Ouvimos Simon and Garfunkel até o começo da madrugada. Meu irmão olhava pra radiolinha como se esperasse que a dupla saísse dali a qualquer momento. Eu o olhava de soslaio. No dia seguinte ele embarcaria pra São Paulo. Ele e um amigo. Nesse tempo meus pais diziam que todos os empregos estavam nessa cidade sonhada e distante. Minha mãe entrava e saía de casa constantemente. Eu sabia que ela precisava se mexer para não desabar. Era a primeira incursão do meu irmão mais velho numa aventura longe de casa. Para mim, ir à São Paulo era o mesmo que ir à África. Tudo além das fronteiras da minha infância. O mundo parece mesmo encolher enquanto crescemos. Uma ex-namorada teimava em me dizer que o bolo que minha mãe fazia não devia ter o tamanho de uma geladeira como eu costumava afirmar. Dizia que eu é que era pequeno demais em relação as coisas. Eu continuo teimando com ela, mas confesso que já estou quase convencido disso. O que me sobrará depois?
Peguei no sono. Quando acordei ainda estava escuro e a casa mergulhada em total silêncio. Levantei-me e fiquei parado diante do meu irmão. Dormia. O mirei durante um bom tempo. Meus olhos pareciam lhe dizer; “não acorde, não acorde. Você prometeu nunca me deixar, lembra?” Acho que meus olhos fizeram tanto barulho, que ele, sem abrir os seus, disse: “vai dormir pirralho” Depois me deu as costas. Deitei-me silenciosamente com receio de despertar as horas.
No dia seguinte havia muito movimento em casa. Todos pareciam ter muito o que fazer. Meu pai tinha agora um bom motivo para vestir o seu linho branco impecavelmente passado pela mãe. Ia levar meu irmão ao aeroporto. Isso era sempre um grande programa. Meu irmão desengonçadamente abraçou primeiro os amigos, os curiosos, depois minhas irmãs e quando foi abraçar minha mãe, esta, por fim desabou em seus braços. Parecia abraçar um filho que acabara de morrer. Seu desespero, suas lágrimas eram uma forma de dizer que não estava nem um pouco de acordo com tudo isso. Ela só o largou porque meu pai, já impaciente, disse: “você vai matá-lo sufocado. Largue-o. Ele só está viajando. Ele é um homem” Com exceção do meu pai, todos agora choravam. Eu me perguntava por que meu pai nunca chorava. Nunca. Com nada. Parecia sempre imune a tudo. Ou era isso ou disfarçava muito bem. Mas já estávamos acostumados.
Quando meu irmão veio me abraçar eu já não o enxergava. Enquanto mais eu tentava enxugar meus olhos, mais eles transbordavam. Era como tentar sufocar uma fonte. Senti sua barba em meu pescoço. Ainda hoje, sempre que vou me despedir de alguém, sinto uma barba em meu pescoço. Chorei até vê-lo desaparecer de vez da nossa frente.
A casa esvaziou-se de música e encheu-se de silêncio. Ninguém tinha a coragem de ligar a radiola. Não queríamos cavar o que já estava demasiado fundo. Minha família parecia não funcionar direito com um a menos. Tentamos almoçar juntos como de costume, mas, com exceção do meu pai que não abria mão do seu espaço sagrado à mesa, nos dias seguintes, cada um de nós passou a comer num espaço diferente da casa. Não queríamos enfrentar aquela cadeira vazia.
Só depois de um mês consegui entrar em seu quarto e me senti como se entrasse numa igreja. A radiola vermelinha era seu altar, seus discos eram seus santos. Mexer ali era como violar um templo sagrado. Eu sabia disso, mas minha saudade era uma profana. Peguei em seus discos como se folheasse um pergaminho. Meu coração martelava. Parecia querer arrombar alguma porta lá dentro. Eu queria apenas um disco: Simon & Garfunkel e eu tinha predileção por uma música: Homeward Bound. Com dedos trêmulos deslizei minha mão pela contracapa do disco. Ao deitar a agulha da radiolinha sobre o vinil, sentei-me como se fosse orar. Senti mesmo vontade de ajoelhar-me. Nos primeiros acordes percebi que não conseguiria terminar aquela oração. Mas me segurei. Enquanto ouvia a música, só conseguia pensar que aquele homem vagando por estradas distantes, cidades desconhecidas, cantando tristes canções e com o sonho de voltar pra casa pulsando em seu coração solitário, do qual falava a letra, era o meu írmão.
Só depois de um mês consegui entrar em seu quarto e me senti como se entrasse numa igreja. A radiola vermelinha era seu altar, seus discos eram seus santos. Mexer ali era como violar um templo sagrado. Eu sabia disso, mas minha saudade era uma profana. Peguei em seus discos como se folheasse um pergaminho. Meu coração martelava. Parecia querer arrombar alguma porta lá dentro. Eu queria apenas um disco: Simon & Garfunkel e eu tinha predileção por uma música: Homeward Bound. Com dedos trêmulos deslizei minha mão pela contracapa do disco. Ao deitar a agulha da radiolinha sobre o vinil, sentei-me como se fosse orar. Senti mesmo vontade de ajoelhar-me. Nos primeiros acordes percebi que não conseguiria terminar aquela oração. Mas me segurei. Enquanto ouvia a música, só conseguia pensar que aquele homem vagando por estradas distantes, cidades desconhecidas, cantando tristes canções e com o sonho de voltar pra casa pulsando em seu coração solitário, do qual falava a letra, era o meu írmão.
No destino de casa
Casa para onde meus pensamentos fogem
Casa onde minha música toca
Casa onde meu amor se deita esperando
Não deu mais. Uma revoada de lembranças veio com tudo. Não conseguia mais parar todos aqueles acordes menores escorrendo pelo meu rosto. As vozes de Simon and Garfunkel pareciam o choro silencioso do meu irmão sob alguma marquise de alguma cidade indiferente ao seu sonho de voltar pra casa. Ainda chorando e como se procurasse um lugar ainda mais escuro para esconder o meu choro de mim mesmo, corri para o quintal, mas ao divisar um vulto entre as árvores, estaquei. Podia ouvir os acordes iniciais de América vindo lá do quarto do meu írmão. Limpando as lágrimas dos olhos para evitar tropeçar em algo, silenciosamente me aproximei o máximo que pude. Agora, de onde eu estava, podia ouvir tudo muito nitidamente. Por fim, entre as bananeiras, pude divisar um homem, pra lá e pra cá, chorando desesperadamente. Era o meu pai.
Ao som de: Homeward Bound (Simon & Garfunkel - Live in concert in the Central Park)