Espertos

sábado, 13 de julho de 2013

Malicioso esmero...




Estava sentada como se fosse viver ali toda a sua existência. Levava o garfo à boca, como se com um batom, pintasse seus lábios carnudos, de vermelho doído. Mastigava, bebericava sua coca-cola-gelo-e-limão, dava uma olhadela no ambiente com seus olhinhos saltitantes – gazelas cor de mel - e conferia o celular. Sempre isso. Depois de uma garfada, eu já ansiava por outra. Deslizava seus dedinhos – talvez cheirando a frango – sobre o visor do celular como quem prepara uma delicada fórmula mágica. Em suas costas, vale reforçar: eu poderia erguer um reino encantado. Torneadas com o malicioso esmero. Sobre elas, cabelos longos, e ainda adormecidos, desgrenhados, me fazendo pensar em seus lençóis sobre sua cama ainda desfeita. Uma jaqueta jeans, jogada sobre o corpo, com a desenvoltura de quem está vestindo uma toalha de banho. Uma blusinha amarela, surrada, sob a jaqueta. Alcinhas do sutiã gargalhando sobre os ombros andinos. - a típica preguiça sabática, pensei - Com os olhos da intuição, penso, percebeu a minha presença – ou seria a minha ausência? – e meus olhos telescópicos, sedentos, atrás dela. Levantou-se como se fosse fazer um cumprimento a alguém invisível a sua frente, puxou a calça jeans apertada – também... - e nisso deu aquela típica reboladinha que as mulheres gostam tanto quando querem erguer a calça jeans incumbida da difícil tarefa de manter curvas tortuosas em seu devido lugar. Depois, como a princesa que era, voltou ao seu trono. Deu metade de uma olhadinha para trás – para mim? – e nisso desceu a blusinha amarela para tentar cobrir, o que na verdade, deveria mostrar aos quatro cantos. A blusa puxada sem piedade me remeteu ao Grito, de Munch. Ainda mastigando, cruzou as coxas – o pezinho frenético em ação. Percebi uma pulseirinha microbiana em sua canelinha de Vênus: as cores da Jamaica já iam longe, devido a tantos banhos, praias, chuvas e outras coisas mais... Por um momento quis encontrar algo nela que pudesse transformar toda aquela beleza em pó. – essas coisas doem, sabem? – mas, enquanto mais eu a olhava, mais me sentia como um inseto preso em uma teia. Ficar parado também, nem pensar. Levitar, talvez. Arrumou os talheres – juntinhos. - Seria uma dica? – depois, levantou-se como se fosse dançar, olhou em volta – aquilo seria um biquinho? – Pagou sua conta. Para o garçom, como gorjeta, deixou seu sorriso tímido e algumas palavras que não passaram de seus dentinhos brancos. Para mim, apenas a sua ausência perfumada.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ela entra. Pisa firme como o fim do mundo. De vestido preto, justo, e com armadilhas no canto dos lábios carnudos e com inúmeros beijos alheios e esquecidos em cada vinco, me sorri. Joga a bolsinha brilhante e repleta de estrelas decaídas para algum dos precipícios da casa. Depois enrosca-se em meu pescoço, e de leve, com unhas pintadas para as guerras noturnas e aladas, o arranha. Sorri ainda mais armadilhas tiradas das cacholas dos infelizes . Joga-se na cama - que agora lhe pertence - e cruza as coxas: brancas, roliças, tenras: o preto no branco como um abraço assassino. Olha-me como se me escaneasse - um sorriso sacana fingindo intimidade - . Em seus olhos digitais: duas horas piscam em contagem regressiva: é o tempo da solidão que ecoará para o resto da minha noite vazia.


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quando a coisa esquentava e o meu pai entrava e saía de casa como quem não cabe em si, eu subia na laje e procurava um cantinho sob alguma estrela tão aflita quanto eu, e ficava horas conversando com a velha antena de tv e sentindo a tristeza úmida da caixa d'água, até que meu irmão mais velho viesse me buscar. Eu conhecia seus passos e podia senti-los como afagos nos cabelos. Ele aparecia com um leve sarcasmo entre os dentes brancos. No rosto, um certo prazer por me ver naquela situação, mas ao mesmo tempo, uma certeza de que eu estava seguro por ele estar ali, ao meu lado. "Ei, pirralho, desce, o velho já dormiu. Cansou de te procurar" Eu ria ridiculamente como uma estrela que não consegue ficar presa no peito de um trêmulo xerife. Hoje me pergunto como deve estar aquela casa vazia, aquele espaço sem antena, e aquela caixa d'água transbordando de passado. E eu, onde estou mesmo, aqui ou lá? E o meu irmão, quando vai mesmo decidir subir por essa escada que não mais existe?

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

com uma esperança desesperada, por baixo de sua blusinha surrada e com a imagem de uma bandinha de rock que eu desconhecia, saltaram duas pérolas com o sabor da existência em suas auréolas rosadas.

(Reynaldo Bessa)

sábado, 8 de junho de 2013

Quando cheguei na estação de trem de Marseille, mochila nas costas e muito cansado, rodei um pouco para guardar as últimas imagens da cidade em que Rimbaud havia amputado a perna. Olhei o vai e vem, os abraços, as despedidas, os choros, as angústias, o grito das crianças que um dia também iriam chorar numa estação, mas que agora só se preocupavam em construir castelos coloridos no ar. Olhei a correria e pensei que a alma fala um idioma só e que não é preciso uma pronúncia perfeita para ser compreendido. Basta um olhar e pronto. Eu estava mesmo muito cansado. Já estava viajando há muito tempo. Quando cheguei em Marseille logo de cara odiei a cidadezinha. Cheguei faminto e era um domingo e não havia nada aberto, nada vendendo nada. Então fui dormir alimentado apenas por um belo e melancólico por do sol sobre o mar se espreguiçando ao longe. Meu francês já estava afiadíssimo e me sentia em casa apesar de querer ir embora. Pra onde? não sabia. Queria apenas ir. Ela, e Ela pregava sem pena em meu coração um prego cabral de distância com o martelo pesado da incerteza. Até onde mais eu poderia ir para ficar longe desse passado? Quanto mais eu deveria fugir para que pudesse me esconder de mim mesmo? Ao comer aquele "pain au chocolat" tive a impressão de sentir os lábios Dela. Pensei ter ouvido sua voz. "Pain au lágrimas" Talvez. Meu trem chegaria logo e em breve eu estaria em outro país, outra cidade e eu diferente de mim e ainda assim eu mesmo. Entrei numa loja da Virgin e pus pra tocar um cd de um novo cantor francês que em breve faria uma grande besteira com sua música e ficaria mundialmente famoso. Disco lindo (só o primeiro). Pus os fones e pelas frinchas das janelas da loja olhei a igrejinha sobre o morro ao longe e me pareceu que ela também chorava....


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)
penso que só não sentimos a saudade todo o tempo porque não suportaríamos. O nosso instinto de sobrevivência a divide em parcelas: umas maiores outras menores. Concebo a saudade como uma árvore que vez em quando desprende um de seus frutos. O som que ele produz ao atingir o solo entra em uníssono com algum coração descompassado de presente e cria um ritmo particular, um lugar alhures, um tempo dentro do tempo: um tempo onde as palavras não alcançam. Ficam em outro compartimento olhando pelo olho mágico "aquele algo mais" e que estão além delas. Aí despertamos com aquela energia extra, aquela força última, aquele oxigênio de reminiscências e nos vemos cobertos de pó. E o mundo ao nosso redor não mais nos interessa. Porque o que realmente era, já foi. Dias assim acordo ouvindo Gardel no máximo volume. Sinto cheiro de creme de barbear, de loção pós barba. Ouço o sábado, o domingo tilintando em meu bolso como brindes da vida. Em minhas mãos sinto a cabeleira do meu velho. Sem me dar conta, sinto meus dedos movendo-se em busca de cabelos lisos e bem penteados e cheirando a "Trinite" (nem sei se é assim que se escreve. Faz tanto tempo). Não são só as canções em si. Nem só a voz do Gardel. Nem muito menos as letras. Há algo mais. Como se eu pudesse ver o tempo dançando sozinho no meio do salão num fim de baile. Acordo assim, vez em quando, e me sinto como se acordasse pela primeira vez em minha vida.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

     Do longo tempo que passei na Europa – minha fuga geográfica – apesar dos vislumbres, minha única vontade era voltar para o meu país. Uma música me acompanhou como uma oração ou um chute na bunda. Tanto faz. Morei boa parte do tempo em Paris, e depois resolvi ir atrás de confusão. Afinal de contas os conflitos só mudam – quando muito – de código de barra: em qualquer lugar do mundo os homens querem beber, e depois disso querem brigar ou chorar no ombro de um desconhecido ou de uma mulher que não lhes quer, as mulheres querem ser amadas, e choram quando isso não acontece. Em qualquer esquina de qualquer país a solidão dorme sob alguma marquise. De Londres fui até Dublin. Queria folhear aquelas famosas ruas e quem sabe até encontrar Joyce em algum pub escuro e cheirando a vômito. Poderia até ser seu sósia. Mas não o encontrei. Nem Joyce nem o seu sósia. Na verdade me empanturrei de Guiness’s. No começo, ao tocar a boca da tulipa transbordante, senti como se beijasse os lábios de uma velha de cem anos ou mais, mas depois tudo mudou. Com a Guiness é preciso beijar os lábios mordidos pelo tempo para só depois lamber os poros dourados da alegria. Voltei a Paris com folhas despencando e rindo sob as calçadas. Eu estava sozinho e forte como o exército de um homem só. Ela, e sempre Ela vibrava em meu coração como uma peça solta numa máquina de lata; meu coração não passava de uma boneca de pano sob a chuva. Um pé gordo dentro de um sapato pequeno demais, apertado demais. Doendo demais. Quando a música disparou em meu ipod e eu vi aquelas folhas marrons, e aquele vento assanhou meus cabelos, e aquela tarde caiu como um véu sobre o corpo de uma bela noiva e eu senti o arder de minha cigarrilha em meu peito, sorri, e só depois pude perceber que era o sorriso do esquecimento...o que eu faria agora?...essa pergunta despencou do abismo da nova descoberta. Até então eu era apenas uma lembrança....

(Reynaldo Bessa - Crônicas Agudas)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Às vezes me vem uma alegria cheirando a cera, detergente e cozido de carne. Parece tudo muito limpo, mas havia muitas nódoas de tristeza...

(Reynaldo Bessa)

segunda-feira, 29 de abril de 2013




[...] Em suas anotações epigramáticas do real, percebe-se que estas superfícies de comunicação sugerem um curioso movimento duplo que envolve os métodos cut-up e pick-up. O leitor poderia acomodar-se nestas superfícies devido à força comunicativa que está em jogo, mas isto até perceber o quão deslizantes são estas superfícies. É que os recortes de realidade operados por Reynaldo Bessa aproximam-se da experimentação técnica da colagem cut-up – aquela inventada por Bryon Gysin que William Burroughs desenvolveu e popularizou através de sua poesia e em produções cinematográficas – mas que também deslizam para um grau considerável de tartamudez, de silêncio indizível [...]

do Poeta/performer, Ricardo Corona (orelha) sobre meu novo livro de poemas "Cisco no olho da Memória" (Terracota editora / Selo Musa Rara) - lançamento dia 29/06 - 2013.


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Capa oficial do meu novo livro de poemas, "Cisco no olho da Memória" (Terracota Editora/Selo Musa Rara) - Lançamento: dia 29/junho (sábado) Espaço Terracota Editora

foto: Adrebal Lírio

Reynaldo Bessa é um músico que entende e gosta de poesia. Entendi melhor a sua escolha por fazer um disco de poemas musicados. Trata-se de uma escolha pelo difícil. E quem canta sabe do que estou me referindo. Foi uma boa surpresa ouvir nossa parceria "Tambor", na voz personalíssima de Bessa, com suas cordas elétricas do seu violão, intensificando versos como "coisas grudam na / agulha / na ferrugem / na pane do som letal...". Também gosto dos títulos que ele dá para seus discos. Um achado esses com os dentes.

O poeta, Ricardo Corona, sobre nossa parceria "Tambor" no meu disco ao vivo "Com os dentes".
[...] Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes? Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda [...]

o poeta/cronista, Fabrício Carpinejar sobre o meu livro de poemas "Outros Barulhos ( Jabuti 2009 - Poesia) - [Trecho da orelha]
[...] Aproxime-se. Deixe o delicado enlevo penetrar você. Observe as complicadas relações familiares em Oh! esses acordes menores e O dia em que o silêncio falou mais alto. Tente recuperar um pouco das amizades perdidas em G & M e Fê. Delicie-se com as mulheres misteriosas e sedutoras de Ainda algumas lembranças II e Are you lonesome tonight? Acompanhe de perto a decadência física em Branco, branquinho, o desencontro sonolento em Noite estranha e o horror hospitalar em Charuto. Viaje numa dessas Kombis inesquecíveis (mas perigosas) em Os domingos e o carro de Apolo e Olhos verdes, sarcasmos e despedidas.
Esses contos e os outros deste livro tocam a corda mais sensível de nossa fantasia. Por isso certos parágrafos doem tanto. Há alfinetes neles. Há imagens pontiagudas e poéticas, que laceram as retinas do leitor. Reynaldo Bessa sabe injetar na prosa o lirismo mais inquietante. Não podemos esquecer que ele também é um poeta de mão cheia, autor da coletânea Outros barulhos (prêmio Jabuti de 2009 na categoria poesia) [...]

O escritor, Nelson de Oliveira, sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" (editora Patuá) - [trecho da orelha]
[...] São contos, mas também são fragmentos de memória. Quase sempre o pai, o irmão, a mãe. Alguns amigos. Outros tantos amores. Personagens que Reynaldo Bessa parece querer que se tornem também parte de nossas lembranças. Não satisfeito com suas quase inconfidências regadas ao lirismo atordoante de uma prosa direta, ele vai compondo uma trilha sonora ao longo do percurso: Simon & Garfunkel, Lou Reed, Neil Young...Você termina de ler uma história e depois a refaz mentalmente acrescentando a canção sugerida de fundo [...]

O crítico, Jurandir Renovato, sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" para o Guia Livros da Folha de São Paulo.
[...] Reynaldo Bessa oferece-nos contos belos e pungentes, exorcizando a memória dolorosa da infância e juventude, e dialogando com a figura dura e marcante de seu pai. Seu narrador, quase sempre em primeira pessoa, nos conduz pela mão em um passeio intermitente entre o tempo passado, rememorado e o tempo presente cristalizado e esburacado pelas vivências não cicatrizadas.
E ao final, com os olhos marejados, só nos resta a música que ressoa em nossa memória (para quem a tem), aprofundando ainda mais a dor, como um tiro de misericórdia. Vários exemplos poderão ser extraídos do livro, mas os belíssimos e emocionantes “Os domingos e o carro de Apolo” e “Oh! Esses acordes menores” atestam com precisão o que balbuciante tento dizer [...]

o poeta, Edson Cruz sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" [trecho do prefácio]
[...] Nesta nova obra, Bessa prossegue na sua viagem pessoal e literária, aprofundando seu mergulho existencial e estético. Os contornos de seu ethos ficam mais nítidos, seu corpo-textual ganha mais corpo: parece que todos os estilhaços deste eu fragmentado, disseminados em tantos contos, poemas e canções, vão se juntando e nos ajudando a montar o quebra-cabeça desta cabeça quebrada (que quebra-caBessa!). Se a memória sempre esteve presente em suas obras, agora está explícita no título, como se a mostrar ao leitor que o autor conscientemente quer se mostrar como poeta da memória, inscrevendo-se no rol de nossos grandes memorialistas, ao lado de nomes nobres como Pedro Nava (leitor de Proust, também buscando a impossível reconstituição do tempo perdido) [...]

O poeta, Paulo César de Carvalho, sobre o meu novo livro de poemas "Cisco no olho da memória" (Terracota Editora/Musa Rara) - [trecho do prefácio] - lançamento em junho de 2013. (orelha do poeta, Ricardo Corona)
"Enquanto a prosa dos novos autores brasileiros se fixa no bizarro e no grotesco, a lírica concentra-se no sublime e na memória. Se real ou inventada, não importa. Como não importam também os choques ideológicos nem a militância em defesa dessa ou daquela poética (marginal, pop, conservadora, concreta etc.)
Reynaldo Bessa é músico, com cinco CDs na praça.
Familiarizado com harmonias e melodias sonoras e verbais, ele sabe que uma boa letra de música não é necessariamente um poema. Algumas são, mas muito poucas.
Para o Reynaldo poeta, um bom poema é mais do que qualquer outra coisa, um tipo peculiar de barulho, não de música.
Os poemas de “Outros Barulhos” em português e inglês, denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético – a verdade no falso – que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada “mal-estar”

Nelson de Olivieira
Escritor e Mestre em Letras pela USP.
APCA 2001 e 2003

(sobre o meu livro de poemas "Outros Barulhos" para o Guia Livros da Folha de São Paulo)

terça-feira, 23 de abril de 2013

eu lavava as mãos.
havia dois tipos de água - ele dizia:
água com e sem luz
havia uma casa enorme
um homem velho por fora jantava bem no meio da sala também enorme
ouvi uma voz de mulher que ditava o que havia no jantar
a porta estava semi-aberta e enquanto eu passava, o velho me olhou de relance:
nem simpatia e nem desdém, apenas um olhar técnico.
um enorme jardim. Um brinquedo quebrado. Ruas sem fim. Outro tempo.
Uma alameda, folhas quase beijando o chão.
A lua enorme parecia presa nos galhos das árvores que fechavam o céu.
café charmosos dos dois lados.
pessoas com cardápios presos ao peito e sorrindo como se me conhecessem.
eu sabia que era um estranho ali.
havia uma saudade, ainda uma dor, mas pareciam distantes ou dentro de um outro tempo. Não havia medo.
eu não queria ser, eu era.
Não queria ir, eu ia.
e viver era isso.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tenho overdoses de palavras. Sofro com a abstinência de livros. Na minha larica sinto vontade de comer frases, beber parágrafos. Durmo e sonho com capítulos geniais que na manhã seguinte não passam de capítulos. Amanheço como o passar de páginas pelos dedos lambidos do sol. Não ha tratamento. Mas no caso de insistência podem me internar numa livraria numa biblioteca ou num sebo.

(Reynaldo Bessa)
Logo que desperto, escrevo. Às vezes uma única palavra como um estampido seco do inconsciente ergue minhas pálpebras num movimento brusco, preciso, assim, enchendo meus olhos de mundo. Mundo indesejado. Porque ainda estou lá: em um lugar que desejo ficar mesmo sem o conhecer. Ainda sob o calorzinho do edredom, procuro a caneta e o papel. Estão sempre ali, pois já conheço esses momentos, como reconheço o rosto de um velho amigo. Com exceção da mão que escreve, evito movimentos apressados com receio de espanar pensamentos tremulantes, frágeis como ventos leves, rápidos e faceiros.

A frase: “serás sempre o menino”

Sim, serei sempre o menino de cinco anos, num adulto, onde este se agarra a vida como aquele se agarrava ao vestido da mãe que andava apressada para fugir de si mesma. Sobre carnes tenras, aquele vestido era seu único meio de não ver-se sozinho em plena rua – que para um menino de cinco anos, era uma rua infinita – e entre toda aquela gente de sorriso triste. Serei esse menino.

Não importa. Por mais que todas estas fotos desdigam aquelas em que me vejo de olhos espantados, cabelos desgrenhados e lábios úmidos de futuro e incertezas, serei sempre o menino. E mesmo depois de muitos anos, montado em minha velhice e bradando a minha bengala como a espada que espantará o gigante do fim, serei ainda esse menino. E quando um dia, o velho se curvar sob o peso do impávido tempo, esse menino ainda tentará erguê-lo para uma última partida de bola de gude.

Esse menino seguirá trocando figurinhas com a morte até que ela, entediada, diga-lhe que é hora de “entrar”. E aí, o menino será o primeiro a chegar ao meu velório e ao mesmo tempo, deitado, se deliciará com a maciez do seu último travesseiro. E quando a noite cheirando a madeira tornar-se pequena, apertada, e ainda mais escura ele acenderá a luz dos seus sonhos inalcançados, assim, como Proust fazia com sua lanterna mágica na intenção de despertar seus cavalinhos e a sonoridade das cores. E quando essa noite retangular colocar-se em movimento lento e vez ou outra bater em algo, esse menino pensará que é seu irmão lhe ensinando a andar de bicicleta. E dentro dessa escuridão temporária e ainda em movimento, olhando o velho adormecido que não mais quer brincar, ele pensará que é a chuva, quando punhados de areia caírem sobre a madeira reluzente. Punhados que cairão das mãos engelhadas de meninos de cinco anos, assim como ele. E quando cessar todo o burburinho. Quando um silêncio de pedra lhe vedar o mundo que vai deixando de caber em si, ele procurará a sua típica posição de dormir, dará três pancadas na cara infantil do travesseiro macio, e com um sorriso branco de eternidade, esperará o beijo de boa noite da mãe. E ela lhe dirá: “você continua o mesmo menino”.

(reynaldo bessa)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

por que não consigo calçar esse sapatinho que calcei quando tinha quatro anos? me sinto o mesmo menino. Sinto ainda os solavancos da pipa, ouço ainda os canários nas gaiolas do vizinho. A chuva nem terminou. E meu irmão so foi até a esquina comprar sorvete. Meu pai logo chegará...e perguntará: vc ainda não calçou os sapatos?

(Reynaldo Bessa)
O menino sempre permaneceu no mesmo lugar desde o início. Sempre soube o que queria. Foi o adolescente que pensou demais e foi o homem que saiu por ai atrás de países ainda não inventados ou em ruinas. Foi o homem que resolveu amar e com isso descobriu que as pessoas só conseguem amar a si mesmas...agora, o homem e o adolescente vêm ao encontro do menino. E ele está lá. Esperando os dois. Lá, de onde nunca saiu. Foi uma música que me disse isso.

(Reynaldo Bessa)
fui criado por mulheres: meu pai nas estradas e meu irmão em outro mundo. Quando não eram as mãos da minha mãe, eram as da minha irmã mais velha. Mãos passando por todo meu corpo: virilhas, pernas, coxas, alma, tudo. Eu cabia dentro de uma bacia? Enquanto elas e seus dedos cheios de pressas banhavam meu corpo, eu abria bem os olhos e olhava a lua deslizando em sua preguiça noturna. Hoje, quando outras mãos percorrem meu corpo, eu fecho os olhos e vejo a mesma lua, deslizando nas minhas trêmulas, úmidas e noturnas pálpebras....

(Reynaldo Bessa)

sábado, 6 de abril de 2013

se foi
numa tarde silenciosa e sem nome
e eu tão longe...
sem saber
que todas as pipas seriam cortadas
que todas as ondas não mais se ergueriam
que todas as tardes seriam confusas
como sorrisos sem dentes
cílios entrecruzando-se num silêncio de morte
e eu fazendo um café, pagando contas, sonhando sonhos 

inalcançáveis.
se foi
num arder solitário e sem dono
e eu tão longe
sem saber
que todos os pássaros seriam silenciados
que todos os frutos amargariam
que todas as folhas ficariam suspensas
feito palavras que não foram ditas
olhos semicerrados num meio adeus à vida
e eu sem fé, com ideias tontas, chorando amores
impossíveis.
fiquei...
mais morto do que ele...



(Reynaldo Bessa - poemas de amor e morte)
"Eu te amo" é uma frase orégano. Espalha-se. Quando alguém não profere essa frase como uma confissão, como uma despedida no leito de morte, como um crime cometido, perde todo o sentido. Eu te amo é dita todos os dias como quem põe o lixo pra fora, como o beijinho de batom e café nos cabelos assanhados da manhã, como uma roupa que vestimos e perguntamos: e ai, como fiquei? Os "Eu te amo" que não são proferidos, não são ditos, por vezes, significam muito mais do que aqueles que são  utilizados em demasia, assim, comprometendo o sabor do prato principal. Ao pensar em dizer "Eu te amo" faça isso como se fosse sua única oportunidade de dizê-lo.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

há vida demais.
tanta vida que até
morto duvida.

(Reynaldo Bessa)
escrevo porque quero por fogo em tudo aquilo que me queima.

(Reynaldo Bessa)
Às vezes mergulho na descrença. Que mal há nisso, afinal, toda moeda só se configura com dois lados. Seria desinteressante, chato, jogar uma moeda para cima e perguntar: “cara ou cara?” mergulho na descrença não como uma forma de cortar o fio da tomada, mas sim, como uma maneira de aumentar ainda mais a tensão, a energia, a potência. Crer não é aceitar, crer é questionar. E se uma religião te impede isso; alegando superioridade, ou mesmo semeando medo por falta de argumentos, não há porque segui-la. Todas as religiões de um jeito ou de outro, pregam a igualdade, e nem sempre isso funciona. A maioria das religiões prega a união, a fusão com uma entidade maior. E a literatura, ou mesmo as teorias de Jung mostram que a primeira experiência-visão de um homem que se dedica com afinco a algum tipo de religião é o contato com uma forma "irada" de um Ser, que na verdade (sei lá porque) esperava-Se dócil, delicado, acolhedor, simpático.

Mergulho muitas vezes nos meus edredons da descrença e fico lá. Mas me perdi, como dizia, muitas vezes é a diferença que une dois seres e não o que os tornam iguais. Em as aventuras de Pi, isso fica claro. Ele precisa alimentar o tigre para permanecer vivo. Se tivesse pensado de maneira rasa, precipitada, teria eliminado o tigre, e por conseguinte não teria sobrevivido. E é assim que fazemos com o que aparentemente nos incomoda: o eliminamos. E como consequencia deixamos de crescer. Em Pi, são as diferenças que os mantêm vivos, não o que há de comum aos dois. Mas, Saul Bellow já havia cantado isso antes. Em “Henderson: o rei da chuva”, o rei Dafu mantem uma leoa em cativeiro - ela está sempre faminta - E ele a visita todo final de tarde. Só ele e ela. Isso, talvez como uma forma de manter viva a ideia de que nossos sonhos, num átimo podem ser devorados, e que por isso mesmo precisam ser realimentados pela a ameaça constante. Sonhar nunca foi um sofá macio, mas na maioria das vezes, sim, um barco furado em pleno oceano. E ainda por cima em companhia de alguém que não conhecemos e que não temos a menor afinidade: um completo estranho. Muito próximo, ao nosso lado. Sonhar, muitas vezes, é como caminhar sobre um campo minado.

(reynaldo bessa)

sexta-feira, 29 de março de 2013

escrevo porque sou um insatisfeito. Nada me basta. Insatisfeito com minha adolescência, com minha fase adulta, com o envelhecimento e até com a minha infância: país que deixei contra a minha vontade. Enfim, insatisfeito com esse percurso desengonçado do crescer, viver. Parece-me que até a abundância me é insuficiente. E nessa insatisfação, tento inúmeras vezes passar minha saga de incógnitas a limpo. E nesse tentar, por diversas vezes, rasuro, mancho, maculo ou reescrevo-a de maneira ainda mais insuficiente. E vou tentando, sempre. Sei que nunca conseguirei, mas vou. Por isso escrevo...

(Reynaldo Bessa)
o tempo
nos varais
só o vento

(Reynaldo Bessa)
Sempre que saio à noite costumo deixar algum dinheiro na carteira para poder comprar produtos que alguns desses homens muito simples, resolvem vender quando a noite já está praticamente terminando. Compro tudo. Mesmo que depois não saiba ou não tenha o que fazer com eles. Aprendi isso com meu pai: numa certa noite, lá pelas 22h, vimos um homem de aproximadamente sessenta anos: banho tomado, cabelo bem penteado, e cheirando a loção pós-barba. Andava pelas ruas como se o dia tivesse acabado de nascer. Vendia sandálias feitas por ele mesmo. Carregava apenas três pares de números diferentes. Não pareciam novas. Apenas bem conservadas. Meu pai o chamou, e lhe perguntou o preço. O homem com gestos medidos e silenciosos, como um padre iniciando uma missa, numa voz titubeante - talvez por receio de perder seu único comprador em potencial naquela noite tão urgente – lhe respondeu. Meu pai comprou todos. O homem guardou o dinheiro no bolso como quem protege um remédio escasso que precisa levar para algum enfermo em casa. Nunca esquecerei o olhar que os dois trocaram nessa noite que ainda parece caminhar ao meu lado – antigamente os homens negociavam como se fizessem parte de uma confraria - Dentro da minha pré-adolescência labiríntica - na fase em que um frango começa a virar um galo, apesar de toda luta Perterpanica – com minha voz de gato engasgado, disse: “mas, pai, aqui ninguém calça esses números”. E ele me respondeu: “Mas a fome calça”.

(Reynaldo Bessa - Cores da infância)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

        Sofrer, sofrer e sofrer: será mesmo isso uma forma de transformação? O fio condutor que levará o ser humano a algum lugar onde essa via-sacra, definitivamente não existirá mais? Um lugar de merecimento? É? E depois? E quem definiu isso? E pra que? E por que esconde as regras? Dizem que o sofrimento é uma ladeira, e a felicidade a subida dessa ladeira. Bom. O assunto é outro. O ser humano, e ele sempre. Essa coisinha que em todas as religiões e filosofias, parece ser o objeto de um eterno exame, no fundo, fundo mesmo, adora uma farsa? Essa criaturinha está mais pra Rabelais que São Tomás de Aquino. E que ninguém, ninguém mesmo, aceita a verdade à vista. A verdade como ela é. Quando nos encontramos diante dessa luz intensa, automaticamente a dividimos em duras e infinitas prestações. E vamos achando que vamos pagando. Bom. Quando meu irmão morreu – e é aqui que quero chegar, mas nunca é fácil – eu de um jeito ou de outro, busquei uma maneira de ir junto. Como a coisa não vinha por fora, resolvi que viria por dentro: pela alma. A alma como uma britadeira perfurando o corpo. Um tipo de vandalismo no templo de mim mesmo. Então comecei aferir a pressão todos os dias. Fiz todos os exames possíveis. E se eles dessem negativos, eu os fazia novamente. Não gosto de televisão, mas decidi que assistiria o Fantástico - que de fantástico não tem nada- só para ver qual doença eu poderia contrair. Para mim, por um bom tempo, adquirir uma doença foi como financiar uma casa ou um carro novo. Tomei remédios sem ler a bula. E quando as lia, adorava os obscuros efeitos colaterais. Aumentava a dose. Arranjei sintomas. Confundi médicos, manquei, comprei bengala, deixei de comer açúcar, tomei remédios para ficar acordado só para dizer que tinha insônia. E fui. Fui pixando o templo da morada involuntária. Queria uma doença como uma criança quer o olhar de um pai. Até cheguei a cogitar a ideia de comprar o meu caixão, Vi um lindo, bem confortável, lustroso, mas quando tive que assinar os papéis, resolvi fazer mais um exame, e mais outros. Desisti, para desânimo do vendedor, mais vivo que eu. Até que aceitei que sou definitivamente saudável – até então – e que tudo não passava de ter que ver a coisa como ela é. Ou seja. Perceber que ninguém mesmo aceita a verdade numa porrada só, mas que ninguém também é obrigado a colocar o sofrimento na sua garagem, e deixá-lo lá, eternamente. Então percebi, que naquele momento turvo, confuso, doído, eu até gostaria de ter ido a última festa com ele...Mas existia uma diferença: ele tinha o ingresso, eu não. Então fiquei. Mas confesso, ainda estou aqui, com uma breja bem gelada, esperando seu retorno para o meu último drink.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

traga o pão de alho, 
traga o seu quintal cheirando a chuva, 
traga os miados de amor dos seus gatos, 
traga, traga...traga o carinho do seu pai em seus sonhos de pés calejados, 
os segredos dos panos de pratos da sua mãe, 
traga sua insônia de passos leves e seu sono profundo agarrados em mim, 
traga uma mala cheia disso e venha. 
venha com a passagem só de ida ou 
como a última bala no tambor.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Domingo, eu estava almoçando, sozinho. Tomava uma taça de vinho. Como sempre faço quando almoço ou janto. Enquanto mastigava a comida, também mastigava pensamentos. Sempre isso. De repente quando fui passar o guardanapo na boca, nao me senti eu mesmo. Era como se o meu pai estivesse fazendo isso por mim. Era como se ele estivesse usando as minhas mãos, a minha boca e quase todos os meus pensamentos. Era ele em mim. Exatamente como ele passava: o guardanapo bem encolhido entre os dedos e deslizando sobre lábios contraídos - um amigo me disse uma vez quando lhe contei sobre meu pai ter morrido.
"O meu pai também morreu, mas sinto como se ele morasse, vivesse em mim". Na época nao dei muita importância aquilo, mas num domingo que se esparramava pelo asfalto, enquanto eu almoçava pude sentir isso bem. Exatamente assim, como se eu fosse apenas uma morada dele. Um corpo emprestado a ele. Pra não desabar, pensei: "pai, já que o senhor é que esta almoçando, se deliciando, no meu lugar...depois, por favor, aproveite e pague a conta, ok? Sorri e voltei a comer. Agora eu era eu mesmo de novo. Mas, na verdade, quem sou eu?

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

minhas casas

Gostaria de falar das casas em que moramos: os cheiros, os ruidos, os silêncios, os vizinhos, os gatos sem donos, os viralatas. Gostaria de falar das chegadas e partidas. Falar do sol que ao meio dia fazia tremular a rua. Da lua, na madrugada, lambendo suavemente os paralelepípedos. Gostaria de falar de quando eu subia na laje e contava minhas diatribes para um deus que eu mais temia que amava. Ele nunca me respondeu. Acho que deve ter caído em uma de nossas mudanças. Mas mesmo assim eu gostava de subir lá, porque ouvia burburinhos, tilintar de talheres, de pratos. Ouvia também gemidos, gritos e choros que chegavam das casas dos vizinhos. Ouvia até minha mãe zanzando na cozinha quente. Ah, essas casas. Tristes, tão tristes. Mais tristes que o grito do açougueiro, do pipoqueiro e do sorveteiro juntos. Esperar minha mãe dobrar a esquina com seu passo de cansaço e espreita. Ouvir meu pai dormindo entregue a uma rede que sabia mais dele do que ele mesmo. As casas. Oh, as casas da minha infância, adolescência e sei lá mais. Quando nos apegávamos a uma, logo tínhamos que procurar outra. E lá íamos nós numa vontade triste, numa rapidez lenta, numa urgência de calendários vencidos. Ah, essas casas; nunca as tivemos, nunca foram nossas, mas agora são, só minhas, só nossas...aqui...aqui bem dentro de mim, onde há ainda mais goteiras...

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Oficina de Escrita Criativa.

Minha "Oficina de Escrita Criativa" começa em março: por enquanto nas Bibliotecas Alceu Amoroso Lima e José Paulo Paes. Vagas limitadas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A outra margem



para o poeta, Paulo César de Carvalho


Depois de sentir o cheiro da pipoca dos casais, depois de beijar os beijos dos casais, depois de apertar as mãos dos casais, e depois de não fazer o amor que eles farão, vou para casa. Tão sozinho quanto um livro fechado. Vou para minha casa com um sonho sob o braço e um filme na cabeça, mas só, tão só como uma tese de mil páginas acerca da solidão. Atravesso esse mar e serei outro la na margem...Ou não.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Giovanna Baby



Quando eu entrava em casa sentia como se o cheiro de Giovanna Baby passasse a mão sobre a testa do meu tambor desesperado. Desesperado em parte por sonhar demais e noutra por fracassar demais. Sentia vontade de acender um cigarro e esquecer os passos em falsos do passado, mas preferia sentir aquele cheiro. Não exatamente pelo cheiro em si ou em ré, mas por saber que ele estava lá, naquele quarto e sonhando nuvens sob um edredom macio e tão cheiroso quanto ele. Depois de um tempo eu ia até lá e o olhava. Dava vontade de por os dedos em seus cabelos anelados, dourados, como anéis de reis infantis. Dormia como se o mundo estivesse seguro. Assim são as crianças. Eu amordaçava meu coração barulhento e procurava ouvir o som de sua respiração. Não ouvia nada. Era tudo silêncio como um peixinho dourado passeando sob um aquário-edredom-macio. Até quando? Eu pensava. Depois de um tempo o beijava e sentia a temperatura quentinha dos seus sonhos. Ele se remexia como a pedir outro beijo de boa madrugada. Depois o cansaço, a madrugada e as perguntas sem respostas me venciam.

No dia seguinte, eu despertava com algo percorrendo meu queixo, meus cabelos. Nuvens atravessando os meus sonhos intranquilos. Eu abria os olhos como cortinas lentas e pesadas e o via ali, diante de mim, como uma barra de ouro com duas pérolas incrustadas e me olhando cheias de perguntas sem respostas. Ele não sabia ainda dizer bom dia e por isso, soltava apenas um “tio?” cheirando a Giovana Baby. Eu levantava e preparava-lhe torradas francesas e ouvia seus silêncios cheios de perguntas ainda sem respostas.

Um dia o vi passar pela porta com sua mochila pesada de livros, equações e sonhos adolescentes. Depois o vi arrastando uma menina de sorriso triste. Ele a trazia pela mão como um jornal que nunca seria lido. Depois o vi com outra menina que fazia tanto barulho que deixou todo o mundo mudo. Mudo de tudo e de nada. Depois o vi bradando espadas que não eram mais de brinquedos. Depois o vi montado em dragões que não eram também de brinquedos. Um dia ele entrou de terno e gravata e cheio de respostas. E eu fiquei ali, cheio de perguntas. Você se lembra das torradas francesas? Perguntei. E ele, Hein? E eu fiquei ali como um cigarro apagado. Olhando-o. 

Até que ele se foi. E não houve tempo para despedidas, porque essas coisas acontecem sob o macio edredom das madrugadas frias e silenciosas e às vezes com chuvas eternas. Não há trens, aviões, ônibus, navios, nada. Só um silêncio vindo e depois indo de vez e ficando para sempre. Ele se foi tão silencioso como uma folha soltando-se de um galho. É, ele se foi homem e levou consigo o menino de luz que em algum lugar ainda está nele num lugar qualquer. E eu fiquei aqui. Eu, minha barba e meus sonhos grisalhos. Cá estou, dentro de uma loja, fuçando frascos de perfumes da Giovanna baby, como a tentar me certificar se isso realmente aconteceu.

(reynaldo bessa)