Espertos

sábado, 3 de julho de 2010

Da primeira página do passado...

como em hebraico,
escrevo e leio de trás pra frente:
do passado para o futuro.

Barulhos da poeta Lina Tâmega Peixoto

Reynaldo: uma sensação de prazer e friume me causou seu texto, onde busca a palavra poesia para torná-la visível , tenebrosa e desconsoladíssima ante nossos olhos. Acrescento que poesia é, também, mistério gozoso.

Gosto imenso de ler seu blog.
Abraços di-versos,
Lina Tâmega Peixoto
Ilustre poeta cataguense e
professora de Lingua e Literatura.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O que é poesia? - Reynaldo Bessa à queima-roupa (Para o blog "Sambaquis" de Edson Cruz)

1) O que é poesia para você?

Prefiro começar citando um poeta brasileiro, Moacir Amâncio: “Ao tentar dizer, desdigo o não dito” Agora vamos lá. Já me sinto pisando o cadafalso: Poesia é o hino de uma nação inexistente. O buraco da fechadura que dá pra outro buraco de outra fechadura que dá pra outro buraco e outros tantos buracos. Poesia é o que paira entre o que foi captado (por um grande poeta, obviamente!) e o que vai ser escrito: Um vacilo, e já era o que ia ser dito. É como um tiro que parte de uma esquina deserta, bem no meio do peito. É como uma beldade caminhando solitária ao longe, dentro da escuridão e exalando um bom perfume que vez ou outra nos chega trazido pelo vento, mas é certo que nunca conheceremos essa beldade. A poesia nunca nasceu e, portanto nunca morre. Não dê ouvidos aos vaticinadores. Poesia é como o fígado de Prometeu. Poesia não é a Fênix, mas sim as cinzas de si mesma. Um homem se atira do décimo quinto andar: O que está entre o salto e o impacto é poesia. É o que oscila entre o que você foi, é e será. Mas esqueça tudo o que eu acabei de dizer. Poesia não é; Poesia há. Deixemo-la na varanda do infinito esparramada em sua espreguiçadeira.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Que só há uma única oportunidade de se escrever a própria história, portanto não a desperdice contando a história dos outros. Borges dizia que o escritor é o leitor que escreve, mas não sei se um poeta se faz lendo muito, mas se você não é verdadeiramente um poeta, no final não terá perdido nada, ou seja, terá lido muito, isso é bom. Então, leia muito, mas só o que é bom (se você está lendo esse artigo, é porque sabe separar o bom do resto, não?) depois leia tudo de novo e se possível toque algum instrumento, de preferência um alaúde, uma cítara ou uma harpa, nunca um berimbau. Por diversos ângulos, tente dizer a mesmíssima coisa, a exaustão, e no final assoe o nariz com o resultado. Nunca se sinta pronto. Um poeta pronto é um poeta morto. E pra reforçar isso tudo, cito Quintana: Um poeta satisfeito não satisfaz. Depois saia pra dar algumas voltas, fazer amor e tomar uns tragos. Divirta-se, principalmente isso.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Ah! Pessoa com suas desassossegadas semeaduras. Murilo Mendes e sua precisão com o dedo em riste, Gullar, ah! Gullar e seus Poemas Sujos com as páginas coladas umas nas outras de tanta poesia. Quintana com seus “desaforismos” e puta merda, Bukowski que me alertou para a poesia sob as saias das mulheres, nos balcões de botecos ensebados, na música de Mozart ou numa briga de rua. Mas tem mais. Pound, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, (não há como fugir desses. Tente?) Manoel imprescindível de Barros, Cacaso, Drummond. E ai tem uma geração de malucos geniais que leio e que depois, maravilhado vou tomar umas brejas com eles e falar sobre seus livros: Ademir Assunção, Carpinejar, Chacal, Edson Cruz, Frederico Barbosa, Nicolas Behr, Wilmar Silva, Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Victor Paes, Marcio-André, mas tem a prosa também: Reinaldo Moraes, Fante (“1933...foi um ano ruim” é meu predileto) , Kerouac, Henry Miller, Bukowski, Mirisola, Céline, Bataille, Philip Roth...(Complexo de Portnoy é um esporro de poesia...e mais...) blá, blá, blá,

Mas acho que perdi o fio da meada. Qual foi a primeira pergunta mesmo?

domingo, 27 de junho de 2010

Os Domingos e o Carro de Apolo.

Um domingo de sol sempre foi uma festa para mim. Esteja onde estiver, esse azul dia da semana com o astro rei brilhando bem no meio do peito, sempre me levará para uma fase da vida em que eu não dava a menor trela para o futuro.

Enquanto eu lavava a Kombi - Esse monstro branco que eu odiava mais do que as minhas espinhas - podia perceber muitas coisas a minha volta. Coisinhas que me perseguem até hoje e que provavelmente me perseguirão pelo resto de minha vida. Havia muito mais movimentos, sons e cores pelas ruas: As mulheres, enquanto colocavam seus colchões, cortinas, lençóis, cobertores, travesseiros, roupas e tudo mais para serem lambidos pela língua do Carro de Apolo, entoavam canções, que hoje sou capaz de cantá-las de trás pra frente.

Quatro casas além da nossa, eu podia ouvir Can’t help fallin in love na voz do Elvis. Na casa da frente soava o novo sucesso do Roberto Carlos. Do quintal chegava a voz do Aguinaldo Timóteo, o Wanderley Cardoso, Jerri Adriane ou um desses muito conhecidos da época. De dentro da nossa casa, da portátil radiola vermelha do meu irmão mais velho, Os Beatles bradavam suas eletrizantes canções.

Algumas vizinhas - Ainda não sei como conseguiam isso – de dentro de suas casas, enquanto faziam suas tarefas domésticas, aos berros, travavam herméticos diálogos. Quando chegavam até a janela pra bater um tapete ou jogar algo fora, diziam: "mulher você viu como o Cuoco tava lindo na sexta-feira?" A outra rebatia: "Eu vi, ai meu deus! esse homem me mata." A primeira retrucava: "Amiga, deixa o teu marido ouvir isso." E as duas encerravam temporariamente o diálogo em uma uníssona e sonora gargalhada.

Os rapazes desfilavam seus carros e suas motocicletas, e vez ou outra disparavam ensurdecedores barulhos dos escapamentos, na intenção de captar os olhares das garotas que saltitavam felizes feito gazelas em bandos. Enquanto isso, eu podia ouvir sons de pratos, panelas, travessas, gafos, facas, colheres, vindos da cozinha. Podia ver minha mãe zanzando por ela feito uma bola de pinball. Do forno do nosso velho fogão exalava um cheiro bom de frango assado que me dava uma tremenda vontade de pular uma fase da minha condenação, mas sabia que o olhar de lupa do meu pai acabaria percebendo e mesmo que na mais remota possibilidade, isso não fosse possível, me sobrava ainda o receio de que a própria Kombi me delatasse pra ele. Eram tão amigos e eu sabia que ela não gostava nem um pouquinho de mim, devido aos diversos palavrões que eu gritava em seus ouvidos.

Meu pai entrava e saía de casa. Após provar uma cachaça trazida de alguma cidade distante e tirar o gosto com o delicioso caldo de feijão de minha mãe, vinha conferir em que pé estava o meu trabalho em cima do seu brinquedinho de quatro rodas recém adquirido. Ficava lá parado: bermudas, sandália de rabicho, cabelo sagradamente penteado, braços cruzados sobre a barriga e os olhos como duas sentinelas sobre mim. O prazer boiando neles: primeiro pela absoluta certeza do controle sobre mim, depois por ver seu Animalzinho de estimação cada vez mais e mais limpinho, e por fim, pelo álcool da cachaça já dando o ar de sua graça. Enquanto olhava-o com o rabo de olho, tentava parecer ainda mais aplicado, mais enérgico, mais competente, mas na verdade o que gostaria mesmo era de estar bem longe dali. Depois de lavar toda aquela Cordilheira dos Andes, eu teria ainda que lustrá-la. Essa era a pior parte e enquanto eu a lavava, já pensava nisso. Nessa fase, meu pai sempre encontrava um espaço pelo qual eu havia esquecido de me debruçar. Mas como lustrar a Muralha da China e não esquecer um espaçozinho se quer?  Ainda lembro-me da mangueira como uma enorme serpente colorida. Lembro-me da água: Seu cheiro forte, sua temperatura, seu brilho, seu som, como se agora mesmo estivesse escorrendo pelas minhas mãos, assim como nesse instante escorrem minhas lembranças.

Domingos queriam dizer: Macarrão. Sim, muito macarrão com muito molho vermelho, mas tinham ainda os refrigerantes borbulhantes, que de tanta ansiedade de vê-los em meu copo, os punha com tanta pressa que bolhas estouravam em meu rosto. E a sobremesa? Somente aos domingos tínhamos sobremesa. Mas, eu só teria acesso a tudo isso, quando minha surrada flanela terminasse de deixar sagradamente brilhando o último e mais recôndito espaço da Kombi. Uma determinada hora minha mãe gritaria: “O almoço tá na mesa” e meu pai, com um etílico e sarcástico sorrisinho no canto dos lábios, soltaria essa: “Pois tire da mesa e ponha nos pratos” E depois viria vistoriar a finalização da minha tarefa. Ele agachado, buscando vestígios de uma displicência ou astúcia, eu em pé, olhando-o e contorcendo a flanela mais e mais entre os dedos. Depois de um eterno silêncio, se ele dissesse: “Aprovado” eu correria dali como se tivesse um bilhão de pernas.

Muitos anos depois, longe, muito longe dessas manhãs de domingo, depois de ter sido obrigado a ver meu velho desaparecendo num pequeno espaço que parecia menor do que ele, pois tivera o mau gosto de morrer, eu atravessava uma rua, quando vi uma Kombi igualzinha a dele. O presente desapareceu da minha frente como uma página de um livro que fora virada. Lentamente fui me aproximando como se estivesse caminhando em direção a um pássaro arisco e que o meu menor deslize pudesse causar a sua fuga. Pude sentir meu coração na ponta dos pés. Ao tocar o desengonçado veículo pensei ter divisado um leve sorriso em seus olhos. Alisei-o. Era como acariciar o tempo ou a cabeleira oleosa do meu pai. Fazia muito isso enquanto ele dormia: deslizava meus dedos por aquela cabeleira que parecia nunca despentear-se. Quem diria, hein? Depois de muitos anos, eu diante de uma Kombi. Até cheguei a pensar que esse veículo não mais existisse. Não me parecia tão grande. Eu caberia nele? Onde estava a sua enormidade? E o meu ódio, onde estava também? Olhei cada canto: sob os pneus, os paralamas, olhei em seu interior e minuciosamente mirei os assentos. Era um tempo muito particular. Meus olhos marejaram e eu já sabia que não ia conseguir segurar o peso daquelas lembranças todas. Olhei ao redor. Queria ouvir o Elvis cantando em algum lugar. Onde estavam as mulheres entoando suas canções com o coração transbordando de amor e futuro? Cadê o cheiro bom vindo da cozinha? Não havia mais nada. Vi pessoas passando apressadas. Um carro buzinou, uma moto disparou um ensurdecedor barulho, mas me pareceu tudo tão gratuito. Havia meninas em bandos pelas ruas, mas elas me pareceram tão tristes. Um menino soltou um palavrão e um outro rebateu com um ainda mais virulento. Eu mirei novamente minha companheira de infinitos domingos, colei meu rosto nela e fiquei ali... demoradamente. Se alguém viu tudo isso, deve ter achado muito estranho. Abracei o veículo como se abraçasse o meu pai. Dei um leve beijo na intenção de seguir o meu caminho, mas não consegui. Não conseguia me despedir. Teria lavado e lustrado toda ela se o dono tivesse me permitido. Queria fazer isso, mas não tinha coragem de pedir. Não pediria, claro! Sabendo da impossibilidade, sentei-me na calçada sem tirar os olhos de cima dela. Seu dono apareceu, entrou rapidamente e acionou a chave. Ao ouvir o som do motor não pude mais me conter. Chorei. Dentro de um olhar triste e embaçado vi a Kombi, em suas pernas bambas, desaparecer da minha frente. Era como se levasse todos os meus domingos com ela. Fiquei mais um pouco lá. Não queria me mexer pra não correr o risco de estilhaçar o passado. Após um tempo, ainda contra a minha vontade, retomei o meu caminho e o presente com seu hálito gélido começou a sussurrar em minha nuca.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Só

Eu só acredito nos anjos de Wenders.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Já foi...

eis minha vida de volta ao ninho
tardes tornam a pousar
meu sorriso esgueira-se sob os escombros
de arrependimentos mofados
meu verbo, cortado ao meio, não mais agoniza
seus olhos não estão mais nos faróis dos carros e
a Lua já não é mais somente um satélite
melhor do que não esperar
é uma esperança sem memórias.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sábio vento

o vento frio arpejou
as cordas da minha infância
percebi que todos os sorrisos que dei até então,
são apenas o esboço de um sorriso
que dera um dia.

Sem assunto...

tarde quente
vento nenhum
árvores sem assunto

terça-feira, 22 de junho de 2010

Morre aos 85 anos, Dona Militana uma das mais autênticas expressões da cultura popular do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte e principalmente a população de São Gonçalo do Amarante está de luto. A cantora de versos Dona Militana, conhecida como "a maior romanceira do Brasil", falaceu neste sábado (19).
"Dona Militana foi uma das mais autênticas expressões da cultura popular do Rio Grande do Norte. Enalteceu o nome do Estado. Uma pessoa humilde, que com seu talento enriqueceu a cultura do Rio Grande do Norte. A memória de Dona Militana permanecerá viva entre aqueles que a conheceram."

domingo, 20 de junho de 2010

Fantiana

eu daria tudo
pra te ter agora
colorindo o escuro
da tinta das horas
eu daria agora!

pra te ter ao lado
pra te ver sorrir
minha Frida Kahlo
quadro de Dali
vem, vê se não demora

você é a dança que nunca dancei
o livro raro que nunca encontrei
filme que ainda não vi
você é o país que nunca visitei
canção que nunca cantei
poema que não escrevi

eu queria agora
ter você por perto
pra virar as folhas
do meu peito aberto
quero isso, é certo

que você chegasse
que você cedesse
que você me achasse
por favor! se apresse
sou um livro no deserto

sábado, 19 de junho de 2010

No chance...

você se foi
como o infinito
escapando
entre os meus dedos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Barulhos de Lunguinho - Crônicas Cariocas

Reynaldo Bessa é um dos grandes poetas da atualidade.

Saravá! Saramago

O poeta disse: O criador tem duas idades; quando nasce e quando morre. José Saramago acabou de completar a sua segunda. Saravá! Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

Barulhos de Fabrício Carpinejar

O músico e compositor, Reynaldo Bessa guardou a infância no quarto até onde deu. Agora explodiu pelas janelas e portas. "Outros barulhos" é um baú que transbordou: quando os mortos e vivos se embaralham na linguagem, lembranças são confundidas com premonições; vozes, com cheiros. Ou ele publicava esse livro ou ficava louco, não tinha escolha.

É uma fartura de vida, um armazém de fiados, armário de brinquedos extintos, que todo leitor vai se exuberar. É uma obra da saudade. A saudade alegra, inclusive, os dias em que cortamos os dedos.
O livro quer a poesia como iluminação da corda. Faísca da corda de violão. Eu pergunto: quantas forcas há no violão? Quantos homens são desenforcados pela música?
É uma música muda. Uma música que estica a vida que não houve.
Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes?
Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda.

"Há algo de liso, de falso, de suspeito,
na total aceitação.
uma leve, porém inquietante tensão,
feito a frágil sacola do supermercado que a gente nunca
sabe se vai romper ou se vai agüentar
as compras até chegar em casa."

Sua sensibilidade é espiã. Não suportaria suas dores se não carregasse também a dos outros. Por isso, sofre com o bêbado voltando para casa, como se houvesse um trapézio transparente na rua; os vizinhos rindo e os familiares o segurando com os olhos. A poesia quando narração é imbatível. A poesia como contadora de histórias é imbatível.
Sabemos muito mais da memória de Bessa.

"o silêncio
do meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai."

Porque ele nos confidencia sua imaginação.


Fabrício Carpinejar
poeta e jornalista, mestre em
Literatura Brasileira pela UFRGS.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ainda algumas lembranças ll

Conheci Aniah num Hostel em Marseille. Vinha da praia. Soube disso logo que despontou no portão, pois seus jeans estavam úmidos, denunciando que ela os havia vestido por cima da roupa ainda molhada. Fazia o meu cigarro sem tirar os olhos de cima dela. Caminhava rápida, decidida, descolada. Jogou seus grandes olhos azuis sobre mim e perguntou "have you got a cigaret?” falei que sim e perguntei se queria fazer ou preferia que eu o fizesse. Ela disse que faria, sem problemas. Falou que o bom de fumar esses cigarros é que se tem prazer duplo: O de fazer e o de fumar. Eu me gabava de fazer o meu cigarro num tempo recorde de trinta segundos. Ela fez em quinze: Prendeu o filtro nos lábios, pegou o papel com uma mão, um pouco de fumo com a outra, jogou o filtro dentro, lambeu, enrolou e pronto. Deu as costas para o vento e em três clics acendeu o cigarro. Agora ela vai desaparecer de mim. Pensei. Assim faziam as beldades na Europa: Muito simpáticas, pediam cigarros e depois desapareciam. Muitas vezes nem agradeciam. Aniah deu uma primeira tragada olhando para o cigarro, sorriu, sentou-se, deu outra tragada ainda olhando para o cigarro e depois olhou o horizonte, enquanto seu lábio superior brincava com três piercings encravados no lábio inferior. Fumava e olhava longe. Era como se tragasse o tempo: Passado, presente e futuro brotando dos belos lábios de Aniah. Eu a olhava em silêncio. Perguntei-lhe de onde era. De Berna, respondeu-me. “A cidade das beldades de porcelana” Pensei. Depois lhe perguntei se estava no hostel. Disse que não. Não havia mais vagas. Havia guardado sua mochila na recepção só para tomar um banho de mar. Falou que ia tomar uma ducha e depois precisava ir embora. Não sabia ainda pra onde, pensaria nisso depois. Ia zanzar um pouco por Marseille. No dia seguinte viajaria pra Berlim. Terminou o cigarro, levantou-se, bateu as palmas e as costas das mãos nas coxas para espanar a fina areia da praia, sorriu e disse que precisava ir. Se foi com dificuldade. Sabia que meus olhos a seguravam.

Depois do almoço saí para fumar e lá estava ela; sozinha, pensativa. A Bela, triste e lânguida Aniah. O vento brincando com suas longas mechas douradas. O mar louco por ela. So do I. Me aproximei. What’s up. Falei enquanto lhe passava o fumo, a seda e o filtro. Ela me olhou, sorriu e enquanto preparava seu cigarrinho me perguntou se eu conhecia Norah Jones. Não, eu não a conhecia. Respondi. É uma bela cantora. Rebateu. Depois falou: Olha tenho duas garrafas de vinho nas minhas coisas e tenho todos os discos da Norah Jones, que tal? Fechado. Falei. Passamos toda a noite ouvindo Norah, tomando vinho (fui comprar mais três garrafas) conversando muito, fumando e rindo de tudo e de todos. Quando ela ria mesmo – e eu ainda não a tinha visto rindo mesmo – Marseille estremecia de felicidade, ou seria eu? Sei lá...

Quando a luz da manhã riscou de leve o céu, ela ainda falava como se só fosse viver esse dia. Contou-me toda a sua vida. Disse que estava viajando há mais de um ano. Disse que não podia parar, pois se parasse, acabaria pensando, e tudo que não queria era pensar. Só queria as estradas. Disse também que procurava algo, mas não sabia bem o que. Eu lhe perguntei como poderia encontrar essa coisa se não sabia o que era. Ela disse-me que talvez essa coisa a encontrasse. Falou, falou. Depois de um silêncio impenetrável, me propôs um banho de mar. Levantou-se como se fosse fugir e ficou nua em pelo, Depois correu pra água, gritando: Let’s go! Let’s go! Bessá. Mergulhou como uma exímia nadadora e desapareceu por algum tempo. Eu ainda vestido, fumando e tremendo de frio e vinho, fiquei tentando adivinhar o ponto exato na água onde ela surgiria logo após o mergulho. Eu continuava lá olhando, mas ela não aparecia. Meu sorriso foi desmanchando-se. Franzi a testa e fiquei inquieto. O mar estava parado. Lembrei-me de uma canção cantada por Mercedes Sosa que fala de uma mulher que desaparece no mar. Ninguém fica tanto tempo assim debaixo d’água. Pensei. Olhei em volta. Coloquei as mãos na cabeça e quando pensava em sair gritando o seu nome nos ouvidos de um mar silencioso, ela surgiu ao longe e acenou pra mim. Sentei-me na areia e ri como um idiota. Ela voltou e me chamou. Cheia de energia, espanava a água. Entrei. Ela se aproximou lentamente e me abraçou forte. O esforço que fizera anteriormente despertara cada centímetro do seu corpo. Era como se eu estivesse abraçando algo prestes a explodir ou um animalzinho que estivera em fuga. Isso foi ficando cada vez mais forte e de repente ela arrebentou. Como uma criança, chorou em meu ombro e eu precisei me segurar. Depois olhou pra mim. Os lábios vermelhos demais, os olhos azuis demais. Eu olhei pra ela e não conseguia mais tirar os olhos.

Feito dois zumbis rodamos o dia todo. Ela tinha que ir pra Berlim em poucas horas. Caminhávamos em silêncio. Perguntei se os piercings tinham algum significado. Ela disse-me que eram seus três melhores amigos. Ela viajava com eles. Com os três amigos em seus lábios. Ela parecia preocupada. Perguntei o que lhe afligia. Não respondeu. Depois de alguns minutos olhou rapidamente pra mim e disse “não vou pra Berlim hoje, vou amanhã” Não perguntei por quê. Voltamos para o Hostel. Era quase noite. Ela entrou decidida. Pegou algumas coisas em sua mochila, olhou pra mim e foi tomar uma ducha. Eu fui depois. Nos encontramos no hall e pedi dois cafés bem quentes. Quase já de madrugada ela começou a cochilar no sofá. Fiquei olhando-a. Já era um vício. Depois de um tempo peguei-a e levei-a para minha cama. A madrugada estava muito fria. Agasalhei-a e sai. Fechei a porta. Fui lá fora e fiz mais um cigarro. Era bom pensar que ela estava em minha cama. Deitei-me no sofá e acabei pegando no sono. A recepcionista me perguntou por que eu não estava em meu quarto. Disse-lhe que o pessoal tava roncando muito e eu não conseguia dormir. Ela se deu por satisfeita e não me incomodou mais. Ela não podia saber que havia alguém lá que não fosse eu. Era um grande motivo para nos expulsar. Acordei com Aniah me chamando. Me puxava pelo braço como um guia conduzindo um homem ao paraíso. Deitamos na cama. Ela se enroscou em mim. Senti seu corpo trepidando, se chegando mais e mais.

De manhã, logo bem cedo, não a encontrei ao meu lado. Procurei algum bilhete, algum sinal dela, mas não achei nada. Ao meio dia ela voltou. Tinha um quarto piercing em seus lábios e disse que se chamava Bessá. Eu ri. Almoçamos e depois fui deixá-la no aeroporto. Estávamos em silêncio. Eu procurava as palavras, mas não as encontrava. Vez em quando ela me olhava feito uma esfinge aflita. O Aéroport de Marseille Provence estava bem agitado. Tomamos alguns cafés e fumamos infinitos cigarros.

Seus piercings tilintaram em meus dentes. Depois de um longo abraço ela se foi e começou a desaparecer no corredor. A sala de embarque a engolia. Aniah parecia decidida a não olhar mais pra trás, mas virou-se de repente e seu rosto estava muito vermelho. Trinquei os dentes como se isso pudesse evitar as lágrimas. Não adiantou nada. Falei pra mim mesmo Aniah, Aniah. Ela desapareceu. Zanzei pelo aeroporto. Não encontrava a porta de saída. Não me achava. Cheguei ao Hostel como se tivesse o dobro do meu peso e ai daquele que viesse com essa coisinha de Where are you from? Eu seria capaz de socá-lo. Saí e entrei diversas vezes do Hostel. Meus olhos ficaram presos no portão na ânsia absurda de ver Aniah despontar linda, lânguida, decidida, descolada e com seus jeans úmidos. Lembrei-me dela me perguntando em seu sotaque carregado Have you got a cigaret? Isso nunca mais aconteceria. Eu sabia disso. À noite tentei dormir, mas a minha cama era o pior lugar pra tentar esquecê-la. O cheiro de Aniah estava lá: Nos travesseiros, no lençol, nos cobertores, por todo o quarto. Saí da cama num pulo e corri lá pra fora. A madrugada fria bafejou em minha cara. Fumei um, dois, três cigarros. Fazia-os e dizia: Aniah, Aniah. Fumava-os e dizia: Aniah, Aniah. Ela estava encravada em minha alma como os piercings em seus lábios. Olhei a minha volta. Silêncio. Dava pra ouvir o mar no seu vai e vem. A vida era assim. Vai e vem. Sempre isso. Fiz um cigarro, não, dois. Fumei um e deixei o outro em cima do banco. Era o de Aniah. Entrei e caí na cama como se me atirasse em um buraco e já sabendo que a coisa viria. Agarrei-me em seu cheiro. Era só o que eu tinha e a coisa veio mesmo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Desconfiança

Nem as estrelas são confiáveis. Você olha bem dentro dos olhos delas, mas quem pode afirmar que estão mesmo ainda lá? E eu, estou mesmo aqui?

domingo, 6 de junho de 2010

Barulhos de Antonio Miranda

Reynaldo Bessa concorreu com os maiores da nossa poesia até chegar ao Prêmio Jabuti, e saiu na frente... melhor não citar nomes. É fácil entender a razão (justa) do reconhecimento: um texto emocionante, aparentemente despretensioso, mas pungente, numa autobiografia reinventada, entre surreal e cruelmente realista. Linguagem contemporânea, sem rebuscamentos retóricos, sem apelar para os coloquialismos banais e os barroquismos excessivos de outros autores que locupletam blogues e revistas literárias. Barulho é o que não falta na obra do jovem potiguar. Se não bastassem os versos criativos e definitivos, é compositor e exibe uma voz emocionante, com aqueles desdobramentos sonoros que apenas os nordestinos trazem em sua musicalidade.”

Antonio Miranda
Poeta, escritor, dramaturgo e escultor
Membro da Academia de Letras do Distrito Federal
Diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia

Seleta de "Outros Barulhos - Poemas" (Prêmio Jabuti 2009) poemas em português-inglês (tradução de Sergio Ivanchuk)

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"

one night
my mother
grabbed my hand
we were four;
me, her, fear and rush
I can remember that...perfectly
while the three talked
I was staring at the sad houses' eyes and
I really wanted to ask
"Mom, what's their problem?
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.

like small pictures sealed
on the horizon,
ships came and left - still
they ran away from our eyes
the border, land, distant places,
I used to be on board far far away, begging;
ships, ships, take me nowhere.

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.


when I fell from the hammock
I realized that I really existed
My mom came by the door
Soon, my daddy, naked, was born by a shadow and took her away
he wanted to finish fucking her, and me — it seemed.
both vanished in the shadows silently
then I saw I did not exist at all
when I fell from the hammock

quando eu tinha oito anos
descobri o tempo.
ele estava numa plaqueta,
numa mercearia
dizia:" fiado só amanhã"
foi aí que percebi que o tempo
não posa para fotos

when I was eight
found out the time
it was on grocery store warning sign:
"buying on credit only tomorrow"
then I realized that the time
does not stop to take photos

um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?

one day
barefoot I walked among puddles
left by the rain
my feet shook the stars,
poured the sky
there were lightning bolts and I was not afraid.
how can a hungry person
fear lightning bolts?

Barulhos de Nelson de Oliveira

Enquanto a prosa dos novos autores brasileiros se fixa no bizarro e no grotesco, a lírica concentra-se no sublime e na memória. Se real ou inventada, não importa. Como não importam também os choques ideológicos nem a militância em defesa dessa ou daquela poética (marginal, pop, conservadora, concreta etc.)
Reynaldo Bessa é músico, com cinco CDs na praça.
Familiarizado com harmonias e melodias sonoras e verbais, ele sabe que uma boa letra de música não é necessariamente um poema. Algumas são, mas muito poucas.
Para o Reynaldo poeta, um bom poema é mais do que qualquer outra coisa, um tipo peculiar de barulho, não de música.
Os poemas de “Outros Barulhos” em português e inglês, denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético – a verdade no falso – que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada “mal-estar”

Nelson de Olivieira
Escritor e Mestre em Letras pela USP.
APCA 2001 e 2003

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A frágil película do tempo...

Eu daria tudo, tudo o que tenho e o que não tenho só para ver novamente minha mãe aguando suas plantinhas numa manhã cheia de azuis da minha memória de mimeógrafo. Eu acordava em silencio e a mirava de longe. E lá estava ela molhando suas velhas companheiras. Fazia isso como se beijasse cada folha, cada raiz. Molhava-as enquanto num trêmulo falsete cantava as velhas canções de sempre. Com um sorriso matreiro despencando dos lábios eu ficava lá olhando-a. Eu tinha que ficar totalmente imóvel para evitar que qualquer coisa, mínima que fosse, rasgasse essa frágil película do tempo. Quando meus olhos não suportavam mais a leveza de tanta beleza; quando a cena começava a embaçar, da minha caverna, zombeteiro, eu lhe dirigia a palavra. Ela, como se tivesse sido surpreendida fazendo algo de errado, rapidamente me olhava e por trás de seu lindo sorriso cansado eu ainda podia ver a menina sapeca que fora um dia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda algumas lembranças.

Desci do trem. A estaçãozinha de Vicenza me deu um sorriso amarelo. Eu estava muito cansado, com sete quilos a menos e barba de um mês. Joguei minha mochila num banco e enquanto fazia um cigarro olhava as pessoas. Minha amiga Andrea estava em algum lugar. Morava na Itália já há alguns anos. Eu ia tentar encontrá-la. Ela ainda não sabia que eu estava em Vicenza. Terminei o cigarro e joguei minha mochila nas costas. Liguei, deixei um recado e fui para um bar ao lado da estação. Era um dia muito quente. Pedi uma cerveja e ao esticar as pernas e dar o primeiro gole na cerveja bem gelada pude pensar que isso podia também se chamar de paraíso. Logo anoiteceria e eu não tinha certeza se minha amiga Andrea ia aparecer. Eu nem sabia se aquele ainda era o seu telefone, mas eu já havia passado por muitos momentos incertos na Europa e estava acostumado. Não tinha mais medo de nada. Na quinta cerveja ela apareceu com o seu sorriso enorme incendiando tudo. Pensei em beijar sua boca. Ela me deu um abraço demorado. Quase não me soltou. Precisei me conter para não chorar em seu ombro. Estava há muito tempo sem falar português. Há muito não encontrava um brasileiro e a Andrea era uma grande amiga do Brasil. Quando chegamos em casa ela correu pro fogão. Ela morava no primeiro andar. Na varanda preparei outro cigarro. O fumo da Suíça não era tão bom quanto o da França, mas era o que eu tinha. Depois da Itália eu passaria de novo pela França e compraria o meu predileto.A noite começava a engolir a pequena e pacata cidade. O Cheiro de café invadiu a casa e não pude mais conter o choro. Pensei ter ouvido minha mãe me chamar pra tomar o café. A Andrea me trouxe uma xicara fumaçando, passou-a pra mim e depois sorriu. Dei um gole e me enrosquei em seu sorriso.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Amsterdam

No red light district eu zanzei. Depois acendi uma bomba do tamanho do dirigível. Fumava enquanto olhava as cabines como quem ver aquários. Escolhi uma francesa, quer dizer, ela me escolheu...Não pude resitir ao seu belo indicador me puxando como se eu fosse uma marionete. Entrei em seu pequeno mundo de vidro como se entrasse numa igreja. Um negro do tamanho do infinito me olhou de esguelha. Pensei em recuar,  mas fui em frente. Enchi o aquário de fumaça e  perguntei em francês "como essa coisa funciona?" a beldade fingindo-se de doce disse: sem oral, sem anal, sem pegar muito, quinze minutos, oitenta euros....só papai e mamãe, pra ser mais precisa. Falei...tá certo...tô há muito tempo aqui, longe dos meus pais... e papai e mamãe é uma coisa que vai me trazer boas lembranças...vamos lá. Mexi em meus euros...paguei....o negro recuou e falsamente desapareceu entre melancólicas cortinas. Segui as regras. Depois sai pelas ruas de Amsterdam com a bomba ainda acesa...mas vazio, ainda mais vazio...olhei pro canal e procurei não pensar em nada. Depois joguei fumaças ao vento e segui passos incertos. A bomba iluminando meu caminho.

Algumas noites

Algumas noites usam roupas muito apertadas. Eu me coço aqui e acolá, mas nunca reclamo, pois o vazio com seu bigode amarelo de nicotina fica muito bravo quando faço isso. Diante da sua falta um Tsunami é um sopro de uma criança tentando apagar suas cinco velinhas sobre um bolo de chocolate feito por uma mãe de mãos trêmulas...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Noite fria

O frio é o cobertor preferido da solidão

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Vazio

A vi descer as escadas rolantes. Desaparecia lentamente, enquanto o vazio subia e se tornava cada vez mais nítido.

terça-feira, 18 de maio de 2010

...

Tenho medo dos livros que vou escrever

...

já posso ver suas pegadas numa estrada ainda por ser construida...

domingo, 16 de maio de 2010

Lançamento de "Outros barulhos" no Rio de Janeiro na Livraria Travessa

(Sexta-feira) Dia 21/05 às 17h30 - Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - Rio de Janeiro - RJ

Impressão

Ela gosta de sapatos imponentes para ter a sensação de estar no caminho certo.

Se...

Se eu sair vivo do seu umbigo, construirei uma igreja em seus olhos.
De vez em quando gosto de insultar o vazio

ontem...

Ontem vi sua alma banhando-se em seus olhos

sábado, 15 de maio de 2010

15/05/2010 - 20h30

Uma noite negra. Tão negra que se suicidou de escuro.81 anos em ruinas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Alice disse:

son corps est
le seul argument
que je ne sais réfuter
(um dos poemas do meu livro "Outros Barulhos"
traduzido pela poeta francesa Tânia Alice)

seu corpo é
o único argumento
que não sei refutar

Alegria

Acordei com o peito aberto
como um grande livro 
folheado pelo vento

terça-feira, 11 de maio de 2010

Algarobas Urbanas

Meu livro de contos Algarobas Urbanas foi um dos livros selecionados no concurso de literatura do Sesc São Paulo (Vila Mariana) 2010, em parceria com a editora Record.

"Outros Barulhos- Poemas"


Conheça meu primeiro livro "Outros Barulhos- Poemas" - Prêmio Jabuti 2009 (Poesia) e também foi um dos livros concorrentes do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. Orelha do poeta Fabricio Carpinejar.

Uma seleta do livro

hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário

----------------------------

uma noite

minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
“mamãe, o que elas têm?”

--------------------------

deixa disso
siga o risco
o que é a vida

se não olho e cisco?
seja arisco
sangra o resto
o que é a morte
se não sábio disco?
nunca teremos o pouco aquém do menos
nunca seremos o muito além do mais
a cota será certa
a senda será meta
sempre serena será
a reta eterna da
raça toda

-----------------------------

hoje sonetos
amanhã só netos

-----------------------------

rio de fevereiro,
quando alguém me diz:
só em março, depois do carnaval
rio de março,
o ano só começa em abril
rio de abril,
o primeiro dia é quando somos sinceros
rio de maio,
desse, rio demais
é o mês do meu aniversário e
não há nada pra comemorar
rio de junho,
o carnaval ainda não acabou
rio de julho,
não há motivos, por isso rio
rio de agosto,
mais pra lá do que pra cá, mas ainda riso
rio de setembro
o dia sete é uma boa piada
rio de outubro
sou uma criança, mas eles não acreditam
rio de novembro
o ano seguinte já mostra o seu riso amarelo
rio de dezembro
o vizinho me sorri, só porque é natal
em janeiro não rio
meu riso tira férias
vai ao Rio de Janeiro
curtir um choro

----------------------------

entre a caneta e o
guardanapo; um dilema
eu não sabia se tentava ou se
ia ao cinema
não fiz uma coisa nem outra
assoei o nariz com o quase-poema
ah! chega!
com ele ou sem ele
nada muda
é tudo cena

------------------------------

os vestidos escondem
mais segredos do que o mar

-------------------------------

os macacos
desceram das árvores
aí nasceu o trabalho,
a infidelidade, o divórcio e
o apartamento de um dormitório

------------------------------

seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar

------------------------------

seus olhos
são meu livro de cabeceira

domingo, 9 de maio de 2010

"Algumas músicas me soam como navalhas"

Apenas uma noite estranha

Sabia que não devia ligar, sim, claro! que sabia, ainda mais àquela hora, mas era uma noite muito estranha. Até tentei fazer outras coisas, mas só conseguia pensar em ligar. Porque às vezes estamos tão fortes e noutras totalmente em frangalhos? Se eu ligar só vou piorar as coisas, sei, mas quero ligar. Porque eu estava tão infeliz com a felicidade dela? Por quê? Ela estava recomeçando a vida. Agora eu tinha que seguir o meu caminho. Você sabe disso, então porque insiste? Vá dormir. Nada é tão drástico quanto aparenta. Simplesmente deite e durma. Só isso. Deitei-me, fechei os olhos, prendi a respiração, soltei. Deixei o meu corpo encher de ar. Podia sentir meu coração. Podia ver sua cor, seu tamanho, sua ira. Os tiquetaques do despertador eram como alfinetes em meu cérebro. Levantei-me num pulo. Olhei para o telefone. Fui colocar uma dose de uísque, mas não tive paciência, tomei na garrafa. E se ela me visse fazendo isso? Puta, puta, puta, quem disse que você podia deixar de gostar de mim? A única coisa que esse filho da mãe tem que eu não tenho é pouco tempo com você. Eu nasci com você, além do tempo todo que vivemos juntos. Ela disse pra não ligar mais e principalmente fora de hora. O que você quer mais? Vá dormir, vá dormir. Você só vai embaçar ainda mais as coisas. Ela vai te mandar a merda e essa noite pode ficar ainda pior. Sentei-me ereto, tenso como se estivesse diante de um animal prestes a me atacar. Olhos sobre o telefone. O ponteiro das horas duas horas a frente da anterior. Lembrou-se quando terminaram pela primeira vez. Logo depois de alguns dias ela ligou desesperada pedindo que ele voltasse. Voltou no ato. Só estava esperando isso. Porque ela não fazia o mesmo agora? Por quê? Vou ligar, vou ligar. Essa sala escura, esse silêncio pegajoso, não dá mais...num movimento brusco pegou o telefone e discou sem pensar. Isso para que nenhum pensamento pudesse impedi-lo de continuar discando. Ouviu o toque da primeira chamada. Uma dor fina cruzou suas costas. Seu corpo todo enrijeceu. Foi preciso quatro toques e no terceiro ele teve ímpetos de desligar, mas sem saber por que se manteve firme onde estava, então ouviu:

Alô (ela)
Preciso que venha aqui, preciso de você (ele)
Você sabe que isso é impossível. (ela)
Por quê? (ele)
Escuta, te falei pra não ligar mais, olha a hora. Você me acordou. Estou cansada, amanhã levanto cedo. (ela)
Por favor! (ele)
Impossível. (ela)
Sua palavra predileta. Venha, preciso mesmo de você. Tenho algo a dizer. (ele)
Não quero saber. Tenho outra vida, outros desejos, outros sonhos. Sua vida não me diz mais respeito. Você não entende e não tenho mais saco pra explicar. Quero só dormir. (ela)
(ele ouviu um “quem é?” um pouco mais baixo que a voz dela)
Vá se foder. (ele disse com a voz mais alta que a voz dela para a voz mais baixa que a dela)
(ela ficou em silencio. Pareceu não saber o que fazer)
(ouviu a mesma voz do "quem é?"dizer “você ainda não resolveu isso, amor?")
(Ele trincou os dentes e apertou o telefone)
Já, meu amor, ele é que é surdo. (ela para o outro)
Olha! vá dormir. Você está acordando todo mundo. (ela)
Não consigo. Até tentei, mas já vi que não dá. (ele)
Olha, não vou mais à sua casa. Acabou faz tempo. Você tem que seguir com sua vida (ela)
Essa é a minha vida. Estou seguindo com ela (ele)
Não, você está desperdiçando-a (ela)
Cada um desperdiça a sua maneira. (ele)
Chega. Tchau. Não aguento mais isso...
(enquanto ela falava ele quis desligar, mas...)
Espera (ele)
O que foi agora? (ela)
(Silêncio)
Eu te amo (ele)
Ah! Chega, chega e chega, tchau mesmo (ela bateu o telefone)

Ele até pensou em ligar de novo, mas não teve forças. Estava realmente cansado. Olhou a sua volta. Nenhum ruído, nada. Todo o silencio do mundo pareceu ter invadido sua casa. Lembrou do sorriso dela. Ninguém sorria como ela. Foi a primeira coisa que lhe chamou atenção nela. Estava muito cansado. Queria chorar, mas de que isso adiantaria? Mesmo assim chorou. O cansaço o venceu: adormeceu. Sonhou que todo o ar do seu corpo era sugado por alguém, um desconhecido. Ele não podia impedir. Seu ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Quando atingiu o limite, soltou um grito como se agora quisesse mesmo acordar o mundo. Despertou abruptamente. Não estava mais na sala. Estava na cama. Ela estava ao seu lado e ele pôde ouvi-la dizer “Volte a dormir, meu amor, foi só um pesadelo. Ainda respirando com dificuldade, ele olhou em volta e percebeu que estava em sua casa de sempre. A casa da qual nunca saíra. Deitou-se. Ela se enroscou nele como de costume e ele a abraçou como nunca fizera.

Minha humanidade.

Celulares e Ipods: Duas formas sofisticadas de se fugir das pessoas. Ainda lembro-me quando levávamos um fora da namorada ou estávamos conhecendo uma outra, ou brigávamos com nossos pais (geralmente sem motivos) ou perdíamos um emprego (que geralmente não valia nada) ou simplesmente sentíamos a vontade de conversar (mesmo sem nenhum assunto) ligávamos para aquele grande amigo(a) e entre uma breja e outra conversávamos até achar que o assunto se esgotara. Isso já faz um tempo. Não lembro da última. Agora só temos tempo para resolver essas coisinhas pelo celular, quando não, por emails, msns, facebooks, orkuts e outros tantos meios que aparecem de tempos em tempos. Pessoalmente nem pensar.

Hoje dificilmente vemos uma pessoa sem um telefone celular. Raramente alguém não está usando-o. Quando não está nos ouvidos, está entre dedos ansiosos: Velhos, adultos; adolescentes; crianças. Talvez num futuro próximo até os animais. Imagine uma vaca passando ao seu lado e mugindo nervosamente ao celular.

Porque de repente tanta gente passou a ter tanto o que dizer? O que detonou isso?As pessoas tem telefone celular porque precisam falar ou precisam falar porque tem telefone celular? Sei lá. Sempre vejo muita gente falando horas ao telefone e ao desligar, colocando o fone do seu Ipod nos ouvidos. Não conseguimos mais viver o mundo externo? Nos cansamos do outro ou não conseguimos mais encará-lo? A boca não consegue ser tão sincera quanto os olhos? Talvez não seja a toa quando dizem que o olhar é a avenida da alma.

Nas ruas, muitas vezes respondo perguntas que não me foram dirigidas e quando olho em volta, percebo  que é alguém ao celular só que usando seus respectivos fones. Parecem lunáticos falando sozinhos. Isso me remete aos loucos que encontrávamos pelas ruas em febris solilóquios quando escapavam do asilo que ficava perto da minha casa quando eu era criança Pelo jeito não eram tão loucos assim. Estavam só cantando o futuro?

Todos nós temos os nossos dias. Ninguém é de ferro. Muitas vezes quero ficar em casa num dia só pra mim. Não quero falar com ninguém, ver ninguém, mas na maioria das vezes adoro sair pras ruas só pra ver as pessoas. Vê-las falando, andando, comprando, vendendo, sorrindo, chorando, brigando. Cada um vivendo como pode e sabe. Muitas vezes faço isso, não só porque curto muito e porque gosto das pessoas – apesar de também ter os meus dias de assombros – mas porque sei que essa é a minha humanidade e eu tenho obrigação de fazer parte dela. Não posso afirmar que existirá outra, pode ser, mas talvez não seja minha.

sábado, 8 de maio de 2010

Para todas as mães

Minha mãe fez oitenta anos. Apesar de achar que o passar violento do tempo não envelhece a criança em nós, sempre tive curiosidade acerca do que é ter oitenta anos. Até que li em um dos livros do Philip Roth, um minúsculo discurso de um de seus personagens. Ele está comemorando setenta anos e os amigos pedem que faça um discurso. Ele diz: Pensem no ano 4000. Em todas as suas dimensões, todos os seus aspectos. Pensem com calma. Pensaram? Pois é, ter setenta anos é isso.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quase dois anos

Parado numa esquina e deitando lentamente os olhos sobre o que me cerca, penso no dia em que cheguei aqui. Estou sempre lembrando de um cara que um dia fui, como um livro reclamando algumas páginas, que com o tempo, vão se soltando.

saudades de um lugar ainda por existir...

"Minha saudade não reside somente no que um dia existiu, mas também no que ainda não é"

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Para G e M

Na minha pré-adolescência tive dois grandes amigos: G e M. Eram irmãos. G era o mais velho. M era explosivo, portanto queria sempre resolver tudo no soco. Um brigão nato. G nem tanto, mas que não pisassem em seus calos. Quando M ficava fora de controle, G lhe passava uns corretivos. Com o tempo esses corretivos foram ficando cada vez mais fracos. G sabia disso, mas dava de ombros.

No final do dia, nos reuníamos e gostávamos de falar de nossos sonhos. M queria ser pugilista, domador de leões, ir à guerra. G queria ser cientista, descobrir coisas que estavam além da sua compreensão, sonhava muito em ir à lua. Falavam isso enquanto comia, cada um, um grande pedaço de bolo de chocolate que sua mãe acabara de fazer. Na maioria das vezes, M ainda estava com o uniforme da escola e sempre sujava-o todo com manchas marrons. Eram raras as vezes em que M, puxado pela orelha, não era levado por sua mãe, para dentro de casa. Eram meninos, apenas meninos, como quaisquer outros.

Crescemos. Eu fui para um lado, M e G para outros. Depois de muito tempo, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que M fora preso. Estava num dos presídios mais seguros da nossa cidade. Isso já me assustou, mas o que mais me deixou ruim, foi saber que G estava foragido. M matara um homem e fora ajudado por G. Não podia ser verdade. Soube depois que M fugira e assassinara outro homem e depois mais outro, até que fora morto a tiros, em pleno dia, quando passeava por uma feira-livre. G continuava desaparecido. Quando me reunia com velhos amigos, sempre perguntava: E ai, tem notícias de G? Eu não podia acreditar nisso. Eu só conseguia nos ver falando sobre nossos futuros sonhos não realizados. Cada um querendo falar mais alto que o outro, dividindo o pedaço de bolo e rindo à toa. M com o uniforme branquinho todo manchado de chocolate e G lhe passando uns corretivos. Era divertido vê-los na refrega.

Acostumei-me com a ideia. Depois de muitos anos, o telefone toca. Era G. Eu não acreditei. Muito eufórico, fui logo falando um monte de coisas. Ele, muito seco, apesar de eu ainda conseguir captar seu silencioso sorriso lá no fundo de sua alma, me interrompeu e disse: Escuta. Sei que você andou gravando alguns discos. Queria saber quantos e quanto custam. Quero comprar todos. Eu rebati: não G, você não precisa pagar. Mando todos pra você. Me diga seu endereço que lhe envio agora. Silencio. Aí ele veio com essa: Escuta, não sei o que você sabe, mas não posso lhe dar meu endereço. Diga quanto custam os discos e me diga também seu endereço que mando alguém ai pegá-los, certo? Pensei em algo melhor pra dizer: Queria ficar mais tempo com ele na linha, dizer que sentia muito por M, perguntar-lhe se precisava de algo, saber como estavam seus pais ou apenas falar, falar, mas não encontrei nada. Só concordei e fiquei ainda na esperança que ele soltasse alguma pista dos meninos felizes que um dia fôramos, mas depois de um brevíssimo silêncio, ele disse “obrigado” e desligou. Lembrei-me de G quando nos apresentou sua primeira namorada. Ele usava um bigode e vestia sua melhor roupa. Ainda posso ver seus olhos tímidos  buscando nossa aprovação. Lembrei-me também de M voltando da escola em seu uniforme cada vez mais apertado. Crescia, engordava.

Uma pessoa que nunca vira na minha vida veio pegar os CDs. Pagou-me uma quantia além do que eu e G havíamos combinado. Não relutei. Isso não importava. Não disse nada, o estranho tambem não. Foi uma negociação dura, rápida, silenciosa. Depois que o desconhecido se foi, sentei-me na velha cadeira de balanço de minha mãe, na varanda. O mar, de longe, mandava um vento bem na minha cara. Acendi um cigarro, dei um longo trago e procurei não pensar. Nunca mais ouvi falar em G.

Entrevista concedida a jornalista mineira Luciana Campos para seu blog webentrevistas.

1- Bessa, por Reynaldo Bessa.

Oscar Wilde disse que um homem é sempre menos sincero quando fala de si mesmo, dê-lhe uma mascara e ele contará a verdade. Gosto muito dessa máxima. Uma coisa é você saber quem é, outra completamente diferente é dizer aos outros o que isso representa. Há um poeminha no meu livro que traduz bem esse desassossego: “Eu sou o que lembro ou o que esqueci?” Mas, sei lá...Acho que nasci ligado e esqueceram de acrescentar o interruptor de desliga ao kit. Estou sempre tentando transformar algo em alguma coisa. As vezes não me conformo que o nascer do Sol seja apenas isso...Blake via anjos pulando, eu vejo outras coisas. Muitas vezes penso que tenho dois, três ou até dez metros, pois estou sempre querendo pular de mim mesmo, escapulir, sair do que sou. Isso acontece quando uma manhã de domingo de Sol e céu azul, ardendo lá fora, entra no meu quarto e arranca meus lençóis e diz “vem, tô te esperando” ou quando uma noite de veludo azul intenso desliza seu pingente luminoso bem no meio do peito. Mas isso acontece também quando vejo um homem, numa noite de muito frio, agasalhado pelo abandono, pela fome, pela insanidade e principalmente quando percebo seus olhos presos num lugar que jamais saberei onde fica. Isso me dá também a ligeira e vertiginosa impressão que sou outros além de mim...e como definir todos eles? Por isso e por tudo mais, escrevo. Escrevo para não desenlouquecer. Escrevo para desacreditar no que penso que acredito. Escrevo porque esse mundo real não me preenche, não me basta, não me realiza e preciso sempre ser arrebatado. Necessito chegar primeiro do que eu, não sei onde, mas preciso. Não escrevo pra me vingar, como já disseram, não. Há vinganças demais. Escrevo porque penso que isso seja o mesmo que libertar palavras e soltá-las no infinito céu branco do papel para que olhos atentos apreciem seus voos. Na verdade sabe o que realmente sou? Quando minha mãe levantava-se dentro da madrugada e arrastava seus chinelos, eu não queria mais nada. Eu sou o som dos chinelos de minha mãe.

2 – Bessa, quem o conhece afirma que a “Simplicidade”, adjetivo tão valorizado e aprimorado com a passagem dos anos, é uma das suas principais características pessoais. Você concorda com isso? Aonde essa “simplicidade simples” já o fez chegar?

Essa palavra sempre me soou dúbia, mais ou menos como um beijo e um bofetão logo em seguida – não necessariamente nessa ordem – pra mim é uma das palavras mais complexas, pois ao mesmo tempo em que é sinônimo de naturalidade, elegância, caráter próprio, franqueza, espontaneidade, naturalidade, é também sinônimo de Ingenuidade. Algumas palavras são mesmo complexas. Como pode uma palavra com todas essas denominações se chamar “Simplicidade”. Isso ou aquilo, se a mensagem chega ao endereço certo, se as pessoas conseguem atravessar o meu-seu mar de memórias, de palavras, tá valendo.

3- Ser simples é o elo que o une às suas belas composições?

“O trabalho, a dedicação, a observação constante, a prática, o exercício da palavra, os arranhões e os suicídios diários e uma coisinha que não sei o nome, pois sempre me escapa, são os verdadeiros elos que me unem as minhas “Belas” canções”

4- É preciso que o poeta esteja vivendo um momento “especial e diferente” em sua vida para compor letras profundas, belas, e ao mesmo tempo simples de se assimilar, como as suas?

Só é preciso que ele esteja vivo...o resto vem..alegre ou triste, realidade ou fingimento, não importa, mas vivo, e quando digo vivo, não estou me referindo somente ao de estar “respirando”, mas sim, sugar a sétima pele da vida com a leveza e profundidade de um caipira preparando o seu cigarrinho...

5– Poderia resumir em algumas palavras, o que significa subjetivamente, cada um de seus cinco discos? O que “esses filhos” representam para você?

Outros sóis – aprendendo a desandar
O Beco das Frutas – a insustentável leveza da ansiedade
Angico – vontade de subir em árvores e atravessar açudes
Com os dentes – flertando com os caninos dos poemas
O som da cabeça do elefante – o sorriso de minha mãe, no portão, num final de tarde dentro da minha infância cheirando a pães recém-saídos do forno.

6 - Como acontece o processo criativo para você, desde a idealização de um novo projeto até sua execução final?

A coisa não é linear...não existe começo, meio e fim. Eu nem sei quando começa. As vezes nem quero que comece. Antigamente quando essa luz começava a piscar, eu parava tudo que estava fazendo e me debruçava sobre ela. Talvez um reflexo da inexperiência...agora espero um pouco...deixo a coisa crescer...me perseguir, me bolinar...vou fazendo o que tenho que fazer, quando enfim percebo que a onda é bem maior do que pensava, paro tudo e me dedico completamente a isso. Entro em parafuso, desapareço e só retorno quando está acabado ou pelo menos bem encaminhado.

7- Como ocorre a captação de recursos, num país onde a maioria das pessoas ainda não consegue usufruir, por falta de recursos financeiros, da cultura e do lazer de forma satisfatória? O dinheiro do aluguel, das contas, de onde vem?

Essa é uma questão difícil demais de responder, quer dizer, eu não tenho o menor tato com esse mecanismo. Não estou falando de todos os artistas, muitos lidam com isso com exímia maestria, falo de mim. Esse mecanismo tem botões demais. Sinceramente gostaria muito que as pessoas não tivessem que pensar somente no pão de amanhã, mas na cultura de cada dia, até porque isso refletiria no meu trabalho, mas isso não depende somente de poder aquisitivo, passa também por outras vias complexas. Se assim fosse, os ricos seriam os intelectuais desse país, e isso não é verdade. Falando de mim, pago minhas contas com o meu trabalho, mas quando não posso, não dá, faço como John Fante, apago a luz e vou dormir. As contas não me enxergam no escuro.

8 – Se tivesse que recomeçar, mudaria alguma coisa em sua carreira? Em nome da arte, você recomeçaria a caminhada, não tão simples, de ser artista no nosso país?

Eu sempre digo que quem quer comodidade não mexa com arte...ninguem sai ileso depois que se mete com ela...no começo o artista estranha, mas se ele for bom, tiver cacife, entenderá tudo...Eu não mudaria nada. Se tivesse que recomeçar, recomeçaria do mesmo jeito, faria tudo igualzinho. Aprendemos com os nossos erros. Betty Davis disse uma vez que a velhice não é para os covardes...eu digo o mesmo da arte, mas, claro! Espero que numa próxima eu possa encontrar meu país investindo mais em seus artistas, valorizando-os mais e espero que esse país seja o Brasil.

9 – Se não fosse poeta e compositor, o que seria?

O criador do Google.

10- Você gosta e se emociona com suas próprias composições? Como é, para você, ler e ouvir o seu trabalho?

Quando começo a fazer um disco: pesquisar timbres, pensar nos arranjos, escolher músicos, ouvir os primeiros resultados, eu curto muito isso, mas quando entra no processo de mixagem, masterização e todo o resto, perco o interesse... Ai deixo isso com alguém. Quando o disco chega faço uma audição minuciosa. Depois o esqueço por um bom tempo... vez em quando vou lá e dou uma ouvidinha...percebo uma coisa boa aqui outra nem tanto acolá e chego até a me emocionar, mas nada exagerado. Com o tempo o artista aprende a ver a coisa de um ângulo muito peculiar. Com a literatura vou até o fim. Acho que por ser o meu primeiro livro e por não exigir tanta exposição como na música, talvez por isso esteja curtindo mais... sei lá...acho que é uma forma divertida de brincar sozinho numa gangorra.

11- Cite alguns poetas e compositores que você admira.

Gosto de muita gente: Dos poetas: Piva, Murilo Mendes, Mário Quintana, Rimbaud, Baudelaire, Bukowski, Carpinejar, Cruz e Souza, Mário Faustino, Wilmar Silva, Ferreira Gullar, Mário e Oswald de Andrade, Drummond (não tudo) Os irmãos Campos, putz, ia esquecendo de um que adoro: LEMINSKI e muitos outros.

Dos compositores: Caetano, Chico Buarque, Gil, Milton, Mutantes, Bob Dylan, Neil Young, ainda gosto do Coldplay, Leonardo Cohen, Bruce springsteen (só os primeiros discos). Francis Cabrel, Jorge Drexler...Radiohead. Gosto de Elvis...ouvi alguém dizer que o Elvis na fase decadente era ainda melhor do que muitas bandinhas de hoje...concordo...gosto demais desse branco com voz de negro...Elvis me deu muitas aulas de canto e eu nunca o paguei por isso...você entende, né?

12- Você tem alguma composição de maior valor sentimental?

Não tenho predileção por essa ou por aquela canção. A “Predileção” é a mãe do primeiro e mais famoso crime da história da humanidade. Gosto de todas. Não vejo uma música em especial, vejo a obra num todo.

13 - Qual a linha a separar cantor, compositor, poeta, escritor e homem Reynaldo Bessa, se é que ela é capaz dessa separação? ... Até que ponto ocorre seu envolvimento com a obra?

Mesmo que eu soubesse, teria sempre o prazer de cruzá-la. Acho que esse é o grande barato, fuçar outros códigos... o poeta gosta de dormir com o cantor que por sua vez passeia de mãos dadas com o compositor, enquanto este flerta com o escritor...é uma verdadeira e prazerosa orgia profissional

14- O que mais o realiza? Cantar, compor, escrever poemas?

Primeiro fazer amor, depois um café bem quente, puro... aí... sim, estou pronto pra “Cantar, compor e escrever poemas”

15- De onde vem a inspiração para compor letras como “Por amor”, parceria com Zé Rodrix, gravada pela Banda Ira em Acústico MTV e “Cartas de amor”, canção tão profunda? Neste caso, o poeta precisa sempre estar num momento de solidão, de melancolia?

(rs), no caso de “Por Amor” foi muita pressão, nada de inspiração... nem transpiração. Com o Zé Rodrix, meu parceiro, era tudo pra ontem...então um dia ele me enviou uma letra e disse “faz uma música que o Nasi (vocalista do IRA!) quer uma parceria nossa. Aí eu perguntei “É pra ontem?”E ele respondeu “não, é pra anteontem” apesar da pressão, curti muito fazer “““... olhei pra letra e vi a música... sai tocando... eles adoraram... está no CD e no DVD. Esse momento é um marco na minha carreira. Às vezes toco essa canção por ai e tem gente que quer me bater quando digo que é minha. No show do Ira! Quando eles a tocam e o público vai ao delírio, eu fico bem caladinho. Imagina se eu saio gritando? “Essa música é minha, essa música é minha” com “Cartas de Amor” o processo foi outro. Eu estava me separando e quando o Wilmar Silva me mostrou esse poema, pensei logo “vou musicá-lo” Trabalhei nele um bom tempo. O tempo que necessitava pra ficar uma das músicas do disco que mais gosto de cantar.

16- Com os Dentes, por exemplo, é um disco formado por parcerias de sucesso. Como você faz para compor em dupla? Estão sempre juntos num mesmo recinto? Ocorre também por email, ou à distância?

Bom, com os poetas mortos foi tudo psicografado (rs) brincadeira... o único poeta que comunguei diretamente todo esse processo, foi o Wilmar Silva...desde a escolha dos poemas, até a sua finalização...o Wilmar participou até da gravação ao vivo do disco...ele leu trechos do seu poema gravado...afora ele...tudo foi conversado, combinado, rotulado e carimbado por emails...e dá-lhe emails

17- Qual a sua preferência, compor em conjunto ou sozinho?

Não é preferência, é hábito... trabalhei muito tempo sozinho e me acostumei a isso...só muito depois comecei a compor com outros parceiros...gostei, gosto, mas hábito é fogo, né? Dizem que são eles que verdadeiramente nos prendem ao mundo.

18- Mossoró, sua terra natal no Rio Grande do Norte, é uma de suas grandes inspirações para compor, como já lemos a seu respeito. O que mais o encanta em sua terra? Qual a importância das “raízes e bases” em sua carreira?

Como escrevi em um dos meus poemas que está no livro “Outros Barulhos” – “Por mais que se rabisque infinitamente o papel, nada mudará o primeiro ponto. Ponto final.” Mossoró é o meu cais, meu porto... foi onde eu comecei a compor as primeiras canções. Por mais que eu ande pelo Brasil ou pelo Exterior, meu primeiro ponto sempre será Mossoró. Sempre que me perco por ai e me pergunto quem sou? Procuro focar minha cidade e logo sei onde estou e quem sou realmente. Tem uma lembrança que talvez pra muita gente não soe como boa, mas pra mim sim, pois me remete a um lugar inviolável da minha memória. “Lembro que no final de tarde, quando íamos comprar pão, tínhamos que passar pelo presídio, o único na cidade, e ai víamos os presos, atrás das grades, sentados nos parapeitos das janelas”. Isso era de frente pra rua... se eles quisessem, poderiam puxar nossos cabelos, mas não queiram isso, suas intenções eram outras: Queriam cigarros, uma revista de mulher nua, um gibi, fósforos ou simplesmente dá um “Olá” para espantar seus fantasmas mofados. Alguns deles já eram velhos conhecidos nossos... eu sempre trazia cigarros, fósforos. Quando me pego lembrando disso me dá a impressão de que morei dentro de um livro do Gabriel Garcia Márquez. Infelizmente vou muito pouco a minha cidade natal, mas sempre que me esqueço, mesmo que por alguns minutos, quem sou realmente, imaginariamente, caminho pelas ruas melancólicas de Mossoró e levo cigarros, fósforos e bato longos papos com os presos, que sem saber, libertaram a minha adolescência.

19– Bessa, quem conhece seu trabalho, lê seus poemas e ouve suas composições só pode ter um pensamento: “Como é que esse artista, tão talentoso e completo, ainda não é reconhecido pela grande mídia”? Portanto, pergunto: Qual o reconhecimento esperado por um artista como você? O que é o sucesso?

Fico feliz que você pense assim, mas essas são preocupações que não me afligem mais. Quando eu tinha 17 anos, esperava o sucesso como um rapaz espera sua noiva no altar. Com o tempo aprendi que “Sucesso” significa outra coisa. Óbvio que continuo querendo que meu trabalho seja reconhecido, pois é dele que tiro o meu sustento, mas não da maneira como a grande mídia quer. Penso que o maior obstáculo, hoje, para impedir que um artista faça “sucesso”, por incrível que pareça, é a qualidade. Não há o menor interesse em qualidade. Atualmente o grande lance é o do mero entretenimento. Um dia cheguei a pensar que o problema estava em mim, mas com o tempo encontrei uma trupe de ouro na mesma situação que a minha. Não perco mais tempo reclamando, faço, trabalho e o problema não é meu, é deles. Hoje sei disso muito bem. Sucesso pra mim é reconhecimento sem nenhuma afetação. Sem essa coisa de ídolos, histeria, delírios, estraçalhar de roupas, choros e desmaios. Tudo isso é teatro barato. Tanto na música como na Poesia, sou reconhecido pelos meus pares e isso já é de grande valia pra mim, mas espero que o público em geral tome consciência (e isso já está acontecendo) que “Sucesso” definitivamente não é “isso” que estão descaradamente nos vendendo há muito tempo. Mas isso é um assunto já bastante visitado, não desperdiçarei mais sua inteligência e nem o meu tempo.

20– Qual a influência de sua terra, em seu trabalho, em suas letras, por exemplo? O que você “deve” ao jeito potiguar de ser?

A minha terra é uma estrela nesse céu de bilhões de estrelas e eu sempre a encontro, por mais perdido que as vezes me encontre, como já falei, mas falar do meu jeito potiguar de ser, seria como um adulto descrever o que sente ao ver uma foto de quando tinha cinco anos de idade. São Paulo é uma cidade voraz, veloz, dominadora, um moinho...aqui tudo é triturado, moído e transformado em algo nem melhor, nem pior, mas diferente...Digamos que hoje eu seja um índio potiguar que adora virado à paulista, ou pra ser mais preciso...vou usar o titulo de um dos meus shows que mais define isso com precisão...sou um papa-jerimum virado a paulista (Papa-jerimum são os nascidos no estado do Rio Grande do Norte e virado a paulista é um prato típico de São Paulo, e que por sinal, adoro) que não desiste nunca.

21- Conte-nos um pouco de seus sonhos futuros, o que mais vem por aí? O que os admiradores de seu trabalho podem esperar?

Eu também gostaria de saber (rs) depois do Prêmio Jabuti, tudo está acontecendo muito rapidamente e o músico tem que por diversas vezes sentar no banco de reservas desse jogo tão disputado e confesso que não é fácil pra ele. A bola rolando solta e ele lá, sentado, roendo as unhas, arrancando os cabelos, andando prum lado e pro outro e o técnico nem aí...tenho diversos projetos na música, mas a poesia tá tomando a frente. Acho que uma hora vou ter que lhe dar um safanão. Tenho que terminar um novo disco de músicas minhas sobre poemas de autores contemporâneos...tem um disco só com minhas canções. Tenho um convite em aberto pra tocar no Sul da França ano que vem...tenho uma pequena turnê por algumas cidades da Bolívia, Uruguai, Paraguai, Argentina...só não sei como farei isso, pois os projetos do livro depois do prêmio não me deixam mais tempo pra nada...por favor...me diga, o que faço? rsrs

22- Já passou por alguma situação constrangedora como artista? Algo até mesmo hilário...

Tem várias. Sou muito conhecido no Rio Grande do Norte: Em Natal e outras cidades, mais precisamente em Mossoró...não quero parecer pedante, mas sou celebridade lá. E um dia me convidaram pra fazer uma apresentação num dos mais famosos espetáculos que acontece lá todo ano: é o “Chuva de balas” um espetáculo no nível de “Paixão de cristo” de Pernambuco. Uma coisa grandiosa mesmo. Teatro a céu aberto contando o episódio em que Lampião entrou em Mossoró e foi escorraçado. Era Copa do Mundo e quando o carro veio me pegar no hotel, logo após, todas as pessoas estavam nas ruas comemorando a vitória do Brasil, claro! E ai, eu estava atrasado e não conseguíamos andar. Chegamos ao local do espetáculo em cima da hora...entrei no camarim e todos os produtores, maquiadores e tudo mais vieram pra cima de mim, me deixando ainda mais nervoso. Quando tudo estava resolvido, e o apresentador anunciava meu nome, o ator que faz o lampião (já vestido do personagem) veio até mim e disse “Sou teu fã. Você pode tocar uma música pra mim? É aquela” e começou a cantarolar a música. Eu o ouvia, mas também prestava atenção no apresentador anunciando meu nome. Eu lhe falei, “Olha, hoje vou tocar apenas músicas minhas, essa música do Alceu Valença eu não toco mais, me desculpe” Aí minha ex-esposa (na época esposa) disse “Bessa, essa música é sua” a música era minha, mas na correria, na adrenalina, não consegui identificá-la. Fiquei tremendamente sem jeito. Depois, no avião, rimos muito. Foi basicamente isso.

23- Angico, disco lançado em 2004, nos traz um novo som, novas formas de se ouvir Reynaldo Bessa, como por exemplo, a utilização de ruídos eletrônicos, guitarras distorcidas. Você diz sobre Angico que: “Este disco sou eu”. O que você quis dizer com esta afirmação?

Adorei fazê-lo. Catarse total. Gostei de tudo nele. Todo o Resultado sonoro como também o trabalho visual. As fotos estranhas, distorcidas como as guitarras nas músicas...foi um momento de experiências que só com o tempo pude perceber que quase ninguém havia ainda tentado fazer aquilo que estávamos fazendo...só muito depois é que todos passaram a fazer e ai a coisa proliferou. É um disco totalmente experimental e principalmente temperamental..rsrsrs. Um disco à Bessa.

24- Conte-nos sobre a experiência de ter sido selecionado, em 2005 com o Disco Angico, para o Prêmio TIM de Música. O que você acredita ter chamado mais a atenção dos julgadores?

Isso tudo que falei agora acima...era tudo novo...nada disso estava sendo feito, a não ser por uma pequena parcela dos músicos que estavam antenados com as novas tendências. É um disco livre, inventivo, forte, estranho. Quando vez ou outra o escuto, ainda encontro novidades...acho que foi isso...um disco que já nasceu diferente...foi talvez esse estranhamento que tenha chamado atenção...além de mim na capa, claro! rsrs

25- Muitas de suas canções são poemas de poetas reconhecidos ou não, escolhidos e musicados por você, o que resulta num efeito de encantamento e de superação dos próprios poemas. Como é feita a seleção desses poemas a serem musicados? O que o poeta e compositor pensa, sente, no momento da composição?

Digo sempre que não escolho o poema, o poema é que me escolhe...e tem sido assim...e está sendo assim também para o próximo disco...o volume 2 (rs) não tem amigo, coleguismo, nada, o poema é quem manda...acho que por isso é que tem dado muito certo. Depois de escolhidos todos os poemas...geralmente “dez” começo a fazer as músicas...sempre pensando numa diversidade uniforme, se é que é possível isso, mas as coisas acontecem e tenho curtido muito isso...o letrista, por melhor que seja, acaba se repetindo quando tem uma obra extensa..então é bom poder conhecer o que outras vozes tem a dizer...o Carpinejar quando ouviu “Cartas de Amor” seu poema musicado por mim, disse: “Ele nasceu pra ser música” fiquei feliz, pois quando musico poetas mortos, beleza...esses não reclamam, mas musicar poetas vivos, é muito, muito complicado...não costumo mudar nada, aliás, acho que não posso, não tenho o direito de mudar nada nas obras, então tenho que achar a música que vista perfeitamente esse poema. Como me sinto no momento da composição? Sinto-me como uma mulher, num sábado á noite, procurando em seu guarda-roupa, o vestido ideal. As mulheres, sempre as mulheres.

26- Sua música pode, perfeitamente, ser excelente fonte de trilhas sonoras para novelas e filmes brasileiros, com melodia e sonoridade indispensáveis ao grande público. Já lhe ocorreu algum convite deste tipo?

Falam muito isso e até já aconteceu sem acontecer...entende? nem eu. Vou explicar. O Zé Rodrix foi convidado pra fazer toda a trilha sonora do filme “Pelé Eterno” e me chamou. Fizemos várias músicas...uma a Gal Costa ia cantar, uma outra era pro Moraes Moreira, outra se não me engano agora era pro Milton Nascimento...lindo..mas esses bastidres são muito complicados...fulando se desentendeu com sicrano e o projeto bateu num iceberg maior que o do Titanic...resumindo...em virtude disso mudou o produtor musical e eu e o Zé ficamos a ver navios, o Titanic inclusive. Sobre novelas, tem gente que teima comigo que ouviu uma musica minha na das oito, mas já estou acostumado...sorrio de lado e digo...é minha sim...e eles dizem...nossa que legal...eu sabia...rsrsrsrsrs

27- Qual a emoção de Receber o Prêmio Jabuti 2009 sendo, “Outros Barulhos”, o seu primeiro livro de poemas? Ter concorrido com poetas reconhecidos e renomados, como Ferreira Gullar, agrega valores a este Prêmio?

Eu costumo dizer que foi “Um susto delicioso” e como diz um amigo meu “você entrou pra turma” é um prêmio muito cobiçado, muito importante para o escritor, reconheço, mas não devemos ficar presos a isso. Temos que escrever e escrever e só. Prêmios são conseqüências de um trabalho bem feito...òbvio que disputar com figuras de peso como Ferreira Gullar e Afonso Ávila, entre tantos outros me deixa orgulhoso, Claro! mas tenho que olhar pra frente..quem olha pra trás é retrovisor...quero outros prêmios, sim...mas antes de tudo vem o trabalho. Quero continuar escrevendo bem.

28- Gostaria de dizer algo para seu público?

Comprem meus discos, meu livro. Falem de mim, podem falar mal, ta valendo, mas falem. Pode ser um clichê o que vou dizer agora, mas é a mais pura verdade...”O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” Um país depende muito da cultura de seu povo.

29- Onde e quando serão seus próximos shows?

Farei shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, depois toco em quatro cidades da Bolívia e tem um projeto pro sul da França ano que vem. Estou preparando meu segundo livro de poemas (Por esses tempos estarei empenhado nisso) mas, tenho dois romances e um livro de contos prontos. Estou em negociação com algumas editoras que se interessaram por meus escritos, mas quero ressaltar que estou aberto a outras tantas propostas, e que venham. É isso. Obrigado Luciana, pelo espaço e pelas belas perguntas. Vamos nos falando. Beijos.


Entrevista concedida em: 08 de março de 2010
http://webentrevistas.blogspot.com/

terça-feira, 4 de maio de 2010

As vezes a poesia soa tão igual que parece invisível.

Culinária e abandono

Gosto de cozinhar. Esses dias aprendi um jeito de cortar cebola sem lacrimejar. É batata, quer dizer, é cebola. Você só chora se tiver levado um "pé na bunda" recentemente. Aí não há jeito.

o avesso...do avesso...

É fácil escrever difícil. Difícil é escrever fácil.

A routine like a Bukowski

Já não sei de quem são esses cílios feito um bichinho
se movendo em minha nuca
também não sei ao certo a cor da pele
as vozes estão cada vez mais longe
a quem pertence esses sapatos, esse lenço, esse batom?

não lembro
há muitos perfumes aqui dentro
minha solidão torna-se maior, não quando elas se vão,
mas sim, quando chegam
de quem é essa toalha? essa peça íntima? Se é que tem uma dona, mas por certo não chegaram aqui sozinhas
elas continuam vindo
sonham com tantas coisas
choram tanto e logo estão sorrindo
elas dizem que gostam de mim, mas
não acredito, sorrio apenas
elas precisam se divertir um pouco pra esquecerem por alguns
momentos o caminho de casa. Necessitam vez em quando
silenciar a solidão ruidosa sob a pele que o tempo lambe
elas gostariam de não mais chorar
estão cansadas
sabem que a vida é uma corda bamba
sabem que o corpo não mais as obedecem
eu as olho, depois escorrego na poltrona e fecho os olhos.

umas e outras...

Noite quente
Vento nenhum
Árvores sem assunto

...............................


Ela não mais me ama
Silêncio sob o lençol da pele
Até a noite reclama

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Rimbaud nunca é demais

Todo domingo faço um programa que curto muito. Lá pelas 15h passo na Livraria Martins Fontes, da Paulista com a Manoel da Nóbrega, compro um livro e depois me dirijo ao meu boteco predileto, ali, do ladinho da Martins Fontes. Frequento esse barzinho de calçada há mais de 12 anos. Meu amigo Márcio que está lá muito antes desse tempo, sempre me atende como se eu estivesse num trem rumo as estrelas. Enquanto leio as brejas e bebo o livro, vez ou outra dou uma zapeada pela passarela paulistana: É um espetáculo. Ontem, dia 02, segui essa mesma trajetória e dessa vez comprei: Rimbaud: A vida dupla de um rebelde, de Edmund White. Comprei esse livro tanto pelo Bardo genial de Charleville, quanto pelo Edmund White, que já tinha lido dele em Paris "O flâner - Um passeio pelos paradoxos de Paris" traduzido pelo genial escritor brasileiro e meu xará, Reinaldo Moraes. Aproveitem e leiam os dois, quero dizer os três, tem o Tanto faz do Reinaldo Moraes que é um livro simplesmente genial. Se tiverem fôlego leiam também Pornopopéia que o Reinaldo acabou de lançar e que está concorrendo ao Prêmio São Paulo de Literatura...puta grana. Estou torcendo por ele.