Espertos

sexta-feira, 29 de março de 2013

escrevo porque sou um insatisfeito. Nada me basta. Insatisfeito com minha adolescência, com minha fase adulta, com o envelhecimento e até com a minha infância: país que deixei contra a minha vontade. Enfim, insatisfeito com esse percurso desengonçado do crescer, viver. Parece-me que até a abundância me é insuficiente. E nessa insatisfação, tento inúmeras vezes passar minha saga de incógnitas a limpo. E nesse tentar, por diversas vezes, rasuro, mancho, maculo ou reescrevo-a de maneira ainda mais insuficiente. E vou tentando, sempre. Sei que nunca conseguirei, mas vou. Por isso escrevo...

(Reynaldo Bessa)
o tempo
nos varais
só o vento

(Reynaldo Bessa)
Sempre que saio à noite costumo deixar algum dinheiro na carteira para poder comprar produtos que alguns desses homens muito simples, resolvem vender quando a noite já está praticamente terminando. Compro tudo. Mesmo que depois não saiba ou não tenha o que fazer com eles. Aprendi isso com meu pai: numa certa noite, lá pelas 22h, vimos um homem de aproximadamente sessenta anos: banho tomado, cabelo bem penteado, e cheirando a loção pós-barba. Andava pelas ruas como se o dia tivesse acabado de nascer. Vendia sandálias feitas por ele mesmo. Carregava apenas três pares de números diferentes. Não pareciam novas. Apenas bem conservadas. Meu pai o chamou, e lhe perguntou o preço. O homem com gestos medidos e silenciosos, como um padre iniciando uma missa, numa voz titubeante - talvez por receio de perder seu único comprador em potencial naquela noite tão urgente – lhe respondeu. Meu pai comprou todos. O homem guardou o dinheiro no bolso como quem protege um remédio escasso que precisa levar para algum enfermo em casa. Nunca esquecerei o olhar que os dois trocaram nessa noite que ainda parece caminhar ao meu lado – antigamente os homens negociavam como se fizessem parte de uma confraria - Dentro da minha pré-adolescência labiríntica - na fase em que um frango começa a virar um galo, apesar de toda luta Perterpanica – com minha voz de gato engasgado, disse: “mas, pai, aqui ninguém calça esses números”. E ele me respondeu: “Mas a fome calça”.

(Reynaldo Bessa - Cores da infância)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

        Sofrer, sofrer e sofrer: será mesmo isso uma forma de transformação? O fio condutor que levará o ser humano a algum lugar onde essa via-sacra, definitivamente não existirá mais? Um lugar de merecimento? É? E depois? E quem definiu isso? E pra que? E por que esconde as regras? Dizem que o sofrimento é uma ladeira, e a felicidade a subida dessa ladeira. Bom. O assunto é outro. O ser humano, e ele sempre. Essa coisinha que em todas as religiões e filosofias, parece ser o objeto de um eterno exame, no fundo, fundo mesmo, adora uma farsa? Essa criaturinha está mais pra Rabelais que São Tomás de Aquino. E que ninguém, ninguém mesmo, aceita a verdade à vista. A verdade como ela é. Quando nos encontramos diante dessa luz intensa, automaticamente a dividimos em duras e infinitas prestações. E vamos achando que vamos pagando. Bom. Quando meu irmão morreu – e é aqui que quero chegar, mas nunca é fácil – eu de um jeito ou de outro, busquei uma maneira de ir junto. Como a coisa não vinha por fora, resolvi que viria por dentro: pela alma. A alma como uma britadeira perfurando o corpo. Um tipo de vandalismo no templo de mim mesmo. Então comecei aferir a pressão todos os dias. Fiz todos os exames possíveis. E se eles dessem negativos, eu os fazia novamente. Não gosto de televisão, mas decidi que assistiria o Fantástico - que de fantástico não tem nada- só para ver qual doença eu poderia contrair. Para mim, por um bom tempo, adquirir uma doença foi como financiar uma casa ou um carro novo. Tomei remédios sem ler a bula. E quando as lia, adorava os obscuros efeitos colaterais. Aumentava a dose. Arranjei sintomas. Confundi médicos, manquei, comprei bengala, deixei de comer açúcar, tomei remédios para ficar acordado só para dizer que tinha insônia. E fui. Fui pixando o templo da morada involuntária. Queria uma doença como uma criança quer o olhar de um pai. Até cheguei a cogitar a ideia de comprar o meu caixão, Vi um lindo, bem confortável, lustroso, mas quando tive que assinar os papéis, resolvi fazer mais um exame, e mais outros. Desisti, para desânimo do vendedor, mais vivo que eu. Até que aceitei que sou definitivamente saudável – até então – e que tudo não passava de ter que ver a coisa como ela é. Ou seja. Perceber que ninguém mesmo aceita a verdade numa porrada só, mas que ninguém também é obrigado a colocar o sofrimento na sua garagem, e deixá-lo lá, eternamente. Então percebi, que naquele momento turvo, confuso, doído, eu até gostaria de ter ido a última festa com ele...Mas existia uma diferença: ele tinha o ingresso, eu não. Então fiquei. Mas confesso, ainda estou aqui, com uma breja bem gelada, esperando seu retorno para o meu último drink.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

traga o pão de alho, 
traga o seu quintal cheirando a chuva, 
traga os miados de amor dos seus gatos, 
traga, traga...traga o carinho do seu pai em seus sonhos de pés calejados, 
os segredos dos panos de pratos da sua mãe, 
traga sua insônia de passos leves e seu sono profundo agarrados em mim, 
traga uma mala cheia disso e venha. 
venha com a passagem só de ida ou 
como a última bala no tambor.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Domingo, eu estava almoçando, sozinho. Tomava uma taça de vinho. Como sempre faço quando almoço ou janto. Enquanto mastigava a comida, também mastigava pensamentos. Sempre isso. De repente quando fui passar o guardanapo na boca, nao me senti eu mesmo. Era como se o meu pai estivesse fazendo isso por mim. Era como se ele estivesse usando as minhas mãos, a minha boca e quase todos os meus pensamentos. Era ele em mim. Exatamente como ele passava: o guardanapo bem encolhido entre os dedos e deslizando sobre lábios contraídos - um amigo me disse uma vez quando lhe contei sobre meu pai ter morrido.
"O meu pai também morreu, mas sinto como se ele morasse, vivesse em mim". Na época nao dei muita importância aquilo, mas num domingo que se esparramava pelo asfalto, enquanto eu almoçava pude sentir isso bem. Exatamente assim, como se eu fosse apenas uma morada dele. Um corpo emprestado a ele. Pra não desabar, pensei: "pai, já que o senhor é que esta almoçando, se deliciando, no meu lugar...depois, por favor, aproveite e pague a conta, ok? Sorri e voltei a comer. Agora eu era eu mesmo de novo. Mas, na verdade, quem sou eu?

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

minhas casas

Gostaria de falar das casas em que moramos: os cheiros, os ruidos, os silêncios, os vizinhos, os gatos sem donos, os viralatas. Gostaria de falar das chegadas e partidas. Falar do sol que ao meio dia fazia tremular a rua. Da lua, na madrugada, lambendo suavemente os paralelepípedos. Gostaria de falar de quando eu subia na laje e contava minhas diatribes para um deus que eu mais temia que amava. Ele nunca me respondeu. Acho que deve ter caído em uma de nossas mudanças. Mas mesmo assim eu gostava de subir lá, porque ouvia burburinhos, tilintar de talheres, de pratos. Ouvia também gemidos, gritos e choros que chegavam das casas dos vizinhos. Ouvia até minha mãe zanzando na cozinha quente. Ah, essas casas. Tristes, tão tristes. Mais tristes que o grito do açougueiro, do pipoqueiro e do sorveteiro juntos. Esperar minha mãe dobrar a esquina com seu passo de cansaço e espreita. Ouvir meu pai dormindo entregue a uma rede que sabia mais dele do que ele mesmo. As casas. Oh, as casas da minha infância, adolescência e sei lá mais. Quando nos apegávamos a uma, logo tínhamos que procurar outra. E lá íamos nós numa vontade triste, numa rapidez lenta, numa urgência de calendários vencidos. Ah, essas casas; nunca as tivemos, nunca foram nossas, mas agora são, só minhas, só nossas...aqui...aqui bem dentro de mim, onde há ainda mais goteiras...

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Oficina de Escrita Criativa.

Minha "Oficina de Escrita Criativa" começa em março: por enquanto nas Bibliotecas Alceu Amoroso Lima e José Paulo Paes. Vagas limitadas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A outra margem



para o poeta, Paulo César de Carvalho


Depois de sentir o cheiro da pipoca dos casais, depois de beijar os beijos dos casais, depois de apertar as mãos dos casais, e depois de não fazer o amor que eles farão, vou para casa. Tão sozinho quanto um livro fechado. Vou para minha casa com um sonho sob o braço e um filme na cabeça, mas só, tão só como uma tese de mil páginas acerca da solidão. Atravesso esse mar e serei outro la na margem...Ou não.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Giovanna Baby



Quando eu entrava em casa sentia como se o cheiro de Giovanna Baby passasse a mão sobre a testa do meu tambor desesperado. Desesperado em parte por sonhar demais e noutra por fracassar demais. Sentia vontade de acender um cigarro e esquecer os passos em falsos do passado, mas preferia sentir aquele cheiro. Não exatamente pelo cheiro em si ou em ré, mas por saber que ele estava lá, naquele quarto e sonhando nuvens sob um edredom macio e tão cheiroso quanto ele. Depois de um tempo eu ia até lá e o olhava. Dava vontade de por os dedos em seus cabelos anelados, dourados, como anéis de reis infantis. Dormia como se o mundo estivesse seguro. Assim são as crianças. Eu amordaçava meu coração barulhento e procurava ouvir o som de sua respiração. Não ouvia nada. Era tudo silêncio como um peixinho dourado passeando sob um aquário-edredom-macio. Até quando? Eu pensava. Depois de um tempo o beijava e sentia a temperatura quentinha dos seus sonhos. Ele se remexia como a pedir outro beijo de boa madrugada. Depois o cansaço, a madrugada e as perguntas sem respostas me venciam.

No dia seguinte, eu despertava com algo percorrendo meu queixo, meus cabelos. Nuvens atravessando os meus sonhos intranquilos. Eu abria os olhos como cortinas lentas e pesadas e o via ali, diante de mim, como uma barra de ouro com duas pérolas incrustadas e me olhando cheias de perguntas sem respostas. Ele não sabia ainda dizer bom dia e por isso, soltava apenas um “tio?” cheirando a Giovana Baby. Eu levantava e preparava-lhe torradas francesas e ouvia seus silêncios cheios de perguntas ainda sem respostas.

Um dia o vi passar pela porta com sua mochila pesada de livros, equações e sonhos adolescentes. Depois o vi arrastando uma menina de sorriso triste. Ele a trazia pela mão como um jornal que nunca seria lido. Depois o vi com outra menina que fazia tanto barulho que deixou todo o mundo mudo. Mudo de tudo e de nada. Depois o vi bradando espadas que não eram mais de brinquedos. Depois o vi montado em dragões que não eram também de brinquedos. Um dia ele entrou de terno e gravata e cheio de respostas. E eu fiquei ali, cheio de perguntas. Você se lembra das torradas francesas? Perguntei. E ele, Hein? E eu fiquei ali como um cigarro apagado. Olhando-o. 

Até que ele se foi. E não houve tempo para despedidas, porque essas coisas acontecem sob o macio edredom das madrugadas frias e silenciosas e às vezes com chuvas eternas. Não há trens, aviões, ônibus, navios, nada. Só um silêncio vindo e depois indo de vez e ficando para sempre. Ele se foi tão silencioso como uma folha soltando-se de um galho. É, ele se foi homem e levou consigo o menino de luz que em algum lugar ainda está nele num lugar qualquer. E eu fiquei aqui. Eu, minha barba e meus sonhos grisalhos. Cá estou, dentro de uma loja, fuçando frascos de perfumes da Giovanna baby, como a tentar me certificar se isso realmente aconteceu.

(reynaldo bessa)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

cachorro sarnento
fuçando o lixo da existência,
lambendo porquês,
mordiscando símbolos estragados.
pachorra sedenta
atiçando a fríncha da desistência
lá, bebendo nadas,
mordendo signos extraviados.
mais um poema?
pra quê?
poemas, ora, poemas:
hematomas sobre o branco papel
rindo amarelo

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

alguns anos atrás
e seus tantos relógios usados,
quando meus pés sujos e de unhas incertas
pisavam estrelas; os trovões eram os gritos antecipados
do meu velho. E depois de ve-lo lá, imóvel, pálido, frágil,
inútil como um guarda-chuva em dia de sol, quase que o arranquei de dentro daquela quitinete de madeira escura, lisa e definitiva e quase que o arranquei daqueles sapatos engraxados para o fim de sua última festa e disse, em desespero: grita, pai, grita...grita como aqueles velhos trovões...grita. GRITA...

(Reynaldo Bessa)
sempre estamos presos a alguma coisa. Seja lá o que for. Presos a uma vontade, a um útero, a um cordão umbilical, a uma mãe, a alguém, ao desejo, a vida, a morte, presos, presos (sob a ordem de quem?). Ninguem é livre, pois quem se acha realmente livre, no fundo, está preso a liberdade (e que diacho será mesmo isso?)

(Reynaldo Bessa)
você olha com seu olhar de lança e 
escudo
mas também quero sua dança índia
sob a silhueta dessa lua cheia
e eu logo ali
nesse escuro
escudo

(reynaldo bessa)
não erres, 
nem esses, 
delizes

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Meus 10 livros de 2012


1 - As aventuras de Augie March - Saul Bellow
2 - Infância - J.M. Coetzee
3 - As coisas da vida (crônicas) - António Lobo Antunes
4 - Festa no covil - Juan Pablo Villalobos
5 - E foram todos para Paris - Sérgio Augusto
6 - Poesia - 1931 a 1935 - Fernando Pessoa
7 - O zen e a arte da escrita - Ray Bradbury
8 - O romance morreu - Rubem Fonseca
9 - Octaedro (contos) - Julio Cortázar
10- Iama - Alexandre Ivanovitch Kuprin

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Caminhei por ruas que me olhavam de esguelha e pensei pensamentos de esguelha. Havia um arpão maior que o peito. Nada mais insano que um ano atrás do outro, mas eis-me aqui, acho. O arpão? Não sei. Convivi com ele um tempo. Nem sei quanto. Ele deve estar encostado, enferrujado e sem dor, em algum lugar do passado. Com os cílios em chuva e o ipod no volume máximo, eu fui. Fui criando minhas próprias aventuras e tentando sair delas. Fui cavalgando o rocinante-vida e cá estou, de novo diante de um futuro-Dulcinéia. E eu vou. Sem medos e sem arpões. Por enquanto.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Penso em suas confissões desvairadas, 
desorientadas pelo desejo. 
Seu corpo lindo brigando com o meu, 
mas, ainda mais com ele mesmo. 
Penso em teu beijo faminto querendo devorar e 
ao mesmo tempo refazer. 
Teus cabelos presos no suor do teu rosto e 
minha vontade de te esbofetear com os lábios das minhas mãos. 
Vontade de te ter e outra coisa que ainda não sei. 
Quero, é so o que sei que quero: querer

(Reynaldo Bessa)
E eu o vi de longe
Seus olhos úmidos de gritos
Seus movimentos desesperados de mudez
E o outro la: o mar e sua ira
E tantos barulhos, tantos
O fim que ninguém espera
Agua, muita, afinal de contas é o mar
Depois, o cansaço
O rei das águas fecha suas pálpebras e 

a noite o cobre com seu manto escuro.
Fracasso
Vazio
E ele la: o afogado e 

a sua solidão imensa,
úmida de silêncio.

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Há uma serraria, 
longe, longe daqui e 
é como se eles serrassem a minha insônia. 
Tenho a leve impressão de que,
enquanto durmo, eles tentam 
consertar a realidade.

(Reynaldo Bessa)


sábado, 15 de dezembro de 2012

Quando a noite encolheu a ponto de quase caber dentro do meu bolso e eu confundi o ir e voltar. Quando eu não sabia mais a utilidade do choro ou do riso. Quando eu simplesmente mergulhei em mim mesmo e achei que acordei, senti sua presença. Na morte há várias camadas e vamos passando, se tivermos que passar. Eu parei na primeira e fiquei lá. É como um estado de vigília entre a vida real e a morte real. Eu sentia o meu corpo e ao mesmo tempo não o sentia. Então vi seu sorriso saindo de algum lugar. E era como uma mecha de luz. Eu ouvi: "calma, tudo só está começando, mas não é o fim, mas vai ser dificil". Era a mesma voz dele, mas o tom de proteção era outro. Eu perguntei: "em qual lingua voce está falando?". Mesmo confuso, eu quis ficar ali com ele lá, sentado naquela cadeira enorme e com o espaldar para mim. Ele disse: "enquanto isso vou te contar uma história.. .e enquanto ele contava eu acordei de novo para o que eu acho que acordei...não, ainda não sei.

(Reynaldo Bessa)
cedo
sem
medos
quando
seus
dedos
desabotoam
meus
segredos

(Reynaldo Bessa)

sábado, 8 de dezembro de 2012

A tristeza tem o cheiro de pastéis fritos.

Agarrado a sua saia como se buscasse uma razão para minha existência, eu a olhava mordendo as lágrimas com os olhos.
Uma tarde oca, sem endereço, manca, insistia em caminhar para o lugar nenhum.
Meu pai chegava horas e horas depois e derramava seu desespero líquido por toda casa.
Ela contraía seus lábios finos na tentativa de evitar lidar com palavras mai
ores do que ela mesma. O óleo quente que vez em quando pingava em meus cabelos, rosto, coração, não doíam tanto quanto aquele silêncio fervendo em sua alma.
Meu pai andava de um lado para o outro como a tentar preencher o vazio absurdo de vazio.
Ela continuava mergulhando aquela coisa de alumínio doído, torto de existência que, um a um, ia tirando os pequeninos ódios amarelos fritos, que horas depois, os comeríamos frios numa noite sem nome.

(Reynaldo Bessa)

O viaduto da Lua


      Eu seguia meu costumeiro caminho. Caminho que sabe mais de mim que eu a ele. Notei um tumulto à frente: alguns policiais tentando se aproximar de um homem sobre o parapeito do viaduto da lua.

_Não se aproximem. Não cheguem mais perto. Não, nem pensem.
Um pandemônio num pedacinho da noite. Observei isso durante alguns poucos minutos. Logo retomei o meu caminho e aproveitei para acender uma cigarrilha.

_ei você ai.

Continuei andando. A coisa veio ainda mais forte.

_ei, ei você ai 

Dessa vez senti como se o grito tivesse tocado o meu ombro. Virei-me e notei logo de cara que todos me observavam.

_o que você esta fumando? Que cheiro é esse?

_cigarrilhas – respondi

_posso fumar uma? – perguntou-me

_claro – respondi

_mas não tente se aproximar de mim. – ele reforçou

_não vou me aproximar. Já tenho os meus problemas.

Joguei duas cigarrilhas de onde eu estava. Depois joguei o isqueiro. O observei. Deu cinco longos tragos, olhou-me, depois se virou para os inquietos policiais e gritou:

_fiquem onde estão. Se tentarem alguma brincadeirinha, eu-pu-lo-des-sa mer-da. 

Continuei fumando e já pensava em sair.

_ei, chega ai

_não – respondi

_como não?

_não

_ei, não percebe o que ta acontecendo aqui?

_sim, claro

_e ai?

_e ai, nada. Problema seu.

_se você não vier até aqui agora, eu vou saltar dessa porra.

Eu congelei minha cigarrilha entre os dedos por alguns segundos, olhei os policiais e todos, quase que ao mesmo tempo jogaram o pescoço para o lado em direção ao infeliz. Dei o último trago. E perguntei:

_por que eu?

_sem perguntas – respondeu

_ok – respondi, já indo a sua direção.

Contou-me coisas. Muitas coisas. Algo sobre tentar manter uma bolinha de chumbo sobre uma película muito fina. Falou-me sobre filhos, empregos, passado... Disse que estava cheio de problemas. Pensei em lhe dizer que todos tinham muitos problemas e que nem por isso estavam tentando resolvê-los com uma grande queda. Pra que cair duas vezes na vida se nascer já é uma queda muito forte? Mas não lhe disse isso, só pensei. Apenas acrescentei um:

_Entendo

Ficamos em silêncio. Fumamos outras cigarrilhas. Ele conversava, mas não tirava os olhos dos policiais. Outros carros haviam chegado. Bombeiro, ambulância, emergência... Uma balbúrdia. E eu que queria apenas seguir o meu costumeiro caminho e chegar até a adeguinha logo ali e tomar meu costumeiro vinho. Notei que todos agora me olhavam como se eu tivesse que salvar o mundo. Até confesso que por um átimo quase acreditei nisso. Fumava ao lado do infeliz. Sentia seu hálito, o cheiro do seu corpo agitado. Provavelmente desde que o dia começou. Senti por diversas vezes seu ombro tocar o meu. Esperavam algo de mim e eu sabia disso. Imaginei-me abraçado a ele, rolando pelo chão, ele em desespero, olhando-me com aqueles olhos ainda mais tristes. Imaginei-me ouvindo seus gritos que me seguiriam pro resto da minha vida. Pensei, confesso que pensei. Vi-me também despencando com ele daquele parapeito sombrio. Eu poderia levar desvantagem. Ninguém sabe a força que alguém realmente possui quando quer morrer. Conhece-se só a força de quem quer viver. 

_qual é o teu nome? – perguntou-me de supetão.

Depois de alguns segundos, disse-lhe meu nome e ele logo em seguida disse-me o dele e me pediu que apertasse a sua mão. Passei a cigarrilha para a outra mão e atendi ao seu pedido. Depois, silencio de novo. De repente ele já não mais estava ali. Foi como se simplesmente tivesse se evaporado, desaparecido. Ouvi o impacto. Afastei-me. Uma multidão veio ao meu encontro. A maioria dela se debruçou sobre o parapeito para olhar lá embaixo. O tumulto do tumulto. Os policiais vieram em minha direção e me bombardearam de perguntas:

_por que não o segurou? Por que não o agarrou? Por que não isso, por que não aquilo?

Não respondi. Tomei o meu caminho de casa e enquanto acendia outra cigarrilha pensei: carregar uma morte não é tão difícil, difícil mesmo é arrastar uma vida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

assalto a mão amada

Se eu temo o amor? Claro que não.
tudo hoje tem o seu lugar. Tudo cabe direitinho:
o carro na garagem, o cachorro na coleira, as moedas no bolso, o passado na gaveta, a família na família. Mas o amor não tem lugar, quando muito no coração que é um lugar que ele nunca cabe. O amor é um subversivo... Eu não o temo,. Eu o espero e, posso dizer: desarmado. Porque não há a menor graça em se armar para o amor. O amor é um assalto.
Um assalto a mão amada.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

eu me demoraria séculos 
em tua boca
moraria em teus lábios, vincos

curvas
mesmo ateu, 

trabalharia duro e
construiria uma igreja para a 
alegria e salvação da aldeia
dos teus poros.

(reynaldo bessa)
Tenho meu tempo com a chuva. Posso ouvir assobios cortando a noite fria. Trilhos umedecidos, alguém sozinho numa estação qualquer. Posso sentir o cheiro do verde, árvores doando seus frutos. Posso ouvir gotas sobre as asas do avião. Sobre sua janela. Posso ouvir seus cilios umedecidos por algo que nao tive coragem de dizer.

(Reynaldo Bessa)
Leve: 
leve meu vício, 
mas deixe 
meu viço.

(Reynaldo Bessa)
que espera pesada, esta
de ficar pensando, parado,
preso no ancorado devir.
no que der e vier: escorado
ora, que ancoradouro mais
desolado essa coisa do querer.

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

existe morte delivery? 
Se existe, mande a maquininha do Visa. 
Débito, por favor.

(Reynaldo Bessa)
gueixa
se quiser beijar 

meu beijo,
deixo, mas
terá que lamber
minha
queixa.
o que
acha?

(reynaldo bessa)
por que guardar a vida? 
Só ganhamos a vida quando a 
perdemos com alguém 
que sabe ganhá-la

(Reynaldo Bessa).
só posso mirá-la de longe 
como um homem só 
diante dos mistérios do sorriso 
da protegida Monalisa. 
A moldura que a envolve 
foi construida com a dura madeira 
da dúvida que dura.

(Reynaldo bessa)
abro mão de tudo 
pra cravar minhas unhas 
sobre a pele 
da tua ausência.

(reynaldo bessa)
na janela
por trás
a lua na frente
sorrindo
e nós
num demais

(reynaldo bessa)
quantos gritos cabem dentro da boca silenciosa da noite?

(reynaldo bessa)
só vou dormir quando o sono entorpecer minhas palavras insones. E mesmo cambaleantes, elas ainda procurarão as lojas ampm dos textos das estradas interrompidas....

(reynaldo bessa)
com a alma nua sob a chuva que nunca vai cair

(Reynaldo Bessa)

domingo, 2 de dezembro de 2012

brisa
leve
vindo e
eu rindo
linda
neve
caindo e
eu indo

(Reynaldo Bessa)
 


sua falta
sobra
dentro da
minha
calma
sabre

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Bum!

Já senti a pegada da solidão como um golpe quase fatal: após o término de um relacionamento de muitos anos, entrei em um supermercado pra comprar um vinho. Mais um ano ia terminar. As pessoas se confraternizavam e sorriam com aquela falsa alegria que só dura até o término da tagarelice dos fogos de artifícios (sempre isso) e eu queria matar o mundo. Encontrei as gôndolas vazias e ainda por cima tocou uma música que era a predileta dela. Isso doeu, mas não tanto quanto agora: entrei num boteco fechando (cadeiras sobre as mesas) e tocava "Coração de estudante" do Milton Nascimento. É demais. Saí do boteco como se eu tivesse deixado uma bomba programada pra explodir segundos depois.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Vontade

vontade de deixar o cabelo e a barba crescerem, 
de tomar banho de chuva, 
de beber água em bebedouro de corredor de escola. 
vontade de equilibrar a minha mesa (sempre manca) com as minhas contas 
que não param de chegar. 
vontade de abrir gavetas, folhear cadernos antigos, 
ver fotos amarelas, onde eu digo pra mim mesmo: "quem é você?" 
vontade de usar o peso inútil dos meus dias 
para prender papeis inúteis. 
vontade de me agendar em calendários vencidos. 
vontade. E isso basta.

(Reynaldo Bessa)

domingo, 11 de novembro de 2012

O pulo

Os dois braços sobre o colchão. Entre eles, seus grandes cabelos em leque, esparramados como uma tinta escorrendo sobre o branco do lençol. Nenhum ruido neste instante eterno, cristalizado. Em seu olhar bóia uma calma desesperada, uma urgência sem pressa. Esfinges tremulam no calor dos lábios. Olho para ela como um homem na sacada do desejo. Este pulo, agora, é tudo que quero. O grito.

(Reynaldo Bessa)
uma lança rija nas mãos do guerreiro em busca do alvo.

(Reynaldo Bessa)

sábado, 10 de novembro de 2012

Minha mãe (em seus 83 anos): filho, olha! sabe ......como chama?....ah....rsrsrsrs
Eu: mãe, por que a senhora ri quando esquece uma palavra?
Minha mãe: ah! porque eu fico triste.


(Reynaldo Bessa)
De onde vem meus personagens? Nao, nao sei. Mas, eles com certeza, sabem de onde venho.

(Reynaldo Bessa)
O passado não é uma pedra no sapato - quem dera - é um sapato de pedra.

(reynaldo bessa)
O ministério da saúde adverte: mistério é saudavel a saúde.

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ela: quantas mulheres vc tem?
Eu: cinco
Ela: hum?
Eu: cinco
Ela: bateu a porta e desapareceu.
Eu: liguei pra minha filha, minha mãe e minhas três irmãs e contei tudo.

(Reynaldo Bessa)
Depois de escrever o teu conto, corta, corta de novo, corta ainda mais. Quando achar que não sobrou nada, ou seja, quando pensar que tua obra prima desapareceu, olha um pouco melhor e, verá que ainda há excesso.

(Reynaldo Bessa)