No red light district eu zanzei. Depois acendi uma bomba do tamanho do dirigível. Fumava enquanto olhava as cabines como quem ver aquários. Escolhi uma francesa, quer dizer, ela me escolheu...Não pude resitir ao seu belo indicador me puxando como se eu fosse uma marionete. Entrei em seu pequeno mundo de vidro como se entrasse numa igreja. Um negro do tamanho do infinito me olhou de esguelha. Pensei em recuar, mas fui em frente. Enchi o aquário de fumaça e perguntei em francês "como essa coisa funciona?" a beldade fingindo-se de doce disse: sem oral, sem anal, sem pegar muito, quinze minutos, oitenta euros....só papai e mamãe, pra ser mais precisa. Falei...tá certo...tô há muito tempo aqui, longe dos meus pais... e papai e mamãe é uma coisa que vai me trazer boas lembranças...vamos lá. Mexi em meus euros...paguei....o negro recuou e falsamente desapareceu entre melancólicas cortinas. Segui as regras. Depois sai pelas ruas de Amsterdam com a bomba ainda acesa...mas vazio, ainda mais vazio...olhei pro canal e procurei não pensar em nada. Depois joguei fumaças ao vento e segui passos incertos. A bomba iluminando meu caminho.
Espertos
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Algumas noites
Algumas noites usam roupas muito apertadas. Eu me coço aqui e acolá, mas nunca reclamo, pois o vazio com seu bigode amarelo de nicotina fica muito bravo quando faço isso. Diante da sua falta um Tsunami é um sopro de uma criança tentando apagar suas cinco velinhas sobre um bolo de chocolate feito por uma mãe de mãos trêmulas...
quarta-feira, 26 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Vazio
A vi descer as escadas rolantes. Desaparecia lentamente, enquanto o vazio subia e se tornava cada vez mais nítido.
terça-feira, 18 de maio de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
Lançamento de "Outros barulhos" no Rio de Janeiro na Livraria Travessa
(Sexta-feira) Dia 21/05 às 17h30 - Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
sábado, 15 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Alice disse:
son corps est
le seul argument
que je ne sais réfuter
(um dos poemas do meu livro "Outros Barulhos"
traduzido pela poeta francesa Tânia Alice)
seu corpo é
o único argumento
que não sei refutar
le seul argument
que je ne sais réfuter
(um dos poemas do meu livro "Outros Barulhos"
traduzido pela poeta francesa Tânia Alice)
seu corpo é
o único argumento
que não sei refutar
terça-feira, 11 de maio de 2010
Algarobas Urbanas
Meu livro de contos Algarobas Urbanas foi um dos livros selecionados no concurso de literatura do Sesc São Paulo (Vila Mariana) 2010, em parceria com a editora Record.
"Outros Barulhos- Poemas"
Conheça meu primeiro livro "Outros Barulhos- Poemas" - Prêmio Jabuti 2009 (Poesia) e também foi um dos livros concorrentes do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. Orelha do poeta Fabricio Carpinejar.
Uma seleta do livro
hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário
----------------------------
uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
“mamãe, o que elas têm?”
--------------------------
deixa disso
siga o risco
o que é a vida
se não olho e cisco?
seja arisco
sangra o resto
o que é a morte
se não sábio disco?
nunca teremos o pouco aquém do menos
nunca seremos o muito além do mais
a cota será certa
a senda será meta
sempre serena será
a reta eterna da
raça toda
-----------------------------
hoje sonetos
amanhã só netos
-----------------------------
rio de fevereiro,
quando alguém me diz:
só em março, depois do carnaval
rio de março,
o ano só começa em abril
rio de abril,
o primeiro dia é quando somos sinceros
rio de maio,
desse, rio demais
é o mês do meu aniversário e
não há nada pra comemorar
rio de junho,
o carnaval ainda não acabou
rio de julho,
não há motivos, por isso rio
rio de agosto,
mais pra lá do que pra cá, mas ainda riso
rio de setembro
o dia sete é uma boa piada
rio de outubro
sou uma criança, mas eles não acreditam
rio de novembro
o ano seguinte já mostra o seu riso amarelo
rio de dezembro
o vizinho me sorri, só porque é natal
em janeiro não rio
meu riso tira férias
vai ao Rio de Janeiro
curtir um choro
----------------------------
entre a caneta e o
guardanapo; um dilema
eu não sabia se tentava ou se
ia ao cinema
não fiz uma coisa nem outra
assoei o nariz com o quase-poema
ah! chega!
com ele ou sem ele
nada muda
é tudo cena
------------------------------
os vestidos escondem
mais segredos do que o mar
-------------------------------
os macacos
desceram das árvores
aí nasceu o trabalho,
a infidelidade, o divórcio e
o apartamento de um dormitório
------------------------------
seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar
------------------------------
seus olhos
são meu livro de cabeceira
domingo, 9 de maio de 2010
Apenas uma noite estranha
Sabia que não devia ligar, sim, claro! que sabia, ainda mais àquela hora, mas era uma noite muito estranha. Até tentei fazer outras coisas, mas só conseguia pensar em ligar. Porque às vezes estamos tão fortes e noutras totalmente em frangalhos? Se eu ligar só vou piorar as coisas, sei, mas quero ligar. Porque eu estava tão infeliz com a felicidade dela? Por quê? Ela estava recomeçando a vida. Agora eu tinha que seguir o meu caminho. Você sabe disso, então porque insiste? Vá dormir. Nada é tão drástico quanto aparenta. Simplesmente deite e durma. Só isso. Deitei-me, fechei os olhos, prendi a respiração, soltei. Deixei o meu corpo encher de ar. Podia sentir meu coração. Podia ver sua cor, seu tamanho, sua ira. Os tiquetaques do despertador eram como alfinetes em meu cérebro. Levantei-me num pulo. Olhei para o telefone. Fui colocar uma dose de uísque, mas não tive paciência, tomei na garrafa. E se ela me visse fazendo isso? Puta, puta, puta, quem disse que você podia deixar de gostar de mim? A única coisa que esse filho da mãe tem que eu não tenho é pouco tempo com você. Eu nasci com você, além do tempo todo que vivemos juntos. Ela disse pra não ligar mais e principalmente fora de hora. O que você quer mais? Vá dormir, vá dormir. Você só vai embaçar ainda mais as coisas. Ela vai te mandar a merda e essa noite pode ficar ainda pior. Sentei-me ereto, tenso como se estivesse diante de um animal prestes a me atacar. Olhos sobre o telefone. O ponteiro das horas duas horas a frente da anterior. Lembrou-se quando terminaram pela primeira vez. Logo depois de alguns dias ela ligou desesperada pedindo que ele voltasse. Voltou no ato. Só estava esperando isso. Porque ela não fazia o mesmo agora? Por quê? Vou ligar, vou ligar. Essa sala escura, esse silêncio pegajoso, não dá mais...num movimento brusco pegou o telefone e discou sem pensar. Isso para que nenhum pensamento pudesse impedi-lo de continuar discando. Ouviu o toque da primeira chamada. Uma dor fina cruzou suas costas. Seu corpo todo enrijeceu. Foi preciso quatro toques e no terceiro ele teve ímpetos de desligar, mas sem saber por que se manteve firme onde estava, então ouviu:
Alô (ela)
Preciso que venha aqui, preciso de você (ele)
Você sabe que isso é impossível. (ela)
Por quê? (ele)
Escuta, te falei pra não ligar mais, olha a hora. Você me acordou. Estou cansada, amanhã levanto cedo. (ela)
Por favor! (ele)
Impossível. (ela)
Sua palavra predileta. Venha, preciso mesmo de você. Tenho algo a dizer. (ele)
Não quero saber. Tenho outra vida, outros desejos, outros sonhos. Sua vida não me diz mais respeito. Você não entende e não tenho mais saco pra explicar. Quero só dormir. (ela)
(ele ouviu um “quem é?” um pouco mais baixo que a voz dela)
Vá se foder. (ele disse com a voz mais alta que a voz dela para a voz mais baixa que a dela)
(ela ficou em silencio. Pareceu não saber o que fazer)
(ouviu a mesma voz do "quem é?"dizer “você ainda não resolveu isso, amor?")
(Ele trincou os dentes e apertou o telefone)
Já, meu amor, ele é que é surdo. (ela para o outro)
Olha! vá dormir. Você está acordando todo mundo. (ela)
Não consigo. Até tentei, mas já vi que não dá. (ele)
Olha, não vou mais à sua casa. Acabou faz tempo. Você tem que seguir com sua vida (ela)
Essa é a minha vida. Estou seguindo com ela (ele)
Não, você está desperdiçando-a (ela)
Cada um desperdiça a sua maneira. (ele)
Chega. Tchau. Não aguento mais isso...
(enquanto ela falava ele quis desligar, mas...)
Espera (ele)
O que foi agora? (ela)
(Silêncio)
Eu te amo (ele)
Ah! Chega, chega e chega, tchau mesmo (ela bateu o telefone)
Ele até pensou em ligar de novo, mas não teve forças. Estava realmente cansado. Olhou a sua volta. Nenhum ruído, nada. Todo o silencio do mundo pareceu ter invadido sua casa. Lembrou do sorriso dela. Ninguém sorria como ela. Foi a primeira coisa que lhe chamou atenção nela. Estava muito cansado. Queria chorar, mas de que isso adiantaria? Mesmo assim chorou. O cansaço o venceu: adormeceu. Sonhou que todo o ar do seu corpo era sugado por alguém, um desconhecido. Ele não podia impedir. Seu ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Quando atingiu o limite, soltou um grito como se agora quisesse mesmo acordar o mundo. Despertou abruptamente. Não estava mais na sala. Estava na cama. Ela estava ao seu lado e ele pôde ouvi-la dizer “Volte a dormir, meu amor, foi só um pesadelo. Ainda respirando com dificuldade, ele olhou em volta e percebeu que estava em sua casa de sempre. A casa da qual nunca saíra. Deitou-se. Ela se enroscou nele como de costume e ele a abraçou como nunca fizera.
Minha humanidade.
Celulares e Ipods: Duas formas sofisticadas de se fugir das pessoas. Ainda lembro-me quando levávamos um fora da namorada ou estávamos conhecendo uma outra, ou brigávamos com nossos pais (geralmente sem motivos) ou perdíamos um emprego (que geralmente não valia nada) ou simplesmente sentíamos a vontade de conversar (mesmo sem nenhum assunto) ligávamos para aquele grande amigo(a) e entre uma breja e outra conversávamos até achar que o assunto se esgotara. Isso já faz um tempo. Não lembro da última. Agora só temos tempo para resolver essas coisinhas pelo celular, quando não, por emails, msns, facebooks, orkuts e outros tantos meios que aparecem de tempos em tempos. Pessoalmente nem pensar.
Hoje dificilmente vemos uma pessoa sem um telefone celular. Raramente alguém não está usando-o. Quando não está nos ouvidos, está entre dedos ansiosos: Velhos, adultos; adolescentes; crianças. Talvez num futuro próximo até os animais. Imagine uma vaca passando ao seu lado e mugindo nervosamente ao celular.
Porque de repente tanta gente passou a ter tanto o que dizer? O que detonou isso?As pessoas tem telefone celular porque precisam falar ou precisam falar porque tem telefone celular? Sei lá. Sempre vejo muita gente falando horas ao telefone e ao desligar, colocando o fone do seu Ipod nos ouvidos. Não conseguimos mais viver o mundo externo? Nos cansamos do outro ou não conseguimos mais encará-lo? A boca não consegue ser tão sincera quanto os olhos? Talvez não seja a toa quando dizem que o olhar é a avenida da alma.
Nas ruas, muitas vezes respondo perguntas que não me foram dirigidas e quando olho em volta, percebo que é alguém ao celular só que usando seus respectivos fones. Parecem lunáticos falando sozinhos. Isso me remete aos loucos que encontrávamos pelas ruas em febris solilóquios quando escapavam do asilo que ficava perto da minha casa quando eu era criança Pelo jeito não eram tão loucos assim. Estavam só cantando o futuro?
Todos nós temos os nossos dias. Ninguém é de ferro. Muitas vezes quero ficar em casa num dia só pra mim. Não quero falar com ninguém, ver ninguém, mas na maioria das vezes adoro sair pras ruas só pra ver as pessoas. Vê-las falando, andando, comprando, vendendo, sorrindo, chorando, brigando. Cada um vivendo como pode e sabe. Muitas vezes faço isso, não só porque curto muito e porque gosto das pessoas – apesar de também ter os meus dias de assombros – mas porque sei que essa é a minha humanidade e eu tenho obrigação de fazer parte dela. Não posso afirmar que existirá outra, pode ser, mas talvez não seja minha.
sábado, 8 de maio de 2010
Para todas as mães
Minha mãe fez oitenta anos. Apesar de achar que o passar violento do tempo não envelhece a criança em nós, sempre tive curiosidade acerca do que é ter oitenta anos. Até que li em um dos livros do Philip Roth, um minúsculo discurso de um de seus personagens. Ele está comemorando setenta anos e os amigos pedem que faça um discurso. Ele diz: Pensem no ano 4000. Em todas as suas dimensões, todos os seus aspectos. Pensem com calma. Pensaram? Pois é, ter setenta anos é isso.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Quase dois anos
Parado numa esquina e deitando lentamente os olhos sobre o que me cerca, penso no dia em que cheguei aqui. Estou sempre lembrando de um cara que um dia fui, como um livro reclamando algumas páginas, que com o tempo, vão se soltando.
saudades de um lugar ainda por existir...
"Minha saudade não reside somente no que um dia existiu, mas também no que ainda não é"
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Para G e M
Na minha pré-adolescência tive dois grandes amigos: G e M. Eram irmãos. G era o mais velho. M era explosivo, portanto queria sempre resolver tudo no soco. Um brigão nato. G nem tanto, mas que não pisassem em seus calos. Quando M ficava fora de controle, G lhe passava uns corretivos. Com o tempo esses corretivos foram ficando cada vez mais fracos. G sabia disso, mas dava de ombros.
No final do dia, nos reuníamos e gostávamos de falar de nossos sonhos. M queria ser pugilista, domador de leões, ir à guerra. G queria ser cientista, descobrir coisas que estavam além da sua compreensão, sonhava muito em ir à lua. Falavam isso enquanto comia, cada um, um grande pedaço de bolo de chocolate que sua mãe acabara de fazer. Na maioria das vezes, M ainda estava com o uniforme da escola e sempre sujava-o todo com manchas marrons. Eram raras as vezes em que M, puxado pela orelha, não era levado por sua mãe, para dentro de casa. Eram meninos, apenas meninos, como quaisquer outros.
Crescemos. Eu fui para um lado, M e G para outros. Depois de muito tempo, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que M fora preso. Estava num dos presídios mais seguros da nossa cidade. Isso já me assustou, mas o que mais me deixou ruim, foi saber que G estava foragido. M matara um homem e fora ajudado por G. Não podia ser verdade. Soube depois que M fugira e assassinara outro homem e depois mais outro, até que fora morto a tiros, em pleno dia, quando passeava por uma feira-livre. G continuava desaparecido. Quando me reunia com velhos amigos, sempre perguntava: E ai, tem notícias de G? Eu não podia acreditar nisso. Eu só conseguia nos ver falando sobre nossos futuros sonhos não realizados. Cada um querendo falar mais alto que o outro, dividindo o pedaço de bolo e rindo à toa. M com o uniforme branquinho todo manchado de chocolate e G lhe passando uns corretivos. Era divertido vê-los na refrega.
Acostumei-me com a ideia. Depois de muitos anos, o telefone toca. Era G. Eu não acreditei. Muito eufórico, fui logo falando um monte de coisas. Ele, muito seco, apesar de eu ainda conseguir captar seu silencioso sorriso lá no fundo de sua alma, me interrompeu e disse: Escuta. Sei que você andou gravando alguns discos. Queria saber quantos e quanto custam. Quero comprar todos. Eu rebati: não G, você não precisa pagar. Mando todos pra você. Me diga seu endereço que lhe envio agora. Silencio. Aí ele veio com essa: Escuta, não sei o que você sabe, mas não posso lhe dar meu endereço. Diga quanto custam os discos e me diga também seu endereço que mando alguém ai pegá-los, certo? Pensei em algo melhor pra dizer: Queria ficar mais tempo com ele na linha, dizer que sentia muito por M, perguntar-lhe se precisava de algo, saber como estavam seus pais ou apenas falar, falar, mas não encontrei nada. Só concordei e fiquei ainda na esperança que ele soltasse alguma pista dos meninos felizes que um dia fôramos, mas depois de um brevíssimo silêncio, ele disse “obrigado” e desligou. Lembrei-me de G quando nos apresentou sua primeira namorada. Ele usava um bigode e vestia sua melhor roupa. Ainda posso ver seus olhos tímidos buscando nossa aprovação. Lembrei-me também de M voltando da escola em seu uniforme cada vez mais apertado. Crescia, engordava.
Uma pessoa que nunca vira na minha vida veio pegar os CDs. Pagou-me uma quantia além do que eu e G havíamos combinado. Não relutei. Isso não importava. Não disse nada, o estranho tambem não. Foi uma negociação dura, rápida, silenciosa. Depois que o desconhecido se foi, sentei-me na velha cadeira de balanço de minha mãe, na varanda. O mar, de longe, mandava um vento bem na minha cara. Acendi um cigarro, dei um longo trago e procurei não pensar. Nunca mais ouvi falar em G.
No final do dia, nos reuníamos e gostávamos de falar de nossos sonhos. M queria ser pugilista, domador de leões, ir à guerra. G queria ser cientista, descobrir coisas que estavam além da sua compreensão, sonhava muito em ir à lua. Falavam isso enquanto comia, cada um, um grande pedaço de bolo de chocolate que sua mãe acabara de fazer. Na maioria das vezes, M ainda estava com o uniforme da escola e sempre sujava-o todo com manchas marrons. Eram raras as vezes em que M, puxado pela orelha, não era levado por sua mãe, para dentro de casa. Eram meninos, apenas meninos, como quaisquer outros.
Crescemos. Eu fui para um lado, M e G para outros. Depois de muito tempo, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que M fora preso. Estava num dos presídios mais seguros da nossa cidade. Isso já me assustou, mas o que mais me deixou ruim, foi saber que G estava foragido. M matara um homem e fora ajudado por G. Não podia ser verdade. Soube depois que M fugira e assassinara outro homem e depois mais outro, até que fora morto a tiros, em pleno dia, quando passeava por uma feira-livre. G continuava desaparecido. Quando me reunia com velhos amigos, sempre perguntava: E ai, tem notícias de G? Eu não podia acreditar nisso. Eu só conseguia nos ver falando sobre nossos futuros sonhos não realizados. Cada um querendo falar mais alto que o outro, dividindo o pedaço de bolo e rindo à toa. M com o uniforme branquinho todo manchado de chocolate e G lhe passando uns corretivos. Era divertido vê-los na refrega.
Acostumei-me com a ideia. Depois de muitos anos, o telefone toca. Era G. Eu não acreditei. Muito eufórico, fui logo falando um monte de coisas. Ele, muito seco, apesar de eu ainda conseguir captar seu silencioso sorriso lá no fundo de sua alma, me interrompeu e disse: Escuta. Sei que você andou gravando alguns discos. Queria saber quantos e quanto custam. Quero comprar todos. Eu rebati: não G, você não precisa pagar. Mando todos pra você. Me diga seu endereço que lhe envio agora. Silencio. Aí ele veio com essa: Escuta, não sei o que você sabe, mas não posso lhe dar meu endereço. Diga quanto custam os discos e me diga também seu endereço que mando alguém ai pegá-los, certo? Pensei em algo melhor pra dizer: Queria ficar mais tempo com ele na linha, dizer que sentia muito por M, perguntar-lhe se precisava de algo, saber como estavam seus pais ou apenas falar, falar, mas não encontrei nada. Só concordei e fiquei ainda na esperança que ele soltasse alguma pista dos meninos felizes que um dia fôramos, mas depois de um brevíssimo silêncio, ele disse “obrigado” e desligou. Lembrei-me de G quando nos apresentou sua primeira namorada. Ele usava um bigode e vestia sua melhor roupa. Ainda posso ver seus olhos tímidos buscando nossa aprovação. Lembrei-me também de M voltando da escola em seu uniforme cada vez mais apertado. Crescia, engordava.
Uma pessoa que nunca vira na minha vida veio pegar os CDs. Pagou-me uma quantia além do que eu e G havíamos combinado. Não relutei. Isso não importava. Não disse nada, o estranho tambem não. Foi uma negociação dura, rápida, silenciosa. Depois que o desconhecido se foi, sentei-me na velha cadeira de balanço de minha mãe, na varanda. O mar, de longe, mandava um vento bem na minha cara. Acendi um cigarro, dei um longo trago e procurei não pensar. Nunca mais ouvi falar em G.
Entrevista concedida a jornalista mineira Luciana Campos para seu blog webentrevistas.
1- Bessa, por Reynaldo Bessa.
2 – Bessa, quem o conhece afirma que a “Simplicidade”, adjetivo tão valorizado e aprimorado com a passagem dos anos, é uma das suas principais características pessoais. Você concorda com isso? Aonde essa “simplicidade simples” já o fez chegar?
3- Ser simples é o elo que o une às suas belas composições?
4- É preciso que o poeta esteja vivendo um momento “especial e diferente” em sua vida para compor letras profundas, belas, e ao mesmo tempo simples de se assimilar, como as suas?
5– Poderia resumir em algumas palavras, o que significa subjetivamente, cada um de seus cinco discos? O que “esses filhos” representam para você?
Outros sóis – aprendendo a desandar
O Beco das Frutas – a insustentável leveza da ansiedade
Angico – vontade de subir em árvores e atravessar açudes
Com os dentes – flertando com os caninos dos poemas
O som da cabeça do elefante – o sorriso de minha mãe, no portão, num final de tarde dentro da minha infância cheirando a pães recém-saídos do forno.
6 - Como acontece o processo criativo para você, desde a idealização de um novo projeto até sua execução final?
7- Como ocorre a captação de recursos, num país onde a maioria das pessoas ainda não consegue usufruir, por falta de recursos financeiros, da cultura e do lazer de forma satisfatória? O dinheiro do aluguel, das contas, de onde vem?
8 – Se tivesse que recomeçar, mudaria alguma coisa em sua carreira? Em nome da arte, você recomeçaria a caminhada, não tão simples, de ser artista no nosso país?
9 – Se não fosse poeta e compositor, o que seria?
O criador do Google.
10- Você gosta e se emociona com suas próprias composições? Como é, para você, ler e ouvir o seu trabalho?
11- Cite alguns poetas e compositores que você admira.
12- Você tem alguma composição de maior valor sentimental?
13 - Qual a linha a separar cantor, compositor, poeta, escritor e homem Reynaldo Bessa, se é que ela é capaz dessa separação? ... Até que ponto ocorre seu envolvimento com a obra?
14- O que mais o realiza? Cantar, compor, escrever poemas?
15- De onde vem a inspiração para compor letras como “Por amor”, parceria com Zé Rodrix, gravada pela Banda Ira em Acústico MTV e “Cartas de amor”, canção tão profunda? Neste caso, o poeta precisa sempre estar num momento de solidão, de melancolia?
16- Com os Dentes, por exemplo, é um disco formado por parcerias de sucesso. Como você faz para compor em dupla? Estão sempre juntos num mesmo recinto? Ocorre também por email, ou à distância?
17- Qual a sua preferência, compor em conjunto ou sozinho?
18- Mossoró, sua terra natal no Rio Grande do Norte, é uma de suas grandes inspirações para compor, como já lemos a seu respeito. O que mais o encanta em sua terra? Qual a importância das “raízes e bases” em sua carreira?
19– Bessa, quem conhece seu trabalho, lê seus poemas e ouve suas composições só pode ter um pensamento: “Como é que esse artista, tão talentoso e completo, ainda não é reconhecido pela grande mídia”? Portanto, pergunto: Qual o reconhecimento esperado por um artista como você? O que é o sucesso?
20– Qual a influência de sua terra, em seu trabalho, em suas letras, por exemplo? O que você “deve” ao jeito potiguar de ser?
21- Conte-nos um pouco de seus sonhos futuros, o que mais vem por aí? O que os admiradores de seu trabalho podem esperar?
22- Já passou por alguma situação constrangedora como artista? Algo até mesmo hilário...
23- Angico, disco lançado em 2004, nos traz um novo som, novas formas de se ouvir Reynaldo Bessa, como por exemplo, a utilização de ruídos eletrônicos, guitarras distorcidas. Você diz sobre Angico que: “Este disco sou eu”. O que você quis dizer com esta afirmação?
24- Conte-nos sobre a experiência de ter sido selecionado, em 2005 com o Disco Angico, para o Prêmio TIM de Música. O que você acredita ter chamado mais a atenção dos julgadores?
25- Muitas de suas canções são poemas de poetas reconhecidos ou não, escolhidos e musicados por você, o que resulta num efeito de encantamento e de superação dos próprios poemas. Como é feita a seleção desses poemas a serem musicados? O que o poeta e compositor pensa, sente, no momento da composição?
26- Sua música pode, perfeitamente, ser excelente fonte de trilhas sonoras para novelas e filmes brasileiros, com melodia e sonoridade indispensáveis ao grande público. Já lhe ocorreu algum convite deste tipo?
27- Qual a emoção de Receber o Prêmio Jabuti 2009 sendo, “Outros Barulhos”, o seu primeiro livro de poemas? Ter concorrido com poetas reconhecidos e renomados, como Ferreira Gullar, agrega valores a este Prêmio?
28- Gostaria de dizer algo para seu público?
29- Onde e quando serão seus próximos shows?
Entrevista concedida em: 08 de março de 2010
http://webentrevistas.blogspot.com/
Oscar Wilde disse que um homem é sempre menos sincero quando fala de si mesmo, dê-lhe uma mascara e ele contará a verdade. Gosto muito dessa máxima. Uma coisa é você saber quem é, outra completamente diferente é dizer aos outros o que isso representa. Há um poeminha no meu livro que traduz bem esse desassossego: “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” Mas, sei lá...Acho que nasci ligado e esqueceram de acrescentar o interruptor de desliga ao kit. Estou sempre tentando transformar algo em alguma coisa. As vezes não me conformo que o nascer do Sol seja apenas isso...Blake via anjos pulando, eu vejo outras coisas. Muitas vezes penso que tenho dois, três ou até dez metros, pois estou sempre querendo pular de mim mesmo, escapulir, sair do que sou. Isso acontece quando uma manhã de domingo de Sol e céu azul, ardendo lá fora, entra no meu quarto e arranca meus lençóis e diz “vem, tô te esperando” ou quando uma noite de veludo azul intenso desliza seu pingente luminoso bem no meio do peito. Mas isso acontece também quando vejo um homem, numa noite de muito frio, agasalhado pelo abandono, pela fome, pela insanidade e principalmente quando percebo seus olhos presos num lugar que jamais saberei onde fica. Isso me dá também a ligeira e vertiginosa impressão que sou outros além de mim...e como definir todos eles? Por isso e por tudo mais, escrevo. Escrevo para não desenlouquecer. Escrevo para desacreditar no que penso que acredito. Escrevo porque esse mundo real não me preenche, não me basta, não me realiza e preciso sempre ser arrebatado. Necessito chegar primeiro do que eu, não sei onde, mas preciso. Não escrevo pra me vingar, como já disseram, não. Há vinganças demais. Escrevo porque penso que isso seja o mesmo que libertar palavras e soltá-las no infinito céu branco do papel para que olhos atentos apreciem seus voos. Na verdade sabe o que realmente sou? Quando minha mãe levantava-se dentro da madrugada e arrastava seus chinelos, eu não queria mais nada. Eu sou o som dos chinelos de minha mãe.
2 – Bessa, quem o conhece afirma que a “Simplicidade”, adjetivo tão valorizado e aprimorado com a passagem dos anos, é uma das suas principais características pessoais. Você concorda com isso? Aonde essa “simplicidade simples” já o fez chegar?
Essa palavra sempre me soou dúbia, mais ou menos como um beijo e um bofetão logo em seguida – não necessariamente nessa ordem – pra mim é uma das palavras mais complexas, pois ao mesmo tempo em que é sinônimo de naturalidade, elegância, caráter próprio, franqueza, espontaneidade, naturalidade, é também sinônimo de Ingenuidade. Algumas palavras são mesmo complexas. Como pode uma palavra com todas essas denominações se chamar “Simplicidade”. Isso ou aquilo, se a mensagem chega ao endereço certo, se as pessoas conseguem atravessar o meu-seu mar de memórias, de palavras, tá valendo.
3- Ser simples é o elo que o une às suas belas composições?
“O trabalho, a dedicação, a observação constante, a prática, o exercício da palavra, os arranhões e os suicídios diários e uma coisinha que não sei o nome, pois sempre me escapa, são os verdadeiros elos que me unem as minhas “Belas” canções”
4- É preciso que o poeta esteja vivendo um momento “especial e diferente” em sua vida para compor letras profundas, belas, e ao mesmo tempo simples de se assimilar, como as suas?
Só é preciso que ele esteja vivo...o resto vem..alegre ou triste, realidade ou fingimento, não importa, mas vivo, e quando digo vivo, não estou me referindo somente ao de estar “respirando”, mas sim, sugar a sétima pele da vida com a leveza e profundidade de um caipira preparando o seu cigarrinho...
5– Poderia resumir em algumas palavras, o que significa subjetivamente, cada um de seus cinco discos? O que “esses filhos” representam para você?
Outros sóis – aprendendo a desandar
O Beco das Frutas – a insustentável leveza da ansiedade
Angico – vontade de subir em árvores e atravessar açudes
Com os dentes – flertando com os caninos dos poemas
O som da cabeça do elefante – o sorriso de minha mãe, no portão, num final de tarde dentro da minha infância cheirando a pães recém-saídos do forno.
6 - Como acontece o processo criativo para você, desde a idealização de um novo projeto até sua execução final?
A coisa não é linear...não existe começo, meio e fim. Eu nem sei quando começa. As vezes nem quero que comece. Antigamente quando essa luz começava a piscar, eu parava tudo que estava fazendo e me debruçava sobre ela. Talvez um reflexo da inexperiência...agora espero um pouco...deixo a coisa crescer...me perseguir, me bolinar...vou fazendo o que tenho que fazer, quando enfim percebo que a onda é bem maior do que pensava, paro tudo e me dedico completamente a isso. Entro em parafuso, desapareço e só retorno quando está acabado ou pelo menos bem encaminhado.
7- Como ocorre a captação de recursos, num país onde a maioria das pessoas ainda não consegue usufruir, por falta de recursos financeiros, da cultura e do lazer de forma satisfatória? O dinheiro do aluguel, das contas, de onde vem?
Essa é uma questão difícil demais de responder, quer dizer, eu não tenho o menor tato com esse mecanismo. Não estou falando de todos os artistas, muitos lidam com isso com exímia maestria, falo de mim. Esse mecanismo tem botões demais. Sinceramente gostaria muito que as pessoas não tivessem que pensar somente no pão de amanhã, mas na cultura de cada dia, até porque isso refletiria no meu trabalho, mas isso não depende somente de poder aquisitivo, passa também por outras vias complexas. Se assim fosse, os ricos seriam os intelectuais desse país, e isso não é verdade. Falando de mim, pago minhas contas com o meu trabalho, mas quando não posso, não dá, faço como John Fante, apago a luz e vou dormir. As contas não me enxergam no escuro.
Eu sempre digo que quem quer comodidade não mexa com arte...ninguem sai ileso depois que se mete com ela...no começo o artista estranha, mas se ele for bom, tiver cacife, entenderá tudo...Eu não mudaria nada. Se tivesse que recomeçar, recomeçaria do mesmo jeito, faria tudo igualzinho. Aprendemos com os nossos erros. Betty Davis disse uma vez que a velhice não é para os covardes...eu digo o mesmo da arte, mas, claro! Espero que numa próxima eu possa encontrar meu país investindo mais em seus artistas, valorizando-os mais e espero que esse país seja o Brasil.
9 – Se não fosse poeta e compositor, o que seria?
O criador do Google.
10- Você gosta e se emociona com suas próprias composições? Como é, para você, ler e ouvir o seu trabalho?
Quando começo a fazer um disco: pesquisar timbres, pensar nos arranjos, escolher músicos, ouvir os primeiros resultados, eu curto muito isso, mas quando entra no processo de mixagem, masterização e todo o resto, perco o interesse... Ai deixo isso com alguém. Quando o disco chega faço uma audição minuciosa. Depois o esqueço por um bom tempo... vez em quando vou lá e dou uma ouvidinha...percebo uma coisa boa aqui outra nem tanto acolá e chego até a me emocionar, mas nada exagerado. Com o tempo o artista aprende a ver a coisa de um ângulo muito peculiar. Com a literatura vou até o fim. Acho que por ser o meu primeiro livro e por não exigir tanta exposição como na música, talvez por isso esteja curtindo mais... sei lá...acho que é uma forma divertida de brincar sozinho numa gangorra.
11- Cite alguns poetas e compositores que você admira.
Gosto de muita gente: Dos poetas: Piva, Murilo Mendes, Mário Quintana, Rimbaud, Baudelaire, Bukowski, Carpinejar, Cruz e Souza, Mário Faustino, Wilmar Silva, Ferreira Gullar, Mário e Oswald de Andrade, Drummond (não tudo) Os irmãos Campos, putz, ia esquecendo de um que adoro: LEMINSKI e muitos outros.
Dos compositores: Caetano, Chico Buarque, Gil, Milton, Mutantes, Bob Dylan, Neil Young, ainda gosto do Coldplay, Leonardo Cohen, Bruce springsteen (só os primeiros discos). Francis Cabrel, Jorge Drexler...Radiohead. Gosto de Elvis...ouvi alguém dizer que o Elvis na fase decadente era ainda melhor do que muitas bandinhas de hoje...concordo...gosto demais desse branco com voz de negro...Elvis me deu muitas aulas de canto e eu nunca o paguei por isso...você entende, né?
12- Você tem alguma composição de maior valor sentimental?
Não tenho predileção por essa ou por aquela canção. A “Predileção” é a mãe do primeiro e mais famoso crime da história da humanidade. Gosto de todas. Não vejo uma música em especial, vejo a obra num todo.
13 - Qual a linha a separar cantor, compositor, poeta, escritor e homem Reynaldo Bessa, se é que ela é capaz dessa separação? ... Até que ponto ocorre seu envolvimento com a obra?
Mesmo que eu soubesse, teria sempre o prazer de cruzá-la. Acho que esse é o grande barato, fuçar outros códigos... o poeta gosta de dormir com o cantor que por sua vez passeia de mãos dadas com o compositor, enquanto este flerta com o escritor...é uma verdadeira e prazerosa orgia profissional
14- O que mais o realiza? Cantar, compor, escrever poemas?
Primeiro fazer amor, depois um café bem quente, puro... aí... sim, estou pronto pra “Cantar, compor e escrever poemas”
(rs), no caso de “Por Amor” foi muita pressão, nada de inspiração... nem transpiração. Com o Zé Rodrix, meu parceiro, era tudo pra ontem...então um dia ele me enviou uma letra e disse “faz uma música que o Nasi (vocalista do IRA!) quer uma parceria nossa. Aí eu perguntei “É pra ontem?”E ele respondeu “não, é pra anteontem” apesar da pressão, curti muito fazer “““... olhei pra letra e vi a música... sai tocando... eles adoraram... está no CD e no DVD. Esse momento é um marco na minha carreira. Às vezes toco essa canção por ai e tem gente que quer me bater quando digo que é minha. No show do Ira! Quando eles a tocam e o público vai ao delírio, eu fico bem caladinho. Imagina se eu saio gritando? “Essa música é minha, essa música é minha” com “Cartas de Amor” o processo foi outro. Eu estava me separando e quando o Wilmar Silva me mostrou esse poema, pensei logo “vou musicá-lo” Trabalhei nele um bom tempo. O tempo que necessitava pra ficar uma das músicas do disco que mais gosto de cantar.
16- Com os Dentes, por exemplo, é um disco formado por parcerias de sucesso. Como você faz para compor em dupla? Estão sempre juntos num mesmo recinto? Ocorre também por email, ou à distância?
Bom, com os poetas mortos foi tudo psicografado (rs) brincadeira... o único poeta que comunguei diretamente todo esse processo, foi o Wilmar Silva...desde a escolha dos poemas, até a sua finalização...o Wilmar participou até da gravação ao vivo do disco...ele leu trechos do seu poema gravado...afora ele...tudo foi conversado, combinado, rotulado e carimbado por emails...e dá-lhe emails
17- Qual a sua preferência, compor em conjunto ou sozinho?
Não é preferência, é hábito... trabalhei muito tempo sozinho e me acostumei a isso...só muito depois comecei a compor com outros parceiros...gostei, gosto, mas hábito é fogo, né? Dizem que são eles que verdadeiramente nos prendem ao mundo.
18- Mossoró, sua terra natal no Rio Grande do Norte, é uma de suas grandes inspirações para compor, como já lemos a seu respeito. O que mais o encanta em sua terra? Qual a importância das “raízes e bases” em sua carreira?
Como escrevi em um dos meus poemas que está no livro “Outros Barulhos” – “Por mais que se rabisque infinitamente o papel, nada mudará o primeiro ponto. Ponto final.” Mossoró é o meu cais, meu porto... foi onde eu comecei a compor as primeiras canções. Por mais que eu ande pelo Brasil ou pelo Exterior, meu primeiro ponto sempre será Mossoró. Sempre que me perco por ai e me pergunto quem sou? Procuro focar minha cidade e logo sei onde estou e quem sou realmente. Tem uma lembrança que talvez pra muita gente não soe como boa, mas pra mim sim, pois me remete a um lugar inviolável da minha memória. “Lembro que no final de tarde, quando íamos comprar pão, tínhamos que passar pelo presídio, o único na cidade, e ai víamos os presos, atrás das grades, sentados nos parapeitos das janelas”. Isso era de frente pra rua... se eles quisessem, poderiam puxar nossos cabelos, mas não queiram isso, suas intenções eram outras: Queriam cigarros, uma revista de mulher nua, um gibi, fósforos ou simplesmente dá um “Olá” para espantar seus fantasmas mofados. Alguns deles já eram velhos conhecidos nossos... eu sempre trazia cigarros, fósforos. Quando me pego lembrando disso me dá a impressão de que morei dentro de um livro do Gabriel Garcia Márquez. Infelizmente vou muito pouco a minha cidade natal, mas sempre que me esqueço, mesmo que por alguns minutos, quem sou realmente, imaginariamente, caminho pelas ruas melancólicas de Mossoró e levo cigarros, fósforos e bato longos papos com os presos, que sem saber, libertaram a minha adolescência.
19– Bessa, quem conhece seu trabalho, lê seus poemas e ouve suas composições só pode ter um pensamento: “Como é que esse artista, tão talentoso e completo, ainda não é reconhecido pela grande mídia”? Portanto, pergunto: Qual o reconhecimento esperado por um artista como você? O que é o sucesso?
Fico feliz que você pense assim, mas essas são preocupações que não me afligem mais. Quando eu tinha 17 anos, esperava o sucesso como um rapaz espera sua noiva no altar. Com o tempo aprendi que “Sucesso” significa outra coisa. Óbvio que continuo querendo que meu trabalho seja reconhecido, pois é dele que tiro o meu sustento, mas não da maneira como a grande mídia quer. Penso que o maior obstáculo, hoje, para impedir que um artista faça “sucesso”, por incrível que pareça, é a qualidade. Não há o menor interesse em qualidade. Atualmente o grande lance é o do mero entretenimento. Um dia cheguei a pensar que o problema estava em mim, mas com o tempo encontrei uma trupe de ouro na mesma situação que a minha. Não perco mais tempo reclamando, faço, trabalho e o problema não é meu, é deles. Hoje sei disso muito bem. Sucesso pra mim é reconhecimento sem nenhuma afetação. Sem essa coisa de ídolos, histeria, delírios, estraçalhar de roupas, choros e desmaios. Tudo isso é teatro barato. Tanto na música como na Poesia, sou reconhecido pelos meus pares e isso já é de grande valia pra mim, mas espero que o público em geral tome consciência (e isso já está acontecendo) que “Sucesso” definitivamente não é “isso” que estão descaradamente nos vendendo há muito tempo. Mas isso é um assunto já bastante visitado, não desperdiçarei mais sua inteligência e nem o meu tempo.
20– Qual a influência de sua terra, em seu trabalho, em suas letras, por exemplo? O que você “deve” ao jeito potiguar de ser?
A minha terra é uma estrela nesse céu de bilhões de estrelas e eu sempre a encontro, por mais perdido que as vezes me encontre, como já falei, mas falar do meu jeito potiguar de ser, seria como um adulto descrever o que sente ao ver uma foto de quando tinha cinco anos de idade. São Paulo é uma cidade voraz, veloz, dominadora, um moinho...aqui tudo é triturado, moído e transformado em algo nem melhor, nem pior, mas diferente...Digamos que hoje eu seja um índio potiguar que adora virado à paulista, ou pra ser mais preciso...vou usar o titulo de um dos meus shows que mais define isso com precisão...sou um papa-jerimum virado a paulista (Papa-jerimum são os nascidos no estado do Rio Grande do Norte e virado a paulista é um prato típico de São Paulo, e que por sinal, adoro) que não desiste nunca.
21- Conte-nos um pouco de seus sonhos futuros, o que mais vem por aí? O que os admiradores de seu trabalho podem esperar?
Eu também gostaria de saber (rs) depois do Prêmio Jabuti, tudo está acontecendo muito rapidamente e o músico tem que por diversas vezes sentar no banco de reservas desse jogo tão disputado e confesso que não é fácil pra ele. A bola rolando solta e ele lá, sentado, roendo as unhas, arrancando os cabelos, andando prum lado e pro outro e o técnico nem aí...tenho diversos projetos na música, mas a poesia tá tomando a frente. Acho que uma hora vou ter que lhe dar um safanão. Tenho que terminar um novo disco de músicas minhas sobre poemas de autores contemporâneos...tem um disco só com minhas canções. Tenho um convite em aberto pra tocar no Sul da França ano que vem...tenho uma pequena turnê por algumas cidades da Bolívia, Uruguai, Paraguai, Argentina...só não sei como farei isso, pois os projetos do livro depois do prêmio não me deixam mais tempo pra nada...por favor...me diga, o que faço? rsrs
22- Já passou por alguma situação constrangedora como artista? Algo até mesmo hilário...
Tem várias. Sou muito conhecido no Rio Grande do Norte: Em Natal e outras cidades, mais precisamente em Mossoró...não quero parecer pedante, mas sou celebridade lá. E um dia me convidaram pra fazer uma apresentação num dos mais famosos espetáculos que acontece lá todo ano: é o “Chuva de balas” um espetáculo no nível de “Paixão de cristo” de Pernambuco. Uma coisa grandiosa mesmo. Teatro a céu aberto contando o episódio em que Lampião entrou em Mossoró e foi escorraçado. Era Copa do Mundo e quando o carro veio me pegar no hotel, logo após, todas as pessoas estavam nas ruas comemorando a vitória do Brasil, claro! E ai, eu estava atrasado e não conseguíamos andar. Chegamos ao local do espetáculo em cima da hora...entrei no camarim e todos os produtores, maquiadores e tudo mais vieram pra cima de mim, me deixando ainda mais nervoso. Quando tudo estava resolvido, e o apresentador anunciava meu nome, o ator que faz o lampião (já vestido do personagem) veio até mim e disse “Sou teu fã. Você pode tocar uma música pra mim? É aquela” e começou a cantarolar a música. Eu o ouvia, mas também prestava atenção no apresentador anunciando meu nome. Eu lhe falei, “Olha, hoje vou tocar apenas músicas minhas, essa música do Alceu Valença eu não toco mais, me desculpe” Aí minha ex-esposa (na época esposa) disse “Bessa, essa música é sua” a música era minha, mas na correria, na adrenalina, não consegui identificá-la. Fiquei tremendamente sem jeito. Depois, no avião, rimos muito. Foi basicamente isso.
23- Angico, disco lançado em 2004, nos traz um novo som, novas formas de se ouvir Reynaldo Bessa, como por exemplo, a utilização de ruídos eletrônicos, guitarras distorcidas. Você diz sobre Angico que: “Este disco sou eu”. O que você quis dizer com esta afirmação?
Adorei fazê-lo. Catarse total. Gostei de tudo nele. Todo o Resultado sonoro como também o trabalho visual. As fotos estranhas, distorcidas como as guitarras nas músicas...foi um momento de experiências que só com o tempo pude perceber que quase ninguém havia ainda tentado fazer aquilo que estávamos fazendo...só muito depois é que todos passaram a fazer e ai a coisa proliferou. É um disco totalmente experimental e principalmente temperamental..rsrsrs. Um disco à Bessa.
24- Conte-nos sobre a experiência de ter sido selecionado, em 2005 com o Disco Angico, para o Prêmio TIM de Música. O que você acredita ter chamado mais a atenção dos julgadores?
Isso tudo que falei agora acima...era tudo novo...nada disso estava sendo feito, a não ser por uma pequena parcela dos músicos que estavam antenados com as novas tendências. É um disco livre, inventivo, forte, estranho. Quando vez ou outra o escuto, ainda encontro novidades...acho que foi isso...um disco que já nasceu diferente...foi talvez esse estranhamento que tenha chamado atenção...além de mim na capa, claro! rsrs
25- Muitas de suas canções são poemas de poetas reconhecidos ou não, escolhidos e musicados por você, o que resulta num efeito de encantamento e de superação dos próprios poemas. Como é feita a seleção desses poemas a serem musicados? O que o poeta e compositor pensa, sente, no momento da composição?
Digo sempre que não escolho o poema, o poema é que me escolhe...e tem sido assim...e está sendo assim também para o próximo disco...o volume 2 (rs) não tem amigo, coleguismo, nada, o poema é quem manda...acho que por isso é que tem dado muito certo. Depois de escolhidos todos os poemas...geralmente “dez” começo a fazer as músicas...sempre pensando numa diversidade uniforme, se é que é possível isso, mas as coisas acontecem e tenho curtido muito isso...o letrista, por melhor que seja, acaba se repetindo quando tem uma obra extensa..então é bom poder conhecer o que outras vozes tem a dizer...o Carpinejar quando ouviu “Cartas de Amor” seu poema musicado por mim, disse: “Ele nasceu pra ser música” fiquei feliz, pois quando musico poetas mortos, beleza...esses não reclamam, mas musicar poetas vivos, é muito, muito complicado...não costumo mudar nada, aliás, acho que não posso, não tenho o direito de mudar nada nas obras, então tenho que achar a música que vista perfeitamente esse poema. Como me sinto no momento da composição? Sinto-me como uma mulher, num sábado á noite, procurando em seu guarda-roupa, o vestido ideal. As mulheres, sempre as mulheres.
26- Sua música pode, perfeitamente, ser excelente fonte de trilhas sonoras para novelas e filmes brasileiros, com melodia e sonoridade indispensáveis ao grande público. Já lhe ocorreu algum convite deste tipo?
Falam muito isso e até já aconteceu sem acontecer...entende? nem eu. Vou explicar. O Zé Rodrix foi convidado pra fazer toda a trilha sonora do filme “Pelé Eterno” e me chamou. Fizemos várias músicas...uma a Gal Costa ia cantar, uma outra era pro Moraes Moreira, outra se não me engano agora era pro Milton Nascimento...lindo..mas esses bastidres são muito complicados...fulando se desentendeu com sicrano e o projeto bateu num iceberg maior que o do Titanic...resumindo...em virtude disso mudou o produtor musical e eu e o Zé ficamos a ver navios, o Titanic inclusive. Sobre novelas, tem gente que teima comigo que ouviu uma musica minha na das oito, mas já estou acostumado...sorrio de lado e digo...é minha sim...e eles dizem...nossa que legal...eu sabia...rsrsrsrsrs
27- Qual a emoção de Receber o Prêmio Jabuti 2009 sendo, “Outros Barulhos”, o seu primeiro livro de poemas? Ter concorrido com poetas reconhecidos e renomados, como Ferreira Gullar, agrega valores a este Prêmio?
Eu costumo dizer que foi “Um susto delicioso” e como diz um amigo meu “você entrou pra turma” é um prêmio muito cobiçado, muito importante para o escritor, reconheço, mas não devemos ficar presos a isso. Temos que escrever e escrever e só. Prêmios são conseqüências de um trabalho bem feito...òbvio que disputar com figuras de peso como Ferreira Gullar e Afonso Ávila, entre tantos outros me deixa orgulhoso, Claro! mas tenho que olhar pra frente..quem olha pra trás é retrovisor...quero outros prêmios, sim...mas antes de tudo vem o trabalho. Quero continuar escrevendo bem.
28- Gostaria de dizer algo para seu público?
Comprem meus discos, meu livro. Falem de mim, podem falar mal, ta valendo, mas falem. Pode ser um clichê o que vou dizer agora, mas é a mais pura verdade...”O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” Um país depende muito da cultura de seu povo.
29- Onde e quando serão seus próximos shows?
Farei shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, depois toco em quatro cidades da Bolívia e tem um projeto pro sul da França ano que vem. Estou preparando meu segundo livro de poemas (Por esses tempos estarei empenhado nisso) mas, tenho dois romances e um livro de contos prontos. Estou em negociação com algumas editoras que se interessaram por meus escritos, mas quero ressaltar que estou aberto a outras tantas propostas, e que venham. É isso. Obrigado Luciana, pelo espaço e pelas belas perguntas. Vamos nos falando. Beijos.
Entrevista concedida em: 08 de março de 2010
http://webentrevistas.blogspot.com/
terça-feira, 4 de maio de 2010
Culinária e abandono
Gosto de cozinhar. Esses dias aprendi um jeito de cortar cebola sem lacrimejar. É batata, quer dizer, é cebola. Você só chora se tiver levado um "pé na bunda" recentemente. Aí não há jeito.
A routine like a Bukowski
Já não sei de quem são esses cílios feito um bichinho
se movendo em minha nuca
também não sei ao certo a cor da pele
as vozes estão cada vez mais longe
a quem pertence esses sapatos, esse lenço, esse batom?
não lembro
há muitos perfumes aqui dentro
minha solidão torna-se maior, não quando elas se vão,
mas sim, quando chegam
de quem é essa toalha? essa peça íntima? Se é que tem uma dona, mas por certo não chegaram aqui sozinhas
elas continuam vindo
sonham com tantas coisas
choram tanto e logo estão sorrindo
elas dizem que gostam de mim, mas
não acredito, sorrio apenas
elas precisam se divertir um pouco pra esquecerem por alguns
momentos o caminho de casa. Necessitam vez em quando
silenciar a solidão ruidosa sob a pele que o tempo lambe
elas gostariam de não mais chorar
estão cansadas
sabem que a vida é uma corda bamba
sabem que o corpo não mais as obedecem
eu as olho, depois escorrego na poltrona e fecho os olhos.
se movendo em minha nuca
também não sei ao certo a cor da pele
as vozes estão cada vez mais longe
a quem pertence esses sapatos, esse lenço, esse batom?
não lembro
há muitos perfumes aqui dentro
minha solidão torna-se maior, não quando elas se vão,
mas sim, quando chegam
de quem é essa toalha? essa peça íntima? Se é que tem uma dona, mas por certo não chegaram aqui sozinhas
elas continuam vindo
sonham com tantas coisas
choram tanto e logo estão sorrindo
elas dizem que gostam de mim, mas
não acredito, sorrio apenas
elas precisam se divertir um pouco pra esquecerem por alguns
momentos o caminho de casa. Necessitam vez em quando
silenciar a solidão ruidosa sob a pele que o tempo lambe
elas gostariam de não mais chorar
estão cansadas
sabem que a vida é uma corda bamba
sabem que o corpo não mais as obedecem
eu as olho, depois escorrego na poltrona e fecho os olhos.
umas e outras...
Noite quente
Vento nenhum
Árvores sem assunto
...............................
Ela não mais me ama
Silêncio sob o lençol da pele
Até a noite reclama
Vento nenhum
Árvores sem assunto
...............................
Ela não mais me ama
Silêncio sob o lençol da pele
Até a noite reclama
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Rimbaud nunca é demais
Todo domingo faço um programa que curto muito. Lá pelas 15h passo na Livraria Martins Fontes, da Paulista com a Manoel da Nóbrega, compro um livro e depois me dirijo ao meu boteco predileto, ali, do ladinho da Martins Fontes. Frequento esse barzinho de calçada há mais de 12 anos. Meu amigo Márcio que está lá muito antes desse tempo, sempre me atende como se eu estivesse num trem rumo as estrelas. Enquanto leio as brejas e bebo o livro, vez ou outra dou uma zapeada pela passarela paulistana: É um espetáculo. Ontem, dia 02, segui essa mesma trajetória e dessa vez comprei: Rimbaud: A vida dupla de um rebelde, de Edmund White. Comprei esse livro tanto pelo Bardo genial de Charleville, quanto pelo Edmund White, que já tinha lido dele em Paris "O flâner - Um passeio pelos paradoxos de Paris" traduzido pelo genial escritor brasileiro e meu xará, Reinaldo Moraes. Aproveitem e leiam os dois, quero dizer os três, tem o Tanto faz do Reinaldo Moraes que é um livro simplesmente genial. Se tiverem fôlego leiam também Pornopopéia que o Reinaldo acabou de lançar e que está concorrendo ao Prêmio São Paulo de Literatura...puta grana. Estou torcendo por ele.
Especialista propõe limites para direito autoral
Ismália Afonso - MinC - 27/04/2010
fonte: Blog do Ademir Assunção
O Direito Autoral não pode ser um elemento desgarrado da ordem jurídica contemporânea. Foi com base nessa crítica que o professor José de Oliveira Ascensão, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, abriu as atividades do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, realizado em São Paulo até esta quinta-feira, 29/4. O encontro reuniu especialistas do Brasil e de outros países para discutirem a digitalização de obras e acervos culturais como uma estratégia para ampliação do acesso à cultura.
No Brasil, a digitalização de acervos não pode ser discutida ao largo da Lei de Direitos Autorais. Isso porque essa última não permite nenhuma reprodução de obras sem a autorização do titular do direito, o que vai no caminho contrário tanto da criação de acervos em meio digital como da permissão de novos usos dessas obras.
Para Ascensão, há uma tensão natural entre o direito autoral e a cultura. Enquanto o primeiro se pauta em privilégios, o segundo se materializa a partir do diálogo e seu fomento trata de generalizar o acesso à cultura. O equilíbrio disso – de acordo com o advogado – é feito pela concertação entre os interesses do autor e da sociedade. Não se pode conviver com o autismo do direito autoral, como se fosse soberano em relação até mesmo à Constituição”, criticou ao falar do direito ao conhecimento e à cultura. O que não faz sentido, segundo ele, é deixar de digitalizar obras que, em grande parte, estão destinadas a se perder.
Economia
Atualmente, o direito autoral é uma mercadoria. É, inclusive, no âmbito internacional tratado pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Em seu relatório de 2009, a própria instância destacou que as regras do direito autoral devem ser mais uma base que um obstáculo para a criação.
Mas, na visão do catedrático, há um paradoxo nessa grande movimentação financeira: “O autor nem sempre ganha mais com a proteção”, disse o especialista português.
Sobre a digitalização especificamente, ele sugere uma compensação entre o que se gostaria de ganhar com o que se pode pagar pelas obras. O momento atual seria, então, o da transformação da cultura física para a digital. Ascensão indicou que formuladores de políticas e especialistas de todo o mundo atentem para o ‘Acordo Google’ como um caminho possível para essa mudança de paradigma.
O acerto entre o Google e a Author’s Guild viabiliza juridicamente a imediata disponibilização na Internet de todas as obras órfãs, as que continuam sujeitas ao regime de proteção autoral mas que seus titulares não são localizáveis. Trata-se do livre acesso a 75% do conteúdo que está sendo ou será digitalizado nas bibliotecas de todo o mundo.
fonte: Blog do Ademir Assunção
Perguntas mortíferas a um escritor.
De onde você tira suas ideias? Como você sabe se uma ideia é boa ou má? Como é que você sabe quando usar diálogo ou narrativa pura, sem diálogos? Quando é que você sabe quando o livro está terminado? Como você escolhe a frase inicial? Como você escolhe o título? Como você escolhe o final? Qual o seu melhor livro? Você já matou um personagem?
domingo, 2 de maio de 2010
PARCERIAS: A VOZ DA POESIA
Série reúne poetas e compositores em shows e bate-papo com a platéia
Uma voz expressiva da poesia brasileira contemporânea e um dos grandes nomes da música popular vão subir ao palco para mostrar suas parcerias e contar como elas surgiram, além de conversar sobre as relações entre poesia e música. Assim deve ser o show-bate-papo que Geraldo Carneiro e Francis Hime apresentam sábado (dia 8), na Biblioteca Alceu de Amoroso Lima, na abertura do projeto “Parcerias: A Voz da Poesia”. Idealizado pelo poeta e jornalista Ademir Assunção, em sua segunda edição o projeto vai reunir outros 12 artistas, em encontros quinzenais: Bráulio Tavares e Antonio Nóbrega, Maurício Arruda Mendonça e Bernardo Pelegrini, Marcelino Freire e José Paes de Lira (Lirinha), Arruda e Alzira Espíndola, Celso de Alencar e Tom Canhoto, Edson Cruz e Reynaldo Bessa.
“A primeira edição, no ano passado, teve noites antológicas, como a de Celso Borges e Zeca Baleiro. Além de parcerias dos dois, Zeca apresentou poemas musicados de Hilda Hilst, Paulo Leminski, Alice Ruiz e Manuel Bandeira, musicados por ele. Neste ano, assim como no anterior, procurei mesclar nomes mais conhecidos do público com outros menos conhecidos. Assim, fica melhor. Os fãs poderão ver seus artistas preferidos em shows especiais e, ao mesmo tempo, conhecerem outros poetas e compositores de grande talento”, afirma Ademir Assunção.
Para a abertura desta temporada, Francis Hime está montando um repertório de muitas parcerias com Geraldo Carneiro, especialmente canções de seu mais recente álbum, “O tempo das palavras... imagem”. Mas o compositor pode apresentar outras surpresas durante o show. “Pode ser que eu inclua algum outro parceiro, de quem eu tenha musicado textos, como Cacaso, Cartola, Manuel Bandeira ou Fernando Pessoa”, adianta Hime, parceiro também de Chico Buarque em canções antológicas, como “Passaredo” e “Vai Passar”.
LETRA DE MÚSICA E POESIA
Ao longo da série, que se estende até julho, devem surgir muitas histórias curiosas sobre as circunstâncias de algumas parcerias. Um dos assuntos recorrentes, também, deve ser as possíveis diferenças e proximidades entre letra de música e poesia. Seria uma “letra” de Cartola menos expressiva do que um poema de Carlos Drummond de Andrade? Ou apenas ambientes diferentes para a mesma linguagem: a arte da palavra?
“Todas as combinações são possíveis nos carnavais da canção e da poesia. As diferenças existem, com certeza. Mas talvez só existam para serem superadas pelos compositores e poetas do presente e do futuro, para que os resultados se tornem cada vez mais amplos”, acredita Geraldo Carneiro, parceiro de Egberto Gismonti, Astor Piazzola e Wagner Tiso.
“Se um poema de 14 linhas pode ser uma obra de arte; se um quadro a óleo de 50 x 50 cm pode ser uma obra de arte; se uma escultura de 30 cm pode ser uma obra de arte; por que diabos uma canção-de-letra-e-música não pode ser uma obra de arte?”, indaga Braúlio Tavares, que tem parcerias gravadas por Antonio Nóbrega, Lenine, Tim Maia e Elba Ramalho.
“Os exemplos de grandes letras/poemas na música brasileira falam por si mesmos. Do ponto de vista técnico creio que o poema se faz com musicalidade própria, solitariamente. Já o poema posto em música ou vice-versa deve dialogar com a harmonia e a melodia, o que impõe uma precisão maior a fim de que a prosódia das palavras possa se acomodar sem distorções. Enfim há uma técnica e uma prática específica. A gente sabe que esse casamento com a música é enriquecedor para a poesia, pois ela volta às suas origens nesse encontro magnífico que é a canção”, arremata o poeta Maurício Arruda Mendonça.
Se para os poetas há uma certa unanimidade sobre a riqueza do encontro entre palavras e sons, e para os compositores, o que os leva a escolher este ou aquele poema para musicar? Para Francis Hime, a escolha é regida basicamente pelo acaso. “Gosto muito de musicar textos. Nem sempre encontro a melodia adequada. Às vezes até me acontece de fazer mais de uma música para um mesmo poema, e depois escolho a que me parece melhor. É claro que a musicalidade e a forma de um poema muitas vezes indicam mais facilmente o caminho a ser trilhado. Mas muitas vezes me deparei com textos aparentemente "imusicáveis" e ao final acabei conseguindo um bom resultado”, conta.
Reynaldo Bessa, autor de músicas para poemas de Claufe Rodrigues, Roberto Piva e Charles Bukowski, presta mais atenção no tema, em primeiro lugar. “Gosto quando se trata de algo que ainda não falei, fora do meu universo costumeiro, ou mesmo quando aborda algo que já visitei, mas de um ângulo completamente diferente. Gosto da sonoridade, surpresa e ritmo que algumas palavras encerram. Gosto da objetividade, do impacto que algumas imagens proporcionam, mas confesso que tenho predileção pelo poema, texto ou letra que consegue ‘rir de si mesmo’. O humor, quando sutil e dentro de um contexto, é um elemento decisivo na minha escolha pelo texto”, afirma.
Essas e outras questões certamente estarão presentes nos bate-papos dos poetas e compositores com o público. Além de muitas canções.
SERVIÇO
PROJETO PARCERIAS: A VOZ DA POESIA
Idealização e curadoria: Ademir Assunção
Poetas e compositores parceiros se encontram para falar sobre poesia e música e apresentam show com ênfase em poemas musicados. Serão sete encontros quinzenais, de maio a julho, sempre aos sábados, às 18h30.
PROGRAMAÇÃO
8 de maio (18h30) – Geraldo Carneiro e Francis Hime
22 de maio (18h30) – Bráulio Tavares e Antonio Nóbrega
5 de junho (18h30) – Maurício Arruda Mendonça e Bernardo Pellegrini
19 de junho (18h30) – Marcelino Freire e José Paes de Lira (Lirinha)
3 de julho (18h30) – arrudA e Alzira Espíndola
17 de julho (18h30) – Celso de Alencar e Tom Canhoto
31 de julho (18h30) – Edson Cruz e Reynaldo Bessa
BIBLIOTECA MUNICIPAL ALCEU AMOROSO LIMA
Avenida Henrique Schaumann, 777 – fone: 3082-5023
130 lugares
Entrada Franca (retirar ingresso com meia-hora de antecedência)
AS ARTISTAS
Geraldo Carneiro é poeta, dramaturgo, tradutor e letrista de música, parceiro de Egberto Gismonti, Francis Hime, Astor Piazzolla e Wagner Tiso, entre outros. Publicou treze livros de poesia e prosa. Traduziu poemas e peças de diversos autores, entre os quais, A Tempestade, de Shakespeare, e Fausto, de Goethe.
Francis Hime, um dos grandes nomes da música brasileira, é compositor, cantor, pianista, arranjador e maestro. Seus muitos parceiros artísticos incluem Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Geraldo Carneiro. Gravou dezenove discos, entre eles Os seis em ponto (1964), Passaredo (1977), Pau Brasil (1982), Choro rasgado (1997) e O Tempo das Palavras... Imagem (2009).
Braulio Tavares, poeta e escritor, publicou um romance, dois livros de contos, vários volumes de poesia e literatura de cordel. Tem mais de 60 músicas gravadas por artistas como Antonio Nóbrega, Lenine, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Tim Maia, Maria Rita, Mônica Salmaso e outros.
Antônio Nóbrega, cantor e compositor, lançou os cds Na Pancada do Ganzá (1996), Madeira que cupim não rói (1997), Pernambuco falando para o mundo (1998), O marco do meio-dia (2001), Lunário Perpétuo (2002), Nove de frevereiro – vol. 1 (2005) e Nove de frevereiro – vol. 2 (2006).
Mauricio Arruda Mendonça é dramaturgo e poeta. Publicou Eu Caminhava Assim Tão Distraído (1997), A Sombra de um Sorriso (2002) e Epigrafias (2002). Traduziu poemas de Nenpuku Sato, Arthur Rimbaud e Sylvia Plath. Recebeu o prêmio Shell-RJ de Autor junto com Paulo de Moraes pela peça Inveja dos Anjos.
Bernardo Pellegrini é compositor, poeta, jornalista. Neste ano está lançando É Isso Que Vai Acontecer, seu quarto cd com O Bando do Cão Sem Dono, coletivo de músicos e poetas que trabalham juntos desde os anos 90. Lançou também Dinamite Pura e Quero seu endereço.
Marcelino Freire, escritor, é autor de Angu de Sangue e Contos Negreiros, vencedor do Prêmio Jabuti 2006, entre outros livros. Vários de seus contos foram adaptados para teatro. É criador e curador da Balada Literária, evento que reúne anualmente uma centena de escritores pelo bairro da Vila Madalena, São Paulo.
José Paes de Lira (Lirinha) é poeta, compositor e ator. Com o grupo Cordel do Fogo Encantado lançou os cds Cordel do Fogo Encantado (2000), O Palhaço do Circo sem Futuro (2002) e Transfiguração (2006). Concebeu o espetáculo solo Mercadorias e Futuro (2008). Escreve canções para cinema e teatro.
arrudA é poeta e compositor. Estreou como compositor ao lado de Alzira Espíndola, assinando as 13 letras do Cd Alzira E (2007). Parcerias da dupla foram gravadas por artistas como Zélia Duncan, Maria Alcina e Carlos Navas. O poeta também assina parcerias com Peri Pane, Vange Milliet e Jerry Espíndola.
Alzira E é cantora e compositora. Lançou os discos Amme (1990), Peçamme (1996), Ninguém pode calar (2000), Paralelas (2005), em parceria com Alice Ruiz, e Alzira E, em parceria com o poeta arrudA (2007). Tem músicas e parcerias gravadas por Itamar Assumpção, Ney Matogrosso e Zelia Duncan, entre outros.
Celso de Alencar, poeta e declamador, publicou os livros Tentação (1979), Arco Vermelho (1983), Os reis de Abaeté (1991), O primeiro inferno e outros poemas (1994) e A outra metade do coração (2003), entre outros. Tem poemas musicados por Walter Franco e Tom Canhoto.
Tom Canhoto é cantor e compositor, mergulhado no universo musical nordestino. Residiu em São Paulo, onde fez shows no Blem Blem Brasil, SESC Pompéia, Casa das Rosas e Centro Cultural São Paulo, entre outros.
Edson Cruz (Ilhéus, BA). Escritor, editor e revisor. Estudou Psicologia, Música, Composição e Letras. Fundador e editor do portal Cronópios (até maio de 2009) e da revista literária Mnemozine. Publicou Sortilégio (2007) e organizou O que é poesia? (2009).
Reynado Bessa é cantor, compositor, e poeta potiguar. Tem cinco cds lançados, entre eles Com os Dentes, Angico e O Som da Cabeça do Elefante. Tem músicas gravadas pela banda Ira e Rita Ribeiro. Publicou o livro de poemas Outros Barulhos, terceiro lugar no 51º Prêmio Jabuti – Poesia.
Uma incumbência nada fácil.
Estou fazendo a apresentação da reedição do livro Cachaprego, do poeta mineiro Wilmar Silva, que será lançado por uma editora carioca. Na minha opinião esse livro é um dos mais dificéis do poeta mineiro. Vamos nessa. Vou abrir meu guarda-chuva sob um Sol torrencial.
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