Espertos

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Quem morrer primeiro...




Para meu grande amigo de infância (...)
falecido recentemente
         



         Estávamos num animado jogo de botão, quando ele, após ter errado uma jogada, me mandou essa: “se eu morrer primeiro, você carrega a alça do meu caixão, se você morrer primeiro, eu carrego a do teu, combinado? Disse-me assim, na lata. Eu tinha só dez anos e ele doze. Após um silêncio, voltei a olhar os meus botões sobre o tabuleiro verde-desesperança e terminei de bater um pênalti que eu havia congelado entre minhas mãos encolhidas, antes dele me vir com essa, na trave.
      O encontrei alguns anos depois quando já tínhamos quase bigodes, quase namoradas e muitas espinhas. Ele continuava com a mesma energia de sempre. Com um copo de uísque na mão direita e um cigarro preso entre o mindinho e o anular da mesma mão, me puxou cheio de cerimônias prum canto e me disse: “lembra da nossa promessa?” Claro que eu não lembrava. Só conseguia lembrar que eu precisava estudar muito, caso contrário não passaria no vestibular e meu pai viria com tudo pra cima de mim. Era só nisso que eu pensava. Então fiquei olhando-o em silêncio. Ele me sacolejou e repetiu a pergunta: “lembra da nossa promessa?”.  Esperou um pouco e veio de novo: “Tá bom, intelectualóidezinho de merda, não lembra, né? Vou refrescar sua mente. Prometemos que quem morrer primeiro carrega a alça do caixão do outro. Não quero nem saber se nas outras alças estará o super-homem, a mulher maravilha, o zorro ou até mesmo o aleijadinho da esquina, contanto que eu ou você esteja em uma delas, ok? Vai, derrama essa coca-cola e dá logo uma bicada aqui no meu uísque”. Enquanto eu dava uma olhada de papel amassado pra minha namoradinha, ele já saía de banda. Era meu melhor amigo. Eu sabia que todos àqueles impropérios que me dirigia, no fundo era a sua forma sincera de me dizer o quanto me estimava. Estudávamos juntos, sentávamos juntos na sala de aula, dividíamos o lanche no recreio, jogávamos bola, botão, juntos.
         Nos formamos. Logo depois ele casou. Convidou-me pra ser padrinho de casamento. A Laurinha, sua esposa era também uma grande amiga minha. Ele deu uma grande festa como era de se esperar. Fui também padrinho do seu primeiro filho. Aos vinte e dois anos já era pai de um lindo casal. Adorava a esposa e os filhos, mas de vez em quando a barra pesava. Quando estava brigado com a Laurinha passávamos horas num bar: ele falando, falando e eu só no "unhum!". Ele parava um pouco, olhava de lado, dava um trago no cigarro, uma bicada no uísque e depois voltava com tudo: “mas sabe o que é?... E ia. Dias depois eu os encontrava num endless love.
         Até que tive que ir embora do Brasil. Ele fez questão de me deixar no aeroporto. Falou o tempo todo enquanto aguardávamos. Eu gostava de ouvi-lo. Era divertido. Quando anunciaram o número do meu voo, ele pôs as mãos na cintura, olhou pra cima como se procurasse um pássaro qualquer, franziu a testa e fechou os olhos. Ficou assim um tempo.  Em seguida, abriu os olhos, rodou em si, foi lá na frente, parou e me olhou de longe. Depois veio com tudo pra cima de mim e me disse “olha”... Não conseguiu passar daí. Abraçou-me e chorou compulsivamente. Depois de um tempinho, veio de novo: “olhe aqui seu escritorzinho de merda, não pense que me esqueci da nossa promessa, viu?” Eu o olhei e ri. Anunciaram meu voo novamente. Eu tinha que ir. Ele riu e me abraçou. Ajeitou o colarinho da minha camisa como se eu fosse seu irmão mais novo. Quando atravessava o corredor do portão de embarque, pude vê-lo dando pulinhos na intenção de ainda me ver.
        No início nos falamos muito por telefone, cartas, telegramas, mas depois o tempo foi mandando em nossas decisões e perdemos completamente o contato. No percurso de nossa vida, acabamos encontrando outras pessoas e passamos a viver em sintonias diferentes.
        Dores e notícias ruins só nos chegam no escuro.  Era madrugada quando o meu telefone tocou e uma voz de mulher me disse que ele acabara de morrer. Era a sua mãe. Eu sentei rapidamente na cama e não sabia o que dizer. Ela foi falando e falando. Disse-me que um dia ele reuniu todo mundo num jantar e falou sobre nossa promessa. Eu ainda meio tonto, tentei articular alguma coisa... ”Mas que promessa, meu deus?”.  Então ela me disse que eu seria uma das pessoas a carregar o caixão. Ele fazia questão. Disse-me também, que num dado momento ele havia dito que isso não seria nosso último gesto de uma grande amizade, mas sim, o primeiro de uma nova vida. Não entendi. Mas fingi ter entendido.
       Tentei comprar passagens para logo cedo, mas não consegui. O enterro seria no final da tarde. Só achei para as 14h. A viagem seria de três horas ou mais. No tempo que viajava fora de mim, a viagem durou mesmo três horas, mas no tempo dentro de mim, ela ainda não terminou. Destroçado, perdido, apressado, rompi pelo portão de desembarque como se não estivesse em meu próprio país. Entrei no primeiro táxi que vi e fui logo passando o endereço. Pedi pra ir o mais rápido possível. O carro parou em frente a casa dele (outro pedido dele do qual não abriria mão: ser velado em sua casa) saltei arrastando uma pequena mochila, paguei e corri pra dentro de casa. Quando sua mãe me viu, sorriu como se me abraçasse. Laurinha, aos prantos, correu em minha direção, me enlaçou forte e só conseguiu me dizer: “ele se foi, ele se foi, ele se foi”. No primeiro momento não a reconheci. Tinha envelhecido muito. Depois avistei dois adolescentes tristes, de olhos inchados, bem na minha frente, esperando que eu os abraçasse. Os abracei. Todos estavam me esperando pra poder dar seguimento a coisa. Precisávamos ir com urgência. O cemitério fecharia logo em seguida. Joguei minha mochila em algum lugar, olhei pra alça do caixão, olhei pros meus dedos, depois fechei a mão ainda sem a alça entre eles e tentei pensar que não era o meu melhor amigo de infância ali dentro. Dei uma olhada em volta da sala: Laurinha, com lábios trêmulos, olhava pros meus dedos e pra alça do caixão, seus filhos faziam a mesma coisa, a mãe dele, nem preciso dizer. Olhei novamente pra alça. Depois, num misto de amor e ódio, a envolvi entre os dedos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

(Dez)aforismos

1- O amor é àquele piano dedilhado baixinho, lá atrás, num jazz.
2- O prazer não exige concentração: é uma total perdição.
3- A noite é a única adolescente de coração tranquilo.
4- O humor é a graxa do mundo.
5- Dos países que visitei, a infância foi o único que senti vontade de voltar.
6- O universo não é maior que o colo de uma mãe.
7- Este vento suave que entra pela minha janela, só o troco por outro vento suave que entra pela minha janela.
8- Conselhos são como uma loja de sapatos que nunca tem o nosso número.
9- Só as estradas lidam bem com a distância.
10- Não vejo TV aberta: não quero virar um canal fechado.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A velha balada do ano novo

           Toda a ansiedade, afetação, todos os barulhos, expectativas tinham cessado. Até que não foi tão difícil. Pensou. Muito antes chegou a pensar que não iria aguentar, - estava ficando fraco? - mas é que quando o lance veio, outras coisas também foram acontecendo e tudo foi se misturando e aí ele já não sabia mais o que era o que. Só por um breve momento saiu do ritmo dos outros e puxou-se prum canto, mas logo viu que isso não o levaria a lugar nenhum, então cerrou os olhos e deixou-se ir. Depois uma coisa começou a vir pelo corredor: uma coisa que na verdade eram outras coisas que saíam logo que os pingos da chuva tocavam as pedras envelhecidas do jardim. Isso veio com tudo, mas aí, alguém, como um personagem que sai de um filme e entra em um outro, num corte bruto - assim como são os cortes da tristeza ou da alegria - apareceu com uma taça erguida em sua direção e lhe disse: feliz ano novo. Ele com um sorriso saído de uma gaveta cheirando a ontens e que um dia foram amanhãs e hojes olhou meio de lado, ergueu melancolicamente sua taça e disse: feliz ano novo, depois tomou um gole e ficou tentando lavar a mentira entre os dentes. Juntou-se ao restante. Não exatamente porque quis. Apenas fora levado como se alguém invisível lhe puxasse pelo braço. Todos estavam ali mesmo? Traziam tantos sorrisos e esperanças que era difícil de acreditar. Quem tivesse algo de ruim pra contar que se retirasse. Era isso? No meio do frisson, sem querer, pensou numa frase: “quando a porta da casa em que você vive se escancara e alguém que você gosta muito sai definitivamente por ela, até as portas das casas que já não mais existem também se escancaram”.  Ele lembrou-se da porta aberta e do largo silêncio que ficou.  Ainda soava em seu ouvido como um zumbido saído de uma concha do mar. Tinha que mudar isso, portanto, olhou pro outro lado como a tentar vasculhar outra caixa de pensamentos. A chuva fina embaçava as janelas e ele pensou que elas também poderiam usar óculos. Ao pensar nisso, rio, rio de si mesmo. Isso seria um bom sinal? Talvez, talvez.
            Chegaram a casa com a sensação de que tinham dado o melhor de cada um. Pelo menos foi o que sentiu. Todos os anos a mesmíssima coisa. Ele já não sabia se as pessoas não queriam mudar ou se existia algo mais além que as impedia de fazê-lo. Estava muito cansado pra pensar em perguntas desse tipo, então mergulhou numa cama que havia sido posta especialmente pra ele. Sentiu que a noite lá fora começava a colar na noite dentro dele. O arpão estava lá. Podia senti-lo mais presente que uma de suas pernas ou braços, ou até mesmo mais que sua cabeça. Fechou os olhos como se entrasse em um barco. Quilhas cortando o escuro líquido. Isso seria como morrer? Perguntou-se. Perguntou-se também quanto daquele escuro representava passado, presente ou até mesmo futuro. Despertou com alguém lhe tirando os sapatos. Era um negro tão nobre quanto um rei. Um rei negro lhe desatava os sapatos como se lhe acariciasse os cabelos, como se lhe protegesse do frio, como se lhe secasse todas as lágrimas. O filho dele, um pequenino e sorridente pingente, ao seu lado, lhe abraçava como se lhe conhecesse de outras existências. Quem sabe? Só uma criança consegue ser risonhamente profunda. Seus olhos eram como sóis e sua voz lhe chegava como ventos balançando roupas num varal que ele havia contemplado em algum momento na caixinha da sua infância. Aquela criança lhe conhecia como ninguém. Ela se enroscou nele e logo adormeceu. É isso, as crianças conhecem a dor, mas, assim como fazem com seus brinquedos, as deixam de lado a qualquer momento. Pensando nisso, olhando-a dormir e vendo o rei negro pôr seus sapatos juntinhos num canto e desaparecer com um “boa-noite” num tom que só os grandes amigos conseguem atingir, sentiu o barco parando, estalando, se partindo e, por fim, afundando no escuro profundo e macio. Tão macio que lhe arranhava as pálpebras. Enquanto seus olhos ardiam, um silêncio foi-se tomando forma. Silêncio negro onde coisas nunca sabidas acontecem.
              Acordou mais cedo. Sabia que logo as crianças romperiam pela sala como corcéis. Em silencio, desfez a cama. Pensou em deixar um bilhete, mas também pensou que isso já não se usava mais. Então, escreveu algumas palavras de agradecimentos num papel invisível do seu pensamento e as deixou sob uma xícara. Saiu de fininho e fechou a porta.
                O ano velho, talvez como uma forma de protesto, deixara uma chuva fina para o ano novo. Ela caía sobre ele como um carinho úmido, como uma bênção. As ruas estavam vazias. Só ele e a chuva se movimentavam. Pensou em pegar um táxi, mas queria andar, queria aproveitar a ociosidade das ruas. Precisava mexer tudo o que pulsava nele. Pôs uma música no ipod. Na mosca. Pensou. Foi indo. Lembrou-se do arpão. Não queria pensar nele. Ainda estaria lá? Claro! Essas coisas não desaparecem assim. Mas não ia pensar nele agora. No momento, as únicas coisas que realmente lhe interessavam, eram: a chuva fina, a reverência das ruas e uma canção no ipod, que dizia: “Minha moeda já está girando no ar e que seja o que tiver que ser”

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"la amistad no necesita frecuencia y el amor si..." (Borges)

Borges - Conferencia La ceguera 1

Antes de morrer, Jorge Luís Borges (escritor Argentino) havia perdido a visão total de um olho e a parcial do outro. Ele dizia que, afora o vermelho, podia ainda divisar algumas cores, como o azul, verde (o branco era confundido com o cinza) mas que uma cor havia se mantido leal: o amarelo. Até o fim de sua vida. Os pais, avós e outros parentes do escritor também morreram cegos.


domingo, 1 de janeiro de 2012

O sussurro nos vãos dos dias (por Beatriz Bajo)

O SUSSURRO NOS VÃOS DOS DIAS

impressões sobre Outros Barulhos, de Reynaldo Bessa

(Por Beatriz Bajo)

Eu não sabia o que ia acontecer até ler este livro
posso dizer que ele não saía da minha bolsa
e era um atrevimento de espionar o que de tão meu poderia caber
ao seu lado – tudo bem, com meu consentimento –
mas eu estava totalmente
ingênua nisso
em relação ao sopro que ele exerceria sobre meus dias
silenciosos.
É isso...o barulho de Outros Barulhos vem de seus olhos
refletidos nos de sua mãe
e das palavras, sempre elas que
“se chocam no ar, outras rolam pelo chão” (30)
O ritmo do poeta-músico é forte como a gravidade
da nota acertada no meio do peito-livro
– que “se enche de universos” (86) –
em que me debruço
ao mesmo tempo em que desliza tênue sobre as ideias folhadas
assim dispara Reynaldo: “Escrevo/ porque sou viciado/ no movimento/
das incertezas" (83)

e foi então que ele (o poeta) disse-me com a palavra
mais deslavada, assim, numa audácia de trincar os olhos
os seguintes versos requintados:
"construo bombas para um dia
explodir os
seus silêncios" (94)

ok! explodir meus silêncios faz parte dessa arquitetura
besseana de deflagrar meu assombro diante de sua obra
haja vista que “isso não é um poema é uma vida, a dele./
há sangue nas entrelinhas.” (grifo meu, 114)
a poesia de Bessa é arrebatadora exatamente por isso,
porque é de uma sinceridade comovente, à espreita da vidinha,
aquela que está ao alcance de qualquer um que a olhe com os canais
do estranhamento ligados pela intimidade com o arrepio do existir

falar de Outros Barulhos não é difícil pelo seu imediato
reconhecimento no contexto literário,
nem porque Reynaldo Bessa é um músico e compositor talentoso,
com especial habilidade para tratar de palavras e sons
mas, porque agora ele lida com outros barulhos, os de dentro
dentro desse silêncio atordoante que é a poesia,
porque ele trabalha com o silêncio que dói
que entala, que nos engasga...como diz:
“e esse mundo preso na garganta que não desce nunca?” (27)
um mutismo que pode nos destronar,
mas também pode ser construtor, no seu caso, de mundos outros

o poeta escolhe versos curtos, flashes cotidianos
embaçados pelos tempos que se embaralham dentro
da vida: “apenas um dia/ que despencou do/ calendário” (37)
e essa vida é recheada de reveses, desapontamentos,
desencontros, e demasiada sensualidade.
tão adaptado ao trabalho manual de pegar as palavras,
tropeça com a pele de palavras que escrevem o corpo desejado:
“seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar” (104)

ainda, descreve um coração insubordinado, relutando
com as profundezas de um ser compartilhado consigo
próprio. Reynaldo oferece-se partido ao presente,
“meu coração é um filho rebelde
ouve música às alturas, usa piercing,
fala estranho e está cagando pra mim.”,
em que peleja entre o racional e o emotivo,
novamente conjuga tempos e transita
entre os papéis hierárquicos existentes
na instituição familiar, tão aclamada neste livro
de ascendências

no entanto, há momentos de declinações flagrantes
que perturbam nossas percepções como “uma notícia estupidamente vermelha,”
deflorando a banalidade dos dias: “é dura feito pedra e/ voando veloz estilhaça a/
janela dos meus sonhos (53)
na obra que caminha em busca de alcançar o espectro da
paternidade, insígnia desfraldada pela voz tão proeminente masculina
dos versos de Outros Barulhos, o poeta conta que se lembra bem
apenas de um homem:
“costeletas aparadas e
cheirando a creme de barbear
caminhava com o andar que agora é meu
trazia os olhos longe, um sorriso torto e
estradas entre os dentes...” (88)

morando entre adeus adiados, Reynaldo nunca se despedirá
da fragilidade pueril de seus tempos miúdos
porque carrega a delicadeza
no colo dos versos: “meus pés balançavam as estrelas,”
e entende a brutalidade da vida sublimada na poética
das sutilezas: “como pode alguém com fome/
ter medo de relâmpagos?” (18)

Bessa fabula exatamente relâmpagos neste livro.
há momentos de versos cintilantes que
permanecem latejando por dentro
dos entendimentos
ou resplandecendo onde não se entenderá nunca nada
pois, se o poeta diz: “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (107),
eu digo que seu livro está na minha cabeceira,
de olhos desabotoados
comendo minhas quietudes,
vasculhando o que há na minha bolsa
e não parará de fazer uns, certos, vários, todos
os mesmos ou outros barulhos.

referência:
BESSA, Reynaldo. Outros Barulhos. Belo Horizonte: Anome Lvros, 2008

sobre o autor:

Reynaldo Bessa é cantor, compositor e escritor. Cinco discos lançados. Lançou seu primeiro livro de poemas "Outros Barulhos" em 2008 (Prêmio Jabuti 2009) que concorreu ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009.
BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). a face do fogo é seu livro de estreia, pelo selo [e] editorial (uma parceria da Annablume com a Demônio Negro). O segundo livro, : a palavra é, foi lançado  pelas editoras Atritoart e Kan, de Londrina. Traduziu o livro Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora e trabalha atualmente com uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem. Participou do livro de entrevistas Diálogos com a Literatura Brasileira - volume III, organizado por Marco Vasques (Movimento, Porto Alegre/RS; Letradágua, Joinville/SC, 2010) e da antologia Moradas de Orfeu, organizada também por Marco Vasques (Letras Contemporânes, Florianópolis/SC, 2011. Além deste blogue, divide com seu parceiro Marcelo Ariel a manutenção do Esquina Literária (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 5 em Londrina-PR.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Respirar

porque às vezes
a noite fica do tamanho
de um elevador: onde não se olha,
não se fala, não se respira direito e
onde não se vê a hora
da porta amanhecer?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

tua boca:
imponente catedral,
sobre uma longa escadaria
onde, de joelhos,
meus olhos a
imploram 



na península Valdés (Chubut - Argentina)
sob um frio aterrador.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Meus 10 livros de 2011

1 - 2666 - Roberto Bolaño
2 - Herzog - Saul Bellow
3 - Memória de elefante - António Lobo Antunes
4 - Pornopopéia - Reinaldo Moraes
5 - Ninfa Inconstante - Cabrera Infante
6 - Nêmesis - Philip Roth
7 - Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski - Jorge Wanderley (tradução)
8 - Henderson - o rei da chuva - Saul Bellow
9 - Ódio Sustenido - Nelson de Oliveira
10- A dupla chama: amor e erotismo - Octavio Paz


sábado, 17 de dezembro de 2011

Crônica poética

carros apressados
faróis como olhos loucos,
vermelhos
cigarros-cravo, tridents, entre outros,
perfumes,
homens e suas prováveis mulheres
eles tamborilam bolsos desesperados
elas sobrevoam outros céus, tantos:
os sonhos além dos sonhos, sempre
disfarces:
pulseiras tilintam ansiedades
isqueiros revelam rugas
abraços apertados de distâncias
prisões de chaves verbais,
escancaradas, sempre
o terceiro sinal
eles somem na escuridão de uma peça ruim,
mas o olhar de uma delas fica preso lá fora em alguém.
em alguém que "nunca" chegará a conhecer?
talvez: "nunca" é um lugar muito visitado
sempre.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Paiol

meu coração é
um paiol repleto de
vida inflamável.
por favor!
definitivamente,
acenda os seus equívocos

um pouco.............................................................................. mais pra lá

Voltando?

 
voltando dos círculos da morte.
entrei vivo, mas não fui permitido lá.
até gostaria.
só Dante teve esse privilégio e
com direito a guia.
eu só tive os cílios umedecidos dos
verdadeiros amigos delineando desesperados sinais
em semáforos de um verde impossível.
volto (Volto?) sob o pó do cansaço, encharcado de escuro e
com os dedos trêmulos e ainda tentando segurar a alça de um ataúde
que há pouco desapareceu no escuro infinito

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vai uma graxa aí, freguês?

         Numa madrugada, num aeroporto do Uruguai encontrei dois moleques engraxando sapatos. Eram irmãos. Um tinha onze anos e o outro quatorze. Eles ainda estavam sonolentos como meninos que são arrebatados da cama, feito frutos arrancados dos galhos antes do tempo. Os sapatos embaçados dos gringos, aos olhos dos dois moleques, brilhavam como ouro. "Vai uma graxa ai, freguês?" Isso era o tempo todo. E nada. Eu os observava atentamente. As pessoas estavam preocupadas com outras coisas. Ninguem queria engraxar. O mais novo coçava os olhos como se chamasse a mãe.
      Eu estava esperando meu voo que ia demorar horas a fio. Estava ainda com os coturnos que usara no show que acabara de fazer. Depois de alguns minutos, não aguentei mais e gritei: "ei, quero engraxar" os dois se levantaram ao mesmo tempo como roupas velhas no varal que são arrebatas por um vento traiçoeiro. Correram em minha direção como se disputassem uma corrida. Falei: você engraxa o coturno esquerdo e ele engraxa o coturno direito. Fiquei lá, com saudade de casa e achando que aqueles meninos, nem que fosse por um breve espaço de tempo, fossem meus filhos. Suas flanelas soavam como canções sobre meus coturnos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Há um lugar

Há um lugar
onde as árvores não são tristes e
um azul intenso ou um negro rasgado de estrelas
debruça-se sobre cálidos lagos
Um lugar
Onde há sempre um coro de crianças vazando das manhãs e
tardes se desmancham sobre as coisas como ouro em pó
Onde o vento traz sons de sinos distantes e cheiros de lençóis passados por mãos de mães dedicadas
Há um lugar, dentro de um lugar e que está fora de outro lugar
Ele não pode ser atingido, humilhado, saqueado, destruído.
Ele está lá, não como um país a ser descoberto, mas, sim visitado
Quantas vezes necessitares
Nunca nasceu e, portanto nunca morrerá, apenas existe e pulsa,
quieto feito um bebê alimentado e dormindo sobre um colchão macio e recheado de antigas canções
Tudo a sua volta pode ser demolido, soterrado, contaminado, corrompido,
mas lá, dentro, bem dentro do que seria o centro ou não, a
maldade não chega nem até a varanda.
Não porque é expulsa ou evitada,
mas porque reconhece que lá ela não reflete
não soa, não viceja
Um lugar que desconhece a ira, o ódio, a estupidez, a calúnia, a inveja
Que está distante do equivoco, da soberba, da miséria, do infortúnio
Tão difícil e fácil de achar esse lugar
Há um lugar, sim, eu sei
Como uma pérola numa concha sob o lodo da ignorância
Ele é meu, mas ao mesmo tempo de todos.
Mas único, como um lindo objeto refletido em infinitos espelhos
Quando tudo morre à sua volta, ele está ainda mais vivo
Pulsando, vivendo, rugindo
intacto
Esse lugar
Não está perto, nem longe.
Está dentro de nós

domingo, 20 de novembro de 2011

Colo

gostaria dos teus dedos
em meus cabelos. E
que eu dormisse, mas
que não te perdesse de vista
dos meus sonhos

Entrevista com António Lobo Antunes

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O amor é um cão dos diabos.

  (Letra e música de Reynaldo Bessa)
O amor
é um cão, uma megera
Uma dor de soslaio na janela
um cisco no olho da razão
um fosso, uma fenda, uma quimera
uma puta vestida de donzela
um olho no sim,
o outro no não

Quando chega
é sempre um alvoroço
é um “tal” de agora tudo posso
até faz o sol se esconder
Mas quando se vai, desaparece
não há praga, pranto, não há prece
que faça o bruto amolecer

Malandro, mala, malaco
se eu te pego eu te mato
te parto, deixo vermelho
cara, carinha, se manda
vai devagar, sai de banda
vai se olhar no espelho

O amor
é um salto no escuro
um rasgo no olho do futuro
um descrente pregando seu sermão
um corte, um rombo, um furo, um talho
uma flecha buscando um atalho
pra trilha direta ao coração

Quando chega
é um deus nos acuda
o diabo também oferta ajuda
estrelas tilintam de alegria
Mas um dia se esvai, é tiro certo
atinge até quem não tá perto
com a faca cortante da agonia
 o título é em homenagem ao escritor Charles Bukowski

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Às vezes...

às vezes
penso
que não
pertenço

Um minuto

a vida dura um minuto
e não quero vivê-la intensamente apenas porque ela é curta,
mas porque só assim ela é realmente vivida
quanto tempo dura um minuto? (ela perguntou)
depende de quem olha (acho que disse isso)
nossa...vc me fez lembrar de uma frase do Saramago q fala disso.
vou tentar achar (ela disse bastante animada)
um minuto na lua dura quase uma hora
aqui dura um minuto
em saturno dura um ano
muito além, um minuto dura um ano luz
se vc espera alguém que ama,
um minuto dura uma eternidade
se vc espera uma sentença, aí ele dura um segundo
na verdade, nada dura nada
nós é que esperamos demais.
nós é que nao sabemos esperar... (ela finalizou, já sonolenta)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

vazio

há dias
em que não há dias
adio

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CAMINHOS EFÊMEROS DA POESIA

A Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo abre espaço para os “Caminhos Efêmeros da Poesia”, um espaço localizado às margens do Lago, num trajeto de aproximadamente 600 metros, nos quais serão inscritos no asfalto frases e poemas de Rita Alves, contornando as raízes das árvores que romperam o piso.
Os poemas serão grafitados pelos Gêmeos da Arte, Anderson e Robert Pinheiro, aliando as letras às artes visuais de modo democrático e consciente, proposta totalmente integrada ao meio ambiente.
A ideia é do diretor do Parque Ibirapuera, Heraldo Guiaro, prontamente, abraçada pelo secretário Eduardo Jorge, entusiasmado com a possibilidade do meio ambiente interagir com a poesia e com as artes plásticas.
Heraldo pretende abrir a possibilidade de se utilizar este espaço para novas intervenções efêmeras, de modo a estimular no visitante uma inquietação diante da proposta, de modo a fazê-lo sentir-se parte integrante do processo poético, que passe a transitar pelo trajeto num movimento de dentro para fora, interagindo com o espaço da natureza, em que o meio ambiente é o principal veículo suporte para a mostra da curadoria de poemas.
O evento de abertura contará com shows musicais, sarau de poesia, além da instalação do relógio poético “Poesia não tem Hora”, uma criação de Rita Alves e do artista e publicitário Lee Swain, um relógio de sol que terá uma das árvores do parque como ponteiro para as horas poéticas.  Placas de concreto em formas orgânicas, imitando a textura de rochas, nas quais os visitantes poderão pisar as horas, e nas placas inscritos versos de poetas contemporâneos, já constando na lista de sumidades Alice Ruiz, Lívia Garcia Roza, Flávio Viegas Amoreira, Guilherme de Faria, Reynaldo Bessa, Rita Alves, Roberto Piva, Thiago de Mello, Estrela Leminski, Luis Serguilha, Sonia Cintra, Claudio Willer, que comporão as doze horas.

Rita Alves é paulista, historiadora, ensaísta, crítica de arte e literatura e poeta.  Recebeu em 2010 o prêmio Literatura da Comunidade África Brasil pela sua publicação “Tela de Letras”. Colabora com a família Orlando Villas Boas para a preservação do acervo do indigenista, curadora de artes plásticas, dirigiu o grupo G-Onze em algumas exposições pelo mundo. Escreveu edição comemorativa aos 400 anos de Padre Vieira, pelo Memorial da América Latina.  Escreve para a revista Lusofonia, dos 8 países de língua portuguesa e é membro do Centro de Estudos Pessoanos, além de ser compositora e colaboradora direta da Estação Primeira de Mangueira.

Serviço:
DATA: 05.11.2011
HORA:  das 18h às 21h
LOCAL: margem do lago
Apresentações:
. Os Chorões
. Os Trovadores Urbanos
Leitura de poemas por Luciana Vendramini, Jayme Periard, Cássio Junqueira, Pedro Vicente Alves Pinto, Guca Domenico e Heraldo Guiaro.

Direção:  Heraldo Guiaro
Curadoria: Rita Alves
Coordenação Geral: Érika Gartner – Coordenação de Eventos Parque Ibirapuera.

sábado, 15 de outubro de 2011

Ainda...vivo

Depois de sentir o cheirinho de café e ouvir o sutil barulhinho de folhas secas arrastadas pelo vento, fui até minha janela conferir este pequenino universo. Eu sempre soube que algum dia, em alguma janela de algum lugar, contemplaria esta paisagem morta. Agora estou aqui diante dela, sim, mas vivo, vivo..ainda.

Universinho


Quando eu chegava em casa, 
apressado, estressado, cansado, assustado, 
corria para o berço da minha filha e 
deixava meu dedo entre os seus dedinhos. 
Ela, ainda dormindo, apertava e sorria. 
Uma mãozinha, pequenina, me guiando 
por um mundo imenso.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ALGAROBAS URBANAS - IMPRESSÕES DOS LEITORES



"Esses contos e os outros deste livro tocam a corda mais sensível de nossa fantasia. 
Por isso certos parágrafos doem tanto. Há alfinetes neles. Há imagens pontiagudas e poéticas, que laceram as retinas do leitor. Reynaldo Bessa sabe injetar na prosa o lirismo mais inquietante."
(Nelson de Oliveira - Escritor - SP) (Orelha)



"Reynaldo Bessa oferece-nos contos belos e pungentes, exorcizando a memória dolorosa da infância e juventude, e dialogando com a figura dura e marcante de seu pai. Seu narrador, quase sempre em primeira pessoa, nos conduz pela mão em um passeio intermitente entre o tempo passado, rememorado e o tempo presente cristalizado e esburacado pelas vivências não cicatrizadas. "
(Edson Cruz - Poeta - SP) (Prefácio)


"Adorei tuas Algarobas Urbanas! Degustei em dois dias. Sugiro que na próxima edição seja incluído um cd com as músicas recomendadas. Sucesso!"
(Márcia Peçanha Gonçalves - Poeta- SP)

"Meu coração foi transpassado por uma haste de Algaroba. (após ler Algarobas Urbanas, contos)
(Mariana Collares - Escritora - RS)
 
"Os domigos e o carro de Apolo e Keyla são os contos mais estranhamente lindos que já li"

(Gil - Professora - Filósofa - SP)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

As algarobas estão chegando...

O músico e escritor, Reynaldo Bessa (Prêmio Jabuti 2009 - na categoria poesia) lança seu segundo livro.




Terça-feira - 27 de setembro · 19:00 - 23:00




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Lugar Bar Empório Alto dos Pinheiros
Rua Vupabussu, 305 - Pinheiros
São Paulo (São Paulo, Brazil)

sábado, 17 de setembro de 2011


dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul infância.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

infinitas variações sobre um tema impossível...

depois de vinte anos, voltei pra casa.
encontrei minha mãe no portão.
"menino, por onde andava?
entra, vai tomar banho, o jantar tá na mesa.
seus chinelos estão perto da cama.
partido:
mais uma partida
perdida pra vida
ela é viva
uivo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Esquecimento...

um tiro
na têmpora da
memória

Monotonia

Gosto do abrir e fechar monótono dos semáforos.
Do ir e vir desesperado dos automóveis.
                               Das zebras urbanas.
                               Da carência das ruas.
Das lembranças levadas pelo vento cansado de ser vento.
Das gotas enferrujadas das horas sobre homens esquecidos.
Gosto de olhar tudo isso e pensar que estou imune,
                               enquanto
as gotas amarelas das horas despencam
                               sobre
                                     minha
                                           ca
                                              be
                                                ça
                                                   .
                                                     .
                                                       .................................

Quando...

Quando a dor mostrou os dentes.
Quando o frio secou seus lábios.
Quando seus cabelos se tranformaram em
labaredas negras.
Quando suas costas afogaram-se em
meus olhos úmidos: me contentei com
os magricelas e lânguidos garis,
varrendo meus sonhos caídos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ECOS DA ALMA - EDITORA ANDROSS (ANTOLOGIA)


Organizadora - Guaciara Micheletti

Prefácio de Reynaldo Bessa

Escrever, escrever e escrever.

domingo, 4 de setembro de 2011

Algarobas Urbanas - contos (Editora Patuá) - segundo livro do músico-escritor, Reynaldo Bessa - Lançamento em setembro.


"Reynaldo Bessa sabe injetar na prosa o lirismo mais inquietante. Não podemos esquecer que ele também é um poeta de mão cheia, autor da coletânea Outros barulhos (prêmio Jabuti de 2009 na categoria poesia)."

Nelson de Oliveira
Escritor
(Autor de vários livros - APCA  e  prêmio la casa de las américas / Cuba)



"As vivências compartilhadas pelo narrador sensível de Algarobas Urbanas são verdadeiros ritos de passagem, tocantes e cheias de humanidade."

Edson Cruz
Escritor
(Autor de "Sortilégio"/ "Sambaqui", entre outros)


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Solidão pós morte

Sacou todas as suas reservas. Comprou a roupa que sempre sonhara: o olho da cara da sua alma. Abriu a caixa dos sapatos importados, cortou o cabelo naquele salão famoso que nunca pensara que entraria um dia. Aproveitou e fez barba e unhas. Tomou um banho demorado. Penteou-se como se rezasse um terço. Abriu o último dos perfumes que trouxera de Paris. Depois de pronto, perfumado, olhou-se no espelho e até chegou a sorrir. Seu último sorriso? Provável. Sempre fora vaidoso em vida, seria também na morte. Deitou-se e morreu. Foi achado um mês depois.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

enterro

enterrei o corpo,
mas não enterrei a culpa.
pior que teu fantasma errante, torto
é esta senhora me vigiando
com olhar de lupa.

Onde está mesmo, pai?

Quando eu já conseguia andar com minhas perninhas, meu velho me veio com essa: "Procure nos bolsos da calça, da camisa, sob os chinelos, sob as unhas, atrás das orelhas, sob os cabelos, entre os cílios. Sabe o que são cílios? Vamos, procure-o. Agora dentro das calças, sim, entre as pernas. Dê uma boa vasculhada ai...Não o achou, né? Sim, porque não são nesses lugares que está o seu caráter...Continue procurando.