Espertos

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Entrevista concedida a jornalista mineira Luciana Campos para seu blog webentrevistas.

1- Bessa, por Reynaldo Bessa.

Oscar Wilde disse que um homem é sempre menos sincero quando fala de si mesmo, dê-lhe uma mascara e ele contará a verdade. Gosto muito dessa máxima. Uma coisa é você saber quem é, outra completamente diferente é dizer aos outros o que isso representa. Há um poeminha no meu livro que traduz bem esse desassossego: “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” Mas, sei lá...Acho que nasci ligado e esqueceram de acrescentar o interruptor de desliga ao kit. Estou sempre tentando transformar algo em alguma coisa. As vezes não me conformo que o nascer do Sol seja apenas isso...Blake via anjos pulando, eu vejo outras coisas. Muitas vezes penso que tenho dois, três ou até dez metros, pois estou sempre querendo pular de mim mesmo, escapulir, sair do que sou. Isso acontece quando uma manhã de domingo de Sol e céu azul, ardendo lá fora, entra no meu quarto e arranca meus lençóis e diz “vem, tô te esperando” ou quando uma noite de veludo azul intenso desliza seu pingente luminoso bem no meio do peito. Mas isso acontece também quando vejo um homem, numa noite de muito frio, agasalhado pelo abandono, pela fome, pela insanidade e principalmente quando percebo seus olhos presos num lugar que jamais saberei onde fica. Isso me dá também a ligeira e vertiginosa impressão que sou outros além de mim...e como definir todos eles? Por isso e por tudo mais, escrevo. Escrevo para não desenlouquecer. Escrevo para desacreditar no que penso que acredito. Escrevo porque esse mundo real não me preenche, não me basta, não me realiza e preciso sempre ser arrebatado. Necessito chegar primeiro do que eu, não sei onde, mas preciso. Não escrevo pra me vingar, como já disseram, não. Há vinganças demais. Escrevo porque penso que isso seja o mesmo que libertar palavras e soltá-las no infinito céu branco do papel para que olhos atentos apreciem seus voos. Na verdade sabe o que realmente sou? Quando minha mãe levantava-se dentro da madrugada e arrastava seus chinelos, eu não queria mais nada. Eu sou o som dos chinelos de minha mãe.

2 – Bessa, quem o conhece afirma que a “Simplicidade”, adjetivo tão valorizado e aprimorado com a passagem dos anos, é uma das suas principais características pessoais. Você concorda com isso? Aonde essa “simplicidade simples” já o fez chegar?

Essa palavra sempre me soou dúbia, mais ou menos como um beijo e um bofetão logo em seguida – não necessariamente nessa ordem – pra mim é uma das palavras mais complexas, pois ao mesmo tempo em que é sinônimo de naturalidade, elegância, caráter próprio, franqueza, espontaneidade, naturalidade, é também sinônimo de Ingenuidade. Algumas palavras são mesmo complexas. Como pode uma palavra com todas essas denominações se chamar “Simplicidade”. Isso ou aquilo, se a mensagem chega ao endereço certo, se as pessoas conseguem atravessar o meu-seu mar de memórias, de palavras, tá valendo.

3- Ser simples é o elo que o une às suas belas composições?

“O trabalho, a dedicação, a observação constante, a prática, o exercício da palavra, os arranhões e os suicídios diários e uma coisinha que não sei o nome, pois sempre me escapa, são os verdadeiros elos que me unem as minhas “Belas” canções”

4- É preciso que o poeta esteja vivendo um momento “especial e diferente” em sua vida para compor letras profundas, belas, e ao mesmo tempo simples de se assimilar, como as suas?

Só é preciso que ele esteja vivo...o resto vem..alegre ou triste, realidade ou fingimento, não importa, mas vivo, e quando digo vivo, não estou me referindo somente ao de estar “respirando”, mas sim, sugar a sétima pele da vida com a leveza e profundidade de um caipira preparando o seu cigarrinho...

5– Poderia resumir em algumas palavras, o que significa subjetivamente, cada um de seus cinco discos? O que “esses filhos” representam para você?

Outros sóis – aprendendo a desandar
O Beco das Frutas – a insustentável leveza da ansiedade
Angico – vontade de subir em árvores e atravessar açudes
Com os dentes – flertando com os caninos dos poemas
O som da cabeça do elefante – o sorriso de minha mãe, no portão, num final de tarde dentro da minha infância cheirando a pães recém-saídos do forno.

6 - Como acontece o processo criativo para você, desde a idealização de um novo projeto até sua execução final?

A coisa não é linear...não existe começo, meio e fim. Eu nem sei quando começa. As vezes nem quero que comece. Antigamente quando essa luz começava a piscar, eu parava tudo que estava fazendo e me debruçava sobre ela. Talvez um reflexo da inexperiência...agora espero um pouco...deixo a coisa crescer...me perseguir, me bolinar...vou fazendo o que tenho que fazer, quando enfim percebo que a onda é bem maior do que pensava, paro tudo e me dedico completamente a isso. Entro em parafuso, desapareço e só retorno quando está acabado ou pelo menos bem encaminhado.

7- Como ocorre a captação de recursos, num país onde a maioria das pessoas ainda não consegue usufruir, por falta de recursos financeiros, da cultura e do lazer de forma satisfatória? O dinheiro do aluguel, das contas, de onde vem?

Essa é uma questão difícil demais de responder, quer dizer, eu não tenho o menor tato com esse mecanismo. Não estou falando de todos os artistas, muitos lidam com isso com exímia maestria, falo de mim. Esse mecanismo tem botões demais. Sinceramente gostaria muito que as pessoas não tivessem que pensar somente no pão de amanhã, mas na cultura de cada dia, até porque isso refletiria no meu trabalho, mas isso não depende somente de poder aquisitivo, passa também por outras vias complexas. Se assim fosse, os ricos seriam os intelectuais desse país, e isso não é verdade. Falando de mim, pago minhas contas com o meu trabalho, mas quando não posso, não dá, faço como John Fante, apago a luz e vou dormir. As contas não me enxergam no escuro.

8 – Se tivesse que recomeçar, mudaria alguma coisa em sua carreira? Em nome da arte, você recomeçaria a caminhada, não tão simples, de ser artista no nosso país?

Eu sempre digo que quem quer comodidade não mexa com arte...ninguem sai ileso depois que se mete com ela...no começo o artista estranha, mas se ele for bom, tiver cacife, entenderá tudo...Eu não mudaria nada. Se tivesse que recomeçar, recomeçaria do mesmo jeito, faria tudo igualzinho. Aprendemos com os nossos erros. Betty Davis disse uma vez que a velhice não é para os covardes...eu digo o mesmo da arte, mas, claro! Espero que numa próxima eu possa encontrar meu país investindo mais em seus artistas, valorizando-os mais e espero que esse país seja o Brasil.

9 – Se não fosse poeta e compositor, o que seria?

O criador do Google.

10- Você gosta e se emociona com suas próprias composições? Como é, para você, ler e ouvir o seu trabalho?

Quando começo a fazer um disco: pesquisar timbres, pensar nos arranjos, escolher músicos, ouvir os primeiros resultados, eu curto muito isso, mas quando entra no processo de mixagem, masterização e todo o resto, perco o interesse... Ai deixo isso com alguém. Quando o disco chega faço uma audição minuciosa. Depois o esqueço por um bom tempo... vez em quando vou lá e dou uma ouvidinha...percebo uma coisa boa aqui outra nem tanto acolá e chego até a me emocionar, mas nada exagerado. Com o tempo o artista aprende a ver a coisa de um ângulo muito peculiar. Com a literatura vou até o fim. Acho que por ser o meu primeiro livro e por não exigir tanta exposição como na música, talvez por isso esteja curtindo mais... sei lá...acho que é uma forma divertida de brincar sozinho numa gangorra.

11- Cite alguns poetas e compositores que você admira.

Gosto de muita gente: Dos poetas: Piva, Murilo Mendes, Mário Quintana, Rimbaud, Baudelaire, Bukowski, Carpinejar, Cruz e Souza, Mário Faustino, Wilmar Silva, Ferreira Gullar, Mário e Oswald de Andrade, Drummond (não tudo) Os irmãos Campos, putz, ia esquecendo de um que adoro: LEMINSKI e muitos outros.

Dos compositores: Caetano, Chico Buarque, Gil, Milton, Mutantes, Bob Dylan, Neil Young, ainda gosto do Coldplay, Leonardo Cohen, Bruce springsteen (só os primeiros discos). Francis Cabrel, Jorge Drexler...Radiohead. Gosto de Elvis...ouvi alguém dizer que o Elvis na fase decadente era ainda melhor do que muitas bandinhas de hoje...concordo...gosto demais desse branco com voz de negro...Elvis me deu muitas aulas de canto e eu nunca o paguei por isso...você entende, né?

12- Você tem alguma composição de maior valor sentimental?

Não tenho predileção por essa ou por aquela canção. A “Predileção” é a mãe do primeiro e mais famoso crime da história da humanidade. Gosto de todas. Não vejo uma música em especial, vejo a obra num todo.

13 - Qual a linha a separar cantor, compositor, poeta, escritor e homem Reynaldo Bessa, se é que ela é capaz dessa separação? ... Até que ponto ocorre seu envolvimento com a obra?

Mesmo que eu soubesse, teria sempre o prazer de cruzá-la. Acho que esse é o grande barato, fuçar outros códigos... o poeta gosta de dormir com o cantor que por sua vez passeia de mãos dadas com o compositor, enquanto este flerta com o escritor...é uma verdadeira e prazerosa orgia profissional

14- O que mais o realiza? Cantar, compor, escrever poemas?

Primeiro fazer amor, depois um café bem quente, puro... aí... sim, estou pronto pra “Cantar, compor e escrever poemas”

15- De onde vem a inspiração para compor letras como “Por amor”, parceria com Zé Rodrix, gravada pela Banda Ira em Acústico MTV e “Cartas de amor”, canção tão profunda? Neste caso, o poeta precisa sempre estar num momento de solidão, de melancolia?

(rs), no caso de “Por Amor” foi muita pressão, nada de inspiração... nem transpiração. Com o Zé Rodrix, meu parceiro, era tudo pra ontem...então um dia ele me enviou uma letra e disse “faz uma música que o Nasi (vocalista do IRA!) quer uma parceria nossa. Aí eu perguntei “É pra ontem?”E ele respondeu “não, é pra anteontem” apesar da pressão, curti muito fazer “““... olhei pra letra e vi a música... sai tocando... eles adoraram... está no CD e no DVD. Esse momento é um marco na minha carreira. Às vezes toco essa canção por ai e tem gente que quer me bater quando digo que é minha. No show do Ira! Quando eles a tocam e o público vai ao delírio, eu fico bem caladinho. Imagina se eu saio gritando? “Essa música é minha, essa música é minha” com “Cartas de Amor” o processo foi outro. Eu estava me separando e quando o Wilmar Silva me mostrou esse poema, pensei logo “vou musicá-lo” Trabalhei nele um bom tempo. O tempo que necessitava pra ficar uma das músicas do disco que mais gosto de cantar.

16- Com os Dentes, por exemplo, é um disco formado por parcerias de sucesso. Como você faz para compor em dupla? Estão sempre juntos num mesmo recinto? Ocorre também por email, ou à distância?

Bom, com os poetas mortos foi tudo psicografado (rs) brincadeira... o único poeta que comunguei diretamente todo esse processo, foi o Wilmar Silva...desde a escolha dos poemas, até a sua finalização...o Wilmar participou até da gravação ao vivo do disco...ele leu trechos do seu poema gravado...afora ele...tudo foi conversado, combinado, rotulado e carimbado por emails...e dá-lhe emails

17- Qual a sua preferência, compor em conjunto ou sozinho?

Não é preferência, é hábito... trabalhei muito tempo sozinho e me acostumei a isso...só muito depois comecei a compor com outros parceiros...gostei, gosto, mas hábito é fogo, né? Dizem que são eles que verdadeiramente nos prendem ao mundo.

18- Mossoró, sua terra natal no Rio Grande do Norte, é uma de suas grandes inspirações para compor, como já lemos a seu respeito. O que mais o encanta em sua terra? Qual a importância das “raízes e bases” em sua carreira?

Como escrevi em um dos meus poemas que está no livro “Outros Barulhos” – “Por mais que se rabisque infinitamente o papel, nada mudará o primeiro ponto. Ponto final.” Mossoró é o meu cais, meu porto... foi onde eu comecei a compor as primeiras canções. Por mais que eu ande pelo Brasil ou pelo Exterior, meu primeiro ponto sempre será Mossoró. Sempre que me perco por ai e me pergunto quem sou? Procuro focar minha cidade e logo sei onde estou e quem sou realmente. Tem uma lembrança que talvez pra muita gente não soe como boa, mas pra mim sim, pois me remete a um lugar inviolável da minha memória. “Lembro que no final de tarde, quando íamos comprar pão, tínhamos que passar pelo presídio, o único na cidade, e ai víamos os presos, atrás das grades, sentados nos parapeitos das janelas”. Isso era de frente pra rua... se eles quisessem, poderiam puxar nossos cabelos, mas não queiram isso, suas intenções eram outras: Queriam cigarros, uma revista de mulher nua, um gibi, fósforos ou simplesmente dá um “Olá” para espantar seus fantasmas mofados. Alguns deles já eram velhos conhecidos nossos... eu sempre trazia cigarros, fósforos. Quando me pego lembrando disso me dá a impressão de que morei dentro de um livro do Gabriel Garcia Márquez. Infelizmente vou muito pouco a minha cidade natal, mas sempre que me esqueço, mesmo que por alguns minutos, quem sou realmente, imaginariamente, caminho pelas ruas melancólicas de Mossoró e levo cigarros, fósforos e bato longos papos com os presos, que sem saber, libertaram a minha adolescência.

19– Bessa, quem conhece seu trabalho, lê seus poemas e ouve suas composições só pode ter um pensamento: “Como é que esse artista, tão talentoso e completo, ainda não é reconhecido pela grande mídia”? Portanto, pergunto: Qual o reconhecimento esperado por um artista como você? O que é o sucesso?

Fico feliz que você pense assim, mas essas são preocupações que não me afligem mais. Quando eu tinha 17 anos, esperava o sucesso como um rapaz espera sua noiva no altar. Com o tempo aprendi que “Sucesso” significa outra coisa. Óbvio que continuo querendo que meu trabalho seja reconhecido, pois é dele que tiro o meu sustento, mas não da maneira como a grande mídia quer. Penso que o maior obstáculo, hoje, para impedir que um artista faça “sucesso”, por incrível que pareça, é a qualidade. Não há o menor interesse em qualidade. Atualmente o grande lance é o do mero entretenimento. Um dia cheguei a pensar que o problema estava em mim, mas com o tempo encontrei uma trupe de ouro na mesma situação que a minha. Não perco mais tempo reclamando, faço, trabalho e o problema não é meu, é deles. Hoje sei disso muito bem. Sucesso pra mim é reconhecimento sem nenhuma afetação. Sem essa coisa de ídolos, histeria, delírios, estraçalhar de roupas, choros e desmaios. Tudo isso é teatro barato. Tanto na música como na Poesia, sou reconhecido pelos meus pares e isso já é de grande valia pra mim, mas espero que o público em geral tome consciência (e isso já está acontecendo) que “Sucesso” definitivamente não é “isso” que estão descaradamente nos vendendo há muito tempo. Mas isso é um assunto já bastante visitado, não desperdiçarei mais sua inteligência e nem o meu tempo.

20– Qual a influência de sua terra, em seu trabalho, em suas letras, por exemplo? O que você “deve” ao jeito potiguar de ser?

A minha terra é uma estrela nesse céu de bilhões de estrelas e eu sempre a encontro, por mais perdido que as vezes me encontre, como já falei, mas falar do meu jeito potiguar de ser, seria como um adulto descrever o que sente ao ver uma foto de quando tinha cinco anos de idade. São Paulo é uma cidade voraz, veloz, dominadora, um moinho...aqui tudo é triturado, moído e transformado em algo nem melhor, nem pior, mas diferente...Digamos que hoje eu seja um índio potiguar que adora virado à paulista, ou pra ser mais preciso...vou usar o titulo de um dos meus shows que mais define isso com precisão...sou um papa-jerimum virado a paulista (Papa-jerimum são os nascidos no estado do Rio Grande do Norte e virado a paulista é um prato típico de São Paulo, e que por sinal, adoro) que não desiste nunca.

21- Conte-nos um pouco de seus sonhos futuros, o que mais vem por aí? O que os admiradores de seu trabalho podem esperar?

Eu também gostaria de saber (rs) depois do Prêmio Jabuti, tudo está acontecendo muito rapidamente e o músico tem que por diversas vezes sentar no banco de reservas desse jogo tão disputado e confesso que não é fácil pra ele. A bola rolando solta e ele lá, sentado, roendo as unhas, arrancando os cabelos, andando prum lado e pro outro e o técnico nem aí...tenho diversos projetos na música, mas a poesia tá tomando a frente. Acho que uma hora vou ter que lhe dar um safanão. Tenho que terminar um novo disco de músicas minhas sobre poemas de autores contemporâneos...tem um disco só com minhas canções. Tenho um convite em aberto pra tocar no Sul da França ano que vem...tenho uma pequena turnê por algumas cidades da Bolívia, Uruguai, Paraguai, Argentina...só não sei como farei isso, pois os projetos do livro depois do prêmio não me deixam mais tempo pra nada...por favor...me diga, o que faço? rsrs

22- Já passou por alguma situação constrangedora como artista? Algo até mesmo hilário...

Tem várias. Sou muito conhecido no Rio Grande do Norte: Em Natal e outras cidades, mais precisamente em Mossoró...não quero parecer pedante, mas sou celebridade lá. E um dia me convidaram pra fazer uma apresentação num dos mais famosos espetáculos que acontece lá todo ano: é o “Chuva de balas” um espetáculo no nível de “Paixão de cristo” de Pernambuco. Uma coisa grandiosa mesmo. Teatro a céu aberto contando o episódio em que Lampião entrou em Mossoró e foi escorraçado. Era Copa do Mundo e quando o carro veio me pegar no hotel, logo após, todas as pessoas estavam nas ruas comemorando a vitória do Brasil, claro! E ai, eu estava atrasado e não conseguíamos andar. Chegamos ao local do espetáculo em cima da hora...entrei no camarim e todos os produtores, maquiadores e tudo mais vieram pra cima de mim, me deixando ainda mais nervoso. Quando tudo estava resolvido, e o apresentador anunciava meu nome, o ator que faz o lampião (já vestido do personagem) veio até mim e disse “Sou teu fã. Você pode tocar uma música pra mim? É aquela” e começou a cantarolar a música. Eu o ouvia, mas também prestava atenção no apresentador anunciando meu nome. Eu lhe falei, “Olha, hoje vou tocar apenas músicas minhas, essa música do Alceu Valença eu não toco mais, me desculpe” Aí minha ex-esposa (na época esposa) disse “Bessa, essa música é sua” a música era minha, mas na correria, na adrenalina, não consegui identificá-la. Fiquei tremendamente sem jeito. Depois, no avião, rimos muito. Foi basicamente isso.

23- Angico, disco lançado em 2004, nos traz um novo som, novas formas de se ouvir Reynaldo Bessa, como por exemplo, a utilização de ruídos eletrônicos, guitarras distorcidas. Você diz sobre Angico que: “Este disco sou eu”. O que você quis dizer com esta afirmação?

Adorei fazê-lo. Catarse total. Gostei de tudo nele. Todo o Resultado sonoro como também o trabalho visual. As fotos estranhas, distorcidas como as guitarras nas músicas...foi um momento de experiências que só com o tempo pude perceber que quase ninguém havia ainda tentado fazer aquilo que estávamos fazendo...só muito depois é que todos passaram a fazer e ai a coisa proliferou. É um disco totalmente experimental e principalmente temperamental..rsrsrs. Um disco à Bessa.

24- Conte-nos sobre a experiência de ter sido selecionado, em 2005 com o Disco Angico, para o Prêmio TIM de Música. O que você acredita ter chamado mais a atenção dos julgadores?

Isso tudo que falei agora acima...era tudo novo...nada disso estava sendo feito, a não ser por uma pequena parcela dos músicos que estavam antenados com as novas tendências. É um disco livre, inventivo, forte, estranho. Quando vez ou outra o escuto, ainda encontro novidades...acho que foi isso...um disco que já nasceu diferente...foi talvez esse estranhamento que tenha chamado atenção...além de mim na capa, claro! rsrs

25- Muitas de suas canções são poemas de poetas reconhecidos ou não, escolhidos e musicados por você, o que resulta num efeito de encantamento e de superação dos próprios poemas. Como é feita a seleção desses poemas a serem musicados? O que o poeta e compositor pensa, sente, no momento da composição?

Digo sempre que não escolho o poema, o poema é que me escolhe...e tem sido assim...e está sendo assim também para o próximo disco...o volume 2 (rs) não tem amigo, coleguismo, nada, o poema é quem manda...acho que por isso é que tem dado muito certo. Depois de escolhidos todos os poemas...geralmente “dez” começo a fazer as músicas...sempre pensando numa diversidade uniforme, se é que é possível isso, mas as coisas acontecem e tenho curtido muito isso...o letrista, por melhor que seja, acaba se repetindo quando tem uma obra extensa..então é bom poder conhecer o que outras vozes tem a dizer...o Carpinejar quando ouviu “Cartas de Amor” seu poema musicado por mim, disse: “Ele nasceu pra ser música” fiquei feliz, pois quando musico poetas mortos, beleza...esses não reclamam, mas musicar poetas vivos, é muito, muito complicado...não costumo mudar nada, aliás, acho que não posso, não tenho o direito de mudar nada nas obras, então tenho que achar a música que vista perfeitamente esse poema. Como me sinto no momento da composição? Sinto-me como uma mulher, num sábado á noite, procurando em seu guarda-roupa, o vestido ideal. As mulheres, sempre as mulheres.

26- Sua música pode, perfeitamente, ser excelente fonte de trilhas sonoras para novelas e filmes brasileiros, com melodia e sonoridade indispensáveis ao grande público. Já lhe ocorreu algum convite deste tipo?

Falam muito isso e até já aconteceu sem acontecer...entende? nem eu. Vou explicar. O Zé Rodrix foi convidado pra fazer toda a trilha sonora do filme “Pelé Eterno” e me chamou. Fizemos várias músicas...uma a Gal Costa ia cantar, uma outra era pro Moraes Moreira, outra se não me engano agora era pro Milton Nascimento...lindo..mas esses bastidres são muito complicados...fulando se desentendeu com sicrano e o projeto bateu num iceberg maior que o do Titanic...resumindo...em virtude disso mudou o produtor musical e eu e o Zé ficamos a ver navios, o Titanic inclusive. Sobre novelas, tem gente que teima comigo que ouviu uma musica minha na das oito, mas já estou acostumado...sorrio de lado e digo...é minha sim...e eles dizem...nossa que legal...eu sabia...rsrsrsrsrs

27- Qual a emoção de Receber o Prêmio Jabuti 2009 sendo, “Outros Barulhos”, o seu primeiro livro de poemas? Ter concorrido com poetas reconhecidos e renomados, como Ferreira Gullar, agrega valores a este Prêmio?

Eu costumo dizer que foi “Um susto delicioso” e como diz um amigo meu “você entrou pra turma” é um prêmio muito cobiçado, muito importante para o escritor, reconheço, mas não devemos ficar presos a isso. Temos que escrever e escrever e só. Prêmios são conseqüências de um trabalho bem feito...òbvio que disputar com figuras de peso como Ferreira Gullar e Afonso Ávila, entre tantos outros me deixa orgulhoso, Claro! mas tenho que olhar pra frente..quem olha pra trás é retrovisor...quero outros prêmios, sim...mas antes de tudo vem o trabalho. Quero continuar escrevendo bem.

28- Gostaria de dizer algo para seu público?

Comprem meus discos, meu livro. Falem de mim, podem falar mal, ta valendo, mas falem. Pode ser um clichê o que vou dizer agora, mas é a mais pura verdade...”O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” Um país depende muito da cultura de seu povo.

29- Onde e quando serão seus próximos shows?

Farei shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, depois toco em quatro cidades da Bolívia e tem um projeto pro sul da França ano que vem. Estou preparando meu segundo livro de poemas (Por esses tempos estarei empenhado nisso) mas, tenho dois romances e um livro de contos prontos. Estou em negociação com algumas editoras que se interessaram por meus escritos, mas quero ressaltar que estou aberto a outras tantas propostas, e que venham. É isso. Obrigado Luciana, pelo espaço e pelas belas perguntas. Vamos nos falando. Beijos.


Entrevista concedida em: 08 de março de 2010
http://webentrevistas.blogspot.com/

2 comentários:

  1. Agradeço ao inteligente artista Bessa pela concessão desta entrevista, e por sua amizade.
    Bessa é uma pessoa autêntica, que faz do dia a dia um eterno motivo de poetizar a vida.
    Parabéns! Obrigada!

    Luciana Campos
    Jornalista

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  2. Ola Luciana,

    Li a sua nova entrevista com o artista Bessa. Chama-me novamente a especial atenção da rara preciosidade nesta não tão mais nova blogmídia da sua condução jornalistica: perguntas inteligentes merecendo respostas inteligentes. Precioso! Jóia rara!
    Sucesso sempre!
    Um abraço fraternal deste lado do Mar Báltico
    Nil Lus

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