Espertos

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Porto Alegre fria, de pestanas decaídas, úmidas
Feito gotas de chuva no rosto de uma estátua numa praça vazia
O aeroporto com suas borboletas de indiferença e aço e cansadas de gente cansadas
Meus sonhos congelados e dedos enrugados
O ultimo beijo feito a ultima bala no tambor
A roleta russa gaúcha.
Promessas que nao cabem num mundo de promessas descabidas
O amor de roupa nova, sapato novo.
Ouvia o barulho dos pneus no asfalto molhado
Como uma cancao-sussurro do fim do mundo
Não se dá o que nao se tem
Mas a crença vem num vidrinho de tarja preta
E vamos e vamos
Poa bocejando, fria
E eu queimando por dentro... azia de infinito.


(Reynaldo Bessa)
O escuro, a musica, e o vinho: na ponta dos meus dedos o vestido dela feito um souvenir roubado de um sonho.

(Reynaldo Bessa)
Ora, já nos meus 11 anos, após a escola, eu ia ao cinema para despistar a realidade. Essa moça era como uma mansão que nunca iria comprar. Gosto dos sonhos ainda com suas ruas de terra. Cheiro de livros novos e bolso escolar. Cheiro de liberdade sacana.

(Reynaldo Bessa)
Ficção não é mentira, talvez invenção. Parte de um ponto real, mas não é o real, porém, acaba sendo. Melhor; ficção é um deslocamento da realidade.

(Reynaldo Bessa)
Ela andava como se dançasse pra mim,
como se estivesse em meu quarto no meio do deserto.
Olhava para alguém, fixamente, no entanto, eu podia sentir a língua dos seus olhos sobre o meu desejo descabido.
Enquanto isso, meu olhar pousava sobre seu rosto como o sol nos primeiros raios da manhã sobre a banda da terra, azul; linda; preguiçosa, E eu, sol, derramando minhas mechas douradas sobre o planeta daquele rosto com pegadas de conquistadores há muito esquecidos.

(Reynaldo Bessa)
só temos o que conseguimos guardar num piscar de olhos.

(Reynaldo Bessa)
Na adega, ouvindo Coldplay e com o coração feito um pássaro sob a chuva. Percebo que as figurinhas que colávamos com arroz cozido começam, enfim, a descolar do álbum. E eu olho a rua como quem penteia a trisfeza. E olho a lua feito uma grande lágrima amarela no rosto enferrujado do tempo. E penso, e nisso entra outra música do cold e meu coração encolhe-se feito um vira-lata logo após um pontapé. Repito diversas vezes seu nome como se quisesse mudar os trilhos desse destino de fumaça. O nome do dono, numa sala fria, traz o peito aberto para um legista sonolento e mal remunerado.

(Reynaldo Bessa)
se você tem dúvidas acerca de vinhos, compre um chileno. Se ainda tem dúvidas, compre uns chinelos.

(Reynaldo Bessa)
o finalzinho dourado da tarde feito um pingente barato
o cheiro de café novinho, e o arrastar dos chinelos da minha mãe
meu irmão espreguiçando-se feito um gato manhoso, enquanto eu coço a orelha e penso nas figurinhas repetidas... e nas raras também...
as ruas engasgadas de vozes, longe
cachorros latindo feito cartas que nunca chegaram...
saudades do futuro
medo do ontem
e eu toco o meu irmão
como quem quer guardar um sonho no bolso
por quê? Será que as crianças são Deuses em calções curtos?:
as tarde assobiam canções de países longínquos:
idiomas estranhos que a minha melancolia sabe de cor. blackbird em meu peito franzino.


(Reynaldo Bessa)
Faz-se necessário vestir a bandeira da França, é preciso se doer e se inflamar com Mariana com seu vestido coberto de lama e negligência. É preciso reclamar se um caso teve menos espaço na mídia do que o outro, é, também. E é necessário que alguém diga que a discussão acerca disso não pode reduzir-se a espaços na mídia. Podemos dizer, sim. Isso é delinear um pensamento crítico, isso é ter, enfim, consciência do que nos cerca, isso é preocupar-se com o nosso e o alheio. Isso é humanismo. O que não pode, é ficar calado, é não fazer nada, é não saber o que está acontecendo, e principalmente, fazer de conta que não sabe. isso não pode.

(Reynaldo Bessa)
Na adega. A chuva semeando o asfalto. Sob a chuva o ódio dá um tempo sob uma marquise. O mundo parece seguro quando está chovendo É quando o medo, pai de toda a violência, tem suas crises de asma e fala baixinho. Que todas as balas sejam de hortelã, tutti fruti, 7 belo... torrao de açúcar. ?..

(Reynaldo Bessa)
Nao me ame. Eu duro o tempo de um sinal verde.

(Reynaldo Bessa).
as badaladas dos sinos da Sé
caindo sobre minha cabeça feito imensos girassóis.
por alguns segundos sinto o arrepio da vida.
aquela dentada que nos tira da morte sem mortalha.
e estou na superfície
posso ver...
posso ver...
vejo meu corpo morto tentando me arrastar para o fundo...
e vejo os golpistas desdentados e loiros lambendo minha panturrilha
e ouço suas vozes de tobogã e sinto suas línguas de mel e veneno
e lembro daquelas que mentiram entre velas e garfadas afetadas
e com suas joias sorrindo serpentes
e por um segundo, esqueço a perda feito doídos buracos negros da memória
lembro das estrelas que me levaram,
o passado feito um coração chamuscado
posso ver...
posso ver...
na superfície, imensa e brilhante, onde não há navios,
nem horizontes, nem céu, nem dia e nem noite,
apenas um gigantesco girassol descendo lentamente feito uma aranha de ouro... e ,ali, eu, sem morte e sem medo,
ouvindo as badaladas dos sinos da Sé
arrastando-me feito uma linda sereia de peito arfante...


(Reynaldo Bessa)
Lembro dele, ali, diante de mim,
esperando a minha resposta a sua pergunta.
o seu olhar profundo, interrogador
como se vasculhasse as gavetas da minha alma
desarrumada.
- só o silêncio como testemunha -


(Reynaldo Bessa)
quando escrevo
não sei se estou alegre ou triste
talvez nem uma coisa nem outra.
é como um filho já com um nome, mas que ainda não nasceu.
ou uma pessoa nascida em um país e criada em outro.
um homem preso entre um sentimento que agoniza e outro que começa a nascer.
um sei lá,
um estar não estando,
um insano hoje querendo saber
das novidades do ontem.


(Reynaldo Bessa)
Sonhei que haviam roubado a minha joia mais preciosa.
E eu olhava para aquela mancha na parece
como se procurasse o meu coração no meu peito oco.
Perguntava-me: como poderei agora cantar aquela cançao
que balança o berço do universo?

(Reynaldo Bessa)
o sangue espesso e escuro
sob a fina pele da vida
a dor em bando
o criador com seu sorriso de hiena outra vez
o solo de banjo da morte
o calendário em febre
o filho dá à luz a mãe
e agora corta o cordão umbilical
do nunca mais.


(Reynaldo Bessa)

domingo, 22 de novembro de 2015

As badaladas dos sinos da Sé
caindo sobre minha cabeça feito imensos girassóis.
Por alguns segundos sinto o arrepio da vida.
Aquela dentada que nos tira da morte sem mortalha.
E estou na superfície
posso ver...
posso ver...
Vejo meu corpo morto tentando me arrastar para o fundo...
e vejo os golpistas desdentados e loiros lambendo minha panturrilha
e ouço suas vozes de tobogã e sinto suas línguas de mel e veneno
e lembro daquelas que mentiram entre velas e garfadas afetadas
e com suas joias sorrindo serpentes
e por um segundo, esqueço a perda feito doídos buracos negros da memória
lembro das estrelas que me levaram,
o passado feito um coração chamuscado
posso ver...
posso ver...
na superfície, imensa e brilhante, onde não há navios,
nem horizontes, nem céu, nem dia e nem noite,
apenas um gigantesco girassol descendo lentamente feito uma aranha de ouro... e ,ali, eu, sem morte e sem medo,
ouvindo as badaladas dos sinos da Sé
arrastando-me feito uma linda sereia de peito arfante...


(Reynaldo Bessa)

o finalzinho dourado da tarde feito um pingente barato
o cheiro de café novinho, e o arrastar dos chinelos da minha mãe
meu irmão espreguiçando-se feito um gato manhoso, enquanto eu coço a orelha e penso nas figurinhas repetidas... e nas raras também...
as ruas engasgadas de vozes, longe
cachorros latindo feito cartas que nunca chegaram...
saudades do futuro
medo do ontem
e eu toco o meu irmão
como quem quer guardar um sonho no bolso
por quê? Será que as crianças são Deuses em calções curtos?:
as tarde assobiam canções de países longínquos:
idiomas estranhos que a minha melancolia sabe de cor. blackbird em meu peito franzino.


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

eu estava fora da vida
olhava-a de longe feito Moisés contemplando a terra proibida.
eu era um menino olhando um brinquedo e já sabendo que não poderia mais brincar com ele
via tudo e todos que um dia foram meus. a cada dia a vida ia-se.
até que ficou da distancia de um braço.
e eu olhava-a. Agora ela parecia um quadro na parede.
e cada vez mais longe.
eu ainda podia sentir as pinceladas na ponta dos dedos, mas ela continuava indo...
e eu me perguntei - mesmo sabendo que não havia mais ninguém para me escutar - é isso morrer? Na verdade, quem está indo? Pararemos um dia de fazer estas perguntas?
até que um dia ouvi apenas o raspar da minha unha na tela e vi um farelo da existência cair sobre o assoalho...
E depois... depois mais nada.


(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A poesia salva. Eu e um amigo, também poeta, saíamos de um lançamento de um dos nossos livros. Era madrugada. O banco de trás do carro estava abarrotado dos encalhes dos nossos queridos exemplares recém-lançados, além de alguns presentes literários de outros tantos poetas que foram nos prestigiar. A cidadezinha dormia tal qual um bebezinho no berço. As ruas eram todas nossas. Eu cochilava um pouco pelo cansaço e também por algumas taças da pinot noir. Meu amigo dirigia como se escrevesse versos pelo asfalto. Logo ao dobrar uma esquina havia um carro parado, bem no meio, impedindo nossa passagem. Paramos, de supetão, claro, quer dizer, o meu amigo parou, enquanto eu ainda voltava de um dos meus tantos mergulhos nos lagos dos olhos de Morfeu. Olhei a cena e não gostei nada. Nisso, pedi que meu amigo desse ré no carro, rapidamente. Pequenos segundos repletos de universos. Mas o meu amigo estava paralisado. Pedir que fizesse alguma coisa era como esperar que as ruas nos cantassem hinos. Foi quando apareceram três rapazinhos. Dois ficaram na frente do carro e um, mansamente, veio em nossa direção, e logo debruçou seu rosto de lua cheia bem na cara assustada do meu amigo ainda paralisado. Depois de algumas perguntas totalmente sem respostas e um silêncio AlfredHitchcockiano, ele nos perguntou: "O que é isso ai atrás?" O meu amigo pigarreou e quase num engasgo disse, livros. "Livros de quê?" de poesia. "Hum. deixa eu ver". Folheou, folheou e logo começou a rir. Leu outro poema e riu ainda mais, agora sem controle. Pra minha infelicidade, pela capa, percebi que era um dos meus livros. E o cara ria e até já chamava um dos parceiros pra dar também uma conferida no troço aberto em suas mãos. E agora os dois riam sem parar, enquanto o terceiro já se inquietava de tanta curiosidade, e eu me encolhia ainda mais. Ele pediu outro livro. Meu amigo, sem olhar para trás, assim como quem tira uma carta de baralho num jogo de azar, puxou outro. E agora o cara se rachava de tanto rir. De repente ficou sério e disse: "é disso que vocês vivem?" Meu amigo disse, não é que... "Tá, entendi. Vocês são loucos. Gostei dessas coisas ai. É poesia, né?". E nesse momento ele olhou pra mim e nisso pude ver seus olhos acesos feito dois besouros de fogo lutando com a noite. Eu disse, sim... é... "Tá. As que a professora me pedia pra ler na aula eram uma merda. Então, manos, vão andando, beleza? Que a gente precisa trabalhar" Imediatamente, respondemos juntos, eu e meu amigo: SIM. Logo ao sairmos, ainda podemos ouvir um "Que malucos, mano" e ainda mais risadas. Foi a melhor crítica literária que já tivemos. As outras foram um tanto agressivas. Já faz tanto tempo. Lembrei-me disso porque senti saudades do meu amigo. Só a poesia salva.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

uma tarde longa, longe
estalando feito papel amassado
uma só tecla no tempo: go

(reynaldo bessa)
o rosto de minha mãe feito uma roupa rota,
úmida num varal em um quintal qualquer e escuro
farelos da linearidade em meus dedos finos
sonidos num corredor que já foi demolido há várias décadas
no meu coração há manchas de quadros quebrados
é uma parede bolorenta,
a lua descola-se feito uma pele morta
meu pai amordaçado pela mão peluda e gorda de alguém com ponteiros na testa.
minha coleção de selos flutuando feito estrelas atiradas aos pássaros mais agourentos.
uma casa sem portas
numa espiral dentro de outra espiral,

o tempo fumando num quarto de um hotel barato e soltando baforadas
redondinhas e risonhas, uf, uf.
universos inteiros dentro dessas coisinhas grávidas de efemérides
um sonho antigo feito uma velha gaiola cheirando a alpiste e morte
os compartimentos da casa sem casa são feitos de léguas e cansaço, e asma.
sou um grão, algo assim, e sobre minhas costas caem gotas salgadas do rosto velho dependurado num varal em um quintal qualquer e escuro, muito escuro, e longe.


(Reynaldo Bessa)

sábado, 27 de junho de 2015

Na fila do supermercado vi o sorriso da minha mãe no rostinho de outra senhorinha. Ali estava ele, feito um besourinho emaranhado numa teia de rugas, uma luzinha como uma réstia de sol do primeiro bocejo da manhã. E a menina do caixa me chamava de tão longe, longe e eu ali, bem ao seu lado preso àquele sorriso. E a senhorinha me olhava e eu tentava lhe dizer coisas com meus olhos afogados. E eu me vi voltando pra casa, e eu não tive medo de nada, e corri por alamedas, e subi em árvores, e puxei carinhos, e senti dedos em meus cabelos, e ouvi uma voz me chamando para o jantar, mas só depois de lavar as mãos... Eu ali e alhures. Puxado feito um cabo de guerra da realidade e da memória. Ouvindo algumas pessoas reclamando na fila e vendo a moça com um sorriso que não se parecia em nada com aquele no qual eu estava enlaçado. Voltar à realidade era duro, doído, um parto ao contrário. Era tudo estranho que eu estranhei até o adulto que eu era. Errei o cartão, errei a senha várias vezes, porque nem que eu quisesse eu conseguia sair da magia do sorriso da minha mãe que havia sido emprestado por alguns segundos àquela senhorinha, que quase me fez beijá-la, como quem beija uma rosa no jardim logo pela manhã.

(Reynaldo Bessa)
Enquanto todos amavam a Lua: poetas, namorados, insones, seresteiros, bêbados, solitários & cia, eu a odiava. Não, eu a temia. Quando, ainda menino, fui ao cinema, a primeira coisa que vi, naquilo que mais parecia o meu lençol estendido na parede, foi a Lua. E ela veio para cima de mim como se tivesse se soltado do Céu. E só não caiu bem em minha cabeça ou em meu colo por que bateu a cara rechonchuda na tela, pelo lado de dentro, claro. Mas eu vi que ela olhava pra mim feito um cão raivoso preso no portão. Só não corri por que meu irmão me segurou pela mão e disse: "senta ai, idiota". precisei de muito tempo para fazer as pazes com ela. Sempre que caminho pela madrugada e a vejo ali, feito um grande pássaro de luz numa gaiola escura, eu dou, vez em quando, uma olhadinha nela, pra conferir se continua lá, bicando as estrelas.

 (Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

sei lá, mas me cansa ler essas citações ou trechos sobre determinados autores, nas capas, prefácios e orelhas de alguns livros. As pessoas falam das outras como se estivessem olhando-se no espelho. Disparam adjetivos como quem procura o ego que caiu debaixo da cama. Assim, na maioria das vezes, sem mais nem menos, sem ver nem pra quê. Ora, se há mesmo tantos gênios, por que há, então, tantos livros ruins?

(Reynaldo Bessa)
podem continuar com a roubalheira, podem mentir, podem pisotear a vida e o meu país. Ah, a minha pátria é a minha míngua.... e não quero só roçar a língua de Pessoa, pessoalmente, agora, quero roçar a minha língua à língua de Saramago. Meu coração se parte. A língua, ah.... meu coração tem uma língua enorme...

(Reynaldo Bessa)
Não tenho medo mais, talvez ainda tenha medo de não ter medo. Fui convidado a me retirar da minha infância, fui ao velório do meu super-herói e vi tudo como um descrente ajoelhado no primeiro banco da igreja. Vi minha mãe caminhando sobre nuvens de palavras pagãs, vi meu pai de terno preto quando atravessava o sol, vi os lábios murchos dos corações mentirosos, ah, vi tantas despedidas que ainda aceno ao menor sinal: um tilintar de pratos, por exemplo... vi minha música ser retirada logo ao começar, ah, vi minha vitrola ser despedaçada, me mordi pensando em lábios cheios de vincos úmidos, e vestidos esvoaçantes com seus risos de esguelha, tive sonhos líquidos em banheiros fechados e repleto de silêncios fofoqueiros, ouvi, e ouvi, Pink Floyd para tentar me proteger de mim mesmo, mas não sabia que o inimigo era ainda mais eficiente com sua cantilena desafinada... li tudo como uma forma de me isolar e quando vi estava dentro de um mundo ainda mais repleto de pessoas... ah, essa vontade de voar que me persegue desde a primeira surra... ainda guardo a capa de superpoderes do meu irmão. Ele agora conserta um vazamento no Paraíso... e essa vontade de voar... o asfalto, as girafas, as luzes, e ainda essa vontade de voar... vou abrir mais um vinho...quem sabe apareça um birdman em minha janela... quem sabe o salto não demore tanto, ou eu possa voltar a fita como num velho cassete... e que esteja tocando.... algo.... algo que eu não goste e que não me lembre nada... até...até o beijo nos lábios escuros da viúva sacaninha.... e pronto.

(Reynaldo Bessa)
Na minha família os homens, contrariando as normas, decidiram tomar a frente das damas e se mandaram. Do mais velho para o mais novo, feito uma escadinha cadafalso. Pela lógica eu sou o próximo. Que seja, tirei zero em lógica, sou um sujeito completamente incompleto, abstrato por natureza, e subjetivo pela linguagem.... Então nao discuto, ponho um disco e escuto e não espero, porque esperar é jogar cartas e roubar a si mesmo... nao espero, fico num lero, lero, leio bula de remédio, manual de engenharia, nomes de crianças da renascença, até leio epitáfio.....mas nao espero...fico aqui, olhando para os lados e tentando arranjar um jeito de sair da fila, lógica, bendito zero.... como diz um amigo meu, o 10 é uma nota definitiva, o zero, ah, o zero é aquele amigo que te ouve e até deixa vomitar nele quando voce achou que saquê nao pega... ah, nem sei mais o que eu quis dizer.... tô na adega...

(Reynaldo Bessa)
demolido
pelo tempo,
sim
mas não a casa
que mora
em mim


(Reynaldo Bessa)
Andei por tantos lugares, ah, os canais de Amsterdã, as bicicletas e as pernas estonteantes pedalando o tédio e empurrando a cidade fria com os coturnos trágicos ainda ressoando nos paralelepípedos. Não há o longe nem o perto, tudo é o que é. E todos querem ser diferentes, mas a saudade, feito um peixinho no aquário é sempre a mesma, assim como a solidão encostada na esquina e palitando o futuro, assim como a chuva caindo.... E o que ela poderia fazer além disso?

(Reynaldo Bessa)
Quando num determinado dia o sol põe a língua de ouro pra fora e mostra o céu da boca azulzinho, e você cheio de si aperta o play, e ouve uma música que há muito havia esquecido - assim como se esquece fotos em gavetas abarrotadas - percebe que já não é mais o mesmo. Para onde você foi nesse meio tempo? Onde esteve e por que resolveu não voltar? O que há de tão interessante por lá? É, você já não é mais o mesmo. E não adianta reclamar. Cada minuto, cada segundo contou e está contando, como um taxímetro que só irá parar quando você descer de si mesmo. E ainda assim, o táxi irá embora carregando um dos que você já deixou de ser. O que desceu muito em breve deixará de sê-lo para tornar-se um sonho alheio. É que só lembramos de nossas velhas malas quando já embarcamos... E não há muita coisa a fazer... com a Vida só podemos lutar a favor... e não há coisinhas e nem coisas mais importantes, há somente ela, a Vida... Não há como se embebedar com seus vislumbres sem estremecer com seus olhos cheios de mistérios e esquinas...

Foo fighters no máximo volume....

(Reynaldo Bessa)
Quando os caminhos eram longos e meu campo de ação ia só até onde alcançava o grito do meu pai: "ei, menino", eu queria ver a rua logo que a noite adormecia com suas longas mechas caindo sobre o assoalho. Todos os barulhos sobrevoando a cabeça dessa bela moça de cílios longos e bem negros. Os grilos, a cachorro latindo ao longe (nunca me parecia com aqueles cachorros sonolentos sob os balcões dos frigoríficos, no dia seguinte) um choro de bebê saindo pela fenda de alguma janela, passos na rua, às vezes até um sussurro. Eu queria ver a rua na noite, assim, deitada em seu leito e em sono profundo, mas eu não podia. Além das advertências do meu pai, eu precisava de um querer ainda maior que o meu medo da noite, daquela rua tão deserta, misteriosa e além de mim, e cheia de barulhos que só surgiam quando o dia saía de fininho feito um aluno matando aula. Eu queria. Ai eu cresci, e lá estava eu, sem nem bem perceber, diante da rua, em plena noite escura. E os caminhos ficaram curtos e não havia mais os gritos do meu pai: "ei, menino". E havia o quê? Não era a mesma coisa. Aquela rua no meio da noite não era a mesma que eu queria ver, cara a cara. Eu havia crescido ou a noite havia diminuído? Ai pensei, um pensamento em gotinhas salgadas cheias de tempo ainda morno: eu podia ter alfinetado aquela minha rua como eu fazia com minhas borboletas, eu podia ter colado em meu álbum em cima de alguma figurinha da qual eu não gostava muito, eu podia ter colocado moldura nela, na minha rua, e pregado-a aqui, bem no meio do meu peito, mas não, deixei-a só em minha lembrança, feito aquela música que só a ouvimos quando sentimos que não há mais nada para querermos ver. Há noites assim.

(Reynaldo Bessa)
Fragmentos de noites, como se de fogueiras apagadas, cinzas caíssem sobre minha cabeça: ah, aqueles morcegos chupando os dentes podres, em sibilo desesperado. Pareciam ratos fugindo de gatos voadores.

(Reynaldo Bessa)
Tentando sentir o cheiro das coxas da minha mãe, assim como Tarkovsky tentando abrir a porta no meio da umidade.

(Reynaldo Bessa)
OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA
OFICINAS CULTURAIS ALFREDO VOLPI
Coordenação: Reynaldo Bessa (músico, professor, escritor e poeta)
29/7 a 16/9 – quartas-feiras – 19h às 21h30
Público: estudantes e interessados a partir de 16 anos
Inscrições: 14/7 a 24/7
Seleção: questionário
15 vagas


(Reynaldo Bessa)
O futuro
De vestido novo
Tudo velho

(Reynaldo Bessa)
Saudade
É o amolar
De facas

(Reynaldo Bessa)
o coração tem que bater, deixa
mas, aturdido, apanha tanto
que se esquece de dar queixa.

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Há algum tempo, quando este não passava de um quadro na parede, disse que no ano 2000 eu estaria com uma certa idade. Esta. Chegou, e chegou cedo, muito antes do leiteiro por o leite na porta. Agora, toda idade é incerta, assim como as minhas equações do 2º grau que nunca batiam, ou como quem marca seus compromissos em antigas agendas. Bah! Mesmo que o tempo não queira, eu o coloco novamente pendurado na parede, simplesmente porque não posso pendurar a minha conta em sua mercearia cósmica. É a vingança cronológica. a minha impossibilidade de empurrar o mês do meu marco zero. A experiência é mesmo um médico que chega sempre atrasado.

(Reynaldo Bessa)
às vezes saio da rota
como se mudasse meus passos da marcha
do tempo. Como uma foto que se desprende do velho álbum.
e fico ali, parado, feito quem vê o mundo pela primeira vez.
no meio de um carrossel, vejo as cenas repetindo-se, indo, vindo,rodando
e rio do meu nome, do que faço, do que sou
rio dos meus sonhos.
e escuto os sussurros das coisas. E vejo o invisível que sempre esteve ali
a folha na calçada em seu murchar ensurdecedor
o arranhar do sol, feito uma unha rasgando um tecido
o anjo pedindo socorro
e eu não tenho pai, nem mãe
e eu não vim de nenhum lugar
nem vou a lugar algum
e a morte não me mete medo
e eu não penso nos tapas que ela já me deu
apenas a vejo, feito um homem que observa uma silhueta de um desconhecido ao longe... olho tudo isso como se tivesse caído numa das armadilhas do tempo
sou como um bebê hipnotizado com o móbile
quando eu saio da rota, e mudo meus passos da marcha do tempo
ouço o frufru do vestido da vida
e, parado, como um peça eliminada do tabuleiro...
longe do jogo do afã insano, rio, apenas rio
e isso já é muito.


(Reynaldo Bessa)
O dedo sujo do medo
O espelho com luvas de cetim
A noite feito mil gatos pretos enforcados
A alegria tal qual um bombom ainda envolto no papel
e tilintando nos dentes
NatoxeL, LirtroviR, + medo com água e açúcar
O amor no varal
Silêncios sem cais
A infância com seus sonhos de dentes de leite coalhado
brincando na chuva e rindo com rimas de pesadelo
O passado como o hálito ruim do futuro
O gelo boiando e batendo no copo feito um barco fantasma
A esperança num leito de hospital
O Nada se balançando na cadeira
Olhos querendo rios,
O mar de Tudo boceja
Enquanto alisa a pança.
O escaravelho come larvas no jardim.

(reynaldo bessa)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

meia nove
é a única respiração
boca a boca
que pode salvar
uma noite
afogada


(reynaldo bessa)
estive com Caetano Veloso,
cara a cara; um lance meio Odara, sabe?
até achei que ele fosse me beijar na boca ou
me cantar leãozinho, falar do GIl, do Chico ou do pelourinho.
pensei ainda que ele viesse pra cima, com uma rima meio à sua
música Língua, mas, não, não minto, ele só apertou o cinto
ajeitou os óculos, e disse bom dia.
ou não? Caetano é o mundo todo.
um menino lindo.


(Reynaldo Bessa)
ainda não nasci.
estou grávido de mim mesmo.
espero-me ansiosamente.
essa coisa de data de nascimento
é de morte.

(Reynaldo Bessa)
A morte tem seu próprio calendário.

(reynaldo bessa)
sou arrastado
meus dedos agarram-se
na mão lisa do passado
estamos por um triz
o futuro, este padrasto senil,
me segura pela cintura
e me promete um brinquedo
que já sabe, não pode comprá-lo:
só quero minhas lembranças
a corda, com todas as suas rodinhas e sirenes
giratórias...


(Reynaldo Bessa)
há algo de melancólico nestas placas,
também naquelas árvores ao longe feito camelos indolentes.
a estrada lânguida dança sob meus pés,
a minha frente,atrás também...
uma dançarina contorcendo seu ventre de concreto.
há um mundo veloz lá fora,
mas dentro deste tambor bem no meio do
meu peito há ainda mais mundos e ainda mais velozes.
de novo na estrada. Que paisagem! Tento lambê-la,
mas sei que isto será o mesmo que um homem que
lambe o vidro da vitrine de uma loja de doces.

(Reynaldo Bessa)
num hotel longe de tudo
onde penteio a franja do mar
um vinho daqui, uma gentileza da casa:
vou pinot noirando minha língua
a camareira agacha-se feito uma rainha,
dobra o lençol como se fechasse uma carta de amor.
Penso em tudo. O menino que sou puxa a camisa do homem que sou, e indo...
há uma calma de altar
na porta do meu coração, há também, um
"Please, Disturb" Sempre.
bata suavemente com os nós dos seus dedos trêmulos na porta dos meus lábios.
E entre...


(Reynaldo Bessa)
acordei com ares de Fusca,
colorando RQ.
Vontade de usar um macacão,
deixar o cabelo crescer,
e as costeletas também.
Vontade de ouvir meus discos tão rabiscados quanto eu,
chegar nos amigos com o dedo em V, cabelo ao vento, sorriso 78 rotações por minuto.
Vontade de dizer "pode crer"
de atrasar os relógios, usar pulseirinhas fedorentas,
ficar à toa,
comprar uma prancha de surf só para guardá-la no quintal,
ver álbuns de fotos dos meus futuros filhos,
sorrir para a barriga da minha mulher que ainda ficará grávida, e 
pensar se arranjo um emprego ou brinco de Atari, War ou Banco Imobiliário. 
Vontade de ver Brasil e México, de novo e de novo. 
Vontade, Vontade...
É uma coisa embaladinha em papéis coloridos e estaladinhos, 
desses que roubam a atenção das pessoas numa sala de cinema escurinha e silenciosa. 
Vontade meio boca de sino e fivelas astronômicas. 
Vontade flashback. 
Isso sempre me chega toda vez que esse sol de olhos de Cristo de calendário e 
hálito de barbearias me confidencia que tem vontade em minhas vontades. .

(Reynaldo Bessa)