanda. Caminhara as dezenove ruas de Dublin, embriagado e repetindo sem parar “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”. Minha cabeça flutuando num mar de Guiness. Numa esquina escura uma beldade havia levantado a saia e me mostrado suas colunas do Parthenon: sorri e lhe disse: sorry! I am very tired and drunken as well. Ela se contraiu e depois soltou o sonoro soluço típico dos bêbados. Segui o meu caminho repetindo sem parar: “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”.
Juan me olhou de novo e disse: vou te servir mais uma, depois você vai ligar pra ela. Na volta te sirvo muitas outras, ok? Tudo bem. Falei. Matei a guiness quase num só gole e sob o frio de Londres – Nessa hora lembrei que Balzac havia dito que esse frio não conseguia apagar uma vela, mas que era capaz de matar um homem. - Segui em direção as quase já extintas tradicionais cabines de telefone. As vermelinhas. Entrei. Disquei e depois de alguns segundos ouvi sua voz. Eu falava sem parar. Não deixava ela falar. O que eu estava fazendo? Continuei falando. Ei! Acabei de voltar de Dublin, Deixei James Joyce bem triste com minha partida. Estou em Londres de novo e daqui a dois dias estarei em Paris e mais uma semana chego por ai, então...olha...Eu continuava falando. Ela me interrompeu. Meu amor...ei...ei...meu amor...tô muito feliz que você esteja finalmente voltando. Sinto saudades. Muitas saudades. Parei de falar. Fiquei ouvindo-a. O Telefone tremia em minhas mãos. O que viria após isso? Sim viria alguma coisa mais. Então veio. Ela finalmente disse o que eu não queria ouvir. Eu já sabia, mas não queria ouvir. Só isso. Depois de quase duas horas de conversa, após ela ter desligado, por meia hora fiquei segurando o telefone. Era ainda o que me ligava a ela. Por fim desliguei. I know, I know, there aren’t miracles. Pensei. Londres não estava mais só embaçada pela névoa. Me dirigi ao pub pensando que agora eu só tinha Juan, o meu amigo mexicano. Quando ele me viu colado ao balcão e com os olhos presos em lugar nenhum, me trouxe uma imensa tulipa derramando Guiness por todos os lados e por fim disse: essa é por minha conta.

domingo, 18 de julho de 2010

Quem é esse?

Um desconhecido, ao longe,
caminha como um velho conhecido.
O tempo, sem minha permissão,
me leva para um lugar que já conheço.
Quem é esse, em mim,
que me desobedece?
Que me segura pelas costas me
impedindo de caminhar?
Quem é esse?
Quem é esse que pulula meus cílios de paisagens encardidas?
Que vive me trazendo notícias de um tempo sem sombra,
tardes sem trancas e portas desamparadas?
Quem é esse?
Quem é esse que destruiu todas as estradas e
pontes que me traziam você?
Quem é esse?
Ele fala de pegadas há muito soterradas por 
outras tantas pegadas.
Fala de sonhos descabelados e
manhãs hipotecadas.
Quem é esse que vive tomando decisões por mim,
mas que não tem a mínima coragem de me olhar nos olhos?
Quem é esse?
Quem é esse?
Gostaria muito de olhar pra mim sem
os gritos aflitos dos espelhos.