Espertos

terça-feira, 5 de novembro de 2013



Parecia feliz, ali, em seus movimentos. Às lágrimas, perguntei-lhe se sabia que eu o amava. Sem olhar para mim e sem parar o que estava fazendo – afazeres domésticos – disse: “eu sei, eu sei”. Eu o olhava como se o meu coração fosse um relógio. Eu sabia que aquela situação era uma das minhas maiores dádivas. Eu tinha consciência disso. Por isso media cada palavra, pesava tudo, apesar de que minha real vontade fosse a de gritar contra toda essa razão cósmica, esse silêncio operante, essa máquina de doer, ou sei lá o que. Mas eu o olhava e aquilo era bom. Num dado momento eu disse: posso lhe fazer uma pergunta? “Sim”. Respondeu. Não sei, mas penso que naquele estágio as palavras são descartáveis ou a comunicação acontece numa outra onda. Eu perguntei: como você está e como é lá? Eu sabia que estava fazendo duas perguntas xeretas e comuns, mas eram estas mesmos que eu queria. Ele estava sentado. Estava escrevendo. Parou um pouco, repousou a caneta, pôs a mão na testa e pensou por alguns instantes. Depois com uma voz tranquila – parecia agora ter toda a paz que tanto quis em vida – disse-me: “É como o “Deus dos Meninos”. Ainda sem me olhar, logo após dizer isso, e notando que eu não havia compreendido nada - talvez isso já fizesse parte do repertório da sua evolução – completou: “é como se uma ligação estivesse caindo e outra começando”.(atentei para o verbo no gerúndio) Minha dor foi invadida por uma alegria e chorei ainda mais. Chorei como não é possível chorar em outro lugar. Percebi que mesmo sofrendo (ele estava ali por mim, e não por ele) tentava me dizer que eu precisava seguir a minha vida, e ele a dele. Era assim. Não sei como ele se foi. Fiquei ali, sozinho, com o meu imenso vazio preso na porta dos dois mundos.

(Reynaldo Bessa)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Adoraria sentir o cheiro de cera e cozido de carne, escorregar no assoalho liso e brilhoso e prender o choro, para mostrar ao coleguinha que engole o riso, que sou ainda mais forte. Gostaria de ouvir alguém gritar lá da cozinha, me chamando para o lanche, e me dizer que só vou comer depois de lavar as mãos. E eu fingiria lavar as mãos porque não gosto da sensação que a água deixa em meus dedos. Adoraria também sentir o cheiro de bolo vindo do formo. Comeria esse bolo ainda quente e ouviria alguém me dizer: “menino, vai te dar dor de barriga. E eu, com certeza, ficaria horas no banheiro com as duas mãos pressionando o bucho e gemendo e xingando o bolo. Amaria beijar a menina na boca de novo e depois não saber o que dizer. Olhá-la com aquela cara de quem acabou de roubar frutas do quintal do vizinho. Beijá-la, beijá-la e depois sorrir e me perguntar, e agora, o que faço depois disso? Queria chegar da escola e encontrar meu lanche me esperando no forno: pão tomate e ovo, e também adoraria não encontrá-lo e depois descobrir que foi o meu irmão que o comeu, só pra ouvir dele: “vai crescer, moleque”. Queria tomar de novo meu primeiro porre e ser levado pelos amigos que se divertem da ocasião e principalmente com o que eu digo. Poderia fumar meu primeiro cigarro de novo só para mostrar ao meu pai que eu já sou um homem, apesar de não saber ainda o que isso significa . Amaria beber café com leite pelando e queimar a língua e os dedos, tomar banho de chuva com o uniforme da escola e ter a orelha puxada por minha mãe. Queria sentir ciúmes da namoradinha, mas adoraria que ela sentisse ainda mais. Queria que ela dissesse que se mata por mim se eu quiser. Adoraria abraçá-la como se eu fosse o seu dono e depois olhar para os rivais com olhos de gavião gripado. Poderia sentir o frio na barriga pelo medo de não conseguir terminar a minha prova do vestibular a tempo, sentiria medo de ser o último a terminar. Queria de novo sentir o vento batendo em minhas orelhas por terem raspado todo o meu cabelo. Mesmo me sentindo nu e horrível, teria de novo o prazer de mostrar que essa careca significa vitória. Significa que eu sei das coisas, significa que a gente fica feio assim porque existe um motivo maior. Porque há uma grande possibilidade de sermos um novo Einstein, Darwin, Newton, ou até mesmo um Bill Gates. A careca é o horrível e orelhudo crachá da sabedoria. Mas também adoraria rezar todas as noites para que meus cabelos crescessem logo e eu deixasse de ser careca e escondesse minhas orelhas de abano. Amaria sentir o prazer do primeiro emprego, do primeiro salário, da primeira compra a prazo, da primeira moto, do primeiro carro. Quem dera eu pudesse agora sentir de novo o nervosismo do nascimento do meu primeiro filho, de vê-lo falar, andar, de sentir a primeira vez que suas mãozinhas apertaram o meu dedo indicador: quem consegue resistir a algo assim? Acordaria durante a noite com o choro dele e diria para a moça linda ao lado, “agora é a sua vez”, quando na verdade é a minha, e ouvir do outro lado da cama, “eu fui da ultima vez, agora é você, sinto muito”. E me levantaria tropeçando nas coisas, em mim, tentaria ligar a luz no botão da televisão (as tvs não tem mais botões) entraria no banheiro, quando na verdade queria ir ao quarto do meu bebê. De novo ficaria ali, ajoelhado e dizendo: "o mundo que se exploda", Porque ali, ao lado daquele berço, é o melhor lugar do mundo. E ainda dizer que eu acordaria bilhões de vezes só pra vê-lo limpinho, alimentado e apertando o meu dedo indicador enquanto sorri como se me dissesse, “não saia daí, se não eu choro de novo”. Adoraria, queria, poderia, amaria. E como não poderia querer?

Poderia de novo perder aquele emprego de merda, e ouvir, Dela: “não se preocupe, tudo vai dar certo” (ah esse sentimento de esperança que com o tempo a vida deixa dançando sozinho) e algum dia foi diferente? Ouviria do meu pai, de novo e de novo - quando minha ansiedade e medos tomassem conta de mim – “deixe o dia de amanhã com o dia de amanhã. A vida cuida”. E algum dia foi diferente? Queria poder parar a um passo da sua partida definitiva. Queria que a ligação gelada e escura daquele dia fatídico fosse um trote, um trote sem graça, porque nada é mais sem graça do que a verdade. Gostaria de ter comprado aquela roupa para o casamento do meu irmão mais velho e não para sua partida definitiva logo após o meu pai ter aberto o portão celestial. (o que foi que eu disse aqui?) Gostaria, só gostaria porque as coisas são assim: verbos no futuro do pretérito...ou seja um passado que não passou e um futuro que talvez não virá....

Gostaria - e vou lutar por isso - sempre que eu comece a esquecer disso tudo - não por querer, mas por me deixar levar pelos movimentos das incertezas e inutilidades - esse cheiro de cera e cozido de carne, e o tombo no assoalho e o chamado para o lanche me alertem de que sem isso a vida não passa de um relógio de ponto. Podemos faltar ao trabalho, mas não a vida. Essa ávida ave.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

há dias que morro
há uma vida e tantas mortes
mortes a prazo

mortes
por diversas vezes o sol ergueu minhas pestanas de lona de circo em fim de temporada, 

e por diversas vezes as ergueu.
houve um momento em que lhe pedi para deixar-me aqui, sob esse deserto efervescente.
as tardes tinham gosto de labaredas.
o mundo lá fora gritava meu nome, e eu muito de longe, o ouvia como o som de um trem que eu acabara de perder numa estação qualquer.
tive vontade de chamar por alguém que nem mais pode segurar sua caneca. 

alguém que talvez já esqueceu o meu nome.
tive vontade de tantas vontades, menos o de ser eu ali, morrendo como uma folha sobre a calçada.
nessas horas há vontade de gritar, mas é quando não podemos.
há vontade de sussurrar, mas há sempre algo se sinistro no sussurro.

morri, há dias
e sei - será isso bom ou ruim? - que morrerei ainda diversas vezes.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Não escuto muito o cantar dos passarinhos, aqui, da minha varanda. Às vezes, aos domingos, quando as britadeiras são abandonadas, e os carros baixam suas febres, aí, eu escuto até o tiritar dos dentes da Catedral da Sé, morrendo de frio, e a estátua do Adoniran assobiando um novo samba. Mas eu estou falando de uma quinta-feira, não de um domingo cheirando a barbearias... Ah, esta chuva paulistana. Esta que quando você olha para um lado e depois se volta para o outro e já é chuva. Aí da varanda, com uma caneca esfumaçando, apuro os ouvidos e fico ouvindo esta canção, esta, sim, tá ouvindo? A água pegando carona nos pneus dos carros na tentativa de voltar ao céu. Ao céu cinzento desse meu amor transparente por essa cidade de não sei....

(Reynaldo Bessa)

sábado, 28 de setembro de 2013

Esperei o meu pai toda a vida. A vida toda. Conheci todas as esquinas, artimanhas. O tempo: o conheci mais que Einstein. Também todos os seus brinquedos e suas formigas mortas. Esperas, esperas. Mas nenhuma se compara a última espera. Eu não podia mais usar meus olhos como o bastão que o impediria de cair, porque ele não dobraria mais a esquina como um homem que procurava seus pés como se estivessem desprendidos de suas pernas. Um Chaplin que sai da tela e busca o caminho de casa. Ele agora era um papel dobrado, bem dobrado dentro de uma gaveta. Um papel que ninguém queria ler. Quando aquele carro feio olhou pra mim, eu até pensei em fazer uma careta. Uma das minhas caretas mais terríveis, mas esse tempo já havia passado. Sim, não havia mais tempo para caretas. Eu só franzi a testa, mordi os lábios e...aos solavancos, disse: é aqui... Só isso.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Ellae


_Demorei muito a chegar?
_Não
_Quer uma bebida?
_Obrigado. Não bebo em serviço.
_Por favor, sente-se. Fique a vontade.
_Obrigada.
_Posso lhe fazer algumas perguntas?
_Claro. Quantas quiser.
_Você é feliz?
_Sim.
_Não se sente meio culpada?
_Não.
_Certo. E como será?
_Eficiente
_Há algum jeito de mudar isso?
_Jeito há, o que não há mais é tempo. E o que você teria para oferecer?
_Penso, que nada. Parece-me um trabalho monótono, pesado, chato, não?
_Não o considero chato. Existe um método, sim e eu o sigo à risca, mas não poderia chamá-lo de chato. Há outras coisas além disso. É como uma coisa que mantêm muitas outras funcionando e vice-versa. Quando uma moeda é colocada em movimento, suas faces se misturam, e por isso há tanta filosofia que pensa se referir à uma, quando na verdade esta falando acerca da outra. Uma na outra, mas mesmo assim, independentes. Olhar nem sempre é ver. Sei, isso é um clichê. Perdoe-me.
_E quem a põe em movimento?                                                        
_Outros movimentos. Você que sempre gostou tanto das palavras, das comparações, explicações – sou lacônica, e nada afoita à explanações – compare-me à um simples carteiro. Entrego cartas, porém desconheço o teor e seus respectivos remetentes. Meu contato, direto e reto, é com o destinatário. Sou um emissário que desconhece o emissor, e quer saber, isso não importa, não conta. Como disse anteriormente: uma coisa que mantêm outras funcionando. Só isso. Entende?
_ Uma definição muito bonita para um trabalho tão odiado.
_O ódio é uma carta escrita para si mesmo. Vejo você ai, curvado diante da sua bebida. Olho você e suas rugas e seu olhar de peixe morto. E cá estou para resolver esse entrave, essa velhice que é arrastada como um segundo corpo morto. Chama isso de trabalho odiado? Olho você flácido, triste, e que apesar de ter se perguntado tanto, toda a vida, acabou se cansando de esperar pelas respostas, e que a única resposta que tem agora é a de que se vai. Porém, saiba, toda essa decadência envolve algo que eu não saberia explicar. Como disse, sou sucinta e nada adepta a explicacionice. Além do que, esse algo trata do existir e eu só entendo do não existir. Essa coisa é como aquele menininho vestido de marinheiro, que num domingo de sol e céu azul, sentava diante da porta de sua casa, vez ou outra conferindo a esquina, para ver se sua mamãe surgia com seu sorriso acolhedor. Esse menino ainda existe, lá dentro, encoberto por esse corpo roído, cansado, carcomido, enrugado, caído, fraco, destroçado. Não se preocupe, no menino não tocarei. Não tenho esse poder. Esse menininho é como a semente que de alguma forma ainda vive na árvore que apodreceu. Elimina-se o efeito, nunca a causa.
_Perdoe-me, não quero parecer mal-educado, mas preciso deitar-me um pouco. Se não se importa. Estou muito cansado. Mas acho que você sabe muito bem disso...
_Sem problemas.
_Obrigado. E depois disso, como quiser...
_Ok!
Ele entrou no quarto. Deitou-se. A cama rangeu. Depois veio um silêncio como se o mundo tivesse adormecido também. Ellae ficou na sala, no mesmo lugar onde estava anteriormente. Só cruzou as pernas e conferiu o relógio. Sabia que ia ter que esperar algumas boas horas, talvez um dia inteiro, mas não dois. No máximo pela manhã, bem cedo, teria que partir. Entrou no quarto. Sentou-se num canto escuro. Fitou-o. Conferiu alguns objetos: o relógio de pulso sobre o criado-mudo, o despertador empoeirado, o quadro torto, os sapatos juntinhos. Demorou-se no crucifixo. Voltou a mirá-lo: dormia reto e com as mãos sobre o peito. Nunca se esparramava pela cama. No dia seguinte seu leito parecia intacto. Ao levantar-se, deslizava as mãos pela colcha e pronto. Parecia não querer amassar a noite com receio de não conseguir consertá-la pela manhã. Pior do que guardar suas próprias lembranças era ter que guardar as lembranças dos outros também. Pensou. Sentiu a costumeira sensação de que pesava o dobro do seu peso. Veio a vertigem, o turbilhão. Depois o vazio. A unicidade. Por fim, o restabelecimento. Olhou em volta. Apagou as luzes e em seguida fechou a porta atrás de si. Estava amanhecendo. Gostava dessa hora entre a noite e o dia, como a moeda em movimento que falara há pouco. Que comparação mais babaca. Pensou. Lembrou-se dele. Mais um, ou menos um: questão de ângulo. Logo o esqueceria. Era assim com todos. Respirou profundamente, e por fim, cheia de orgulho, disse: ainda sou muito boa nisso.

(Reynaldo Bessa - Pequenos textos sobre o fim)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Meia triste

_Minha mãe está meia triste.
_Meio triste, seu burro, meia não existe. Por um acaso, sua mãe está metade triste e metade feliz?
_Sim. Ela está exatamente assim. Metade dela sorri e a outra metade, não. Já contei piada, plantei bananeira, soltei pum, nada. Só a outra metade sorri. Nem percebe que não foi pra ela que eu fiz tudo isso. Sabe aquelas máscaras que têm lá na nossa escola: uma com cara feliz e a outra com cara de mau?
_ Tragédia e comédia...
_isso, pois é só cortar metade de uma e metade da outra e depois juntar as duas metades: isso é minha mãe. Mas já tô me acostumando com duas mães, quer dizer, duas metades de uma mãe. Eu converso muito com a metade triste. Ela me ouve e não quer só falar, falar e falar... sabe? Mas a metade que gosta de falar e falar, sempre entra na conversa. Sempre nos interrompe. Acho que no fundo ela fica meio atrapalhada porque quando faço uma pergunta para minha mãe triste, minha mãe sorridente sempre responde. Quando conto uma piada para mamãe-triste, a mamãe-feliz sempre ri primeiro. É estranho. Minha mãe triste não me cobra o dever de casa, não quer ver minhas notas, não me manda escovar os dentes, tomar banho. Só a metade mamãe-sorriso que faz isso. Ah, gosto da mamãe-tristeza.
_E quando e como isso aconteceu com sua mãe?
_Ah, foi um pouco tenso. Estávamos almoçando, aí minha mãe parou de comer, ficou em silêncio – enquanto isso eu fazia uma torre do meu purê – e depois correu para o quarto. Meu pai e minhas irmãs correram logo depois, e pouco antes de fecharem o quarto, me disseram para ficar do lado de fora brincando com o Fred. Ouvi gritos. Choro. O Fred ficou meio agitado. Metade dele ficou comigo e a outra metade ficou lá dentro do quarto. Depois de um tempão, eles voltaram, menos a minha mãe. Aí, veio uma ambulância e levou a minha mãe. A casa ficou um pouco vazia, meio abandonada. Toda silenciosa. Depois a ambulância voltou e trouxe minha mãe de volta. E só depois de alguns dias pude perceber que eu tinha duas mães. Saiu uma e voltaram duas. Pessoas podem já nascer adultas ou só bebês?
_Acho que só bebês, mas têm uns caras fazendo uns experimentos que sei lá viu...
_É?
_Unhum.
_Na verdade, às vezes eu gosto disso tudo, porque minha mãe agora só fica metade brava comigo, mas às vezes, não gosto porque sinto seus carinhos só pela metade. Metade da minha mãe se mexe, grita com meu pai, arruma a casa, chama o Fred, e a outra metade, nem tchan. Nadinha. Mas eu gosto dela. Ela aceita tudo. Toda semana o médico vai lá em casa e examina ela. Depois de conversar muito com as duas metades, conversa com meu pai, minhas irmãs, e só muito depois, apoiando-se nos joelhos, espana meus cabelos, e com uma voz diferente, me diz que infelizmente não pode curar minha mãe, mas que fará tudo pra deixar ela...
_Caraca, meu.... "Deixá-la..."
_É, deixá-la bem. Toda animada. Mas ele nem me pergunta se eu quero mesmo isso. Eu não quero que minha mãezinha-triste vá embora. Gosto dela. Gosto das duas metades.
_E isso que sua mãe tem, como chama?
_Hum, sei não. Sempre que pergunto o que minha mãe tem, o meu pai vem com meias verdades... ih, agora fiquei um pouco perdido: é meia verdade ou meio verdade? Porque meia verdade é metade verdade e metade mentira e meio verdade é um pouco mentira também...
_Xi, agora você me pegou. Sei não. Vou ver depois e te digo...
_ Tá. Então. O médico disse várias vezes o que minha mãe tem, mas é uma palavra meio esquisita, sabe? Um pouco complicada de se falar. É uma palavra que parece não sorrir nunca. Como se eu não pudesse segurá-la em minhas mãos, entende? Uma palavra que parece maior que minha boca. Sabe aqueles trava-línguas?
_Sim... eu...
_Pois é... Não consegui guardar...
_E pega, sabe dizer?
_Acho que não, porque meu pai continua inteiramente bravo, minhas irmãs completamente bisbilhoteiras, e o Fred totalmente folgado. E eu, sei lá... acho que não pega. Mas eu adoraria que fosse contagiosa, pois assim o meu pai ficaria como a mamãe e não inteiramente bravo.
_É... Preciso ir. Hoje à noite o meu pai vai comprar pizzas.
_Preciso ir também. Ih, agora fiquei confuso de novo. Minha mãe inteira gostava de pizza metade portuguesa e metade escarola. Agora que ela está dividida, preciso perguntar para as metades, de quais metades elas gostam... Será que elas comem uma pizza inteira?

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

quando cortaram minha pipa,
você foi buscá-la e a trouxe pra mim.
quando meu zíper emperrava, você dizia: "espera" e o fazia funcionar.
quando a ponta do meu lápis quebrava, você a fazia e eu voltava às minhas garatujas.
quando os barulhos da noite saltitavam no jardim, você dizia que eram cavalinhos de cristal protegendo a casa.
quando os trovões arranhavam o céu e eu te olhava com meus olhos de grandes bolas de gude, você dizia que era Deus, de novo mudando de casa. E sobre os raios? Eu logo perguntava. E você dizia que era Deus fotografando seus vizinhos para nunca os esquecer.
quando minhas espinhas viraram meu campo de batalha, você disse que se eu ficasse menos tempo no banheiro, logo elas iriam desaparecer
quando eu não consegui aquele emprego, você disse que eu era melhor do que ele.
quando eu a quis colocar dentro do meu coração, e ela não quis entrar, e que de tão apertado achei que ele fosse sumir, você passou a noite toda comigo, tomando cervejas e indo ao banheiro pra chorar, que eu sei.
e quando nosso pai, de tanto ir (se acostumou a isso), e  foi-se de vez, você disse que ele foi na frente pra arrumar a nossa nova casa...(a nossa, enfim, casa própria)
e quando eu saí de casa, você, com seus olhos de chuva, disse, "você ja é um homem. 

Hein? Aí você se foi de vez....
Há tantos barulhos no jardim
há tantos trovões e raios, e
há também "ela"
coloquei algumas cervejas na geladeira...
Maninho, maninho, eu tenho tantas perguntas ainda, eu tenho ainda mais, espera, eu tenho um milhão delas, maninho...milhões delas

(Reynaldo Bessa)

sábado, 10 de agosto de 2013

Quando voltava do Red Light District e entrei no hostel, mandei um "are you ok?" para a recepcionista. Ela era linda mas eu havia desistido dela porque era tão formal quanto um arquivo de escritório: me imaginei fazendo sexo com ela como quem escolhe uma cor para um apartamento. Gostava de olhá-la ou de lhe dirigir algum atrevimento só pra ver aqueles trejeitos duros e aquela simpatia protocolar. O que eu queria mesmo era me jogar em minha cama como um suicida que se atira do décimo andar. Mas ao abrir a porta do meu quarto encontrei uma mulher extremamente linda - sei que a beleza é relativa - esparramada em minha cama. Um metro e oitenta, branca como a neve, encolhida como se tivesse acabado de nascer e respirando como um sonho distante. Cílios enormes (postiços?) e...e...ah. pensei: Deus, sou um pecador, esqueceu? Fui lá fora e fiz um cigarro, e outro...e.... Entrei e saí diversas vezes. Podemos brigar com tudo, menos com o sono. Então voltei. Procurei um lugarzinho naquele paraíso apertado e cheirando a tijuana. Com uma delicadeza hipócrita, tentei afastar aquele monumento vivo e pulsando. Encolhi-me como alguém que vai morrer. Mas ai ela me abraçou e me agarrou como se tivesse se afogando em sua vida turbulenta. Ela soltou o zíper de todas as suas e as minhas interrogações, e só assim eu pude entender, (será?) e respirar...e assim..dormir em holandês...


(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ao voltar da adega, sempre tento decifrar essa alegria que sinto toda vez que vejo estes táxis - um atrás do outro - com suas luzinhas acesas. Penso que talvez seja esta alegria que sentiremos no nosso último instante aqui (o que seria, na verdade, esse "aqui"?), mas também sempre me lembro do filósofo que disse que a morte não é um episódio da vida. Ela não acontece enquanto você está pregando um quadro na parede. Até acontece, mas quando ela vem, você já não é mais esse homem pregando o quadro na parede ou com o saco de pão sob o braço. Quando ela acontece você já não está mais lá. A morte não dá ouvidos aos seus passos imprecisos sobre paralelepípedos sardônicos. Ela nem lhe conhece, nem sabe seu nome, e muito menos tem ideia de seus sentimentos. A morte não se envolve, nunca. Ela cospe no chão pra essa suposta alegria que você sente quando percebe os táxis vazios... Ela é uma carta com seu endereço, mas que você não terá tempo de lê-la....

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 6 de agosto de 2013


Cheguei ao Charles de Gaulle às quatro da manhã. Meu voo para o Brasil era as seis. Confesso que um cemitério qualquer de Paris estava mais animado do que esta invenção transparente feito um brinquedo de um bebê gigante. Caminhei impaciente, cansado e ansioso por entre a frieza silenciosa e polida. Sempre que estou neste aeroporto, me vem a mente o conto "O Avião da Bela Adormecida" do Gabriel Garcia Márquez, e sempre tento adivinhar onde o autor comprou o último sorvete.

Dentro do avião não pude deixar de reparar na bela aeromoça. Ela parecia muito Ela quando tinha apenas vinte e sete anos,

Meio pra mim, meio pra todo mundo, eu disse, em português - pra que ela não entendesse - "você não vai me deixar de novo, né?", e pra minha surpresa, ela riu, e me devolveu um: "Não, senhor, até o avião pousar não poderei ir a nenhum lugar. Viajaremos juntos pela eternidade de um voo". Ela era brasileira. Eu ri como alguém que põe algumas moedas num bolso furado.

Quando o avião pousou em meu país - depois de treze horas de voo - eu desembarquei com a desenvoltura de um aleijado. Ela me deu um "bom dia" embrulhado num papel de pão de ontem com um sorriso fresco de um amanhã que nunca amanhece... Só quando entrei no táxi cheirando a multidão mofada foi que percebi que estava realmente sozinho...sempre isso...

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A única coisa que eu sabia era que estava em um lugar imenso e que procurava algo. Era um ambiente completamente desconhecido para mim, a despeito sentir que aquilo já me fora tremendamente familiar. Divisei uma enorme poltrona que mais me pareceu um trono. Aproximei-me com a sensação de que estava diante de uma divindade. No trono, me deparei com um bebê saudável, risonho, feliz. Sorria como se me perguntasse: “e aí, o que esperava... um velho de barbas longas e brancas?”. Rodopiei dentro do recinto como se procurasse algum indício pelo qual o bebê pudesse ter uma visão de todo o universo... Devia haver algo. “por que você procura de olhos abertos?” Perguntou-me. Fechei os olhos e cai num imenso escuro. Mais à frente mergulhei em bilhões de estrelas que me pareceram gotas d’água que caíam de algum lugar ao longe e que logo depois se espatifavam e cresciam lentamente como flores se abrindo, e que minutos (segundos, talvez) depois, cristalizavam-se. O bebê levantou-se, veio em minha direção, passou por mim, em seguida se voltou e por fim olhou-me. Agora eu era o bebê e o bebê era eu. Dois seres olhando-se num só olhar. Foi aí que percebi...

(Reynaldo Bessa)

sábado, 13 de julho de 2013

Malicioso esmero...




Estava sentada como se fosse viver ali toda a sua existência. Levava o garfo à boca, como se com um batom, pintasse seus lábios carnudos, de vermelho doído. Mastigava, bebericava sua coca-cola-gelo-e-limão, dava uma olhadela no ambiente com seus olhinhos saltitantes – gazelas cor de mel - e conferia o celular. Sempre isso. Depois de uma garfada, eu já ansiava por outra. Deslizava seus dedinhos – talvez cheirando a frango – sobre o visor do celular como quem prepara uma delicada fórmula mágica. Em suas costas, vale reforçar: eu poderia erguer um reino encantado. Torneadas com o malicioso esmero. Sobre elas, cabelos longos, e ainda adormecidos, desgrenhados, me fazendo pensar em seus lençóis sobre sua cama ainda desfeita. Uma jaqueta jeans, jogada sobre o corpo, com a desenvoltura de quem está vestindo uma toalha de banho. Uma blusinha amarela, surrada, sob a jaqueta. Alcinhas do sutiã gargalhando sobre os ombros andinos. - a típica preguiça sabática, pensei - Com os olhos da intuição, penso, percebeu a minha presença – ou seria a minha ausência? – e meus olhos telescópicos, sedentos, atrás dela. Levantou-se como se fosse fazer um cumprimento a alguém invisível a sua frente, puxou a calça jeans apertada – também... - e nisso deu aquela típica reboladinha que as mulheres gostam tanto quando querem erguer a calça jeans incumbida da difícil tarefa de manter curvas tortuosas em seu devido lugar. Depois, como a princesa que era, voltou ao seu trono. Deu metade de uma olhadinha para trás – para mim? – e nisso desceu a blusinha amarela para tentar cobrir, o que na verdade, deveria mostrar aos quatro cantos. A blusa puxada sem piedade me remeteu ao Grito, de Munch. Ainda mastigando, cruzou as coxas – o pezinho frenético em ação. Percebi uma pulseirinha microbiana em sua canelinha de Vênus: as cores da Jamaica já iam longe, devido a tantos banhos, praias, chuvas e outras coisas mais... Por um momento quis encontrar algo nela que pudesse transformar toda aquela beleza em pó. – essas coisas doem, sabem? – mas, enquanto mais eu a olhava, mais me sentia como um inseto preso em uma teia. Ficar parado também, nem pensar. Levitar, talvez. Arrumou os talheres – juntinhos. - Seria uma dica? – depois, levantou-se como se fosse dançar, olhou em volta – aquilo seria um biquinho? – Pagou sua conta. Para o garçom, como gorjeta, deixou seu sorriso tímido e algumas palavras que não passaram de seus dentinhos brancos. Para mim, apenas a sua ausência perfumada.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ela entra. Pisa firme como o fim do mundo. De vestido preto, justo, e com armadilhas no canto dos lábios carnudos e com inúmeros beijos alheios e esquecidos em cada vinco, me sorri. Joga a bolsinha brilhante e repleta de estrelas decaídas para algum dos precipícios da casa. Depois enrosca-se em meu pescoço, e de leve, com unhas pintadas para as guerras noturnas e aladas, o arranha. Sorri ainda mais armadilhas tiradas das cacholas dos infelizes . Joga-se na cama - que agora lhe pertence - e cruza as coxas: brancas, roliças, tenras: o preto no branco como um abraço assassino. Olha-me como se me escaneasse - um sorriso sacana fingindo intimidade - . Em seus olhos digitais: duas horas piscam em contagem regressiva: é o tempo da solidão que ecoará para o resto da minha noite vazia.


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quando a coisa esquentava e o meu pai entrava e saía de casa como quem não cabe em si, eu subia na laje e procurava um cantinho sob alguma estrela tão aflita quanto eu, e ficava horas conversando com a velha antena de tv e sentindo a tristeza úmida da caixa d'água, até que meu irmão mais velho viesse me buscar. Eu conhecia seus passos e podia senti-los como afagos nos cabelos. Ele aparecia com um leve sarcasmo entre os dentes brancos. No rosto, um certo prazer por me ver naquela situação, mas ao mesmo tempo, uma certeza de que eu estava seguro por ele estar ali, ao meu lado. "Ei, pirralho, desce, o velho já dormiu. Cansou de te procurar" Eu ria ridiculamente como uma estrela que não consegue ficar presa no peito de um trêmulo xerife. Hoje me pergunto como deve estar aquela casa vazia, aquele espaço sem antena, e aquela caixa d'água transbordando de passado. E eu, onde estou mesmo, aqui ou lá? E o meu irmão, quando vai mesmo decidir subir por essa escada que não mais existe?

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

com uma esperança desesperada, por baixo de sua blusinha surrada e com a imagem de uma bandinha de rock que eu desconhecia, saltaram duas pérolas com o sabor da existência em suas auréolas rosadas.

(Reynaldo Bessa)

sábado, 8 de junho de 2013

Quando cheguei na estação de trem de Marseille, mochila nas costas e muito cansado, rodei um pouco para guardar as últimas imagens da cidade em que Rimbaud havia amputado a perna. Olhei o vai e vem, os abraços, as despedidas, os choros, as angústias, o grito das crianças que um dia também iriam chorar numa estação, mas que agora só se preocupavam em construir castelos coloridos no ar. Olhei a correria e pensei que a alma fala um idioma só e que não é preciso uma pronúncia perfeita para ser compreendido. Basta um olhar e pronto. Eu estava mesmo muito cansado. Já estava viajando há muito tempo. Quando cheguei em Marseille logo de cara odiei a cidadezinha. Cheguei faminto e era um domingo e não havia nada aberto, nada vendendo nada. Então fui dormir alimentado apenas por um belo e melancólico por do sol sobre o mar se espreguiçando ao longe. Meu francês já estava afiadíssimo e me sentia em casa apesar de querer ir embora. Pra onde? não sabia. Queria apenas ir. Ela, e Ela pregava sem pena em meu coração um prego cabral de distância com o martelo pesado da incerteza. Até onde mais eu poderia ir para ficar longe desse passado? Quanto mais eu deveria fugir para que pudesse me esconder de mim mesmo? Ao comer aquele "pain au chocolat" tive a impressão de sentir os lábios Dela. Pensei ter ouvido sua voz. "Pain au lágrimas" Talvez. Meu trem chegaria logo e em breve eu estaria em outro país, outra cidade e eu diferente de mim e ainda assim eu mesmo. Entrei numa loja da Virgin e pus pra tocar um cd de um novo cantor francês que em breve faria uma grande besteira com sua música e ficaria mundialmente famoso. Disco lindo (só o primeiro). Pus os fones e pelas frinchas das janelas da loja olhei a igrejinha sobre o morro ao longe e me pareceu que ela também chorava....


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)
penso que só não sentimos a saudade todo o tempo porque não suportaríamos. O nosso instinto de sobrevivência a divide em parcelas: umas maiores outras menores. Concebo a saudade como uma árvore que vez em quando desprende um de seus frutos. O som que ele produz ao atingir o solo entra em uníssono com algum coração descompassado de presente e cria um ritmo particular, um lugar alhures, um tempo dentro do tempo: um tempo onde as palavras não alcançam. Ficam em outro compartimento olhando pelo olho mágico "aquele algo mais" e que estão além delas. Aí despertamos com aquela energia extra, aquela força última, aquele oxigênio de reminiscências e nos vemos cobertos de pó. E o mundo ao nosso redor não mais nos interessa. Porque o que realmente era, já foi. Dias assim acordo ouvindo Gardel no máximo volume. Sinto cheiro de creme de barbear, de loção pós barba. Ouço o sábado, o domingo tilintando em meu bolso como brindes da vida. Em minhas mãos sinto a cabeleira do meu velho. Sem me dar conta, sinto meus dedos movendo-se em busca de cabelos lisos e bem penteados e cheirando a "Trinite" (nem sei se é assim que se escreve. Faz tanto tempo). Não são só as canções em si. Nem só a voz do Gardel. Nem muito menos as letras. Há algo mais. Como se eu pudesse ver o tempo dançando sozinho no meio do salão num fim de baile. Acordo assim, vez em quando, e me sinto como se acordasse pela primeira vez em minha vida.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

     Do longo tempo que passei na Europa – minha fuga geográfica – apesar dos vislumbres, minha única vontade era voltar para o meu país. Uma música me acompanhou como uma oração ou um chute na bunda. Tanto faz. Morei boa parte do tempo em Paris, e depois resolvi ir atrás de confusão. Afinal de contas os conflitos só mudam – quando muito – de código de barra: em qualquer lugar do mundo os homens querem beber, e depois disso querem brigar ou chorar no ombro de um desconhecido ou de uma mulher que não lhes quer, as mulheres querem ser amadas, e choram quando isso não acontece. Em qualquer esquina de qualquer país a solidão dorme sob alguma marquise. De Londres fui até Dublin. Queria folhear aquelas famosas ruas e quem sabe até encontrar Joyce em algum pub escuro e cheirando a vômito. Poderia até ser seu sósia. Mas não o encontrei. Nem Joyce nem o seu sósia. Na verdade me empanturrei de Guiness’s. No começo, ao tocar a boca da tulipa transbordante, senti como se beijasse os lábios de uma velha de cem anos ou mais, mas depois tudo mudou. Com a Guiness é preciso beijar os lábios mordidos pelo tempo para só depois lamber os poros dourados da alegria. Voltei a Paris com folhas despencando e rindo sob as calçadas. Eu estava sozinho e forte como o exército de um homem só. Ela, e sempre Ela vibrava em meu coração como uma peça solta numa máquina de lata; meu coração não passava de uma boneca de pano sob a chuva. Um pé gordo dentro de um sapato pequeno demais, apertado demais. Doendo demais. Quando a música disparou em meu ipod e eu vi aquelas folhas marrons, e aquele vento assanhou meus cabelos, e aquela tarde caiu como um véu sobre o corpo de uma bela noiva e eu senti o arder de minha cigarrilha em meu peito, sorri, e só depois pude perceber que era o sorriso do esquecimento...o que eu faria agora?...essa pergunta despencou do abismo da nova descoberta. Até então eu era apenas uma lembrança....

(Reynaldo Bessa - Crônicas Agudas)