Para meu grande amigo de infância (...)
falecido recentemente
Estávamos num animado jogo de botão, quando ele, após ter errado uma jogada, me mandou essa: “se eu morrer primeiro, você carrega a alça do meu caixão, se você morrer primeiro, eu carrego a do teu, combinado? Disse-me assim, na lata. Eu tinha só dez anos e ele doze. Após um silêncio, voltei a olhar os meus botões sobre o tabuleiro verde-desesperança e terminei de bater um pênalti que eu havia congelado entre minhas mãos encolhidas, antes dele me vir com essa, na trave.
O encontrei alguns anos depois quando já tínhamos quase bigodes, quase namoradas e muitas espinhas. Ele continuava com a mesma energia de sempre. Com um copo de uísque na mão direita e um cigarro preso entre o mindinho e o anular da mesma mão, me puxou cheio de cerimônias prum canto e me disse: “lembra da nossa promessa?” Claro que eu não lembrava. Só conseguia lembrar que eu precisava estudar muito, caso contrário não passaria no vestibular e meu pai viria com tudo pra cima de mim. Era só nisso que eu pensava. Então fiquei olhando-o em silêncio. Ele me sacolejou e repetiu a pergunta: “lembra da nossa promessa?”. Esperou um pouco e veio de novo: “Tá bom, intelectualóidezinho de merda, não lembra, né? Vou refrescar sua mente. Prometemos que quem morrer primeiro carrega a alça do caixão do outro. Não quero nem saber se nas outras alças estará o super-homem, a mulher maravilha, o zorro ou até mesmo o aleijadinho da esquina, contanto que eu ou você esteja em uma delas, ok? Vai, derrama essa coca-cola e dá logo uma bicada aqui no meu uísque”. Enquanto eu dava uma olhada de papel amassado pra minha namoradinha, ele já saía de banda. Era meu melhor amigo. Eu sabia que todos àqueles impropérios que me dirigia, no fundo era a sua forma sincera de me dizer o quanto me estimava. Estudávamos juntos, sentávamos juntos na sala de aula, dividíamos o lanche no recreio, jogávamos bola, botão, juntos.
O encontrei alguns anos depois quando já tínhamos quase bigodes, quase namoradas e muitas espinhas. Ele continuava com a mesma energia de sempre. Com um copo de uísque na mão direita e um cigarro preso entre o mindinho e o anular da mesma mão, me puxou cheio de cerimônias prum canto e me disse: “lembra da nossa promessa?” Claro que eu não lembrava. Só conseguia lembrar que eu precisava estudar muito, caso contrário não passaria no vestibular e meu pai viria com tudo pra cima de mim. Era só nisso que eu pensava. Então fiquei olhando-o em silêncio. Ele me sacolejou e repetiu a pergunta: “lembra da nossa promessa?”. Esperou um pouco e veio de novo: “Tá bom, intelectualóidezinho de merda, não lembra, né? Vou refrescar sua mente. Prometemos que quem morrer primeiro carrega a alça do caixão do outro. Não quero nem saber se nas outras alças estará o super-homem, a mulher maravilha, o zorro ou até mesmo o aleijadinho da esquina, contanto que eu ou você esteja em uma delas, ok? Vai, derrama essa coca-cola e dá logo uma bicada aqui no meu uísque”. Enquanto eu dava uma olhada de papel amassado pra minha namoradinha, ele já saía de banda. Era meu melhor amigo. Eu sabia que todos àqueles impropérios que me dirigia, no fundo era a sua forma sincera de me dizer o quanto me estimava. Estudávamos juntos, sentávamos juntos na sala de aula, dividíamos o lanche no recreio, jogávamos bola, botão, juntos.
Nos formamos. Logo depois ele casou. Convidou-me pra ser padrinho de casamento. A Laurinha, sua esposa era também uma grande amiga minha. Ele deu uma grande festa como era de se esperar. Fui também padrinho do seu primeiro filho. Aos vinte e dois anos já era pai de um lindo casal. Adorava a esposa e os filhos, mas de vez em quando a barra pesava. Quando estava brigado com a Laurinha passávamos horas num bar: ele falando, falando e eu só no "unhum!". Ele parava um pouco, olhava de lado, dava um trago no cigarro, uma bicada no uísque e depois voltava com tudo: “mas sabe o que é?... E ia. Dias depois eu os encontrava num endless love.
Até que tive que ir embora do Brasil. Ele fez questão de me deixar no aeroporto. Falou o tempo todo enquanto aguardávamos. Eu gostava de ouvi-lo. Era divertido. Quando anunciaram o número do meu voo, ele pôs as mãos na cintura, olhou pra cima como se procurasse um pássaro qualquer, franziu a testa e fechou os olhos. Ficou assim um tempo. Em seguida, abriu os olhos, rodou em si, foi lá na frente, parou e me olhou de longe. Depois veio com tudo pra cima de mim e me disse “olha”... Não conseguiu passar daí. Abraçou-me e chorou compulsivamente. Depois de um tempinho, veio de novo: “olhe aqui seu escritorzinho de merda, não pense que me esqueci da nossa promessa, viu?” Eu o olhei e ri. Anunciaram meu voo novamente. Eu tinha que ir. Ele riu e me abraçou. Ajeitou o colarinho da minha camisa como se eu fosse seu irmão mais novo. Quando atravessava o corredor do portão de embarque, pude vê-lo dando pulinhos na intenção de ainda me ver.
No início nos falamos muito por telefone, cartas, telegramas, mas depois o tempo foi mandando em nossas decisões e perdemos completamente o contato. No percurso de nossa vida, acabamos encontrando outras pessoas e passamos a viver em sintonias diferentes.
Dores e notícias ruins só nos chegam no escuro. Era madrugada quando o meu telefone tocou e uma voz de mulher me disse que ele acabara de morrer. Era a sua mãe. Eu sentei rapidamente na cama e não sabia o que dizer. Ela foi falando e falando. Disse-me que um dia ele reuniu todo mundo num jantar e falou sobre nossa promessa. Eu ainda meio tonto, tentei articular alguma coisa... ”Mas que promessa, meu deus?”. Então ela me disse que eu seria uma das pessoas a carregar o caixão. Ele fazia questão. Disse-me também, que num dado momento ele havia dito que isso não seria nosso último gesto de uma grande amizade, mas sim, o primeiro de uma nova vida. Não entendi. Mas fingi ter entendido.
Tentei comprar passagens para logo cedo, mas não consegui. O enterro seria no final da tarde. Só achei para as 14h. A viagem seria de três horas ou mais. No tempo que viajava fora de mim, a viagem durou mesmo três horas, mas no tempo dentro de mim, ela ainda não terminou. Destroçado, perdido, apressado, rompi pelo portão de desembarque como se não estivesse em meu próprio país. Entrei no primeiro táxi que vi e fui logo passando o endereço. Pedi pra ir o mais rápido possível. O carro parou em frente a casa dele (outro pedido dele do qual não abriria mão: ser velado em sua casa) saltei arrastando uma pequena mochila, paguei e corri pra dentro de casa. Quando sua mãe me viu, sorriu como se me abraçasse. Laurinha, aos prantos, correu em minha direção, me enlaçou forte e só conseguiu me dizer: “ele se foi, ele se foi, ele se foi”. No primeiro momento não a reconheci. Tinha envelhecido muito. Depois avistei dois adolescentes tristes, de olhos inchados, bem na minha frente, esperando que eu os abraçasse. Os abracei. Todos estavam me esperando pra poder dar seguimento a coisa. Precisávamos ir com urgência. O cemitério fecharia logo em seguida. Joguei minha mochila em algum lugar, olhei pra alça do caixão, olhei pros meus dedos, depois fechei a mão ainda sem a alça entre eles e tentei pensar que não era o meu melhor amigo de infância ali dentro. Dei uma olhada em volta da sala: Laurinha, com lábios trêmulos, olhava pros meus dedos e pra alça do caixão, seus filhos faziam a mesma coisa, a mãe dele, nem preciso dizer. Olhei novamente pra alça. Depois, num misto de amor e ódio, a envolvi entre os dedos.



