Na minha pré-adolescência tive dois grandes amigos: G e M. Eram irmãos. G era o mais velho. M era explosivo, portanto queria sempre resolver tudo no soco. Um brigão nato. G nem tanto, mas que não pisassem em seus calos. Quando M ficava fora de controle, G lhe passava uns corretivos. Com o tempo esses corretivos foram ficando cada vez mais fracos. G sabia disso, mas dava de ombros.
No final do dia, nos reuníamos e gostávamos de falar de nossos sonhos. M queria ser pugilista, domador de leões, ir à guerra. G queria ser cientista, descobrir coisas que estavam além da sua compreensão, sonhava muito em ir à lua. Falavam isso enquanto comia, cada um, um grande pedaço de bolo de chocolate que sua mãe acabara de fazer. Na maioria das vezes, M ainda estava com o uniforme da escola e sempre sujava-o todo com manchas marrons. Eram raras as vezes em que M, puxado pela orelha, não era levado por sua mãe, para dentro de casa. Eram meninos, apenas meninos, como quaisquer outros.
Crescemos. Eu fui para um lado, M e G para outros. Depois de muito tempo, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que M fora preso. Estava num dos presídios mais seguros da nossa cidade. Isso já me assustou, mas o que mais me deixou ruim, foi saber que G estava foragido. M matara um homem e fora ajudado por G. Não podia ser verdade. Soube depois que M fugira e assassinara outro homem e depois mais outro, até que fora morto a tiros, em pleno dia, quando passeava por uma feira-livre. G continuava desaparecido. Quando me reunia com velhos amigos, sempre perguntava: E ai, tem notícias de G? Eu não podia acreditar nisso. Eu só conseguia nos ver falando sobre nossos futuros sonhos não realizados. Cada um querendo falar mais alto que o outro, dividindo o pedaço de bolo e rindo à toa. M com o uniforme branquinho todo manchado de chocolate e G lhe passando uns corretivos. Era divertido vê-los na refrega.
Acostumei-me com a ideia. Depois de muitos anos, o telefone toca. Era G. Eu não acreditei. Muito eufórico, fui logo falando um monte de coisas. Ele, muito seco, apesar de eu ainda conseguir captar seu silencioso sorriso lá no fundo de sua alma, me interrompeu e disse: Escuta. Sei que você andou gravando alguns discos. Queria saber quantos e quanto custam. Quero comprar todos. Eu rebati: não G, você não precisa pagar. Mando todos pra você. Me diga seu endereço que lhe envio agora. Silencio. Aí ele veio com essa: Escuta, não sei o que você sabe, mas não posso lhe dar meu endereço. Diga quanto custam os discos e me diga também seu endereço que mando alguém ai pegá-los, certo? Pensei em algo melhor pra dizer: Queria ficar mais tempo com ele na linha, dizer que sentia muito por M, perguntar-lhe se precisava de algo, saber como estavam seus pais ou apenas falar, falar, mas não encontrei nada. Só concordei e fiquei ainda na esperança que ele soltasse alguma pista dos meninos felizes que um dia fôramos, mas depois de um brevíssimo silêncio, ele disse “obrigado” e desligou. Lembrei-me de G quando nos apresentou sua primeira namorada. Ele usava um bigode e vestia sua melhor roupa. Ainda posso ver seus olhos tímidos buscando nossa aprovação. Lembrei-me também de M voltando da escola em seu uniforme cada vez mais apertado. Crescia, engordava.
Uma pessoa que nunca vira na minha vida veio pegar os CDs. Pagou-me uma quantia além do que eu e G havíamos combinado. Não relutei. Isso não importava. Não disse nada, o estranho tambem não. Foi uma negociação dura, rápida, silenciosa. Depois que o desconhecido se foi, sentei-me na velha cadeira de balanço de minha mãe, na varanda. O mar, de longe, mandava um vento bem na minha cara. Acendi um cigarro, dei um longo trago e procurei não pensar. Nunca mais ouvi falar em G.
No final do dia, nos reuníamos e gostávamos de falar de nossos sonhos. M queria ser pugilista, domador de leões, ir à guerra. G queria ser cientista, descobrir coisas que estavam além da sua compreensão, sonhava muito em ir à lua. Falavam isso enquanto comia, cada um, um grande pedaço de bolo de chocolate que sua mãe acabara de fazer. Na maioria das vezes, M ainda estava com o uniforme da escola e sempre sujava-o todo com manchas marrons. Eram raras as vezes em que M, puxado pela orelha, não era levado por sua mãe, para dentro de casa. Eram meninos, apenas meninos, como quaisquer outros.
Crescemos. Eu fui para um lado, M e G para outros. Depois de muito tempo, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que M fora preso. Estava num dos presídios mais seguros da nossa cidade. Isso já me assustou, mas o que mais me deixou ruim, foi saber que G estava foragido. M matara um homem e fora ajudado por G. Não podia ser verdade. Soube depois que M fugira e assassinara outro homem e depois mais outro, até que fora morto a tiros, em pleno dia, quando passeava por uma feira-livre. G continuava desaparecido. Quando me reunia com velhos amigos, sempre perguntava: E ai, tem notícias de G? Eu não podia acreditar nisso. Eu só conseguia nos ver falando sobre nossos futuros sonhos não realizados. Cada um querendo falar mais alto que o outro, dividindo o pedaço de bolo e rindo à toa. M com o uniforme branquinho todo manchado de chocolate e G lhe passando uns corretivos. Era divertido vê-los na refrega.
Acostumei-me com a ideia. Depois de muitos anos, o telefone toca. Era G. Eu não acreditei. Muito eufórico, fui logo falando um monte de coisas. Ele, muito seco, apesar de eu ainda conseguir captar seu silencioso sorriso lá no fundo de sua alma, me interrompeu e disse: Escuta. Sei que você andou gravando alguns discos. Queria saber quantos e quanto custam. Quero comprar todos. Eu rebati: não G, você não precisa pagar. Mando todos pra você. Me diga seu endereço que lhe envio agora. Silencio. Aí ele veio com essa: Escuta, não sei o que você sabe, mas não posso lhe dar meu endereço. Diga quanto custam os discos e me diga também seu endereço que mando alguém ai pegá-los, certo? Pensei em algo melhor pra dizer: Queria ficar mais tempo com ele na linha, dizer que sentia muito por M, perguntar-lhe se precisava de algo, saber como estavam seus pais ou apenas falar, falar, mas não encontrei nada. Só concordei e fiquei ainda na esperança que ele soltasse alguma pista dos meninos felizes que um dia fôramos, mas depois de um brevíssimo silêncio, ele disse “obrigado” e desligou. Lembrei-me de G quando nos apresentou sua primeira namorada. Ele usava um bigode e vestia sua melhor roupa. Ainda posso ver seus olhos tímidos buscando nossa aprovação. Lembrei-me também de M voltando da escola em seu uniforme cada vez mais apertado. Crescia, engordava.
Uma pessoa que nunca vira na minha vida veio pegar os CDs. Pagou-me uma quantia além do que eu e G havíamos combinado. Não relutei. Isso não importava. Não disse nada, o estranho tambem não. Foi uma negociação dura, rápida, silenciosa. Depois que o desconhecido se foi, sentei-me na velha cadeira de balanço de minha mãe, na varanda. O mar, de longe, mandava um vento bem na minha cara. Acendi um cigarro, dei um longo trago e procurei não pensar. Nunca mais ouvi falar em G.
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