Espertos

sábado, 4 de março de 2017

depois de quase um mês sem vê-la,
me convida pra almoçar.
está ali diante de mim e
eu querendo que ela assuma que
cometeu um grande erro.
mas ela insiste em falar de um provável novo amor.
ok! pode falar dele depois desse maravilhoso carneiro,
desses apetitosos tomates secos e,
dessa rúcula e desse arroz e depois
dessas ervilhas e
dessas batatas, sim, você falará dele,
mas tem ainda o vinho, a sobremesa
o café, o licor.......a sesta...e....e....e
todas as mulheres que vivi
viraram uma coisa só.
uma entidade, uma epifania.
como dedos de uma mesma mão,
cabelos de uma mesma mecha,
palavras de uma mesma sentença.
uma gostava de cantar alfonsina y el mar,
outra apreciava pratos sofisticados.
outra gostava de ser chamada de empregadinha.
tinha uma que gostava de samba, botequim e
cerveja bem gelada.
outra lia Artaud em voz alta e sonhava com a europa.
outra, outrora adorava ver homens brigando por ela.
havia uma também que não gostava de certas palavras.
ah! outra que se pintava o dia todo.
outra, outra, outra...outras
ninguém sai ileso disso.
todas elas muito diferentes, mas
uma coisa só, como as cores no arco-íris,
páginas de um mesmo livro.
em noites estranhas cheirando a gavetas umedecidas,
elas levantam o lençol da minha vida e
adentram com suas curvas, confusões

e colocam meu passado no máximo volume.
seu perfume me leva para campos de trigos,
manhãs de domingos, sóis, azuis.
vejo ninfetas dormindo sob lençóis muito brancos
em castelos longínquos.
seu pescoço colunar, ah!
ela acende um cigarro.
traga como se beijasse o homem da sua vida:
perfume, cigarro, suor e algo mais
enroscam-se e transformam-se em assobios-cios
imagino curvas tagarelando nas róseas janelas de sua pele.
imagino odores escondidos em Gran Canyons dourados.
imagino, imagino, imagino...
ela joga o cigarro como se atirasse o meu olhar na sarjeta

levanta-se. seu namorado a envolve como um laço num presente. ela se vai e desliga a noite.
dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida

cor azul-infância.


(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Em dias quentes, elas, as meninas da vila Madalena aparecem com suas tatuagens, suas pulseirinhas na canela, seus brincos coloridos e seus vestidos esvoaçantes. Aparecem todas, feito folhas de uma árvore frondosa após um vento forte.

(Reynaldo Bessa)
Sem tempo
Um tanto
Desatempo.

(Reynaldo Bessa)
Do amor
Conheço as mínimas
E seminimas.
As minissaias também.

(Reynaldo Bessa)
ando
desloucando-me
parado

(reynaldo bessa)
relacionamento é muito parecido com locação de imóvel; tem sempre alguém saindo, já saturado do lugar, enquanto você chega cheio de expectativas.

(Reynaldo Bessa)
Ele infartou e morreu.
Tanta gente e ele tinha que dirigir seu último olhar justamente para mim
Como se eu fosse a ultima alça que o prendesse a vida.
Corri em seu auxilio, mas ele ja era um cadáver.
Senti seu perfume bom, vi seus sapatos bem engraxados,
A camisa bem passada, o relogio marcando o tempo parado. Enfim.
Um homem morto que havia se preparado com todos os cuidados para a vida.
Quase todos.

(Reynaldo Bessa).
ela é tão linda que dá uma coisa.
Não sei se choro ou se sorrio.
É como se queimar
e logo depois correr na chuva fria.

(reynaldo bessa)
poesia salva
saliva
saraivada de palmas
palita poesia,
os dentes,
enquanto valsa.


(Reynaldo Bessa)
a dor:
esta
rodela
de bolor

(Reynaldo Bessa)
sim, tenho uma angústia.
coisas do paladar do eu,
do saber-se sabendo.
porque tudo é.
até o nada é.
essa angústia,
vez ou outra,
resolve calçar sapatos discretos,
usar cores neutras, abrir mão dos acessórios.
também fala baixinho e não encara ninguém.
noutras vezes, sai em seus high heels, suas cores espalhafatosas,
carregada de joias.
fala, ri muito alto, e olha bem na sua cara.
sei o peso dessa angústia.
sei o quanto ela veste, calça
sei que ela é antiga, até sei que nasceu antes de mim.
só não sei seu nome, de onde vem e quais são seus propósitos.
ela surge num dia, sem aviso,
feito uma mulher que sai para matar alguém,
e na volta, resolve passar num shopping para olhar as vitrines.


(Reynaldo Bessa)
quero
desconcertar
o teu concerto.
do teu conforto,
arrancar um berro,
e te mostrar
que essa coisa
de estar certo,
pode ser
um erro.


(Reynaldo Bessa)
às vezes, a realidade surge
como uma janela de vidro: limpinha, transparente, imensa.
E sempre que vislumbro algo mais além,
e voo no afã de apreendê-lo,
sinto-me como um pássaro esfacelando as asas no vidro.

(Reynaldo Bessa)
naquele aperto veloz,
entre a fenda do tempo e do espaço,
quando o desejo quer morder o espelho,
meus dedos buscavam o seu sorriso úmido
entre as duas colunas infestadas de poros
eriçados,
insanos
insones.


(Reynaldo Bessa)
No princípio era o Verso,
e o Verso estava com o homem,
e o Verso era o homem.
Depois veio a Prosa.

(Reynaldo Bessa)
dedos mudos, olhos surdos,
coração desbatendo.
palavras feito frutas podres
vontade de amordaçar os ouvidos.
dester os cem tidos.

(Reynaldo Bessa)
Carrego a tristeza das coisas.
Não que eu queira. Ela simplesmente
Gruda em mim feito os olhos de uma criança faminta
Saída de um dos romances de Steinbeck.
As coisas nas coisas.
Há algo além da melancolia daquela esquina.
Algo há além do vermelho dos semáforos.
Hum! O tempo late em algum lugar.
Sinto seu cheiro, ouço seu rosnar...
O riso do meu pai dispara feito um despertador fora das horas.
As zebras desgastadas das ruas que nem o rosto de uma velha triste e sozinha.
As coisas e seus corações chamuscados.
O corte dos vislumbres da agonia eufêmica.
A fruta da imortalidade de 3 mil anos.
Queria só acender este cigarro.
E não olhar em volta.
E não entender nada, nada.
E deixar a vida ir
feito o arrastar do vestido de uma
Noiva abandonada.


(Reynaldo Bessa)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

“Acabamos mesmo nos apegando àquilo que nos mata”








Mutilado: A que falta um membro. E o que faltava naquele tempo de agrura? Faltava um tanto. Um tanto concreto demais, duro. Um tanto de coisas e não coisas, materiais e imateriais. E qualé o tempo de agrura? É o ontem ou o até então? Pensei, atentando às nodosidades nas entrelinhas, sim, os nós na garganta vindo, mais ou menos apertados em cada capítulo. Deixei também escapar alguns sorrisinhos de canto de boca no prurir ininterrupto, na coisinha estranha por dentro, na coceirinha chistosa que as palavras – em algumas passagens – me causaram. De resto, era tudo meio em carne viva tentando cicatrizar. “É, ele não veio de gabarolice, não. O bichinho se rasgou todo pra gente ver, e depois deixou dito que tudo aconteceu ou não: fato real ou ficção, é história bem contada”, sussurrei na última página.
Final do mês de outubro de 2015, uma noite em um festival. Peguei o “Na última lona” das mãos do autor sem muito assunto. Naquela noite eu implodia, por várias razões. Algo estava me matando e eu não conseguia abandonar. Na manhã seguinte, como havia prometido durante a troca das poucas palavras com Bessa, peguei o volume nas mãos e folheei as páginas como se fosse pra guerra com uma mochila cheia de pedras nas costas, calçando um peep toe cor-de-rosa: num despreparo nítido. Seus escritos, que sempre me inspiraram mergulhos profundos e proporcionaram conclusões nem sempre tragáveis, nem sempre úteis, mais uma vez me apresentaram intensidades bonitas e doloridas, isto é, o tal do sofrimento sem função edificante dito na orelha do livro. Parei na segunda página: “não posso agora! Agora não vai dar!”. Tentei mais algumas vezes por novembro inteiro. Não li. Comentei com meio mundo que ia deixar pra outro dia. Comecei no natal, em meio a uma viagem, no que seria a segunda parte de um processo de imersão familiar, já no caminho de sentir que o ciclo de implosões internas estava se encerrando. Vamos às impressões, de vez.
O romance de Reynaldo Bessa – bem como outras obras do músico, escritor, poeta e professor – tem essa coisa de revolver o chão afetivo do leitor – intencionalmente ou não – promovendo a abrasão da certeza de que o passado é uma instância tombada, morta e enterrada. Trocando em miúdos, não fica pedra sobre pedra, filhão. No uso das palavras, que vão sempre ou quase sempre direto ao ponto, belisca o estômago subjetivo– cada um sabe o que o incomoda e onde fica o órgão dentro de si –e descreve o que não foi digerido nas ideias. Esta é sem dúvida uma narrativa na qual se corre o risco contínuo de encontrar algo que remeta a bigorna que cada um carrega por sobre a cabeça.
Peguei-me cavoucando as memórias diante da citação do sabonete Phebo, da boneca amiguinha, da maneira de deitar na rede, do deslumbre diante de Copacabana. E como ele apela! No bom sentido. Detalha e metaforiza o que cada um sente de um jeito, mas descreve parecido.Discorre sobre uma simplicidade bordada de singelezas, denuncia uma sensibilidade por detrás da grossura, deixa expresso o peso e a medida do amor, do ódio, da morte, da fome. E que fome. A fome dos tantos de que falei no início, mais ainda a fome de comida, pra preencher um vazio objetivo que aturdia os sentidos.
Menciona trabalho, dinheiro e uma graxa existente no mundo, que também distrai a ausência dos dois supracitados. Fica esfregando dor no papel como se estivesse a detalhar a textura de algum vestido de alguma moça que conheceu em alguma de suas viagens: como quem apalpou, passou na cara, pegou com a mão.Lambe saudade como desejou lamber alguns momentos. Fala de cada evento como se os houvesse injetado em alguma mucosa: tudo indo pro corpo inteiro, rápido, num impacto brusco pós dose cavalar de realidade.Não sei se é de um realismo mágico tipo García Márquez: o fato é que Bessa deu-me as imagens bem definidas e a imaginação passou por mim vez ou outra pra dizer que estava por perto, pra se caso eu precisasse de alguma coisa. Porque era tudo ali, na cara, sem essa de ache o gatinho na foto. Mas não importa muito, também. Cada um vai achar uma coisa, ou perder. E se é verdade que Acabamos mesmo nos apegando àquilo que nos mata, no passado, no presente, amanhã, que ao menos depois da morte sejamos passíveis de desapego, porque né, tem que haver um limite.Sugiro que leiam. Depois a gente conversa. Mas já digo logo: se estiver tristinho, com vontade de morrer, muitas contas atrasadas, saudade dos parentes, deixa pra amanhã. O livro já tá escrito mesmo. E muito bem escrito. Uma paulada no quengo.


Por Karina Limsi
psicóloga, compositora, blogueira e escritora.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

o despertador, às cinco da manhã, é pior do que meu pai me chamando pelo nome completo.

(reynaldo bessa)
ela é tão linda que dá uma coisa. Não sei se choro ou se sorrio. É como se queimar e logo depois correr na chuva fria.

(reynaldo bessa)
Se mantivermos essa força, juntos. Se conseguirmos pelo menos, em muitos anos, substituí-la por algo, assim como a fuligem grudenta depois que toda a fumaça se esvai pela chaminé, acho que algo de nós sobreviverá. Tá, talvez não tenha o mesmo valor que nós damos a ela. É, a natureza é pródiga, uma gastona, sim. Nesse exato momento joga milhões de ovas no vazio. E será que os que não sobrevivem têm menos valor que os que sobrevivem? Bom, falo de nós. Por que, todas às vezes, em que tentamos conversar temos sempre que colocar a filosofia, essa mulher de língua torta, no meio? Podemos simplesmente conversar? Então, se mantivermos essa força, juntos, seremos algo além de nós. Não sei explicar isso, apenas sinto. Como eu poderia explicar o que ainda não nasceu? Você pode sentir que vai chover: o cheiro do vento, o olhar de esguelha das árvores, a energia, a pressa das pessoas, mas daí a falar de como vai ser a chuva é outra história, não? E você, não diz nada?

(Reynaldo Bessa)
o rosto de minha mãe feito uma roupa rota,
úmida, num varal qualquer da minha memória.
farelos da linearidade em meus dedos finos.
sonidos num corredor demolido há décadas
no meu coração - não mais os quadros, só suas manchas -
é uma parede bolorenta,
a lua descola-se feito pele morta
meu pai amordaçado pela mão peluda e gorda de alguém com ponteiros na testa.
minha coleção de selos flutuando feito estrelas atiradas aos pássaros agourentos.
uma casa sem portas
numa espiral dentro de outra espiral,
espirais
o tempo fumando num quarto de um hotel barato e soltando baforadas
risonhas, uf, uf.
universos inteiros dentro dessas coisinhas grávidas de efemérides
um sonho antigo feito uma velha gaiola cheirando a alpiste e morte
os compartimentos da casa sem casa são feitos de léguas e cansaço, e asma.
sou um grão, algo assim, e sobre minhas costas caem gotas salgadas do rosto velho dependurado num varal em um quintal qualquer e escuro, muito escuro da minha memória... e longe, muito longe. Farelos da linearidade pelos tantos caminhos sem caminhos.


(Reynaldo Bessa)
Em dias quentes, elas, as meninas da vila Madalena aparecem com suas tatuagens, suas pulseirinhas na canela, seus brincos coloridos e seus vestidos esvoaçantes. Aparecem todas, feito folhas de uma árvore frondosa após um vento forte.

(Reynaldo Bessa)
o grande trunfo do diabo é nos convencer de que ele não existe.

(Charles Baudelaire)
A morte, linda, lânguida,
sorridente e de sainha curta serpenteia no meio do salão.
Feito um anjo perfumado,
com um copo de uísque em uma mão,
e um cigarro agonizando na outra.
debruça-se em meu ombro,
desliza seus dedos de unhas bem feitas
sobre meu joelho, e numa
voz pastosa, dita o seu preço.
Eu digo: hoje não, hoje não.


(Reynaldo Bessa)
"Por que não haveríamos de ter uma poesia e uma filosofia que sejam fruto de nossa própria descoberta e não uma tradição, e uma realidade que nos seja revelada em lugar de ser a história daquela que foi revelada a eles? [...] por que exumar os ossos secos do passado e submeter essa geração a um baile de máscaras tiradas de seu armário velho? O sol brilha também hoje. Há ainda lã nos campos. Há novas terras, novos homens, novas ideias. Permitam que busquemos nossas próprias obras e leis e cultos".

(Ralph Waldo Emerson - Natureza)
Quando eu morrer, enterrem-me em algum cemiterio de nome....hum, sei la, assim, como esses cemiterios que nos dão a ideia de que morrer é um deleite, ou ate mesmo de que a vida continua ávida, mesmo depois de morta... é, por exemplo: cemitério dos deleites, cemiterio dos prazeres, olha, esse é bom, hein?...podemos ate arriscar: cemitério da luz vermelha....sei, exagerei, mas é por ai.... porem, nunca esses cemiterios com um nome a la: cemiterio do descanso eterno. Poxa, isso deve ser cansativo pra dedeu. Ou cemiterio da paz, tambem nao...porque preciso de alguns atritos vez em quando para deslocar os ossos frágeis da paz.... Cemiterio do Getsemani...nao...foi nesse morro que a policia subiu pra pegar o homem, nao?... sei la.... quero um nome para que possa esbaldar na morte, assim como ela vem se esbaldando em minha vida.

(Reynaldo Bessa)
escrever é um ofício solidário.

(Reynaldo Bessa)
Minha mãe (em seus 83 anos): filho, olha! sabe ......como chama?....ah....rsrsrsrs
Eu: mãe, por que a senhora ri quando esquece uma palavra?
Minha mãe: ah! porque eu fico triste.

(Reynaldo Bessa)
há o Cabernet, mas os paieiros findaram-se, e eu nem sei como. Vou agora nesse meio calor, meio frio, sei lá, numa loja de conveniências fria tal qual um defunto, e vou pegar os meus paieiros. Detesto estes aquários de peixinhos insones.

(Reynaldo Bessa).
quem diria que um dia eu ouviria este disco...é preciso silêncio pra não despertar o vigia noturno... ah, as ruas de fortaleza feito vertigem... a praça do Ferreira no calor do meio dia, a sonolência....na poeira cinzenta o sol sol e o cavalo vai,,,,,,estrela branca na testa....sou um menino assustado correndo de lençóis brancos....fugindo de lugares grandes, de perguntas sem respostas....correndo, sem parar, toca o alazão, meu pai....na poeira cinzenta,,, há um direito e um torto....mas não estou bem morto.... o sorriso do meu irmão na janela do céu que me cai aos poucos em gotas de chuva...

(reynaldo bessa)
Não vejo o poeta distante do romancista. Se tu dominas a linguagem de contar histórias,o Haikai e a Saga beijam-se nas esquinas da vida.
Li o romance "Na última Lona" de Reynaldo Bessa avidamente em três seções. Minha urgência é conhecida por meia duzia de amigos.
Nego concordar com classificações: vanguarda, regionalismos ou realismo mágico. Gosto de mares densos, cheio de ondas bravias. Mares de palavras...digo.
Nesta travessia Bessa volta ao seu "vasto mundo, tão pequeno". Não é fácil surfar no passado escondido em memórias doloridas e insanas. Em encantos que só a ama desolada consegue ver.
O acerto de contas foi firmado. Quiçá na próxima aventura o personagem misterioso voe em paisagens fora de seu quarto escuro, transgredindo sempre, querendo transformar o silêncio em música... o espaço vazio de uma página em signos.
Não é fácil conquistar minhas terras, "Na Última Lona" entrou em minha cidadela.


Zé Luiz Marmou
(poeta, músico)
poesia salva
saliva
saraivada de palmas
salsa
palpita poesia

(Reynaldo Bessa)
faz tempo que não tomo uma boa sopa de feijão:
as pessoas colocam macarrão demais ou de menos.
também uma canja de responsa. Pode ser até de caldo knorr, mas não com amor de menos.
essas reflexões caíram-me devido ao cheiro da comida da vizinha.
Mas penso que tudo isso na verdade, é que há tempos não sinto o aconchego do colo de mãe, que é maior que todo o universo.

(Reynaldo Bessa)
Até agora, todas as coisas que li do Reynaldo Bessa me estremeceram. Alegrias, tristezas, raivas, compaixões e tantos outros sentimentos afloraram com sua leitura, o que é sinal claro de uma boa escrita, com verdade e emoção. Na Última Lona traz o tema da fome jogado na cara. E também outras verdades, nuas e cruas: a família, o amor, o dinheiro, o sucesso, a fama, a sorte. Na poesia da Nação Zumbi (banda de um dos geniais Franciscos), 'a fome tem uma saúde de ferro, forte como quem come'. Bessa nos mostra a força da fome e a luta do ser humano para vencê-la. Tenho pra mim que teremos outro quelônio no ano que vem.

(Marcos Maia)
(poeta)
Minha mãe fazia uma carne moída com pimentão e coentro que era uma coisa. Molhávamos o pão fresquinho com aquilo e ficávamos em silêncio feito uma igreja vazia. Depois olhávamos a rua, as pessoas, os cachorros, os carros, as coisas num ritmo sonolento. Estou falando muito em comida. Essa minha nova vizinha é uma glutona.

(Reynaldo Bessa)
acho que me separei mais do que casei.

(Reynaldo Bessa)
eu estava fora da vida
olhava-a de longe feito Moisés contemplando a terra proibida pra ele
eu era um menino olhando um brinquedo e já sabendo que não poderia mais brincar com ele
via tudo e todos que um dia foram meus, e
a cada dia a vida ia-se.
até que ficou da distancia de um braço.
e eu olhava-a, agora ela parecia um quadro na parede.
e cada vez mais longe.
mas eu ainda podia sentir as pinceladas na ponta dos meus dedos, mas continuava indo...
e eu me perguntei - mesmo sabendo que não havia mais ninguém para me escutar - é isso morrer? Na verdade, quem está indo? pararemos um dia de fazer estas perguntas?
até que um dia ouvi apenas o raspar da minha unha na tela e um farelo da existência caiu sobre o assoalho.
e depois... depois, mais nada.


(Reynaldo Bessa)
Porto Alegre fria, de pestanas decaídas, úmidas
Feito gotas de chuva no rosto de uma estátua numa praça vazia
O aeroporto com suas borboletas de indiferença e aço e cansadas de gente cansadas
Meus sonhos congelados e dedos enrugados
O ultimo beijo feito a ultima bala no tambor
A roleta russa gaúcha.
Promessas que nao cabem num mundo de promessas descabidas
O amor de roupa nova, sapato novo.
Ouvia o barulho dos pneus no asfalto molhado
Como uma cancao-sussurro do fim do mundo
Não se dá o que nao se tem
Mas a crença vem num vidrinho de tarja preta
E vamos e vamos
Poa bocejando, fria
E eu queimando por dentro... azia de infinito.


(Reynaldo Bessa)
O escuro, a musica, e o vinho: na ponta dos meus dedos o vestido dela feito um souvenir roubado de um sonho.

(Reynaldo Bessa)
Ora, já nos meus 11 anos, após a escola, eu ia ao cinema para despistar a realidade. Essa moça era como uma mansão que nunca iria comprar. Gosto dos sonhos ainda com suas ruas de terra. Cheiro de livros novos e bolso escolar. Cheiro de liberdade sacana.

(Reynaldo Bessa)
Ficção não é mentira, talvez invenção. Parte de um ponto real, mas não é o real, porém, acaba sendo. Melhor; ficção é um deslocamento da realidade.

(Reynaldo Bessa)
Ela andava como se dançasse pra mim,
como se estivesse em meu quarto no meio do deserto.
Olhava para alguém, fixamente, no entanto, eu podia sentir a língua dos seus olhos sobre o meu desejo descabido.
Enquanto isso, meu olhar pousava sobre seu rosto como o sol nos primeiros raios da manhã sobre a banda da terra, azul; linda; preguiçosa, E eu, sol, derramando minhas mechas douradas sobre o planeta daquele rosto com pegadas de conquistadores há muito esquecidos.

(Reynaldo Bessa)
só temos o que conseguimos guardar num piscar de olhos.

(Reynaldo Bessa)
Na adega, ouvindo Coldplay e com o coração feito um pássaro sob a chuva. Percebo que as figurinhas que colávamos com arroz cozido começam, enfim, a descolar do álbum. E eu olho a rua como quem penteia a trisfeza. E olho a lua feito uma grande lágrima amarela no rosto enferrujado do tempo. E penso, e nisso entra outra música do cold e meu coração encolhe-se feito um vira-lata logo após um pontapé. Repito diversas vezes seu nome como se quisesse mudar os trilhos desse destino de fumaça. O nome do dono, numa sala fria, traz o peito aberto para um legista sonolento e mal remunerado.

(Reynaldo Bessa)
se você tem dúvidas acerca de vinhos, compre um chileno. Se ainda tem dúvidas, compre uns chinelos.

(Reynaldo Bessa)
o finalzinho dourado da tarde feito um pingente barato
o cheiro de café novinho, e o arrastar dos chinelos da minha mãe
meu irmão espreguiçando-se feito um gato manhoso, enquanto eu coço a orelha e penso nas figurinhas repetidas... e nas raras também...
as ruas engasgadas de vozes, longe
cachorros latindo feito cartas que nunca chegaram...
saudades do futuro
medo do ontem
e eu toco o meu irmão
como quem quer guardar um sonho no bolso
por quê? Será que as crianças são Deuses em calções curtos?:
as tarde assobiam canções de países longínquos:
idiomas estranhos que a minha melancolia sabe de cor. blackbird em meu peito franzino.


(Reynaldo Bessa)