Meu pai era um grande poeta sem palavras. Um
verdadeiro bardo do silêncio. Ele nunca me disse: "ei, corra aqui, veja isso." Não.
Em uma de nossas viagens, quando eu era ainda um desengonçado magricela
se achando um homem, só porque sob o meu nariz havia nascido alguns
pelinhos, acordei muito cedo e vi o velho parado olhando algo a sua
frente. Pisando leve, cheguei até ele e olhei o que ele olhava. Estávamos
numa serra e a bruma lá embaixo era cortada por um fio de ouro do sol.
Imagens são palavras que perderam a língua. Poesia realmente não se
explica, se percebe, se sente, se descobre. Degusta-se com a língua do silêncio. Meu
pai me ensinou a escrever com a caligrafia da imaginação.
(Reynaldo Bessa)
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