Espertos

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um tempo desvairado

O relógio do meu peito
parou às três da manhã
há um escuro de unhas afiadas e
barbas longas

um céu negro entre os pelos
não, não há estrelas
o que seus olhos veem
é minha alma pálida escapando
pelos furos dos punhais
de um tempo desvairado.

sábado, 24 de julho de 2010

Are you lonesome tonight?

Ela apareceu de repente. Foi como se tivesse esgueirado-se pelas fendas do irreal e se postado bem ali na minha frente, dentro do real, onde tudo ainda doía: as paredes, os quadros, as ruas, as árvores, as folhas, os semáforos, o chão, os carros, as pessoas, as luzes, a tarde, tudo. Tudo isso ainda doendo sob as pálpebras do tempo. Quando ela me olhou de frente, mais ou menos como uma execução sumária, perdi completamente a noção do que acontecia à minha volta. Ela já tinha o controle de tudo, não sabia, mas tinha. A primeira coisa que me tirou o fôlego e a capacidade de tentar escapar dessa armadilha foi a sagacidade verde que emanava do seu olhar. Ah! Os seus olhos: duas lâminas verdes e afiadas. Eu os olhava e me dava uma tremenda vontade de mergulhar fundo. E eu mergulhei. Não devia, mas mergulhei. O que eu poderia ter feito? Digam-me. Até porque também havia sua boca cheia de beijos arquivados e histórias sob a língua. Histórias, que no breve curso dessa explosão, eu as ouviria com olhos famintos e coração trepidando.

Convidei-a para um café com receio que ela fizesse como a menina, que vez ou outra invadia meus sonhos: toda vez que eu tentava tocá-la ou mesmo me aproximar, escapava e a única coisa que me deixava era a incerteza de voltar um dia. Para meu espanto, ela aceitou, e exultante, esqueci, por um momento, a menina dos meus sonhos e as coisas doendo lá dentro.

Entre um gole e outro de café, enquanto a xícara tocava seus lábios imponentes como uma catedral, eu me perguntava se deveria ficar ali ou sair o quanto antes, pois o medo; esse bebê chorão bem no meio do meu peito não me deixava em paz. Ele e sempre ele.

Começou a chover. Saímos sob um guarda-chuva estropiado pelos ventos alucinados de um Fevereiro úmido. O que aconteceu depois? Ora, o que um homem e uma mulher podem fazer quando acham que não existe nada, nada mais além dos dois?

Um dia saí de sua casa e caminhei quilômetros a fio. Não conseguia parar. Não tinha medo de nada. Sentia-me como que caminhando numa outra camada da noite. Como se as pessoas pudessem me ver, mas não me tocar, entendem? Então eu caminhava, caminhava e nada teria me parado. Depois de muitas horas, cheguei em casa e continuei caminhando por ela e continuaria assim, se por um átimo, não tivesse pensado que o êxtase também pode carregar o poder de aniquilar.

Lembro-me de nossas voltas melancólicas, quando ela, cheia de energia, resolvia me acompanhar até minha casa. Deslizávamos pela madrugada tão silenciosa que até podíamos ouvir o estalar dos semáforos como ossos se partindo. Nos postes, sob os bocais, escorriam lágrimas douradas. Eu olhava as ruas. O que elas tinham que mexiam tanto comigo? Porque toda essa nostalgia quando eu estava diante delas? Os néons continuavam tentando me dizer alguma coisa. O Elvis vibrava no discplayer, mas era como se estivesse ali, entre nós, no banco de trás e eu pudesse, a qualquer momento lhe perguntar alguma coisa. Eram canções que eu tinha ouvido muito na adolescência, mas que só agora entendia perfeitamente o que realmente diziam:...Você olha para a porta e me imagina ali? Seu coração está cheio de dor? será que eu voltarei? Diga-me querida, você está solitária hoje? Ou:...querida você mentiu quando disse que me amava... mas eu prefiro continuar ouvindo suas mentiras a viver sem você...Ou: ...agora o palco está inutilizado e eu estou aqui parado com o vazio à minha volta e se você não irá voltar pra mim, então faça com que baixem as cortinas...

Nos olhávamos e ponto: tudo estava dito. Tudo já havia sido feito. Vez ou outra ela assumia um jeito muito peculiar de dirigir o carro: apenas um dedo de cada mão, agora não lembro se era o indicador ou o médio, tocava a direção. Era como se ela quisesse, por algum tempo, colocar todo o restante pra descansar, mas sei muito bem que não era isso. De esguelha eu olhava seus lindos dedos sobre o volante e pensava “Esse é um daqueles detalhes que não vou esquecer muito facilmente” O Elvis continuava destilando todas as suas dores e as ruas pareciam entender muito bem disso. Eu podia ouvir seus lamentos sob os pneus.

Não é só a infelicidade que nos impede muitas vezes de seguir em frente, a felicidade, por incrível que pareça, pode também conseguir isso. Sem falar nos conflitos entre você e o outro dentro de voce mesmo, entende? Eu sei, nem eu, mas a coisa é assim e lembram-se do bebê chorão que falei no começo? É, aquele que não me deixa em paz? Pois é, quando eu tentava, enfim! Esquecer-me em seus braços macios e sob seus cabelos cheirosos - isso sempre me fazia lembrar de um lugar onde um dia realmente  me senti seguro e que sei muito bem, saí contra a minha vontade - esse bebê barulhento sempre dava umas de me despertar. Trazia notícias de longe e me fazia perguntas que até hoje não sei se existem respostas.

Alguém disse um dia que o mundo todo foi dividido pelo medo. Sim, o medo dividiu nosso planeta em hemisférios, continentes, países, cidades, bairros, ruas e sei lá mais o que. Temos medos. Eu com os meus e os outros com os deles e pra que isso dispare num precisa de muita coisa não, quero dizer, num precisa de nada, pois de qualquer jeito ele virá à tona, mesmo que não queiramos. Afinal a confusão precisa continuar. Então, numa bela madrugada – chamo-a de “bela” para tentar atenuar o quão trágica foi - em que todos os meus demônios resolveram correr para o playground, parti com meus pés explodindo tudo. Parti com tanta força que meus passos de ferro derrubaram todas as pontes e caminhos que havíamos construído. Até a convicção pode ser uma charlatona. Em que mais podemos acreditar? Quando alguém me enche o saco sobre a provável existência de Deus, costumo argumentar que até acredito, mas não confio nada Nele. Mas voltemos a convicção, pois é. Saí puxado pelas mãos dessa senhora como os ratos ludibriados pelo som do flautista. E até onde eu poderia chegar?

Numa dessas madrugadas frias e sem rosto em que a lua é extraviada e todos os cães são silenciados. Quando você tem que retirar a armadura porque o corpo não aguenta mais arrastá-la. Quando você tem que depor todas as armas porque não há mais forças para empunhá-las. Quando a dor que se traz sob a pele não é resolvida em farmácias, hospitais, igrejas, bares, lojas de conveniências, postos de gasolina e sei lá mais aonde, eu ia lhe dedicar uma oração enquanto minha alma desertaria  meu corpo e vagaria por desertos longínquos. Numa dessas madrugadas estropiadas eu entregaria os pontos e diria; tudo bem, eu perdi... eu aceito..eu perdi..aqui estou. Não há o que dizer, o que esconder... estou nu e moído até o osso...não preciso fingir pra mim mesmo, pois essa é a pior mentira...não preciso arrancar o rosto para sobrepor um outro...Sim, numa dessas madrugadas em que um segundo pode lhe custar a vida, eu ia tentar reconstruir todas as pontes, todos os caminhos de volta, mas carregando em mim uma dor que ainda achava que podia ser mais do que isso, eu ia enfim! perceber que não era mais possível. Não, não era. Ficaram as canções do Elvis. Escrevi esse conto ouvindo: Are you lonesome tonight? (no repeat)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Eu estou com saudade de você

"Maravilhas no país de Alice"

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ainda algumas lembranças III

Passei meus dois últimos dias em Londres conversando com meu amigo mexicano Juan em um pub que ficava a somente cinco metros do hostel em que eu estava hospedado. Juan era o barman. Falávamos ora em inglês, ora em espanhol. Ele era de DF. Enquanto lavava as tulipas me perguntou: so, did you call her? olhei por cima da minha Guiness e lhe respondi: não, not yet. Antes preciso de mais umas três dessa. Ele soltou um vale! e continuou seu trabalho. Eu estava super excitado, pois acabara de voltar da Irlanda. Caminhara as dezenove ruas de Dublin, embriagado e repetindo sem parar “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”. Minha cabeça flutuando num mar de Guiness. Numa esquina escura uma beldade havia levantado a saia e me mostrado suas colunas do Parthenon: sorri e lhe disse: sorry! I am very tired and drunken as well. Ela se contraiu e depois soltou o sonoro soluço típico dos bêbados. Segui o meu caminho repetindo sem parar: “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”.
Juan me olhou de novo e disse: vou te servir mais uma, depois você vai ligar pra ela. Na volta te sirvo muitas outras, ok? Tudo bem. Falei. Matei a guiness quase num só gole e sob o frio de Londres – Nessa hora lembrei que Balzac havia dito que esse frio não conseguia apagar uma vela, mas que era capaz de matar um homem. - Segui em direção as quase já extintas tradicionais cabines de telefone. As vermelinhas. Entrei. Disquei e depois de alguns segundos ouvi sua voz. Eu falava sem parar. Não deixava ela falar. O que eu estava fazendo? Continuei falando. Ei! Acabei de voltar de Dublin, Deixei James Joyce bem triste com minha partida. Estou em Londres de novo e daqui a dois dias estarei em Paris e mais uma semana chego por ai, então...olha...Eu continuava falando. Ela me interrompeu. Meu amor...ei...ei...meu amor...tô muito feliz que você esteja finalmente voltando. Sinto saudades. Muitas saudades. Parei de falar. Fiquei ouvindo-a. O Telefone tremia em minhas mãos. O que viria após isso? Sim viria alguma coisa mais. Então veio. Ela finalmente disse o que eu não queria ouvir. Eu já sabia, mas não queria ouvir. Só isso. Depois de quase duas horas de conversa, após ela ter desligado, por meia hora fiquei segurando o telefone. Era ainda o que me ligava a ela. Por fim desliguei. I know, I know, there aren’t miracles. Pensei. Londres não estava mais só embaçada pela névoa. Me dirigi ao pub pensando que agora eu só tinha Juan, o meu amigo mexicano. Quando ele me viu colado ao balcão e com os olhos presos em lugar nenhum, me trouxe uma imensa tulipa derramando Guiness por todos os lados e por fim disse: essa é por minha conta.

domingo, 18 de julho de 2010

Quem é esse?

Um desconhecido, ao longe,
caminha como um velho conhecido.
O tempo, sem minha permissão,
me leva para um lugar que já conheço.
Quem é esse, em mim,
que me desobedece?
Que me segura pelas costas me
impedindo de caminhar?
Quem é esse?
Quem é esse que pulula meus cílios de paisagens encardidas?
Que vive me trazendo notícias de um tempo sem sombra,
tardes sem trancas e portas desamparadas?
Quem é esse?
Quem é esse que destruiu todas as estradas e
pontes que me traziam você?
Quem é esse?
Ele fala de pegadas há muito soterradas por 
outras tantas pegadas.
Fala de sonhos descabelados e
manhãs hipotecadas.
Quem é esse que vive tomando decisões por mim,
mas que não tem a mínima coragem de me olhar nos olhos?
Quem é esse?
Quem é esse?
Gostaria muito de olhar pra mim sem
os gritos aflitos dos espelhos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os livros mais bacanas de 2008: (minhas resenhas sobre os livros que li e gostei em 2008) resenhas solicitadas pelo site Cronópios em 2009.

Tanto Faz - Reinaldo Moraes

Como dizia Bukowski: bom tempo é como boas mulheres, não acontece sempre e quando acontece, não dura pra sempre. Digo o mesmo para os livros, mas com uma pequena diferença: o tempo passa, as boas mulheres te deixam, mas os bons livros ficam com você, ali na estante, ao alcance da mão. Os bons livros são mais fiéis do que os cães. Tanto faz (Não tenho certeza, mas creio que seja o primeiro livro do Reinaldo) é bacana porque é divertido, hedonista, cheio de vida. Gosto dos hedonistas, se é pra doer, vamos nos divertir, certo? Tanto Faz é uma homenagem ao prazer, ao amor e a amizade. Morri de alegria e inveja da amizade do Rica com o Chico. E por falar nisso, onde estão os amigos, as amizades de verdade, dessas em que até as nossas amigas mijam na nossa frente quando voltamos de uma farra, arrotando cerveja e salame? Mas voltando, Tanto faz é bacana-sacana porque é um jorro de alegria. Não há forçação de barra, a coisa flui naturalmente como deve ser. Até os estrangeirismos se encaixam perfeitamente. A escrita é aparentemente simples, despojada, mas cuidado, ela engana. Num capítulo eu rachava o bico devido a alguma cagástrofe do Rica, no outro, franzia a testa e fechava a cara porque não tinha respostas para os questionamentos filosóficos do personagem embriagado de vida e Demi perdido em uma das Gare. Quando li tanto faz, peguei a mochila e me mandei pra Europa, Paris, como não poderia deixar de ser. No final de tarde parisiense, toda vez que me aboletava numa mesa e pedia um Demi, sempre brindava com um Rica e com um Chico imaginários. Tanto faz é bacana, ponto. Porque é um desses livros que tem a manha de mudar a sua vida, mesmo que você não queira... tanto faz...

1933 foi um ano ruim - John Fante

John Fante escreve como quem se confidencia a um amigo. Você acaba comprando a briga dele, ficando do seu lado. 1933...foi um ano ruim,  como o próprio título já entrega, é um livro triste. Um livro que fala de sonhos e amores impossíveis, muito frio, tempos de desemprego, saudade, pobreza, mas tudo isso embrulhado no papelzinho do lirismo e com um lacinho de sarcasmo. O sarcasmo de um adolescente inconformado com a vida que leva. Arturo Bandini com seus olhos de raios-x, disseca Svevo Bandini, seu pai, com tanta minúcia e audácia, com tanto ódio e amor, que até dá vontade de lhe ceder o nosso emprego, nosso salário. Comprar-lhe uma casa. Gosto das passagens em que Fante se refere “os olhos do fogão de minha mãe. Ele só obedecia a ela” ou “ O piso da varanda estalava quando o pai pisava...ela sabia que era ele”
Fante é mais um desses escritores que não se protegem em palavras bonitas, vai direto ao ponto: o Coração. Fante tem o poder de se apossar do leitor. Num dado momento, chegamos a pensar que somos Arturo Bandini, ou seu amigo mais próximo. 1933... Arrebata... toca
1933 foi um ano ruim é bacana porque Fante consegue nos alegrar com a sua tristeza e principalmente com a sua inconformação eletrizante.

Complexo de Portnoy - Philip Roth

Chorei e ri demais. Ou será que ri e chorei demais? Sei lá... só sei que foi catarse total. Só quem não foi criança ou adolescente é que não vai se identificar com o personagem, o Alex Portnoy. O Livro é divertido, é engraçado e como dizia Borges: O livro tem que divertir, se não, o jogue fora, pois é. Resisti anos e anos a fio em comprar o Complexo de Portnoy porque, sinceramente achei que era mais um desses livros paranóicos que tentam tirar você da sua paranóia. Enganei-me. Sorri molhado, chorei sorrindo. Uma frase te leva pra baixo, a outra já te traz pra cima com as lágrimas em gargalhadas. Resisti muito tempo também a Philip Roth, nada mais de livros sobre o holocausto. Nada a ver. Outra coisa. Narrativa simples e direta, mas rica e densa. Alex é um personagem que desengonçadamente tenta abrir as portas do coração dos pais medrosos e protetores ao extremo, como não consegue, fecha a porta do banheiro e se acaba na bronha. O Pinto é seu passaporte para a liberdade. Uma verdadeira e hilária epopéia masturbatória. Quem não conseguir rir com a passagem do problema que Alex Portnoy tem com um de seus testículos, deve calar seu riso para sempre: “Quando eu tinha nove anos, um dos meus testículos se cansou de viver dentro do escroto e resolveu migrar pro Norte... deixando seu temerário companheiro sozinho no meio de chuteiras, cercas de madeira, pedras, paus e canivetes, todos aqueles perigos que enlouqueciam minha mãe...”
O complexo de Portnoy não é só bacana, é do caralho, porque Roth pegou todo o seu passado e com muita coragem transfigurou-o.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resenha que fiz para o primeiro livro do escritor Marcelo Mirisola para a Editora Estação Liberdade e site Cronópios.

Por Reynaldo Bessa

Comecei Marcelo Mirisola por Joana, a contragosto. Depois vieram: Bangalô, O azul do filho morto, notas de arrebentação, o herói devolvido. Enquanto lia todos esses, um título de um de seus livros não me saía da cabeça. Gosto de títulos. Saía para comprá-lo, mas acabava sempre voltando com um outro. Não o achava. Estava esgotado. Era Fátima fez os pés para mostrar na choperia. Que porra de título é esse? Do que se trata realmente esse livro? Ficava me perguntando. Imaginava, Fátima: bela e saltitante, soprando as unhas das mãos e dos pés enquanto seus olhos negros e ligeiros conferem o relógio e desarrumam o guarda-roupa, atrás do vestido, a calcinha e os sapatos certos. Uma nova choperia no bairro? Um convite de um rapaz que ela estava muito interessada?A noite da primeira foda? O que o autor havia aprontado agora? Estava curioso.

Fátima fez os pés para mostrar na choperia, reeditado pela editora estação liberdade, é o título do primeiro livro do iconoclasta Marcelo Mirisola. Estão ali 30 contos escritos por um moleque de apenas vinte e poucos anos. Brindemos!

Num desses dias em que eu precisava urgentemente de um bom livro, Fátima...Caiu-me às mãos. Junto com ele, recebi também a incumbência de resenhá-lo. Isso quer dizer falar sobre Marcelo Mirisola. O Inclassificável MM. Tarefa nada fácil.

Maria Rita Kehl, no prefácio de Fátima..., se esforçou bastante. “Há meses venho tentando entender o que foi que eu gostei tanto nele, como é que ele escreve, o que é que ele faz – de maneira a poder orgulhosamente apresentá-lo aos leitores.” Comparou-o com Dalton Trevisan, Henry Miller, Céline, mas desistiu. No meio de todos esses, - eu acrescentaria ainda umas gotas de John Fante e Bukowski. - Só sobrou Mirisola. Que bom! Pois é justamente nesse “não-sei”, que reside o grande barato desse autor descoberto a pouquíssimo tempo. É nessa loucura toda que tá a caverna do coelho, quer dizer, de MM.

Não há como falar dos livros de Mirisola sem falar em Mirisola e vice-versa, não há como separá-los. É como tentar tirar o bonequinho da caneta bic sem danificar os dois.

Há muitas estórias em Fátima... e apenas uma. Uma e muitas outras. Como uma espiral: Um ponto de partida e uma chegada sem fim ou nenhuma chegada. Onde está o ponto de partida?. Dá a impressão que podemos ler os contos de trás pra frente. Tudo rolando e nada acontecendo. Acontecendo tudo e nada rolando. Que porra é essa? Quando se está lendo um dos contos tem-se a impressão de estar lendo várias estórias e quando se termina o livro, fica a sensação de que se leu apenas uma. Miríades de sereszinhos, sofrendo, gritando, gemendo, se envaidecendo, copulando e se arrependendo dentro de uma camisinha. A camisinha, aqui, essa vidinha filha da puta, mais ou menos que a gente pensa que engana. Que pensa que empurra com a barriga.

Ilusão, marasmo, solidão, desdém, vertigem, tristeza, mas lá no fundo um lampejo de esperança, mesmo que ferida, agonizando. Ficamos cara a cara com a banalização da vida cotidiana e o culto ao mundanismo. “Condomínio Grand Royale meia calabresa, meia muzzarela. TV. Fátima Bernardes. A classe média vestida de taierzinho. Que dá tesão. Dá vontade de abrir um negócio próprio. Que dá vontade de dar dois tiros na garganta”. (Fátima fez os pés para mostrar na choperia) Não há escapatória, salvação. Quando você acha que ele agora vai dar uma respirada, vai pegar leve é quando a coisa vai ficar mais difícil. Sem chance. “Um dia depois do outro é uma indecência...é uma tripudiação. Quem disse que amanhã vai ser diferente?” (Quem disse que resisti 30 anos?)

Borges já havia dito: “Quando um escritor é jovem, de algum modo sente que o que vai dizer é bastante tolo, óbvio ou lugar-comum, então tenta ocultá-lo sob uma ornamentação barroca, por trás de palavras tiradas dos escritores do século 17” pronto, é só isso, MM não seguiu essa máxima, saiu do fluxo. Fez uma literatura como há muito deveria ter sido feita.Teve culhões. Um relato honesto, sem rodeios. Sem frescuras, pra não dizer, pompa. Como disse Bukowiski se referindo a John Fante: Ouro no lixo.

Fátima tem momentos geniais com coisas aparentemente heterogêneas, isso ocorre no conto (Taradinho – pág 96) “É um coitado – diziam os transeuntes que oravam em louvor a Nossa Senhora da Esquiva, protetora dos chuviscos, das transmissões com caráter experimental e do canal 37-UHF da TV Joaçaba Ltda. O Que significa isso? Uma combinação impensada? Genial? O que?. É de novo a caverna do coelho de MM.

Há também em Fátima, expressões, frases que outros escritores, me parece, costumam jogar fora por achar demasiadamente insignificantes, - Borges aqui de novo - sem sentido. Mas para o autor de Fátima...“nenhum sentido” é apenas uma coisa vista de outro ângulo. É mais ou menos como um catador de lixo que no final do dia, esculpe um belo trabalho com o que recolheu das ruas, e aí ficamos "como eu não pensei nisso antes?” E assim você vai devorando, comendo Fátima e se perguntando por quê? Necessitamos do insuportável?

No conto (Adeus Rua Butantã) me senti o próprio motorista da Marajó 85. Por diversas vezes, enquanto lia Fátima..., sem querer, girei o livro pra esquerda e pra direita na intenção de jogar o carro serra de Santos abaixo. Me senti feliz por não estar casado com a mulher no banco de passageiro da Marajó. “subimos a serra de Santos cheirando merda de criança. Minha senhora (reparem no “minha Senhora” O que é isso? Deboche, cansaço? Desdém? Sarcasmo, sei lá.) recém-acendeu o cigarro de baixo teores. A fumaça corta um pouco o cheiro da merda e dá uma pontinha de tesão ao sair de fininho pelo quebra-vento.........As crianças choram. Ela acende outro cigarro. As crianças enjoam. Meu saco na “zorba”. O carro fede merda e as fraldas...onde estão as fraldas?Antes que ela fale ”esquecemos na casa da mamãe” O Diego está assado. Eu não queria este nome. A mãe disse para não se afastarem dos adultos ...Porque eu nunca havia reparado nos pés da minha senhora. Poderia ter evitado tudo....” Agora o terrível observador MM em ação.
Fátima é um sopro de doçura e mau-hálito, de carência e escárnio, de tensão e humor, o ácido, é claro! “O senhor quer saber com o que eu “mexo”? Com a sua filha, naturalmente. Falando sério ? (e aqui a gente acha que ele vai consertar a situação. Imaginem a cara do velho.) Quer dizer...eu vivo de pequenas fraudes e de golpezinhos inconseqüentes. Nada que possa privar Lelé da minha companhia por mais de dois meses metido na cadeia” (Quero Lelé feliz)

Não se engane, Fátima foi escrito por um moleque de vinte e poucos anos e metido a besta (palavras do próprio Mirisola no início de Fátima...) mas não é um livro fácil, simples ou coisa que o valha. Mirisola é mestre na arte de confundir. Algumas viagens são só de ida. Você se pergunta o tempo todo. Quem é quem aqui?. Onde é esse lugar? Isso são contos? Crônicas? Cartas? Talvez, quem sabe, até um romance? Isso aconteceu ou foi sonho?

O Autor-personagem, por todo o livro, carrega um saco cheio de brinquedinhos que ele adora presentear: muito sexo, perversão, cinismo, canalhice, sarcasmo Deboche e tarará...vai por todas as páginas distribuindo-os a putas, travestis, mulheres que não sabem mais trepar, meninos retardados, idiotas, burgueses, casamentos sem futuro, e quem mais perdeu o rumo. Mas nesses brinquedinhos há também espaços para lampejos de espanto, fragilidade, lirismo, sei lá... “Faz quanto tempo que você não dá umazinha? Caí na gargalhada para não cair da cadeira” (Relato de uma breve história de sacanagem).

O conto de nº 19 é a própria confusão e Mirisola consegue confundir ainda mais, pedindo logo no inicio compreensão. (é necessária a compreensão) Como compreender um novo inquilino que aluga um quarto no qual já existem vítimas do inquilino anterior? Desde que cheguei o quarto permanece fechado. Habitam vítimas do antigo inquilino... Degolei-o. Pensei na órbita dos olhos ou coisa que o valha...mais sangue, eficiência, precisão, hematomas e depois toda a vida, toda a breve existência morta no vaivém lúcido e visionário da minha rola. (Perfil do Consumidor) Por diversas vezes quis abandoná-lo, mas não consegui. Fui até o final e vi o assassino (aconteceu realmente um crime ali?) fechar a porta do quarto e rescindir o contrato. Será que T.S Elliot estava certo quando afirmou que o ser humano não tolera muita realidade? Mirisola não esconde nada. Mostra tudo doa a quem doer.

Como disse no inicio comecei Marcelo Mirisola por Joana...e esse livro foi escrito por um autor de quase quarenta anos, mas Fátima... é sem dúvida nenhuma um livro brilhante. Já tem muito Mirisola ali: toda sua esfuziante liberdade, nenhum medo e todos eles juntos, A tecla solta, o serial-killer dos clichês, O furacão arrancando os telhados das casas e expondo suas mazelas diárias, o grande e terrível observador. O cara que chora numa cabine de telefone. O cara que ama até a medula, mas ninguém quer acreditar, o fogo, o vazio, a desesperança e uma coisinha que sempre fica lá no fundo pra te trazer de volta, mas que eu não sei o nome, nem sei como explicar. No final ficamos com aquela sensação de vertigem e contentamento, amor e ódio,inquietação e inércia, desejo e desdém. Um cheiro de confusão no ar. Como um beijo de batom num espelho quebrado...xi!

Se ele não tivesse escrito mais nenhum livro já teria valido Fátima... que bom que ele escreveu outros e outros. Que escreva mais. Aos vinte e poucos anos, mesmo metido a besta, Marcelo Mirisola já era o escritor genial. Agora ele está com quarenta anos. O leitor tem idéia do que o aguarda? Relaxe e simplesmente leia-o, devore-o. Você não vai acertar na resposta. Afinal de contas estamos falando de um dos maiores escritores da atualidade. Que Marcelo Mirisola não lhe seja leve...


Serviço:
Fátima fez os pés para mostrar na choperia
Marcelo Mirisola
144 pp.
Editora Estação Liberdade (www.estacaoliberdade.com.br/)

Aos 40 anos, o iconoclasta Marcelo Mirisola, novo morador de Copacabana, faz um balanço de sua carreira literária ao relançar Fátima fez os pés para mostrar na choperia, seu primeiro livro, lançado pela Estação Liberdade em 1998. Em texto inédito para esta segunda edição, Mirisola declara sentir saudades “do garoto de vinte e dois, vinte e três e vinte e quatro anos que escreveu esse livro”.

domingo, 4 de julho de 2010

* Boa viagem, Alice.

Na volta contemplarei o mar e
o por do sol sob suas pálpebras.
Na alfândega, por favor! esconda-os bem.
Ninguém resiste a isso.

* sob o som de "On the mend" foo fighters

Hoje

hoje preciso dançar
para descompassar
um passado
desengonçado

Princípio

No princípio era o verbo.
Depois veio o predicado e
por fim o Sujeito Oculto resolveu
criar os sujeitos.

sábado, 3 de julho de 2010

Da primeira página do passado...

como em hebraico,
escrevo e leio de trás pra frente:
do passado para o futuro.

Barulhos da poeta Lina Tâmega Peixoto

Reynaldo: uma sensação de prazer e friume me causou seu texto, onde busca a palavra poesia para torná-la visível , tenebrosa e desconsoladíssima ante nossos olhos. Acrescento que poesia é, também, mistério gozoso.

Gosto imenso de ler seu blog.
Abraços di-versos,
Lina Tâmega Peixoto
Ilustre poeta cataguense e
professora de Lingua e Literatura.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O que é poesia? - Reynaldo Bessa à queima-roupa (Para o blog "Sambaquis" de Edson Cruz)

1) O que é poesia para você?

Prefiro começar citando um poeta brasileiro, Moacir Amâncio: “Ao tentar dizer, desdigo o não dito” Agora vamos lá. Já me sinto pisando o cadafalso: Poesia é o hino de uma nação inexistente. O buraco da fechadura que dá pra outro buraco de outra fechadura que dá pra outro buraco e outros tantos buracos. Poesia é o que paira entre o que foi captado (por um grande poeta, obviamente!) e o que vai ser escrito: Um vacilo, e já era o que ia ser dito. É como um tiro que parte de uma esquina deserta, bem no meio do peito. É como uma beldade caminhando solitária ao longe, dentro da escuridão e exalando um bom perfume que vez ou outra nos chega trazido pelo vento, mas é certo que nunca conheceremos essa beldade. A poesia nunca nasceu e, portanto nunca morre. Não dê ouvidos aos vaticinadores. Poesia é como o fígado de Prometeu. Poesia não é a Fênix, mas sim as cinzas de si mesma. Um homem se atira do décimo quinto andar: O que está entre o salto e o impacto é poesia. É o que oscila entre o que você foi, é e será. Mas esqueça tudo o que eu acabei de dizer. Poesia não é; Poesia há. Deixemo-la na varanda do infinito esparramada em sua espreguiçadeira.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Que só há uma única oportunidade de se escrever a própria história, portanto não a desperdice contando a história dos outros. Borges dizia que o escritor é o leitor que escreve, mas não sei se um poeta se faz lendo muito, mas se você não é verdadeiramente um poeta, no final não terá perdido nada, ou seja, terá lido muito, isso é bom. Então, leia muito, mas só o que é bom (se você está lendo esse artigo, é porque sabe separar o bom do resto, não?) depois leia tudo de novo e se possível toque algum instrumento, de preferência um alaúde, uma cítara ou uma harpa, nunca um berimbau. Por diversos ângulos, tente dizer a mesmíssima coisa, a exaustão, e no final assoe o nariz com o resultado. Nunca se sinta pronto. Um poeta pronto é um poeta morto. E pra reforçar isso tudo, cito Quintana: Um poeta satisfeito não satisfaz. Depois saia pra dar algumas voltas, fazer amor e tomar uns tragos. Divirta-se, principalmente isso.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Ah! Pessoa com suas desassossegadas semeaduras. Murilo Mendes e sua precisão com o dedo em riste, Gullar, ah! Gullar e seus Poemas Sujos com as páginas coladas umas nas outras de tanta poesia. Quintana com seus “desaforismos” e puta merda, Bukowski que me alertou para a poesia sob as saias das mulheres, nos balcões de botecos ensebados, na música de Mozart ou numa briga de rua. Mas tem mais. Pound, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, (não há como fugir desses. Tente?) Manoel imprescindível de Barros, Cacaso, Drummond. E ai tem uma geração de malucos geniais que leio e que depois, maravilhado vou tomar umas brejas com eles e falar sobre seus livros: Ademir Assunção, Carpinejar, Chacal, Edson Cruz, Frederico Barbosa, Nicolas Behr, Wilmar Silva, Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Victor Paes, Marcio-André, mas tem a prosa também: Reinaldo Moraes, Fante (“1933...foi um ano ruim” é meu predileto) , Kerouac, Henry Miller, Bukowski, Mirisola, Céline, Bataille, Philip Roth...(Complexo de Portnoy é um esporro de poesia...e mais...) blá, blá, blá,

Mas acho que perdi o fio da meada. Qual foi a primeira pergunta mesmo?

domingo, 27 de junho de 2010

Os Domingos e o Carro de Apolo.

Um domingo de sol sempre foi uma festa para mim. Esteja onde estiver, esse azul dia da semana com o astro rei brilhando bem no meio do peito, sempre me levará para uma fase da vida em que eu não dava a menor trela para o futuro.

Enquanto eu lavava a Kombi - Esse monstro branco que eu odiava mais do que as minhas espinhas - podia perceber muitas coisas a minha volta. Coisinhas que me perseguem até hoje e que provavelmente me perseguirão pelo resto de minha vida. Havia muito mais movimentos, sons e cores pelas ruas: As mulheres, enquanto colocavam seus colchões, cortinas, lençóis, cobertores, travesseiros, roupas e tudo mais para serem lambidos pela língua do Carro de Apolo, entoavam canções, que hoje sou capaz de cantá-las de trás pra frente.

Quatro casas além da nossa, eu podia ouvir Can’t help fallin in love na voz do Elvis. Na casa da frente soava o novo sucesso do Roberto Carlos. Do quintal chegava a voz do Aguinaldo Timóteo, o Wanderley Cardoso, Jerri Adriane ou um desses muito conhecidos da época. De dentro da nossa casa, da portátil radiola vermelha do meu irmão mais velho, Os Beatles bradavam suas eletrizantes canções.

Algumas vizinhas - Ainda não sei como conseguiam isso – de dentro de suas casas, enquanto faziam suas tarefas domésticas, aos berros, travavam herméticos diálogos. Quando chegavam até a janela pra bater um tapete ou jogar algo fora, diziam: "mulher você viu como o Cuoco tava lindo na sexta-feira?" A outra rebatia: "Eu vi, ai meu deus! esse homem me mata." A primeira retrucava: "Amiga, deixa o teu marido ouvir isso." E as duas encerravam temporariamente o diálogo em uma uníssona e sonora gargalhada.

Os rapazes desfilavam seus carros e suas motocicletas, e vez ou outra disparavam ensurdecedores barulhos dos escapamentos, na intenção de captar os olhares das garotas que saltitavam felizes feito gazelas em bandos. Enquanto isso, eu podia ouvir sons de pratos, panelas, travessas, gafos, facas, colheres, vindos da cozinha. Podia ver minha mãe zanzando por ela feito uma bola de pinball. Do forno do nosso velho fogão exalava um cheiro bom de frango assado que me dava uma tremenda vontade de pular uma fase da minha condenação, mas sabia que o olhar de lupa do meu pai acabaria percebendo e mesmo que na mais remota possibilidade, isso não fosse possível, me sobrava ainda o receio de que a própria Kombi me delatasse pra ele. Eram tão amigos e eu sabia que ela não gostava nem um pouquinho de mim, devido aos diversos palavrões que eu gritava em seus ouvidos.

Meu pai entrava e saía de casa. Após provar uma cachaça trazida de alguma cidade distante e tirar o gosto com o delicioso caldo de feijão de minha mãe, vinha conferir em que pé estava o meu trabalho em cima do seu brinquedinho de quatro rodas recém adquirido. Ficava lá parado: bermudas, sandália de rabicho, cabelo sagradamente penteado, braços cruzados sobre a barriga e os olhos como duas sentinelas sobre mim. O prazer boiando neles: primeiro pela absoluta certeza do controle sobre mim, depois por ver seu Animalzinho de estimação cada vez mais e mais limpinho, e por fim, pelo álcool da cachaça já dando o ar de sua graça. Enquanto olhava-o com o rabo de olho, tentava parecer ainda mais aplicado, mais enérgico, mais competente, mas na verdade o que gostaria mesmo era de estar bem longe dali. Depois de lavar toda aquela Cordilheira dos Andes, eu teria ainda que lustrá-la. Essa era a pior parte e enquanto eu a lavava, já pensava nisso. Nessa fase, meu pai sempre encontrava um espaço pelo qual eu havia esquecido de me debruçar. Mas como lustrar a Muralha da China e não esquecer um espaçozinho se quer?  Ainda lembro-me da mangueira como uma enorme serpente colorida. Lembro-me da água: Seu cheiro forte, sua temperatura, seu brilho, seu som, como se agora mesmo estivesse escorrendo pelas minhas mãos, assim como nesse instante escorrem minhas lembranças.

Domingos queriam dizer: Macarrão. Sim, muito macarrão com muito molho vermelho, mas tinham ainda os refrigerantes borbulhantes, que de tanta ansiedade de vê-los em meu copo, os punha com tanta pressa que bolhas estouravam em meu rosto. E a sobremesa? Somente aos domingos tínhamos sobremesa. Mas, eu só teria acesso a tudo isso, quando minha surrada flanela terminasse de deixar sagradamente brilhando o último e mais recôndito espaço da Kombi. Uma determinada hora minha mãe gritaria: “O almoço tá na mesa” e meu pai, com um etílico e sarcástico sorrisinho no canto dos lábios, soltaria essa: “Pois tire da mesa e ponha nos pratos” E depois viria vistoriar a finalização da minha tarefa. Ele agachado, buscando vestígios de uma displicência ou astúcia, eu em pé, olhando-o e contorcendo a flanela mais e mais entre os dedos. Depois de um eterno silêncio, se ele dissesse: “Aprovado” eu correria dali como se tivesse um bilhão de pernas.

Muitos anos depois, longe, muito longe dessas manhãs de domingo, depois de ter sido obrigado a ver meu velho desaparecendo num pequeno espaço que parecia menor do que ele, pois tivera o mau gosto de morrer, eu atravessava uma rua, quando vi uma Kombi igualzinha a dele. O presente desapareceu da minha frente como uma página de um livro que fora virada. Lentamente fui me aproximando como se estivesse caminhando em direção a um pássaro arisco e que o meu menor deslize pudesse causar a sua fuga. Pude sentir meu coração na ponta dos pés. Ao tocar o desengonçado veículo pensei ter divisado um leve sorriso em seus olhos. Alisei-o. Era como acariciar o tempo ou a cabeleira oleosa do meu pai. Fazia muito isso enquanto ele dormia: deslizava meus dedos por aquela cabeleira que parecia nunca despentear-se. Quem diria, hein? Depois de muitos anos, eu diante de uma Kombi. Até cheguei a pensar que esse veículo não mais existisse. Não me parecia tão grande. Eu caberia nele? Onde estava a sua enormidade? E o meu ódio, onde estava também? Olhei cada canto: sob os pneus, os paralamas, olhei em seu interior e minuciosamente mirei os assentos. Era um tempo muito particular. Meus olhos marejaram e eu já sabia que não ia conseguir segurar o peso daquelas lembranças todas. Olhei ao redor. Queria ouvir o Elvis cantando em algum lugar. Onde estavam as mulheres entoando suas canções com o coração transbordando de amor e futuro? Cadê o cheiro bom vindo da cozinha? Não havia mais nada. Vi pessoas passando apressadas. Um carro buzinou, uma moto disparou um ensurdecedor barulho, mas me pareceu tudo tão gratuito. Havia meninas em bandos pelas ruas, mas elas me pareceram tão tristes. Um menino soltou um palavrão e um outro rebateu com um ainda mais virulento. Eu mirei novamente minha companheira de infinitos domingos, colei meu rosto nela e fiquei ali... demoradamente. Se alguém viu tudo isso, deve ter achado muito estranho. Abracei o veículo como se abraçasse o meu pai. Dei um leve beijo na intenção de seguir o meu caminho, mas não consegui. Não conseguia me despedir. Teria lavado e lustrado toda ela se o dono tivesse me permitido. Queria fazer isso, mas não tinha coragem de pedir. Não pediria, claro! Sabendo da impossibilidade, sentei-me na calçada sem tirar os olhos de cima dela. Seu dono apareceu, entrou rapidamente e acionou a chave. Ao ouvir o som do motor não pude mais me conter. Chorei. Dentro de um olhar triste e embaçado vi a Kombi, em suas pernas bambas, desaparecer da minha frente. Era como se levasse todos os meus domingos com ela. Fiquei mais um pouco lá. Não queria me mexer pra não correr o risco de estilhaçar o passado. Após um tempo, ainda contra a minha vontade, retomei o meu caminho e o presente com seu hálito gélido começou a sussurrar em minha nuca.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Só

Eu só acredito nos anjos de Wenders.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Já foi...

eis minha vida de volta ao ninho
tardes tornam a pousar
meu sorriso esgueira-se sob os escombros
de arrependimentos mofados
meu verbo, cortado ao meio, não mais agoniza
seus olhos não estão mais nos faróis dos carros e
a Lua já não é mais somente um satélite
melhor do que não esperar
é uma esperança sem memórias.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sábio vento

o vento frio arpejou
as cordas da minha infância
percebi que todos os sorrisos que dei até então,
são apenas o esboço de um sorriso
que dera um dia.

Sem assunto...

tarde quente
vento nenhum
árvores sem assunto

terça-feira, 22 de junho de 2010

Morre aos 85 anos, Dona Militana uma das mais autênticas expressões da cultura popular do Rio Grande do Norte

O Rio Grande do Norte e principalmente a população de São Gonçalo do Amarante está de luto. A cantora de versos Dona Militana, conhecida como "a maior romanceira do Brasil", falaceu neste sábado (19).
"Dona Militana foi uma das mais autênticas expressões da cultura popular do Rio Grande do Norte. Enalteceu o nome do Estado. Uma pessoa humilde, que com seu talento enriqueceu a cultura do Rio Grande do Norte. A memória de Dona Militana permanecerá viva entre aqueles que a conheceram."

domingo, 20 de junho de 2010

Fantiana

eu daria tudo
pra te ter agora
colorindo o escuro
da tinta das horas
eu daria agora!

pra te ter ao lado
pra te ver sorrir
minha Frida Kahlo
quadro de Dali
vem, vê se não demora

você é a dança que nunca dancei
o livro raro que nunca encontrei
filme que ainda não vi
você é o país que nunca visitei
canção que nunca cantei
poema que não escrevi

eu queria agora
ter você por perto
pra virar as folhas
do meu peito aberto
quero isso, é certo

que você chegasse
que você cedesse
que você me achasse
por favor! se apresse
sou um livro no deserto

sábado, 19 de junho de 2010

No chance...

você se foi
como o infinito
escapando
entre os meus dedos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Barulhos de Lunguinho - Crônicas Cariocas

Reynaldo Bessa é um dos grandes poetas da atualidade.

Saravá! Saramago

O poeta disse: O criador tem duas idades; quando nasce e quando morre. José Saramago acabou de completar a sua segunda. Saravá! Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

Barulhos de Fabrício Carpinejar

O músico e compositor, Reynaldo Bessa guardou a infância no quarto até onde deu. Agora explodiu pelas janelas e portas. "Outros barulhos" é um baú que transbordou: quando os mortos e vivos se embaralham na linguagem, lembranças são confundidas com premonições; vozes, com cheiros. Ou ele publicava esse livro ou ficava louco, não tinha escolha.

É uma fartura de vida, um armazém de fiados, armário de brinquedos extintos, que todo leitor vai se exuberar. É uma obra da saudade. A saudade alegra, inclusive, os dias em que cortamos os dedos.
O livro quer a poesia como iluminação da corda. Faísca da corda de violão. Eu pergunto: quantas forcas há no violão? Quantos homens são desenforcados pela música?
É uma música muda. Uma música que estica a vida que não houve.
Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes?
Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda.

"Há algo de liso, de falso, de suspeito,
na total aceitação.
uma leve, porém inquietante tensão,
feito a frágil sacola do supermercado que a gente nunca
sabe se vai romper ou se vai agüentar
as compras até chegar em casa."

Sua sensibilidade é espiã. Não suportaria suas dores se não carregasse também a dos outros. Por isso, sofre com o bêbado voltando para casa, como se houvesse um trapézio transparente na rua; os vizinhos rindo e os familiares o segurando com os olhos. A poesia quando narração é imbatível. A poesia como contadora de histórias é imbatível.
Sabemos muito mais da memória de Bessa.

"o silêncio
do meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai."

Porque ele nos confidencia sua imaginação.


Fabrício Carpinejar
poeta e jornalista, mestre em
Literatura Brasileira pela UFRGS.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ainda algumas lembranças ll

Conheci Aniah num Hostel em Marseille. Vinha da praia. Soube disso logo que despontou no portão, pois seus jeans estavam úmidos, denunciando que ela os havia vestido por cima da roupa ainda molhada. Fazia o meu cigarro sem tirar os olhos de cima dela. Caminhava rápida, decidida, descolada. Jogou seus grandes olhos azuis sobre mim e perguntou "have you got a cigaret?” falei que sim e perguntei se queria fazer ou preferia que eu o fizesse. Ela disse que faria, sem problemas. Falou que o bom de fumar esses cigarros é que se tem prazer duplo: O de fazer e o de fumar. Eu me gabava de fazer o meu cigarro num tempo recorde de trinta segundos. Ela fez em quinze: Prendeu o filtro nos lábios, pegou o papel com uma mão, um pouco de fumo com a outra, jogou o filtro dentro, lambeu, enrolou e pronto. Deu as costas para o vento e em três clics acendeu o cigarro. Agora ela vai desaparecer de mim. Pensei. Assim faziam as beldades na Europa: Muito simpáticas, pediam cigarros e depois desapareciam. Muitas vezes nem agradeciam. Aniah deu uma primeira tragada olhando para o cigarro, sorriu, sentou-se, deu outra tragada ainda olhando para o cigarro e depois olhou o horizonte, enquanto seu lábio superior brincava com três piercings encravados no lábio inferior. Fumava e olhava longe. Era como se tragasse o tempo: Passado, presente e futuro brotando dos belos lábios de Aniah. Eu a olhava em silêncio. Perguntei-lhe de onde era. De Berna, respondeu-me. “A cidade das beldades de porcelana” Pensei. Depois lhe perguntei se estava no hostel. Disse que não. Não havia mais vagas. Havia guardado sua mochila na recepção só para tomar um banho de mar. Falou que ia tomar uma ducha e depois precisava ir embora. Não sabia ainda pra onde, pensaria nisso depois. Ia zanzar um pouco por Marseille. No dia seguinte viajaria pra Berlim. Terminou o cigarro, levantou-se, bateu as palmas e as costas das mãos nas coxas para espanar a fina areia da praia, sorriu e disse que precisava ir. Se foi com dificuldade. Sabia que meus olhos a seguravam.

Depois do almoço saí para fumar e lá estava ela; sozinha, pensativa. A Bela, triste e lânguida Aniah. O vento brincando com suas longas mechas douradas. O mar louco por ela. So do I. Me aproximei. What’s up. Falei enquanto lhe passava o fumo, a seda e o filtro. Ela me olhou, sorriu e enquanto preparava seu cigarrinho me perguntou se eu conhecia Norah Jones. Não, eu não a conhecia. Respondi. É uma bela cantora. Rebateu. Depois falou: Olha tenho duas garrafas de vinho nas minhas coisas e tenho todos os discos da Norah Jones, que tal? Fechado. Falei. Passamos toda a noite ouvindo Norah, tomando vinho (fui comprar mais três garrafas) conversando muito, fumando e rindo de tudo e de todos. Quando ela ria mesmo – e eu ainda não a tinha visto rindo mesmo – Marseille estremecia de felicidade, ou seria eu? Sei lá...

Quando a luz da manhã riscou de leve o céu, ela ainda falava como se só fosse viver esse dia. Contou-me toda a sua vida. Disse que estava viajando há mais de um ano. Disse que não podia parar, pois se parasse, acabaria pensando, e tudo que não queria era pensar. Só queria as estradas. Disse também que procurava algo, mas não sabia bem o que. Eu lhe perguntei como poderia encontrar essa coisa se não sabia o que era. Ela disse-me que talvez essa coisa a encontrasse. Falou, falou. Depois de um silêncio impenetrável, me propôs um banho de mar. Levantou-se como se fosse fugir e ficou nua em pelo, Depois correu pra água, gritando: Let’s go! Let’s go! Bessá. Mergulhou como uma exímia nadadora e desapareceu por algum tempo. Eu ainda vestido, fumando e tremendo de frio e vinho, fiquei tentando adivinhar o ponto exato na água onde ela surgiria logo após o mergulho. Eu continuava lá olhando, mas ela não aparecia. Meu sorriso foi desmanchando-se. Franzi a testa e fiquei inquieto. O mar estava parado. Lembrei-me de uma canção cantada por Mercedes Sosa que fala de uma mulher que desaparece no mar. Ninguém fica tanto tempo assim debaixo d’água. Pensei. Olhei em volta. Coloquei as mãos na cabeça e quando pensava em sair gritando o seu nome nos ouvidos de um mar silencioso, ela surgiu ao longe e acenou pra mim. Sentei-me na areia e ri como um idiota. Ela voltou e me chamou. Cheia de energia, espanava a água. Entrei. Ela se aproximou lentamente e me abraçou forte. O esforço que fizera anteriormente despertara cada centímetro do seu corpo. Era como se eu estivesse abraçando algo prestes a explodir ou um animalzinho que estivera em fuga. Isso foi ficando cada vez mais forte e de repente ela arrebentou. Como uma criança, chorou em meu ombro e eu precisei me segurar. Depois olhou pra mim. Os lábios vermelhos demais, os olhos azuis demais. Eu olhei pra ela e não conseguia mais tirar os olhos.

Feito dois zumbis rodamos o dia todo. Ela tinha que ir pra Berlim em poucas horas. Caminhávamos em silêncio. Perguntei se os piercings tinham algum significado. Ela disse-me que eram seus três melhores amigos. Ela viajava com eles. Com os três amigos em seus lábios. Ela parecia preocupada. Perguntei o que lhe afligia. Não respondeu. Depois de alguns minutos olhou rapidamente pra mim e disse “não vou pra Berlim hoje, vou amanhã” Não perguntei por quê. Voltamos para o Hostel. Era quase noite. Ela entrou decidida. Pegou algumas coisas em sua mochila, olhou pra mim e foi tomar uma ducha. Eu fui depois. Nos encontramos no hall e pedi dois cafés bem quentes. Quase já de madrugada ela começou a cochilar no sofá. Fiquei olhando-a. Já era um vício. Depois de um tempo peguei-a e levei-a para minha cama. A madrugada estava muito fria. Agasalhei-a e sai. Fechei a porta. Fui lá fora e fiz mais um cigarro. Era bom pensar que ela estava em minha cama. Deitei-me no sofá e acabei pegando no sono. A recepcionista me perguntou por que eu não estava em meu quarto. Disse-lhe que o pessoal tava roncando muito e eu não conseguia dormir. Ela se deu por satisfeita e não me incomodou mais. Ela não podia saber que havia alguém lá que não fosse eu. Era um grande motivo para nos expulsar. Acordei com Aniah me chamando. Me puxava pelo braço como um guia conduzindo um homem ao paraíso. Deitamos na cama. Ela se enroscou em mim. Senti seu corpo trepidando, se chegando mais e mais.

De manhã, logo bem cedo, não a encontrei ao meu lado. Procurei algum bilhete, algum sinal dela, mas não achei nada. Ao meio dia ela voltou. Tinha um quarto piercing em seus lábios e disse que se chamava Bessá. Eu ri. Almoçamos e depois fui deixá-la no aeroporto. Estávamos em silêncio. Eu procurava as palavras, mas não as encontrava. Vez em quando ela me olhava feito uma esfinge aflita. O Aéroport de Marseille Provence estava bem agitado. Tomamos alguns cafés e fumamos infinitos cigarros.

Seus piercings tilintaram em meus dentes. Depois de um longo abraço ela se foi e começou a desaparecer no corredor. A sala de embarque a engolia. Aniah parecia decidida a não olhar mais pra trás, mas virou-se de repente e seu rosto estava muito vermelho. Trinquei os dentes como se isso pudesse evitar as lágrimas. Não adiantou nada. Falei pra mim mesmo Aniah, Aniah. Ela desapareceu. Zanzei pelo aeroporto. Não encontrava a porta de saída. Não me achava. Cheguei ao Hostel como se tivesse o dobro do meu peso e ai daquele que viesse com essa coisinha de Where are you from? Eu seria capaz de socá-lo. Saí e entrei diversas vezes do Hostel. Meus olhos ficaram presos no portão na ânsia absurda de ver Aniah despontar linda, lânguida, decidida, descolada e com seus jeans úmidos. Lembrei-me dela me perguntando em seu sotaque carregado Have you got a cigaret? Isso nunca mais aconteceria. Eu sabia disso. À noite tentei dormir, mas a minha cama era o pior lugar pra tentar esquecê-la. O cheiro de Aniah estava lá: Nos travesseiros, no lençol, nos cobertores, por todo o quarto. Saí da cama num pulo e corri lá pra fora. A madrugada fria bafejou em minha cara. Fumei um, dois, três cigarros. Fazia-os e dizia: Aniah, Aniah. Fumava-os e dizia: Aniah, Aniah. Ela estava encravada em minha alma como os piercings em seus lábios. Olhei a minha volta. Silêncio. Dava pra ouvir o mar no seu vai e vem. A vida era assim. Vai e vem. Sempre isso. Fiz um cigarro, não, dois. Fumei um e deixei o outro em cima do banco. Era o de Aniah. Entrei e caí na cama como se me atirasse em um buraco e já sabendo que a coisa viria. Agarrei-me em seu cheiro. Era só o que eu tinha e a coisa veio mesmo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Desconfiança

Nem as estrelas são confiáveis. Você olha bem dentro dos olhos delas, mas quem pode afirmar que estão mesmo ainda lá? E eu, estou mesmo aqui?

domingo, 6 de junho de 2010

Barulhos de Antonio Miranda

Reynaldo Bessa concorreu com os maiores da nossa poesia até chegar ao Prêmio Jabuti, e saiu na frente... melhor não citar nomes. É fácil entender a razão (justa) do reconhecimento: um texto emocionante, aparentemente despretensioso, mas pungente, numa autobiografia reinventada, entre surreal e cruelmente realista. Linguagem contemporânea, sem rebuscamentos retóricos, sem apelar para os coloquialismos banais e os barroquismos excessivos de outros autores que locupletam blogues e revistas literárias. Barulho é o que não falta na obra do jovem potiguar. Se não bastassem os versos criativos e definitivos, é compositor e exibe uma voz emocionante, com aqueles desdobramentos sonoros que apenas os nordestinos trazem em sua musicalidade.”

Antonio Miranda
Poeta, escritor, dramaturgo e escultor
Membro da Academia de Letras do Distrito Federal
Diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia

Seleta de "Outros Barulhos - Poemas" (Prêmio Jabuti 2009) poemas em português-inglês (tradução de Sergio Ivanchuk)

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"

one night
my mother
grabbed my hand
we were four;
me, her, fear and rush
I can remember that...perfectly
while the three talked
I was staring at the sad houses' eyes and
I really wanted to ask
"Mom, what's their problem?
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.

like small pictures sealed
on the horizon,
ships came and left - still
they ran away from our eyes
the border, land, distant places,
I used to be on board far far away, begging;
ships, ships, take me nowhere.

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.


when I fell from the hammock
I realized that I really existed
My mom came by the door
Soon, my daddy, naked, was born by a shadow and took her away
he wanted to finish fucking her, and me — it seemed.
both vanished in the shadows silently
then I saw I did not exist at all
when I fell from the hammock

quando eu tinha oito anos
descobri o tempo.
ele estava numa plaqueta,
numa mercearia
dizia:" fiado só amanhã"
foi aí que percebi que o tempo
não posa para fotos

when I was eight
found out the time
it was on grocery store warning sign:
"buying on credit only tomorrow"
then I realized that the time
does not stop to take photos

um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?

one day
barefoot I walked among puddles
left by the rain
my feet shook the stars,
poured the sky
there were lightning bolts and I was not afraid.
how can a hungry person
fear lightning bolts?

Barulhos de Nelson de Oliveira

Enquanto a prosa dos novos autores brasileiros se fixa no bizarro e no grotesco, a lírica concentra-se no sublime e na memória. Se real ou inventada, não importa. Como não importam também os choques ideológicos nem a militância em defesa dessa ou daquela poética (marginal, pop, conservadora, concreta etc.)
Reynaldo Bessa é músico, com cinco CDs na praça.
Familiarizado com harmonias e melodias sonoras e verbais, ele sabe que uma boa letra de música não é necessariamente um poema. Algumas são, mas muito poucas.
Para o Reynaldo poeta, um bom poema é mais do que qualquer outra coisa, um tipo peculiar de barulho, não de música.
Os poemas de “Outros Barulhos” em português e inglês, denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético – a verdade no falso – que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada “mal-estar”

Nelson de Olivieira
Escritor e Mestre em Letras pela USP.
APCA 2001 e 2003

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A frágil película do tempo...

Eu daria tudo, tudo o que tenho e o que não tenho só para ver novamente minha mãe aguando suas plantinhas numa manhã cheia de azuis da minha memória de mimeógrafo. Eu acordava em silencio e a mirava de longe. E lá estava ela molhando suas velhas companheiras. Fazia isso como se beijasse cada folha, cada raiz. Molhava-as enquanto num trêmulo falsete cantava as velhas canções de sempre. Com um sorriso matreiro despencando dos lábios eu ficava lá olhando-a. Eu tinha que ficar totalmente imóvel para evitar que qualquer coisa, mínima que fosse, rasgasse essa frágil película do tempo. Quando meus olhos não suportavam mais a leveza de tanta beleza; quando a cena começava a embaçar, da minha caverna, zombeteiro, eu lhe dirigia a palavra. Ela, como se tivesse sido surpreendida fazendo algo de errado, rapidamente me olhava e por trás de seu lindo sorriso cansado eu ainda podia ver a menina sapeca que fora um dia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda algumas lembranças.

Desci do trem. A estaçãozinha de Vicenza me deu um sorriso amarelo. Eu estava muito cansado, com sete quilos a menos e barba de um mês. Joguei minha mochila num banco e enquanto fazia um cigarro olhava as pessoas. Minha amiga Andrea estava em algum lugar. Morava na Itália já há alguns anos. Eu ia tentar encontrá-la. Ela ainda não sabia que eu estava em Vicenza. Terminei o cigarro e joguei minha mochila nas costas. Liguei, deixei um recado e fui para um bar ao lado da estação. Era um dia muito quente. Pedi uma cerveja e ao esticar as pernas e dar o primeiro gole na cerveja bem gelada pude pensar que isso podia também se chamar de paraíso. Logo anoiteceria e eu não tinha certeza se minha amiga Andrea ia aparecer. Eu nem sabia se aquele ainda era o seu telefone, mas eu já havia passado por muitos momentos incertos na Europa e estava acostumado. Não tinha mais medo de nada. Na quinta cerveja ela apareceu com o seu sorriso enorme incendiando tudo. Pensei em beijar sua boca. Ela me deu um abraço demorado. Quase não me soltou. Precisei me conter para não chorar em seu ombro. Estava há muito tempo sem falar português. Há muito não encontrava um brasileiro e a Andrea era uma grande amiga do Brasil. Quando chegamos em casa ela correu pro fogão. Ela morava no primeiro andar. Na varanda preparei outro cigarro. O fumo da Suíça não era tão bom quanto o da França, mas era o que eu tinha. Depois da Itália eu passaria de novo pela França e compraria o meu predileto.A noite começava a engolir a pequena e pacata cidade. O Cheiro de café invadiu a casa e não pude mais conter o choro. Pensei ter ouvido minha mãe me chamar pra tomar o café. A Andrea me trouxe uma xicara fumaçando, passou-a pra mim e depois sorriu. Dei um gole e me enrosquei em seu sorriso.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Amsterdam

No red light district eu zanzei. Depois acendi uma bomba do tamanho do dirigível. Fumava enquanto olhava as cabines como quem ver aquários. Escolhi uma francesa, quer dizer, ela me escolheu...Não pude resitir ao seu belo indicador me puxando como se eu fosse uma marionete. Entrei em seu pequeno mundo de vidro como se entrasse numa igreja. Um negro do tamanho do infinito me olhou de esguelha. Pensei em recuar,  mas fui em frente. Enchi o aquário de fumaça e  perguntei em francês "como essa coisa funciona?" a beldade fingindo-se de doce disse: sem oral, sem anal, sem pegar muito, quinze minutos, oitenta euros....só papai e mamãe, pra ser mais precisa. Falei...tá certo...tô há muito tempo aqui, longe dos meus pais... e papai e mamãe é uma coisa que vai me trazer boas lembranças...vamos lá. Mexi em meus euros...paguei....o negro recuou e falsamente desapareceu entre melancólicas cortinas. Segui as regras. Depois sai pelas ruas de Amsterdam com a bomba ainda acesa...mas vazio, ainda mais vazio...olhei pro canal e procurei não pensar em nada. Depois joguei fumaças ao vento e segui passos incertos. A bomba iluminando meu caminho.

Algumas noites

Algumas noites usam roupas muito apertadas. Eu me coço aqui e acolá, mas nunca reclamo, pois o vazio com seu bigode amarelo de nicotina fica muito bravo quando faço isso. Diante da sua falta um Tsunami é um sopro de uma criança tentando apagar suas cinco velinhas sobre um bolo de chocolate feito por uma mãe de mãos trêmulas...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Noite fria

O frio é o cobertor preferido da solidão

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Vazio

A vi descer as escadas rolantes. Desaparecia lentamente, enquanto o vazio subia e se tornava cada vez mais nítido.

terça-feira, 18 de maio de 2010

...

Tenho medo dos livros que vou escrever

...

já posso ver suas pegadas numa estrada ainda por ser construida...

domingo, 16 de maio de 2010

Lançamento de "Outros barulhos" no Rio de Janeiro na Livraria Travessa

(Sexta-feira) Dia 21/05 às 17h30 - Travessa do Ouvidor, 17 - Centro - Rio de Janeiro - RJ

Impressão

Ela gosta de sapatos imponentes para ter a sensação de estar no caminho certo.

Se...

Se eu sair vivo do seu umbigo, construirei uma igreja em seus olhos.
De vez em quando gosto de insultar o vazio

ontem...

Ontem vi sua alma banhando-se em seus olhos

sábado, 15 de maio de 2010

15/05/2010 - 20h30

Uma noite negra. Tão negra que se suicidou de escuro.81 anos em ruinas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Alice disse:

son corps est
le seul argument
que je ne sais réfuter
(um dos poemas do meu livro "Outros Barulhos"
traduzido pela poeta francesa Tânia Alice)

seu corpo é
o único argumento
que não sei refutar

Alegria

Acordei com o peito aberto
como um grande livro 
folheado pelo vento

terça-feira, 11 de maio de 2010

Algarobas Urbanas

Meu livro de contos Algarobas Urbanas foi um dos livros selecionados no concurso de literatura do Sesc São Paulo (Vila Mariana) 2010, em parceria com a editora Record.

"Outros Barulhos- Poemas"


Conheça meu primeiro livro "Outros Barulhos- Poemas" - Prêmio Jabuti 2009 (Poesia) e também foi um dos livros concorrentes do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. Orelha do poeta Fabricio Carpinejar.

Uma seleta do livro

hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário

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uma noite

minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
“mamãe, o que elas têm?”

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deixa disso
siga o risco
o que é a vida

se não olho e cisco?
seja arisco
sangra o resto
o que é a morte
se não sábio disco?
nunca teremos o pouco aquém do menos
nunca seremos o muito além do mais
a cota será certa
a senda será meta
sempre serena será
a reta eterna da
raça toda

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hoje sonetos
amanhã só netos

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rio de fevereiro,
quando alguém me diz:
só em março, depois do carnaval
rio de março,
o ano só começa em abril
rio de abril,
o primeiro dia é quando somos sinceros
rio de maio,
desse, rio demais
é o mês do meu aniversário e
não há nada pra comemorar
rio de junho,
o carnaval ainda não acabou
rio de julho,
não há motivos, por isso rio
rio de agosto,
mais pra lá do que pra cá, mas ainda riso
rio de setembro
o dia sete é uma boa piada
rio de outubro
sou uma criança, mas eles não acreditam
rio de novembro
o ano seguinte já mostra o seu riso amarelo
rio de dezembro
o vizinho me sorri, só porque é natal
em janeiro não rio
meu riso tira férias
vai ao Rio de Janeiro
curtir um choro

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entre a caneta e o
guardanapo; um dilema
eu não sabia se tentava ou se
ia ao cinema
não fiz uma coisa nem outra
assoei o nariz com o quase-poema
ah! chega!
com ele ou sem ele
nada muda
é tudo cena

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os vestidos escondem
mais segredos do que o mar

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os macacos
desceram das árvores
aí nasceu o trabalho,
a infidelidade, o divórcio e
o apartamento de um dormitório

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seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar

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seus olhos
são meu livro de cabeceira

domingo, 9 de maio de 2010

"Algumas músicas me soam como navalhas"

Apenas uma noite estranha

Sabia que não devia ligar, sim, claro! que sabia, ainda mais àquela hora, mas era uma noite muito estranha. Até tentei fazer outras coisas, mas só conseguia pensar em ligar. Porque às vezes estamos tão fortes e noutras totalmente em frangalhos? Se eu ligar só vou piorar as coisas, sei, mas quero ligar. Porque eu estava tão infeliz com a felicidade dela? Por quê? Ela estava recomeçando a vida. Agora eu tinha que seguir o meu caminho. Você sabe disso, então porque insiste? Vá dormir. Nada é tão drástico quanto aparenta. Simplesmente deite e durma. Só isso. Deitei-me, fechei os olhos, prendi a respiração, soltei. Deixei o meu corpo encher de ar. Podia sentir meu coração. Podia ver sua cor, seu tamanho, sua ira. Os tiquetaques do despertador eram como alfinetes em meu cérebro. Levantei-me num pulo. Olhei para o telefone. Fui colocar uma dose de uísque, mas não tive paciência, tomei na garrafa. E se ela me visse fazendo isso? Puta, puta, puta, quem disse que você podia deixar de gostar de mim? A única coisa que esse filho da mãe tem que eu não tenho é pouco tempo com você. Eu nasci com você, além do tempo todo que vivemos juntos. Ela disse pra não ligar mais e principalmente fora de hora. O que você quer mais? Vá dormir, vá dormir. Você só vai embaçar ainda mais as coisas. Ela vai te mandar a merda e essa noite pode ficar ainda pior. Sentei-me ereto, tenso como se estivesse diante de um animal prestes a me atacar. Olhos sobre o telefone. O ponteiro das horas duas horas a frente da anterior. Lembrou-se quando terminaram pela primeira vez. Logo depois de alguns dias ela ligou desesperada pedindo que ele voltasse. Voltou no ato. Só estava esperando isso. Porque ela não fazia o mesmo agora? Por quê? Vou ligar, vou ligar. Essa sala escura, esse silêncio pegajoso, não dá mais...num movimento brusco pegou o telefone e discou sem pensar. Isso para que nenhum pensamento pudesse impedi-lo de continuar discando. Ouviu o toque da primeira chamada. Uma dor fina cruzou suas costas. Seu corpo todo enrijeceu. Foi preciso quatro toques e no terceiro ele teve ímpetos de desligar, mas sem saber por que se manteve firme onde estava, então ouviu:

Alô (ela)
Preciso que venha aqui, preciso de você (ele)
Você sabe que isso é impossível. (ela)
Por quê? (ele)
Escuta, te falei pra não ligar mais, olha a hora. Você me acordou. Estou cansada, amanhã levanto cedo. (ela)
Por favor! (ele)
Impossível. (ela)
Sua palavra predileta. Venha, preciso mesmo de você. Tenho algo a dizer. (ele)
Não quero saber. Tenho outra vida, outros desejos, outros sonhos. Sua vida não me diz mais respeito. Você não entende e não tenho mais saco pra explicar. Quero só dormir. (ela)
(ele ouviu um “quem é?” um pouco mais baixo que a voz dela)
Vá se foder. (ele disse com a voz mais alta que a voz dela para a voz mais baixa que a dela)
(ela ficou em silencio. Pareceu não saber o que fazer)
(ouviu a mesma voz do "quem é?"dizer “você ainda não resolveu isso, amor?")
(Ele trincou os dentes e apertou o telefone)
Já, meu amor, ele é que é surdo. (ela para o outro)
Olha! vá dormir. Você está acordando todo mundo. (ela)
Não consigo. Até tentei, mas já vi que não dá. (ele)
Olha, não vou mais à sua casa. Acabou faz tempo. Você tem que seguir com sua vida (ela)
Essa é a minha vida. Estou seguindo com ela (ele)
Não, você está desperdiçando-a (ela)
Cada um desperdiça a sua maneira. (ele)
Chega. Tchau. Não aguento mais isso...
(enquanto ela falava ele quis desligar, mas...)
Espera (ele)
O que foi agora? (ela)
(Silêncio)
Eu te amo (ele)
Ah! Chega, chega e chega, tchau mesmo (ela bateu o telefone)

Ele até pensou em ligar de novo, mas não teve forças. Estava realmente cansado. Olhou a sua volta. Nenhum ruído, nada. Todo o silencio do mundo pareceu ter invadido sua casa. Lembrou do sorriso dela. Ninguém sorria como ela. Foi a primeira coisa que lhe chamou atenção nela. Estava muito cansado. Queria chorar, mas de que isso adiantaria? Mesmo assim chorou. O cansaço o venceu: adormeceu. Sonhou que todo o ar do seu corpo era sugado por alguém, um desconhecido. Ele não podia impedir. Seu ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Quando atingiu o limite, soltou um grito como se agora quisesse mesmo acordar o mundo. Despertou abruptamente. Não estava mais na sala. Estava na cama. Ela estava ao seu lado e ele pôde ouvi-la dizer “Volte a dormir, meu amor, foi só um pesadelo. Ainda respirando com dificuldade, ele olhou em volta e percebeu que estava em sua casa de sempre. A casa da qual nunca saíra. Deitou-se. Ela se enroscou nele como de costume e ele a abraçou como nunca fizera.

Minha humanidade.

Celulares e Ipods: Duas formas sofisticadas de se fugir das pessoas. Ainda lembro-me quando levávamos um fora da namorada ou estávamos conhecendo uma outra, ou brigávamos com nossos pais (geralmente sem motivos) ou perdíamos um emprego (que geralmente não valia nada) ou simplesmente sentíamos a vontade de conversar (mesmo sem nenhum assunto) ligávamos para aquele grande amigo(a) e entre uma breja e outra conversávamos até achar que o assunto se esgotara. Isso já faz um tempo. Não lembro da última. Agora só temos tempo para resolver essas coisinhas pelo celular, quando não, por emails, msns, facebooks, orkuts e outros tantos meios que aparecem de tempos em tempos. Pessoalmente nem pensar.

Hoje dificilmente vemos uma pessoa sem um telefone celular. Raramente alguém não está usando-o. Quando não está nos ouvidos, está entre dedos ansiosos: Velhos, adultos; adolescentes; crianças. Talvez num futuro próximo até os animais. Imagine uma vaca passando ao seu lado e mugindo nervosamente ao celular.

Porque de repente tanta gente passou a ter tanto o que dizer? O que detonou isso?As pessoas tem telefone celular porque precisam falar ou precisam falar porque tem telefone celular? Sei lá. Sempre vejo muita gente falando horas ao telefone e ao desligar, colocando o fone do seu Ipod nos ouvidos. Não conseguimos mais viver o mundo externo? Nos cansamos do outro ou não conseguimos mais encará-lo? A boca não consegue ser tão sincera quanto os olhos? Talvez não seja a toa quando dizem que o olhar é a avenida da alma.

Nas ruas, muitas vezes respondo perguntas que não me foram dirigidas e quando olho em volta, percebo  que é alguém ao celular só que usando seus respectivos fones. Parecem lunáticos falando sozinhos. Isso me remete aos loucos que encontrávamos pelas ruas em febris solilóquios quando escapavam do asilo que ficava perto da minha casa quando eu era criança Pelo jeito não eram tão loucos assim. Estavam só cantando o futuro?

Todos nós temos os nossos dias. Ninguém é de ferro. Muitas vezes quero ficar em casa num dia só pra mim. Não quero falar com ninguém, ver ninguém, mas na maioria das vezes adoro sair pras ruas só pra ver as pessoas. Vê-las falando, andando, comprando, vendendo, sorrindo, chorando, brigando. Cada um vivendo como pode e sabe. Muitas vezes faço isso, não só porque curto muito e porque gosto das pessoas – apesar de também ter os meus dias de assombros – mas porque sei que essa é a minha humanidade e eu tenho obrigação de fazer parte dela. Não posso afirmar que existirá outra, pode ser, mas talvez não seja minha.

sábado, 8 de maio de 2010

Para todas as mães

Minha mãe fez oitenta anos. Apesar de achar que o passar violento do tempo não envelhece a criança em nós, sempre tive curiosidade acerca do que é ter oitenta anos. Até que li em um dos livros do Philip Roth, um minúsculo discurso de um de seus personagens. Ele está comemorando setenta anos e os amigos pedem que faça um discurso. Ele diz: Pensem no ano 4000. Em todas as suas dimensões, todos os seus aspectos. Pensem com calma. Pensaram? Pois é, ter setenta anos é isso.