Espertos

sábado, 9 de abril de 2011

outdoor

Sua boca
me roubava a atenção
como um outdoor
no deserto

Onde?

eu ainda te procuro sob todas as unhas,
sob todos os vestidos, sob todas as noites,
sob todos os cílios, sobre todas as ruas,
sob todas as ruinas, sobre todas as pontes,
sobre todas as páginas, sob todas as mentiras,
sob todas as luzes, sob minhas pálpebras
entre todas as fendas, sobre tudo que há
sob, sobre, entre, fora e dentro de mim.

domingo, 3 de abril de 2011

*La vida en su mejor momento es apenas soportable

Era una vez tres cerditos: Heitor, Prático y Cícero. Su mamá había echado de casa los tres porque no aguantaba más tanta pelea. Entonces ellos fueron a vivir en la floresta. Cada uno tenía que construir una casa para vivir. Cícero era muy perezoso y construyó una casa muy débil e muy fea también. Llevó sólo una semana para terminarla. Heitor tenía un poco más de ganas y así, levantó una casa de madera, pero muy fea igual a la de Cícero. Ya Prático pensó mucho y decidió construir una casa de sus sueños. Una bonita mansión. Pasó mucho tiempo construyéndola

Todo estaba yendo muy bien, pero después de algún tiempo, se quedaron todos aburridos, porque no había nada para hacer en la selva. Todos los días pasaban muy tranquilos. Con las lluvias y con los vientos fuertes de las tempestades, las casas de Cícero y Heitor empezaron a caer. Prático, a pesar de aburrido con el sitio iba viviendo.

Hasta que un día apareció un lobo en la floresta que quería comprar una casa para vivir, porque él oyó que por aquellos lados del bosque vivía una caperucita roja por quien estaba muy enamorado. El lobo tenía mucha plata y quería una casa re linda. Cuando vio las tres casas no pensó dos veces y luego compró la casa de Prático. Cícero e Heitor se quedaron muy tristes, pero no había mucho lo que hacer.

Con toda la plata, Prático fue a vivir en el sur de Francia. Toda semana recibía cartas de sus hermanos. Estaban más aburridos y además peleaban todos los días con el lobo. Después de un año paró de llegar las cartas. Prático se quedó un poco preocupado, pero seguió viviendo su tranquila vida. Después de más un año llegó una carta. Era de su mamá y decía:

Mi querido hijo, ¿cómo estás?
Tengo una noticia buena y otra mala.
Cuál prefieres primero?
Dale! Cómo no estás aquí para contestarme,
yo voy a decirte primero la buena.
Finalmente, el lobo se casó con la caperucita roja.
Fue una gran y muy bonita fiesta.
Muchas personas y animales fueron invitados. Mucha música y mucha danza por toda la noche. Yo fui invitada también, claro! y solo salí de allá cuando el cielo estaba clareando
Sí, ahora la noticia mala:
En la fiesta, el plato principal fue:
“cerditos a la manzana”
¿Cuándo apareces por aquí?


Añoranzas,
tu mamá


*Frase colhida do romance - Ninfa Inconstante - Guillermo Cabrera Infante

terça-feira, 22 de março de 2011

Mais uma daquelas

Ruas tímidas.
A loja de conveniências e suas esperanças falsificadas.
Entro, mesmo sabendo que estas esperanças
esfriarão antes de terminar o café.
Uma rosa sangra em algum lugar.
Alguém trepida sob um cobertor cheirando a amaciante.
Noite perplexa.
Sou atingido por estilhaços.
Não há como fugir dessa noite que fuma cigarrilhas e
degusta bons vinhos sob um viaduto que me
espreita com seu olhar de anjo caído

domingo, 13 de março de 2011

Branco, branquinho.

Sim, é um belo vestido de noiva: branco, branquinho. Exatamente como queria seu pai. Ele costumava dizer... tem que ser branco, brrrrrranco mesmo. Porque nem todo mar é verde e nem todo céu é azul, assim como nem todo branco é branco. Sim, é mesmo um belo e branco vestido de noiva. Sorriu. O grande espelho a olhava obediente. Arregalava ao máximo seus olhos para que ela coubesse toda nele. Ela, ali, sorria, se remexia dentro do belo vestido... Branco... branquinho, como queria seu pai...exatamente como ele queria.

Colocou as mãos na cintura, depois flexionou levemente uma das pernas. Voltou a ficar ereta. Levou a anca direita um pouco para frente, fez o mesmo com a anca esquerda, mas antes disso trouxe a anca direita para trás, claro! As mulheres sempre conseguem o que querem, mas isso, não. Isso elas “ainda” não conseguem. Mirando-se de esguelha, deu aquela máxima viradinha de bunda - que é quando a mulher fica quase na forma de um DNA - pra tentar vê-la completamente. Olhou, olhou. Desmanchou o DNA. De frente de novo. Só ela e o espelho. Deu quatro passos para trás. Perguntou-se se quatro era um número de sorte. Pensou em dar mais quatro: símbolo do infinito, deitado, claro! Mas primeiro precisava imaginar o oito em pé pra só depois poder deitá-lo. Não conseguia imaginá-lo já deitado, tumbado, acostado. Não havia tanto espaço ali, por isso ficou nos quatro mesmo. Olhou-se de longe. Mãos na cintura. Depois, seguindo o ritmo de uma marcha nupcial que só tocava em sua cabeça, começou a aproximar-se do paciente espelho. Tantantantan, Tantantantan...Olhos marejando....tantantantan...Olhos marejados...Tantantantan, Tantantantan. Ficou tão próxima do espelho que seu hálito o embaçou. Simmmmmm, eu o aceito... Pensou ter dito isso e depois beijou o espelho. Alguém conseguiria ser tão frio quanto um espelho? Perguntou-se, mas não deu trela alguma pra resposta.

Afastou-se. Mãos na cintura ainda. Tentou sorrir: a primeira, a segunda. Havia um sorriso ali, mas este era como alguém que acabara de despertar e não queria se mostrar totalmente.

Que belo vestido de noiva, hein? Papai ficará branco de tão branco que é o vestido. Ficará satisfeito. De tanto olhar para si mesma, por um momento, breve, brevíssimo, chegou a pensar que não era ela, ali, diante daquele espelho repleto de corpos refletidos em sua memória de espelho: mulheres - algumas muito jovens, outras nem tanto - que diariamente se postavam ali, cara a cara com ele, sem nem lhe perguntar como tinha sido o seu dia ou como estava o seu humor de espelho.

A gente pensa cada coisa. Suspirou. Deixou os braços caírem na cintura. Se não fossem os ombros, teriam caídos ao chão. Casamento, casamento: esse já era um daqueles sonhos em que ela teve que, contra a vontade, jogá-lo fora, feito aquele filho que a gente ama muito, mas é obrigada a entregá-lo para morrer no front. Casamento agora estava fora de questão. Foi-se o tempo. Não é que o tempo não para, mas é que ele nunca espera. O tempo tem um tempo próprio e num tá nem aí pro nosso tempo. Sim, os homens vieram e muitos, mas se foram, e todos. Homens têm receio de “pegar” compromisso. Casamento, casamento: seu pai não esperava mais isso dela. De tanto esperar ele nem percebeu que já não mais esperava. Isso agora era como uma foto que de tanto desbotar se transformara em algo tão confuso que ninguém fazia mais a menor questão de mirá-la.

De onde surgiram todas essas rugas? O que aconteceu com seus belos lábios? E sua bunda empinada, em que havia se transformado? Para onde tinha ido? Fechou a cara, depois jogou os dois braços as costas como se quisesse puxar os cabelos que caíam um pouco depois da nuca. Foi descendo o zíper: uma muralha da china em suas costas. Da nuca ao cóccix. Desvencilhou-se do vestido como se saísse de uma cápsula do tempo. Bom ou ruim, já não mais sabia. Apenas um tempo.

Colocou o vestido no manequim da vitrine e ele pareceu mais animado, ali com todos os outros vestidos. Ela o mirou mais uma vez, quem sabe a última. No dia seguinte, talvez, uma cliente o levasse. As mulheres já são complexas demais, quando o assunto é casamento, então... Bom, era sem dúvida um belo vestido de noiva, essa ou mesmo uma outra cliente acabaria levando-o. Com certeza ficará pouco tempo na vitrine e seu pai ficará bastante satisfeito. Suspirou... sorriu...foi até a cozinha e tomou um café frio. Já à porta, desligou todas as luzes e por alguns segundos contemplou todos aqueles vestidos brancos. Agora nem tão brancos, nem tão branquinhos assim, mas mesmo no escuro ela sabia que eram belos vestidos de noiva. Sonhos ou desilusões na cor branca. Pensou. Deu de ombros. Com um hermético molho de chaves e uma prática adquirida em todos esses longos anos, trancou a porta. Desejou que todas suas lembranças tivessem ficado lá dentro também, todas elas, no silencioso escuro da loja, como todos aqueles vestidos.

domingo, 6 de março de 2011

"Outros Barulhos" é o livro do mês no blog "Ideia Subalterna"

No reino das musas, há muitas moradas. Espalhafatosas ou retorcidas algumas, outras simples como barracos de meia água. Fachadas deslumbrantes, muralhas intransponíveis, cercas de arame. De tudo. A poesia lírica admite várias entradas, rio generoso de incontáveis afluentes. Na cultura contemporânea, destaca-se, dentre os diversos modos líricos, o filão narrativo.

O caminho trilhado por Reynaldo Bessa resulta de cuidadosa atenção à simplicidade e à memória, de onde brotam pequenos relatos, impressões toscas e densas lembranças, quase sempre ásperas e intratáveis.


Um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?


A linguagem simples e a expressão da subjetividade formam o arco por onde vibra esta poesia. A inserção social, as tiradas filosóficas, a ênfase à diferença, o imprevisto, a pulsão erótica, os fantasmas do passado, tudo o mais decorre dessa aliança. A memória da infância é um território fértil para Reynaldo Bessa. Atravessada de espantos, experiências amargas, descobertas, sobressaltos:


o silêncio
de meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai


Aliado ao formato narrativo, revela-se o corte ágil, o ritmo veloz, caudatário das mídias eletrônicas. Dessa forma, alguns poemas reduzem-se a uma única frase sintética, detonadora de forte carga sugestiva: “o poeta escreve torto/ por linhas certas” (p.70); “hoje sonetos/ amanhã só netos” (p.62); “espinhas, pêlos, incógnitas, incógnitas e ejaculações” (p.29); “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (p.107). A agilidade e a explosão do mundo do rock são fatores determinantes da percepção alucinada das coisas, e mesmo de alguma imagem deformada ou fora de foco.


um dia encontrei Deus
Ele tinha bebido, tava perdido
me perguntou onde estava
e eu Lhe respondi: no lugar que merece


Viajar no passado pode servir de refúgio diante do presente inóspito, mas não há permanência na infância desprovida de culpa ou de fantasmas alvoroçados. A inocência é uma pretensa dádiva, uma parceira exigente e arrogante. A poesia de Reynaldo Bessa, tangida por um ritmo quebrado, uma pegada desentoada, acordes desafinados, sequência estridente, desorienta uma casta de leitores, interessados em efeitos de métrica e de representação metafórica. Ingênua jamais, cultiva a diversidade e a sutileza da réplica intertextual: “ó amar malvado,/ quanto do teu mal/ são lástimas afinal/ nada Pessoal”.
(Edgard Reis - Belo Horizonte, MG, Brazil - ensaísta e escritor, doutor em literatura portuguesa pela UFRJ. livros publicados: violeta trindade, o lobo do cerrado, portugal poetas do fim do milênio, outono atordoado, mosaico insólito.)



Nascido em Mossoró, poeta, cantor e compositor, Reynaldo Bessa desenvolve carreira como músico profissional em São Paulo, onde reside há duas décadas. Em seu mais recente CD, interpreta poemas de Drummond, Leminski, Carpinejar e Alice Ruiz, entre outros. Um diferencial: a edição é bilíngue, todos os poemas tem versão para o inglês, sob responsabilidade de Sérgio Ivanchuk. O livro Outros barulhos foi Prêmio Jabuti em 2009.


BESSA, Reynaldo. Outros barulhos. Belo Horizonte: Anome, 2008. 128 p.

Poemas inéditos - Escritablog

Na Revista eletrônica Escritablog foram publicados alguns dos meus poemas inéditos
Canifira aqui:
http://escritablog.blogspot.com/2011/03/novos_05.html

Outros Barulhos - Fortuna Crítica (essa é a verdadeira fortuna)

"Outros Barulhos" do músico-poeta Reynaldo Bessa - Prêmio Jabuti 2009

Os poemas de "Outros Barulhos" denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, mesmo nessa vidinha besta, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético - a verdade no falso - que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada "mal-estar" (Nelson de Olivieira - Escritor e Mestre em Letras pela USP. APCA 2001 e 2003 – Para o Guia da Folha de São Paulo)


"Outros Barulhos" É uma fartura de vida, um armazém de fiados, armário de brinquedos extintos, que todo leitor vai se exuberar. É uma obra da saudade. A saudade alegra, inclusive, os dias em que cortamos os dedos. Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. A poesia quando narração é imbatível. A poesia como contadora de histórias é imbatível. (Fabrício Carpinejar poeta e jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS.)


Aliado ao formato narrativo, revela-se o corte ágil, o ritmo veloz, caudatário das mídias eletrônicas. Dessa forma, alguns poemas reduzem-se a uma única frase sintética, detonadora de forte carga sugestiva: “o poeta escreve torto/ por linhas certas” (p.70); “hoje sonetos/ amanhã só netos” (p.62); “espinhas, pêlos, incógnitas, incógnitas e ejaculações” (p.29); “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (p.107). A agilidade e a explosão do mundo do rock são fatores determinantes da percepção alucinada das coisas, e mesmo de alguma imagem deformada ou fora de foco. (Edgard Reis - Belo Horizonte, MG, Brazil - ensaísta e escritor, doutor em literatura portuguesa pela UFRJ. livros publicados: violeta trindade, o lobo do cerrado, portugal poetas do fim do milênio, outono atordoado, mosaico insólito.)


Teus poemas são música na maré de literatura. São uma conversa que a gente nunca quer abandonar.
(Angel Cabeza - Poeta)


Reynaldo Bessa impressiona diante da linguagem material de sua fonética, pai/ países, vidas vivi, mortes morri. Pressiona quando é autofágico, como se eu fosse muitos, minha mãe várias, meu pai todos, o poeta devora a sua própria vida em busca da poiesis, devora a sua própria música para inventar outros barulhos. (Wilmar Silva - Poeta/Curador do projeto Terças poéticas - BH)


A poesia de Bessa é arrebatadora exatamente por isso, porque é de uma sinceridade comovente, à espreita da vidinha, aquela que está ao alcance de qualquer um que a olhe com os canais do estranhamento ligados pela intimidade com o arrepio do existir falar de Outros Barulhos não é difícil pelo seu imediato reconhecimento no contexto literário.Beatriz Bajo - Poeta, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ)


Bessa explora com êxito a ironia sádica. Construção provocadora em situações imprevisíveis; reality show da linguagem: os barulhos incomodam com prazer porque significam. Há também um poetar que remete à incerteza de tudo na pós-modernidade, carregada de tom confessional, erotismo e trabalho de linguagem bem urdida em nível concreto. (Márcio Almeida - Poeta)


“Reynaldo Bessa concorreu com os maiores da nossa poesia até chegar ao Prêmio Jabuti, e saiu na frente... melhor não citar nomes. É fácil entender a razão (justa) do reconhecimento: um texto emocionante, aparentemente despretensioso, mas pungente, numa autobiografia reinventada, entre surreal e cruelmente realista. Linguagem contemporânea, sem rebuscamentos retóricos, sem apelar para os coloquialismos banais e os barroquismos excessivos de outros autores que locupletam blogues e revistas literárias. Barulho é o que não falta na obra do jovem potiguar. Se não bastassem os versos criativos e definitivos, é compositor e exibe uma voz emocionante, com aqueles desdobramentos sonoros que apenas os nordestinos trazem em sua musicalidade.” (Antonio Miranda - Poeta, escritor, dramaturgo e escultor - Membro da Academia de Letras do Distrito Federal - Diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia)


Ao voltar à infância, o poeta usa de lembranças para visualizar imagens poéticas surpreendentes, quando diz: “o silêncio/do meu irmão/doía mais/que as pancadas/do meu pai”. Mostra-nos que para ser moderno não é necessário perder o lirismo, como nestes curtos versos: “os vestidos escondem/mais segredos do que o mar”. e critica nossa condição humana em versos criativos, que diz: “os macacos/desceram das árvores/aí nasceu o trabalho,/a infidelidade, o divórcio e/o apartamento de um dormitório” . Outros Barulhos é um dos melhores livros de poesia que li nestes últimos anos. (Rogério Salgado-Poeta/Jornalista)


Destacam-se os Poemas de lembranças, tematizando a infância, a família, pleno de versos imagéticos e narrativos, quase prosa em verso, onde as lembranças resguardam as presenças dos familiares, nos momentos plenos de cargas emotivas, numa série de lembranças, as mais remotas, onde o eu-de-agora se vê sobrecarregado pelas emoções do eu-de-ontem. Essa relação dos vários Eu dentro do Poeta é problematizada em “a cada manhã / já não sou mais o de ontem / um dos meus tantos se foi tragado / pelas malhas dos sonhos” (p. 68), trecho do belo poema, onde o tom lírico se funde ao filosófico, quando a mente se prende nas teias do tempo, / estou sempre aonde não vou nunca estou onde estou o passado é uma grande mala sem alça que teimo em carregá-la e o futuro é alguém que sempre parte quando acabo de chegar / (p. 52) Mas este desconforto com o passado enquanto fardo é aliviado num poeminha lúdico, “eu sou o que lembro / ou o que esqueci?” (p.39), uma pergunta que certamente deve ter empolgado Marcel Proust e Pedro Nava, dois memoralistas, um francês, o outro mineiro, às voltas com os percalços do lembrar-e-esquecer. (Leonardo de magalhaens - Poeta)


Já faz tempo que não conheço nada como a poesia de Bessa.
(Leandro Custódio - Poeta)


Reynaldo Bessa, além de ser compositor, cantor e músico, tendo uma carreira consolidada na música popular brasileira, principalmente na música independente, com seu primeiro livro de poesia “Outros Barulhos”, revela o poeta que se “escondia” nas letras de suas canções.
No livro, poemas de vivências, de acontecimentos, de visões passadas e futuras, de encontros e desencontros, de despedidas e fusões, de vida e morte, de cotidiano, metrópoles e interioridades, surpresas e achados físicos e metafísicos, enfim...”Outros Barulhos” revela o poeta que Reynaldo Bessa sempre foi.
(Madan - Compositor - São Paulo - SP)

Barulhos de Outros Barulhos

lá vem um moleque em seus tênis voadores
parecem maiores do que ele
parecem novos
ele fala com todos
acena pra um, pra outro e
depois olha pra baixo conferindo seus brinquedos
sorri como se acabasse de descobrir o mundo.
parece aconchegante, ali, dentro daqueles sapatos engraçados
sua vida agora vale a pena
lá vem um moleque descalço
aponta uma arma para o moleque que acabou de descobrir o mundo
este rapidamente se agacha e segura as pontas dos tênis
parece um nadador prestes a pular na piscina
seu rosto se contorce
grita alguma coisa pro moleque da arma
continua segurando as pontas dos tênis
se esquece de si mesmo
leva um tiro no olho
cai agarrado aos tênis
o outro moleque, com pressa, desamarra os cadarços
parece um corvo arrancando os olhos de um cadáver
ata-os e joga-os sobre as costas reluzentes
desaparece como apareceu, do nada
some na grande avenida
o moleque sangra na calçada
vai morrendo
chora, se contorce, grita;
meus tênis, meus tênis
sua vida agora não parece mais valer a pena
há frio em seus pés...

Versão em inglês:

there goes a kid in his flying tennis shoes
look like bigger than him
look new
he talks to everyone
waves to one and another and
then look down checking his toys
he smiles as if he had just discovered the world.
there looks cozy inside those funny shoes
now his life is worth of living
there goes a barefoot kid
pointing a gun to the kid who discovered the world
he bends on his knees and hold the tennis’ tips
looks like a swimmer about to jump into the pool
his face twists
screams something to the gun kid
keeps holding the tips
forgetting about himself
got shot in the eye
falls down holding the tennis shoes
he seems to be a crow pulling the eyes of a dead man
ties them, arrange them in his shining back
vanishes as appeared – from nowhere
disappears through the large avenue
as the kid bleeds on the sidewalk
losing his life
cries, twists, screams,
my shoes, my shoes
his life seems not valuable anymore
there’s cold upon his feet

*Poema do meu livro "Outros Barulhos" publicado no jornal Vaia do Rio Grande do Sul e que também foi escolhido pelo poeta Glauco Mattoso para uma antologia americana.

sexta-feira, 4 de março de 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Invenção da poesia

Seleta de "Outros Barulhos" pelo poeta  José Inácio Vieira de Melo

http://invencaodapoesia.blogspot.com/2011/02/reynaldo-bessa.html

gosto desses carinhos literários.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Para a menina que sabe voar (a canção)

La vem ela
Entre flores e borboletas amarelas
Há tanto azul, há um mar tagarela
Nos olhos dela

Lá vem ela
Seu sorriso alegra toda minha tela
Ela é melodia, ela é aquarela
Quem é ela?

Karoline, Karoline, Karoline
Vem cá
Karoline. Karoline, Karoline
Vem cá
Acender meu riso
Com o brilho do seu olhar

É tão bela
Quem dera um beijo nem que fosse de novela
Quem dera ela fosse minha Cinderela
Ah! quem dera.

Karoline, Karoline, Karoline
Vem cá
Karoline. Karoline, Karoline
Vem cá
Acender meu riso
Com o brilho do seu olhar

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Publicado

O texto abaixo foi publicado em um dos mais importantes jornais de Mossoró: o jornal De Fato.
Veja o link

http://www.defato.com/01_02_2011/total.php

boa leitura

domingo, 30 de janeiro de 2011

Para onde foi essa tradição?

Um país, para ter um grande romancista, precisa ter também um bom dentista. São coisas que caminham mais ou menos no mesmo passo. Não se pode ter uma medicina pré-histórica ao lado de um grande romancista como Tolstói. Não é possível. O clima intelectual é homogêneo. Para se ter um Tolstói, precisamos de uma dezena de sub-Tolstóis, que através dos séculos, foram trabalhando até amadurecerem ali, naquela cabeça. Por que certos países da África não têm literatura? Porque não existe ambiente cultural. Por que países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos tem uma vida intelectual intensa? Porque lá há um ambiente cultural e intelectual intenso. Tais coisas se acumulam. Um grande romancista precisa de um passado intelectual. (Wilson Martins – Crítico literário - Trecho retirado “das melhores entrevistas do rascunho”)

Citei esse trecho acima do crítico Wilson Martins, porque gostaria de fazer um paralelo, não sobre o que se ouve em Mossoró, minha cidade natal, mas sim sobre o que não se ouve mais. Não vou me debruçar sobre o que se ouve, por dois motivos: primeiro, porque isso, infelizmente, todos nós já sabemos e também porque não vou perder meu tempo escrevendo sobre intérpretes, compositores, bandas, grupos, trupes e sei lá mais como devo chamar essas máquinas de fazer dinheiro, que aparecem e desaparecem com a rapidez de um flash. Há exceções? Sim, claro! E ainda bem, mas muito poucas.

Wilson Martins foi o último grande critico literário (Faleceu em 2010) e nesse trecho acima ele fala do ambiente cultural necessário para o surgimento de um grande romancista, no caso, Tolstói, mas esse ambiente não se limita somente a literatura. Ele abrange qualquer profissão. Em se tratando de arte, ele abrange qualquer seguimento, seja, teatro, dança, performance, literatura, música e etc. Nesse meu texto me refiro mais especificamente a música. Para que surja alguém de extrema qualidade no cenário musical de um determinado lugar, é preciso um ambiente cultural intenso, construído num passado intelectualmente sólido. Nada surge do nada.

Mossoró tem uma tradição de música de qualidade. Digo isso porque quando morei lá, vi de perto. Vi muita gente boa tocando na noite, nas rádios, casas de shows, em todos os lugares. Lembro de um público brigando pra ver Nando Cordel, quando ele ainda nem tocava as canções que Elba ramalho, Bethânia e tantas outras, imaginavam que um dia iriam gravá-las. Lembro de praças lotadas para ver Zé Ramalho, Fagner, Belchior e tantos outros.

Nos finais de semana, podíamos ouvir grandes grupos de serestas. Lembro muito de João de Orestes. Gostava de observar aqueles músicos tocando com alegria, desenvoltura e muito bom gosto. Perdia-me diante de dedos elétricos surrando as cordas de instrumentos que só faltavam pedir a palavra. Quem quisesse assistir João de Orestes e sua eletrizante banda, tinha que reservar mesa com muita antecedência. Havia sempre muita briga pelos ingressos.

Gostava também de todos os dias, logo pela manhã, dar uma passadinha pela CA discos, onde, Marcelo, meu amigo e mentor musical, trabalhava e tinha o maior prazer em me mostrar as novidades. Depois de muito tempo, chegavam à loja, os recém lançados discos do Milton Nascimento, Djavan, Tom Jobim, Caetano, Gil, Chico Buarque, Fagner, Paco de Lucia, Ednardo, Paulo Diniz, Belchior, Bethânia, Simone, Gal, Luiz Melodia, Lulu Santos, todo o pessoal do boom do rock nacional. Quer mais? Ora! aqui não há espaço suficiente para tanta qualidade. Depois de me extasiar de tanta coisa boa, alucinado, eu ia para igreja e orava para ser um músico reconhecido nacionalmente como aqueles que eu acabara de ver nas capas dos discos e enquanto orava, cantava trechos das musicas que acabara de ouvir. Aprendi que Deus é esperto. Gosta de boa música.

Gostava também de todo final de tarde, pegar um café e ficar do outro lado da rua ouvindo “Seu Totó” sob o jasmineiro, em frente de sua pacata casa, tirar do seu velho violão, clássicos do cancioneiro brasileiro: Abismo de Rosas, Lamento, Tico-tico no fubá, Carinhoso e muitos outros. Eu ficava ouvindo-o enquanto folhas de jasmins iam colorindo o asfalto. Como se pode permanecer indiferente ao som de “abismo de rosas” enquanto folhas caem ao chão? Não se pode. Eu não podia.

Quando descia pra Tibau, (Em Janeiro, Mossoró desce em peso para o litoral e só volta depois do carnaval) costumava ir ao clube Álibi para ouvir uma bandinha de três rapazes: guitarra, baixo e bateria. Ficávamos ali, eu, Tácio, Ana e outros tantos amigos amantes da boa música brasileira, ouvindo essa bandinha tocar nossos artistas prediletos. Djavan tinha acabado de lançar o disco Pétala e as músicas desse disco, até mesmo as do lado “B” tocavam sem parar. Ele foi trilha sonora de um dos meus primeiros romances da adolescência.

Sempre me pergunto “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” não importa, mas da parte que eu consigo lembrar, vejo meu pai ouvindo Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Chico Alves e tantos outros desse naipe.

Mossoró não é só uma cidade de tradição musical de qualidade, mas também tem um perfil original e inovador, para não dizer revolucionário; foi a primeira cidade a libertar seus escravos. Alguns costumam argumentar “Ah! mas eram só setecentos escravos” não importa. Liberdade é liberdade e pioneirismo é pioneirismo. Fomos pioneiros nisso. Também foi em Mossoró o primeiro voto feminino da América do sul. Conhecem o episódio de quando Lampião tentou entrar em Mossoró? Não? Só para resumir, Lampião, se vivo, gostaria de enfrentar qualquer cidade, menos Mossoró.

Citei esses fatos, só para mostrar minha inquietação, de como uma cidade com essa carga históricamente densa e propícia pode se deixar arrastar devastadoramente por essas ondas de constantes modismos e sem querer parecer agressivo, mas do que posso também chamar de “arrastão do mercado fonográfico” ou o “pegue enquanto é tempo e depois se mande sem deixar aviso.“

Não sou contra nenhum estilo musical. Sou contra o excesso e principalmente a exclusão de artistas que ajudaram a construir a história da verdadeira música brasileira.

Sei que a decadência do gosto popular acontece no mundo todo, mas não quero brigar com o mundo, é despender energia demais, quero apenas afirmar a minha antiga preocupação perante a cidade em que nasci e que só não permaneci porque um menino de dois anos não pode simplesmente chegar para os seus aflitos pais e dizer “Podem ir, eu fico aqui”

Repito, Mossoró tem uma tradição de música de qualidade, por isso me  pergunto, "para onde foi essa tradição? Estará em alguma sarjeta, encolhida e trêmula esperando que alguém lhe traga um agasalho e um prato de comida? Até onde mais teremos que descer?

Monteiro Lobato disse: um país se faz com homens e livros. Eu digo que se faz com homens, livros e músicas. Músicas de qualidade, obviamente. Assim como acredito que somos o que comemos, somos o que ouvimos.

Quando morei na Europa, vi com muita frequência os pais e seus filhos tomando café da manhã, almoçando ou jantando ao som de Beethoven, Mozart, Chopin, Liszt, Brahms e tantos outros. De quem será que esses moleques lembrarão?

Correndo o risco de me tornar repetitivo (na verdade é isso que quero) repito: Mossoró tem uma tradição de música de qualidade e não podemos esquecer, negar, apagar, rejeitar, deletar essa tradição, porque abdicar dessa história, dessa qualidade, desse passado intelectualmente sólido é assumir um preço muito alto a ser pago num futuro próximo. Não só nós pagaremos esse preço, mas também nossos filhos, netos, bisnetos. E aí eu me pergunto: é justo nossos descendentes pagarem por uma conta que não lhes pertencem? Se nada for feito, mais cedo ou mais tarde, a cultura potiguar mandará essa conta, e pode estar certo, alguém terá que pagar.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O sussurro nos vãos dos dias

Impressões sobre Outros Barulhos, de Reynaldo Bessa - pela poeta Beatriz Bajo

Eu não sabia o que ia acontecer até ler este livro
posso dizer que ele não saía da minha bolsa
e era um atrevimento de espionar o que de tão meu poderia caber
ao seu lado – tudo bem, com meu consentimento –
mas eu estava totalmente
ingênua nisso
em relação ao sopro que ele exerceria sobre meus dias
silenciosos.
É isso...o barulho de Outros Barulhos vem de seus olhos
refletidos nos de sua mãe
e das palavras, sempre elas que
“se chocam no ar, outras rolam pelo chão” (30)
O ritmo do poeta-músico é forte como a gravidade
da nota acertada no meio do peito-livro
– que “se enche de universos” (86) –
em que me debruço
ao mesmo tempo em que desliza tênue sobre as ideias folhadas
assim dispara Reynaldo: “Escrevo/ porque sou viciado/ no movimento/
das incertezas (83)
e foi então que ele (o poeta) disse-me com a palavra
mais deslavada, assim, numa audácia de trincar os olhos
os seguintes versos requintados:
"construo bombas para um dia
explodir os seus silêncios" (94)
ok! explodir meus silêncios faz parte dessa arquitetura
besseana de deflagrar meu assombro diante de sua obra
haja vista que “isso não é um poema é uma vida, a dele./
há sangue nas entrelinhas.” (grifo meu, 114)
a poesia de Bessa é arrebatadora exatamente por isso,
porque é de uma sinceridade comovente, à espreita da vidinha,
aquela que está ao alcance de qualquer um que a olhe com os canais
do estranhamento ligados pela intimidade com o arrepio do existir
falar de Outros Barulhos não é difícil pelo seu imediato
reconhecimento no contexto literário,
nem porque Reynaldo Bessa é um músico e compositor talentoso,
com especial habilidade para tratar de palavras e sons
mas, porque agora ele lida com outros barulhos, os de dentro
dentro desse silêncio atordoante que é a poesia,
porque ele trabalha com o silêncio que dói
que entala, que nos engasga...como diz:
“e esse mundo preso na garganta que não desce nunca?” (27)
um mutismo que pode nos destronar,
mas também pode ser construtor, no seu caso, de mundos outros
o poeta escolhe versos curtos, flashes cotidianos
embaçados pelos tempos que se embaralham dentro
da vida: “apenas um dia/ que despencou do/ calendário” (37)
e essa vida é recheada de reveses, desapontamentos,
desencontros, e demasiada sensualidade.
tão adaptado ao trabalho manual de pegar as palavras,
tropeça com a pele de palavras que escrevem o corpo desejado:
“seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar” (104)
ainda, descreve um coração insubordinado, relutando
com as profundezas de um ser compartilhado consigo
próprio. Reynaldo oferece-se partido ao presente,
“meu coração é um filho rebelde
ouve música às alturas, usa piercing,
fala estranho e está cagando pra mim.”,
em que peleja entre o racional e o emotivo,
novamente conjuga tempos e transita
entre os papéis hierárquicos existentes
na instituição familiar, tão aclamada neste livro
de ascendências no entanto, há momentos de declinações flagrantes
que perturbam nossas percepções como “uma notícia estupidamente vermelha,”
deflorando a banalidade dos dias: “é dura feito pedra e/ voando veloz estilhaça a/
janela dos meus sonhos (53)
na obra que caminha em busca de alcançar o espectro da
paternidade, insígnia desfraldada pela voz tão proeminente masculina
dos versos de Outros Barulhos, o poeta conta que se lembra bem
apenas de um homem:
“costeletas aparadas e
cheirando a creme de barbear
caminhava com o andar que agora é meu
trazia os olhos longe, um sorriso torto e
estradas entre os dentes...” (88)
morando entre adeus adiados, Reynaldo nunca se despedirá
da fragilidade pueril de seus tempos miúdos
porque carrega a delicadeza
no colo dos versos: “meus pés balançavam as estrelas,”
e entende a brutalidade da vida sublimada na poética
das sutilezas: “como pode alguém com fome/
ter medo de relâmpagos?” (18)
Bessa fabula exatamente relâmpagos neste livro.
há momentos de versos cintilantes que
permanecem latejando por dentro
dos entendimentos
ou resplandecendo onde não se entenderá nunca nada
pois, se o poeta diz: “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (107),
eu digo que seu livro está na minha cabeceira,
de olhos desabotoados
comendo minhas quietudes,
vasculhando o que há na minha bolsa
e não parará de fazer uns, certos, vários, todos
os mesmos ou outros barulhos.


referência:
BESSA, Reynaldo. Outros Barulhos. Belo Horizonte: Anome Lvros, 2008

 
BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). a face do fogo é seu livro de estreia, pelo selo [e] editorial (uma parceria da Annablume com a Demônio Negro). O segundo livro, : a palavra é, foi lançado  pelas editoras Atritoart e Kan, de Londrina. Traduziu o livro Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora e trabalha atualmente com uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem. Além deste blogue, http://lindagraal.blogspot.com/ divide com seu parceiro Marcelo Ariel a manutenção do Esquina Literária (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 4 em Londrina.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sobre o dia em que te vi dormindo

orei diante da sua panturrilha,
aquela com pulseirinha.
pensei: aqui construiria uma igreja e
todo final de tarde, sem falta
viria tocar os sinos e
antes de morrer, pediria:
aqui quero ser enterrado .
lembro do silêncio do quarto feito um vigia sonolento após uma farta refeição e de
sua panturrilha escapando sob o cobertor e a pulseirinha correndo logo atrás.
como um homem que pensa que o tempo da colheita depende da rapidez com que se planta, plantei milhões de beijos silenciosos, desesperados, famintos sobre ela, lá, esparramada sobre a cama como uma flor impossível
não preciso lembrar-me de mais nada
moraria sob essa lembrança
faria um exílio em cada poro dessa eternidade branca de doer,
dessa visão, dessa epifania, dessa sei lá o que, que só a mim pertence.
um dia verei esse fruto despencar do galho
sim, eu verei e vou mordê-lo
porque esse sentimento
deve ser mordido.
essa é a verdadeira essência da vida:
morder o que nos dilacera ou
nos deixar ser mordido por ele.
sua panturrilha e sua pulseirinha são os únicos utensílios
dessa casa vazia que construí pra morar comigo

você

me deu um belo pedaço da vida
me deu a lembrança de um dos sorrisos mais lindos que já vi
e quando as coisas apertam, eu tento tocar esse sorriso
está lá no fundo do bolso e vez em quando deslizo meus dedos sobre ele
é aquele que você deixa cair um pouco o queixo
e sua boca fica aberta por alguns segundos
depois você se mexe na cadeira
impaciente e feliz
porque eu disse algo que você concorda
ou disse uma coisa que você discorda,
mas de um jeito engraçado e convincente

domingo, 16 de janeiro de 2011

Like a serial killer

já sei como funciono
é uma historia que me acompanha há muito tempo
quando entro é pra valer
carrego isso comigo
sei como entrar
gosto de entrar
mas também gosto de sair
é um tipo de impermeabilidade
gosto dessa aura
dessa metade de romance
e aí, a fuga, antes que o brilho da festa se apague
é um defeito
talvez
nessa coisa de amor
necessito ser escravo
busco isso
quando não acontece
sou senhor
e um senhor bem cruel
porque aponto no outro a incompetência de
não ter conseguido me fazer corresponder
apenas quero que me arrebate
como o serial killer que no fundo mata só para ser preso
"Não adentramos o paraiso sem o crachá do inferno"
"Navegar é "preciso" viver não é preciso: será que Fernando Pessoa chegou a ver uma mulher passar o batom nos lábios ou prender os cabelos?"
"A angústia é silenciosa, mas faz um barulho danado"
"Há um momento em que você para porque voltar é impossível e
o futuro nada mais é do que uma bela casa vazia.
Porque tornar-se distante do que mais nos habita?"
"Quando eu estava sob a máquina Singer da minha mãe,
em alta velocidade, eu percorria as estradas e não tinha
nenhum medo das curvas perigosas da vida"
"O fogão da minha mãe. Ah! o fogão da minha mãe.
Acho que só ele a conheceu de verdade"
"Mas eu não sofro por você, essa mulher que agora me olha.
Eu sofro por uma outra mulher que está em algum lugar dentro de você"
_Preciso de ajuda.
_Diga como
_Eu preciso escrever um ivro
_Quanto menos ajuda dos outros, melhor.
_Estou muito arrasado
_É assim mesmo que se escreve
_Eu quero ter a certeza de que vou ser publicado
_Essa certeza você não pode ter.
_Adianta escrever se ninguém vai ler?
_Adianta, sempre.
(trechos do primeiro parágrafo de "O Caso Morel" - Rubem Fonseca)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mergulho

Você é o cheiro
da  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e  t  e  r  n  i  d  a  d  e
que vem desse
a
  b
     i
        i
           i
             i
                i
                   i
                      i 
                         s
                            m
                                o..................................

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lindeza

"Passei por ela e
me deliciei vendo-a
tropeçar em seu sorriso"

More sob a chuva

quando o enterrei
estava um sol de rachar,
que foi esfriando, esfriando
até chegar o momento em
que era quase ouro em pó.
cílios dourados varrendo a tarde.
começaram a fechar o túmulo:
era como se estivessem fechando os meus pulmões
quando pensei que ele não podia voltar comigo e
falar sobre esse sol pó de ouro e
sobre a chuva que caiu logo depois,

decidi que iria viver duplamente,
por mim e por ele
quando sinto o cheiro do vento,
sinto pelos dois

quando estou sob a chuva,
conto-lhe como foi o meu dia

Velhinhos em estantes

"As jovens e belas mulheres tocam e olham os velhinhos
como se estivessem limpando enfeites empoeirados de suas estantes"

Não, não

"Tudo pode ser perdoado, menos uma vida tacanha"

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Show com poemas musicados.

“John Lennon disse uma vez que Os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Reynaldo Bessa pode não ser tão popular quanto os dois, mas com certeza é mais conhecido que o 14° convidado presente à Santa Ceia. Seu show já foi visto por mais de um milhão de cegos, ouvido por mais de um milhão de surdos e aplaudido por mais de um milhão de pessoas sem braços, mas ele confessa que a lista dos que disseram que iam assisti-lo e não foram é ainda maior, portanto, essa é a sua grande oportunidade de prestigiá-lo.”

O músico e escritor, potiguar, Reynaldo Bessa, radicado em São Paulo há mais de 25 anos, apresentará o show “Poemas Musicados” onde cantará poemas de diversos autores (Bukowski, Alice Ruiz, Ademir Assunção, Leminski, Auta de Souza, Ricardo Corona, Fabrício Carpinejar, Wilmar Silva, Edson Cruz, Paulo César de Carvalho, Alphonsus de Guimaraens, Tanussi Cardoso, entre outros) musicados por ele, mas também promete cantar seus hits mais desconhecidos, como: Por amor (Parceria de Bessa e Zé Rodrix gravada pelo grupo Ira!) De dentro pra Flora (música vencedora de diversos festivais) Por onde a saudade sabe entrar, Lamento urbano, entre outros. Bessa subirá ao palco sozinho e será escudado por seus dois melhores companheiros: Um violão aço e um violão nylon. Além das canções, o artista também fará leitura de alguns poemas do seu primeiro livro de poemas “Outros Barulhos” (Prêmio Jabuti – poesia 2009 e um dos livros concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009) lançado em 2008. Bessa também contará com algumas participações.

Reynaldo Bessa: voz / violão aço & violão nylon
Duração: 80 minutos
Produção: Marilia de Lima

*Ligue para colocar com antecedência seu nome na lista e ganhe desconto e concorra a brindes:
9584-2388 (Vlado) ou 2386-4915
 
sábado - 22/01/2011 - 21h
 
Rua Clélia, 2023 [esquina com a Jeroaquara] - LAPA -
apoio: Cooperativa Cultural Brasileira

"Saudação à Alvorada"

"Concentre-se, portanto, no dia de hoje, pois ele é vida, a vida da própria vida. Em sua breve jornada repousam todas as verdades e realidades de sua existência: a bem-aventurança do aprendizado, a glória da ação, a alegria do conhecimento. Ontem não é mais que um sonho e amanhã não é mais que uma visão. Mas o hoje bem vivido torna todo ontem uma visão de felicidade e todo amanhã um sonho de esperança. Concentre-se, portanto, no dia de hoje"

Kaladasa, poeta indiano.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Reynaldo Bessa no Feito em Casa

Início: 13/12/2010
Fim: 13/12/2010
O poeta e músico potiguar Reynaldo Bessa, radicado em São Paulo, é o convidado do programa desta segunda-feira. Não perca!
Feito em Casa vai ao ar às 22h na Rádio Inconfidência FM 100,9 - Brasileiríssima. Reprise no sábado, às 11h.


http://www.inconfidencia.com.br/modules/extcal/event.php?event=480Ver


Rádio Inconfidência
Reynaldo Bessa no Feito em Casa
www.inconfidencia.com.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia Ligada na Tomada - Circuito Interações Estéticas da Funarte.

Eu, Ademir Assunção, Chacal, Marcelo Montenegro, Mário Bortoloto, Madan, Marcelo Watanabe e Caio Góes vamos nos apresentar no projeto Poesia Ligada na Tomada, dentro do Circuito Interações Estéticas da Funarte, no próximo sábado (27/11) em Belo Horizonte.

Sede da Funarte (Rua Januária, 68 – Floresta), às 20 horas. Galpão 6.

Mais informações aqui:
http://www.cultura.gov.br/culturaviva/o-circuito-interacoes-esteticas-chega-a-belo-horizonte/
 
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E no dia 30 - às 18h30 - Terças Poéticas (também em BH), no Palácio das Artes, junto com o grande poeta e meu brother, Ademir Assunção.

Curadoria: Wilmar Silva

mineiras, apareçam!

domingo, 21 de novembro de 2010

O Homem e o Mar - letra de Reynaldo Bessa - Prêmio Melhor Letra no 36° Festival Nacional MPB de Ilha Solteria 2010

O HOMEM E O MAR
(Letra: Reynaldo Bessa / Música: Eduardo Santhana)

Sob o azul e celeste manto
Finge dormir o guerreiro
Nos olhos traz todo encanto
Nas mãos um dardo ligeiro
Senhor da vida e da morte
Baú de tantos segredos
Enquanto assovia pra sorte
Traz o revés entre os dedos
Mar de guerras, lendas e mitos
De viajantes e corsários
Mar do bem, mar maldito
Dos amantes solitários
Mar de Verni, de Pessoa, mar de Caymmi, Camões
De cantos, versos e loas
Mar de tantos brasões
De derrotas, muitas conquistas,
Alegrias, dissabores,
Mar dos bravos, dos artistas,
De escravos e senhores
Ó meu doce mar salgado
Braços abertos ao léu
Quanto sangue derramado
És testemunha ou réu?
Ó grande espelho do mundo
É em ti que o Sol se penteia
A Noite mergulha fundo
Pra transformar-se em sereia
Quando te vejo
Os meus olhos
Içam todas as tuas velas
Sou quilha cortando ondas
Meus sonhos são caravelas
Ó grande espelho do mundo
É em ti que o Sol se penteia
A noite mergulha fundo
Pra transformar-se em sereia
Mar de arrecifes, abrolhos
Senhor da imensidão
Se não cabes nos meus olhos
Cabes no meu coração

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mulheres

"Gosto das mulheres que caminham como se me levassem junto. Nunca me apaixono pelo pássaro, mas sim pelo seu voo"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

..........

"Sua saliva é o meu prato predileto"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Escrever

"Nasci emaranhado em um cordão umbilical de palavras. O cortaram. Agora tento uni-lo novamente"

domingo, 24 de outubro de 2010

Consegue ver?

Existem pessoas que não entendem suas dores e as que quase as entendem.
Quando eu não fazia parte do segundo tipo, não ia lá muito com a cara dos frequentadores de bares.
Hoje eu os amo, sim, eu os amo e não me perguntem por que.
Só observe esse homem riscando seu isqueiro enquanto tenta acender o seu cigarro.
Consegue ver uma dor pendurada nesse ângulo de 90° graus?
E essa mulher gargalhando alto, consegue perceber seus sonhos de asas esmigalhadas?
Observe esses dois sulcos profundos sob os olhos do homem de aproximadamente sessenta anos, lá no canto. Consegue ler quantas lágrimas e quantas noites mal dormidas precisaram para cavar esses caminhos? E essa mulher de sorrisso líquido que cambaleante vai ao banheiro como se fosse desaparecer de vez do mundo. Consegue ver? Se sim, não me perguntará por que os amo.
Simplesmente os amará.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pai

pai
palavra doendo
no sapato
novo do
passado

Mormaço

gostaria que lembrasse o que meus olhos tentaram te dizer
que escutasse as orações que fiz em silencio, ao seu ouvido, quando dormia.
gostaria que guardasse o que pensei enquanto você estava fora
que lembrasse o que minhas mãos sussurraram quando se esconderam em seus cabelos
gostaria que lembrasse da trepidação dos meus lábios, quando enfim! você me deu aquele beijo que há muito ansiava
e que veio de supetão, quase roubado
nesse momento você sugou minha alma
ela está sob sua língua
encolhida e trêmula
se alimentando de sua saliva
sei que você está lendo tudo isso
bebendo cada sílaba
fuçando cada palavra
tocando cada frase
posso te ver mordiscando seu lábio inferior
posso te ver tropeçando nas letras e caindo nas entrelinhas no afã de encontrar um lugar em que possa ver minha imagem refletida
posso ver seus olhos ruminando cada frase
não sei de onde tiro tudo isso
vem mais ou menos como o vento batendo na janela
sem licenças e sem desculpas
sinto por você o que o amor ainda desconhece
quando penso em você lembro-me de Veneza
quando olhava IL Grand Canale
enquanto tomava meus sprits
acho que já pensava em você
pensava que do outro lado das minhas lembranças

ainda doendo, ia ter alguém assim.
como me ensinou, quando me canso, deixo essas coisas virem que nem um mormaço
me deixe morar em seu corpo,
em seu casaco. Isso é como deslizar entre as nuvens
escrevo rapidamente como se subisse uma escada em sua direção
não se escore em minha poesia, mas sim
em meu ombro e me olhe sem dizer nada
quero ver minha vida em seus olhos
essas frases saem cortando tudo
é como tentar tirar alguém maior do que eu dentro de mim
ela salta sobre as frases como no jogo da amarelinha
o que você vê nos espaços vazios do seu quarto?
o que você desenharia ou escreveria entre um móvel e outro?
olho ao meu redor, como se procurasse algo e respondo de pronto:
desenharia minha infância
o que você acha que eu desenharia? Ela pergunta
acho que desenharia um mundo pra habitar
desenharia uma porta daquela em cada espaço vazio do seu quarto
é o que eu acho.
ela diz que desenharia talvez o cheiro
que sente dos lugares, músicas saindo dos travesseiros, mas que
trocaria as cores das coisas
genial!
por isso quero beber todas as suas lágrimas
arquivarei todos os seus sorrisos
sua ausência é um corte profundo
provocado pelos movimentos das lâminas afiadas
dos ponteiros do relógio.

domingo, 17 de outubro de 2010

Terças Poéticas - Poeta homenageado - Roberto Piva

Palácio das Artes

Ademir Assunção
& Reynaldo Bessa
 
30 de Novembro - Belo Horizonte - MG

18h30

Circuito de Interações Poéticas / FUNARTE

Poesia Ligada na Tomada

Sinopse: Poesia eletrificada em leituras/performances

Marcelino Freire,
Chacal,
Marcelo Montenegro
Reynaldo Bessa
Ademir Assunção

10 de novembro (20h30): Recife
27 de novembro (20h30): Belo Horizonte

20h30

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Oh! esses acordes menores...

Ouvimos Simon and Garfunkel até o começo da madrugada. Meu irmão olhava pra radiolinha como se esperasse que a dupla saísse dali a qualquer momento. Eu o olhava de soslaio. No dia seguinte ele embarcaria pra São Paulo. Ele e um amigo. Nesse tempo meus pais diziam que todos os empregos estavam nessa cidade sonhada e distante. Minha mãe entrava e saía de casa constantemente. Eu sabia que ela precisava se mexer para não desabar. Era a primeira incursão do meu irmão mais velho numa aventura longe de casa. Para mim, ir à São Paulo era o mesmo que ir à África. Tudo além das fronteiras da minha infância. O mundo parece mesmo encolher enquanto crescemos. Uma ex-namorada teimava em me dizer que o bolo que minha mãe fazia não devia ter o tamanho de uma geladeira como eu costumava afirmar. Dizia que eu é que era pequeno demais em relação as coisas. Eu continuo teimando com ela, mas confesso que já estou quase convencido disso. O que me sobrará depois?

Peguei no sono. Quando acordei ainda estava escuro e a casa mergulhada em total silêncio. Levantei-me e fiquei parado diante do meu irmão. Dormia. O mirei durante um bom tempo. Meus olhos pareciam lhe dizer; “não acorde, não acorde. Você prometeu nunca me deixar, lembra?” Acho que meus olhos fizeram tanto barulho, que ele, sem abrir os seus, disse: “vai dormir pirralho” Depois me deu as costas. Deitei-me silenciosamente com receio de despertar as horas.

No dia seguinte havia muito movimento em casa. Todos pareciam ter muito o que fazer. Meu pai tinha agora um bom motivo para vestir o seu linho branco impecavelmente passado pela mãe. Ia levar meu irmão ao aeroporto. Isso era sempre um grande programa. Meu irmão desengonçadamente abraçou primeiro os amigos, os curiosos, depois minhas irmãs e quando foi abraçar minha mãe, esta, por fim desabou em seus braços. Parecia abraçar um filho que acabara de morrer. Seu desespero, suas lágrimas eram uma forma de dizer que não estava nem um pouco de acordo com tudo isso. Ela só o largou porque meu pai, já impaciente, disse: “você vai matá-lo sufocado. Largue-o. Ele só está viajando. Ele é um homem” Com exceção do meu pai, todos agora choravam. Eu me perguntava por que meu pai nunca chorava. Nunca. Com nada. Parecia sempre imune a tudo. Ou era isso ou disfarçava muito bem. Mas já estávamos acostumados.

Quando meu irmão veio me abraçar eu já não o enxergava. Enquanto mais eu tentava enxugar meus olhos, mais eles transbordavam. Era como tentar sufocar uma fonte. Senti sua barba em meu pescoço. Ainda hoje, sempre que vou me despedir de alguém, sinto uma barba em meu pescoço. Chorei até vê-lo desaparecer de vez da nossa frente.

A casa esvaziou-se de música e encheu-se de silêncio. Ninguém tinha a coragem de ligar a radiola. Não queríamos cavar o que já estava demasiado fundo. Minha família parecia não funcionar direito com um a menos. Tentamos almoçar juntos como de costume, mas, com exceção do meu pai que não abria mão do seu espaço sagrado à mesa, nos dias seguintes, cada um de nós passou a comer num espaço diferente da casa. Não queríamos enfrentar aquela cadeira vazia.

Só depois de um mês consegui entrar em seu quarto e me senti como se entrasse numa igreja. A radiola vermelinha era seu altar, seus discos eram seus santos. Mexer ali era como violar um templo sagrado. Eu sabia disso, mas minha saudade era uma profana. Peguei em seus discos como se folheasse um pergaminho. Meu coração martelava.  Parecia querer arrombar alguma porta lá dentro. Eu queria apenas um disco: Simon & Garfunkel e eu tinha predileção por uma música: Homeward Bound. Com dedos trêmulos deslizei minha mão pela contracapa do disco. Ao deitar a agulha da radiolinha sobre o vinil, sentei-me como se fosse orar. Senti mesmo vontade de ajoelhar-me. Nos primeiros acordes percebi que não conseguiria terminar aquela oração. Mas me segurei. Enquanto ouvia a música, só conseguia pensar que aquele homem vagando por estradas distantes, cidades desconhecidas, cantando tristes canções e com o sonho de voltar pra casa pulsando em seu coração solitário, do qual falava a letra, era o meu írmão.

No destino de casa
Casa para onde meus pensamentos fogem
Casa onde minha música toca
Casa onde meu amor se deita esperando

Não deu mais. Uma revoada de lembranças veio com tudo. Não conseguia mais parar todos aqueles acordes menores escorrendo pelo meu rosto. As vozes de Simon and Garfunkel pareciam o choro silencioso do meu irmão sob alguma marquise de alguma cidade indiferente ao seu sonho de voltar pra casa. Ainda chorando e como se procurasse um lugar ainda mais escuro para esconder o meu choro de mim mesmo, corri para o quintal, mas ao divisar um vulto entre as árvores, estaquei.  Podia ouvir os acordes iniciais de América vindo lá do quarto do meu írmão. Limpando as lágrimas dos olhos para evitar tropeçar em algo, silenciosamente me aproximei o máximo que pude. Agora, de onde eu estava, podia ouvir tudo muito nitidamente. Por fim, entre as bananeiras, pude divisar um homem, pra lá e pra cá, chorando desesperadamente. Era o meu pai.

Ao som de: Homeward Bound (Simon & Garfunkel - Live in concert in the Central Park)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

sabe o que eu ia dizer? deixa pra lá...

no Graal
sob a chuva
uma frase afiada
atravessa o pescoço do que
eu ia dizer
numa hemorragia interna
sem futuro
meu sonho
vai morrendo

ao som de: no surprise (radiohead)

Sobre vagalumes, estradas e mais e mais...

guardo as emoções feito vagalumes
dentro de um vidrinho que carrego há anos
só os melhores
e nenhum deles morre
não posso tocá-los com as mãos
só com a memoria
esse vidrinho está em meu bolso
e quando a coisa aperta
eu o tiro
eu o olho
lágrimas e sorrisos espalham-se pelo ar
enchem e esvaziam minha vida
dor e delicia se misturam
e chego a sentir o gosto de algumas lembranças feito bolachas no leite
agora espero minha vó gritar lá de dentro que o jantar está na mesa
ainda ouço sua velha cadeira de balanço
e o arrastar de seus chinelos
e posso me ouvir pensando..."lá vem ela me chamar"
e ela com uma voz carregada de anos e sonhos mofados, faz uma força e diz "bessa, o jantar está na mesa, vem logo menino, se não esfria”
e só pra fazer com que ela grite de novo, pois nao existe som mais bonito, faço de conta que não ouvi e quando ela se demora...por fim...grito...”o que foi vó, hein?”
da metade do caminho, ela volta, cansada.
posso ouvi-la puxando novamente o ar dos fracos pulmões
“menino surdo,,,,o jantar tá na mesa”
ai eu rio enchendo minha alma de prazer
e corro pra ela e estalo um beijo em sua face flácida cheirando a pó comprado por R$ 1,99
e depois corro pra mesa
ela ri cansada
tenta colocar o que resta de alegria pra fora
seus olhos me dizem tanto
tanto que eu não aguento
e sonho inventar um aparelho que cristalize o tempo nesse exato momento
mas não é possivel
tenho que esquecer isso por alguns momentos para poder saborear a comida da minha mãe.
minha mãe está ficando parecida com minha vó e eu ficando parecido com meu pai e eu não sei mas quem é quem.
termino o jantar e ainda mastigando, corro pra rua.
preciso espanar as impossibilidades.
ainda minha vó: à noite posso ouvi-la se aconchegando em sua cama que também cheira a pó
são movimentos tão simples, silenciosos
ela sussura como um cachorrinho
dorme como um calmo rio
e eu me pergunto
e amanha?
e amanhã?
ouvirei seu cálido grito crescendo dentro da área e
chamando meu nome?
"menino, tá ficando surdo? o jantar tá na mesa"
e arrastando seus surrados chinelos pela sala?
as vezes tem que se segurar numa porta, nas paredes
e eu penso “ela matava galinhas com a força de dois homens”
e eu ainda estou tentando inventar essa merda de aparelho que cristalize o tempo
eu ainda estou tentando
e vou morrer tentando
pois toda a minha vida está dentro dos olhos da minha vó
tenho receio que esse vidro se quebre
está tudo lá dentro
tudo, tudo
e eu preciso dele
preciso mesmo
sou ele há muito tempo
quando desperto todos os dias é a primeira coisa que procuro
esse vidro
e todos os vagalumes estão lá
todos os dias eu os conto
todos os dias
todos os dias
todos os dias
todos

*qdo vc morrer vai morrer cristalizando

é, morrer cristalizando
é por ai
penso em vc e vejo uma longa estrada
e está anoitecendo
as casas ao longe começam a acender suas luzes
é um mergulho no escuro
nem sempre é facil voltar a superficie
não há nada na superficie
e quero sempre mergulhar mais fundo
quero procurar esses olhos lá no fundo, no fundo do que sou
no mais profundo dessa confusão brotada sem minha autorização
sem minha permissão
sem meu consentimento
sem meu aval, minha assinatura
mas preciso parar
pois vc entende tudo
até o que não quis dizer
até o que eu nem pensei em escrever

*the space between em sua homenagem agora!!!!!!!!!!!
*tô morrendo ouvindo esse som
*me vejo bem agasalhada, viajando por estradas de santa catarina cheias de fazendas com plaquinhas da perdigão

me vejo sozinho, a noite, em algum café de alguma estrada
depois me vejo saindo e deixando o ar frio entrar em meus pulmões
há alguém que lembro
mas sigo caminho contrário ao desse alguém
mas tá tudo certo...tudo foi resolvido
quase tudo
acho.
é tempo de delicadezas
de novas descobertas
de recomeços
estarei com quarenta e cinco
quando retomo a estrada já estou sorrindo
é o sorriso da sabedoria
a custa de muito esforço
olhos, sorrisos, flashs passam num segundo
agora o café e a xicara, com minhas digitais vao ficando cada vez mais longe
as cortinas dos sonhos sempre baixam quando uma música acaba
baixam não, despencam
assustada comigo?

*familiarizada
*vc falando de como é a sabedoria de conseguir deixar as coisas para trás

bela frase
dificil tarefa
gostaria de saber, e obviamente nunca vou saber, como vc realmente me ver e me pensa
talvez me veja como um grande oceano e tenha uma vontade enorme de mergulhar fundo na tentativa de descobrir os mistérios
talvez eu seja mesmo esse grande oceano,
mas meus mistérios mudam constantemente
de tempo e lugar

*parece que tem um balao dentro de vc
*vc pega fôlego e o enche
*e ele vai esvaziando ate a próxima parada
*e pelo jeito q vc fala , olhar para trás basta pra o encher novamente

vc escreve coisas que eu fico estupefato

*tô dando risada do ESTUPEFATO!

eu sei
imaginei
as palavras te põem pra dançar
escrevi de propósito
seu corpo é a única realidade que me interessa
será mesmo uma realidade?
se for, é uma terra maravilhosa
seu corpo é uma ilha
há acordes sob sua pele
vamos dormir?
boa noite
bjs
estupefato
estupetato
e o aparelho que penso em inventar, hein?
estou tentando...
tentando...
ainda...
sim, morrerei cristalizando

*P...
ao som de: the space between (dave matthews band)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eu vinha de algum lugar...

ouço o seu nome
num melancólico solo de sax
dentro de uma noite quente
leio seus olhos nas entrelinhas
de um romance de Philip Roth.
não me ouço
não me leio mais


ao som de: La trama y el desenlace (Jorge Drexler)

ah! essas guerras internas.

Minha religiosidade está abandonada
como uma árvore sozinha
numa estrada escura.