Espertos

quarta-feira, 29 de abril de 2015

meia nove
é a única respiração
boca a boca
que pode salvar
uma noite
afogada


(reynaldo bessa)
estive com Caetano Veloso,
cara a cara; um lance meio Odara, sabe?
até achei que ele fosse me beijar na boca ou
me cantar leãozinho, falar do GIl, do Chico ou do pelourinho.
pensei ainda que ele viesse pra cima, com uma rima meio à sua
música Língua, mas, não, não minto, ele só apertou o cinto
ajeitou os óculos, e disse bom dia.
ou não? Caetano é o mundo todo.
um menino lindo.


(Reynaldo Bessa)
ainda não nasci.
estou grávido de mim mesmo.
espero-me ansiosamente.
essa coisa de data de nascimento
é de morte.

(Reynaldo Bessa)
A morte tem seu próprio calendário.

(reynaldo bessa)
sou arrastado
meus dedos agarram-se
na mão lisa do passado
estamos por um triz
o futuro, este padrasto senil,
me segura pela cintura
e me promete um brinquedo
que já sabe, não pode comprá-lo:
só quero minhas lembranças
a corda, com todas as suas rodinhas e sirenes
giratórias...


(Reynaldo Bessa)
há algo de melancólico nestas placas,
também naquelas árvores ao longe feito camelos indolentes.
a estrada lânguida dança sob meus pés,
a minha frente,atrás também...
uma dançarina contorcendo seu ventre de concreto.
há um mundo veloz lá fora,
mas dentro deste tambor bem no meio do
meu peito há ainda mais mundos e ainda mais velozes.
de novo na estrada. Que paisagem! Tento lambê-la,
mas sei que isto será o mesmo que um homem que
lambe o vidro da vitrine de uma loja de doces.

(Reynaldo Bessa)
num hotel longe de tudo
onde penteio a franja do mar
um vinho daqui, uma gentileza da casa:
vou pinot noirando minha língua
a camareira agacha-se feito uma rainha,
dobra o lençol como se fechasse uma carta de amor.
Penso em tudo. O menino que sou puxa a camisa do homem que sou, e indo...
há uma calma de altar
na porta do meu coração, há também, um
"Please, Disturb" Sempre.
bata suavemente com os nós dos seus dedos trêmulos na porta dos meus lábios.
E entre...


(Reynaldo Bessa)
acordei com ares de Fusca,
colorando RQ.
Vontade de usar um macacão,
deixar o cabelo crescer,
e as costeletas também.
Vontade de ouvir meus discos tão rabiscados quanto eu,
chegar nos amigos com o dedo em V, cabelo ao vento, sorriso 78 rotações por minuto.
Vontade de dizer "pode crer"
de atrasar os relógios, usar pulseirinhas fedorentas,
ficar à toa,
comprar uma prancha de surf só para guardá-la no quintal,
ver álbuns de fotos dos meus futuros filhos,
sorrir para a barriga da minha mulher que ainda ficará grávida, e 
pensar se arranjo um emprego ou brinco de Atari, War ou Banco Imobiliário. 
Vontade de ver Brasil e México, de novo e de novo. 
Vontade, Vontade...
É uma coisa embaladinha em papéis coloridos e estaladinhos, 
desses que roubam a atenção das pessoas numa sala de cinema escurinha e silenciosa. 
Vontade meio boca de sino e fivelas astronômicas. 
Vontade flashback. 
Isso sempre me chega toda vez que esse sol de olhos de Cristo de calendário e 
hálito de barbearias me confidencia que tem vontade em minhas vontades. .

(Reynaldo Bessa)

domingo, 19 de abril de 2015

Inumano, demasiado, inumano.


Muitas vezes não sabemos bem o que pensamos, e ainda pior; o que sentimos. Uma coisa tá ligada à outra, claro: sentimos o pensar e pensamos o sentir. Somos sinestésicos, assim como a bananeira é uma pacoveira, porém tudo isso acontece mais rápido que num piscar de olhos, e portanto, muitas vezes nem percebemos o porquê tal coisa nos causa tal sensação. Enfim, não gosto das vozes metálicas dos anúncios nos Metrôs. Não importa onde. Pode ser em São Paulo, Madrid, Paris, Londres ou até até mesmo nos Jardins Suspensos da Babilônia. O perfil é sempre o mesmo. Por algum motivo, não me sinto bem, já disse, com estes avisos que invadem a nossa paciência sem nem bater os pés no tapete da porta da frente.

“Srs. Usuários, não ultrapassem a faixa amarela”.

Srs, usuários? Não há mesmo uma expressão mais camarada? E o verbo sempre no imperativo? Eles não aprenderam a conjugar os outros modos do mesmo verbo? Há um tempo mais antipático e autoritário do que o imperativo? É só perguntar às crianças. Perguntem-lhes o que elas sentem diante de um: coma, durma, cala a boca, beba, e por ai vai... 

“Sr. Francisco, por favor, comparecer a SS, Ó!

Por Deus! Será que ele vai ser fuzilado? Ou até mesmo demitido? (Porque hoje em dia é melhor ser fuzilado que demitido). Bom. Mais uma:

“Srs, usurários, perdão, usuários não fiquem na região das portas”.

Claro que a maioria das pessoas gostaria mesmo era de estar na região nordeste, na praia, tomando uma gelada... Porém não é o caso aqui, né? Estamos mesmo é ali no canto, apertadinhos, espremidos, buscando o lugarzinho mais próximo possível da porta, para conseguirmos descer na estação do nosso destino. Porque os educados; aqueles que vão lá para o centro do trem, descem sempre duas estações depois, e isso quando conseguem descer. E nós, espermatozoides preguiçosos, mal-educados, apenas ficamos, ali, esperando o impulso da multidão desenfreada, para conseguirmos enfim, desembarcar. 

“Solicitamos a todos que evacuem a estação”.

Nossa mãe, "todos"? Todos quem? Nós? TODOS. Então, por que eles também não evacuam a estação? E "evacuem"? Palavrinha polissêmica, neutralizada pelo contexto, é certo, mas será que todos entendem o que significa polissemia, contexto, neutralidade? Acho que não. Então, enquanto um senhorzinho já desafivelava o cinto, fui logo lhe dizendo: “sinto, mas o senhor não entendeu. Num é “na” estação, é “a” estação. E tem um banheiro logo ali, ó!” Mas voltando a voz metálica, evacuar a estação por quê? Fica a nossa pergunta e o nosso olhar de gato que foi expulso pelo rato. Nunca sabemos o porquê.

Bom, há tantas outras e outras que ouvimos todos os dias sem pena. Avisos feito flechas saindo da floresta de concreto e frieza. uma ordem disfarçada de solicitação. Temos a impressão de que é preciso ficarmos em posição de sentido ou até mesmo batermos continência, sim, quando ouvimos estas vozes de lata arranhando nossas orelhas e o nosso dia de lata. 

ah, tem um jeito sim, sempre tem. O cara lá em cima ou lá embaixo, sei lá, vai saber, poderia dizer:
“Ei amigo, sim, você aí, é, você não está me vendo mais eu estou te vendo, coisas do ofício, mas amigo, poderia, por obséquio, dar dois ou três passinhos para trás da faixa amarela? Sim, é que se eu não te pedir isso, o meu chefe, sabe? Então, valeu, camarada, obrigado”. Ou:

“Queridíssimos amigos, aí, que estão nas portas, sei que é difícil, acredite, quando não estou aqui, nesta saleta gelada, estou ai também, e faço exatamente o mesmo que vocês, senão depois fica difícil descer, né? Gente demais, trem de menos, correria... mas amigos, amigos queridos do meu coração, poderiam afastar só mais um pouquinho para o canto. É que algumas pessoas vão descer na próxima estação, pode ser? Valeu camarada. Obrigadinho”.

Ah, e quando a voz de mulher, seria bom que fosse aquela voz rouca, malemolente, sensual, assim despertando todos os meus sonhos adolescentes dormindo sob a marquise da minha vida sem tempo. "Ei, bonitão, tudo bem? Sim, você, por favor, gatinho, não embarque nesse trem, ok? Porque ele não prestará serviço. Está com problemas técnicos e portanto vai para a revisão, mas olha, estou aqui, tá? Sempre prestativa. Tá a fim de pegar a sessão das cinco?

Ah, e ele ou ela, não importa, ainda podia, uma hora ou outra, nos intervalos dos anúncios, até assobiar  uma canção, tamborilar um sambinha do Adoniran... Também podia me pagar uma gelada, uma hora dessas, quem sabe, ou enviar-me, no meu aniversário, um email simpático, ou até mesmo um cartão, no natal, então, podia, nénão...?


(Reynaldo Bessa)

sábado, 4 de abril de 2015

só
ficar
é
ficar
só


(Reynaldo Bessa)
Dicionários:
ora, foder não é o mesmo que copular.
quando você quer foder alguém, você fode,
não copula.
copular é Coppola,
foder é Almodóvar. 


(Reynaldo Bessa)
meia nove
é a única respiração
boca a boca
que pode salvar
uma noite
afogada



(reynaldo bessa)
Estive com Caetano Veloso,
cara a cara; um lance meio Odara, sabe?
até achei que ele fosse me beijar na boca ou
me cantar leãozinho, falar do GIl, do Chico ou do pelourinho.
Pensei ainda que ele viesse pra cima, com uma rima meio à sua
música Língua, mas, não, não minto, ele só apertou o cinto
ajeitou os óculos, e disse bom dia.
ou não? Caetano é o mundo todo.
Um menino lindo. 



(Reynaldo Bessa)
eu não tirava os olhos dela:
nunca a esqueci, ali, de olhos fechados, mãos juntinhas, esperando os seus pecados dissolverem-se. Eu olhava aquelas panturrilhas atrevidas sobre aqueles genuflexórios mofados, enquanto via aquele vento pecaminoso jogando o leve vestido contra seu corpo feito ondas batendo nas pedras de uma ilha virgem, enquanto o meu desejo derretia-se em minha boca... Eu tinha que fazer um esforço danado para acreditar que era o corpo dela em minha língua perdida, e não a do Salvador...

(Reynaldo Bessa)
Meu beijo fala a tua língua.

(Reynaldo Bessa)
ainda não nasci.
estou grávido de mim mesmo.
espero-me ansiosamente.
essa coisa de data de nascimento
é de morte.


(Reynaldo Bessa)
entre mim e ela,
nenhum diálogo.
então, que nasça
o dia logo.


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ela se foi
com sua senilidade no bolso de trás.
logo estará pelas ruas e
dormirá sobre um vidro de janela quebrada e
sentirá o grito dos seus ossos pontudos
e receberá ordens de subalternos e
o presente, o passado e o futuro virão
feito credores insanos
e ela fará perguntas sem respostas
e se esquecerá do filho morto, assim como uma criança
esquece o troco sobre o balcão e
sentirá o coração bater sem pretextos
e sua respiração varrerá o mundo
e perguntará onde poderá se desligar
para se esquecer em seu esquecimento.
e ela pensará que o barulho do mar
é o seu vestido de casamento arrastando-se pelo chão de uma igreja vazia
e o dia queimará suas retinas cinzentas de cansaço
e ela não perguntará onde estão os seus filhos
porque é a sua vez, depois de muito velha, de ser a filha mais nova,
a caçula no meio da maldade madura,
no meio da indiferença de cabelos brancos...
e ela terá medo, muito medo
porque não existe mais solidão
do que toda essa lucidez particular
a lucidez do pássaro voando ao contrário

não existe notícia pior
do que alguém que se foi para bem longe
quando você ainda o tem preso
ao cordão umbilical bem no meio do umbigo do peito.
quando você ainda está sobre o colo,
chorando porque apanhou na escola
Mas que colo? Que escola? Que choro?
Que o quê?
Ela se foi...
e você é um órfão da distância... O tempo, o passado
são só o toque do dedo em riste da sineta do intervalo que durará
toda a vida de morte
Ela se foi. 


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Gosto de olhar a rua esparramada e só. Maquiada feito uma viúva que espera o marido para o jantar. Depois da chuva, ela lá, feito um cão tentando lamber a bunda da noite. Cortinas solitárias de uma peça em fim de temporada. Mas eu olho a rua que nem uma mãe olha seu filho no berço. E nunca se sabe quem cuida de quem. Olho a rua vaidosa e a lua deslizando suave feito um batom sobre seus lábios negros. Olho a rua ou a rua me olha?

(Reynaldo Bessa)
Oscar Wilde disse que um homem é sempre menos sincero quando fala de si mesmo. "Dê-lhe uma máscara e ele contará a verdade",mas, penso que tenho mesmo duas idades - segundo o poeta:  em vida e em morte. Portanto, no momento só tenho uma, esta.

Faço o que gosto, por isso, não trabalho. Ganho o meu pão com o suor do meu riso de olhos úmidos. Meu trabalho é meu lazer: leio, escrevo, viajo, degusto, amo, desamo, leio... e tudo de novo e de novo como o desejo-autorama. Escrevo não para autografar, posar de intelectual, comer as menininhas, quem dera. Escrevo para escapar de mim mesmo. Mas acho que já disse isso aqui diversas vezes. Sei, é um saco.

Não sou filho único, graças, isso seria um fardo muito pesado. Teria que conversar com minha própria sombra e iria querer saber mesmo suas opiniões.

Às vezes, gosto das pessoas. Como não poderia? Há muito de mim em cada uma delas.
Às vezes não gosto das pessoas. Como não poderia? Há muito de mim em cada uma delas.

Tenho sonhos, "ainda", e este "ainda" teima em vicejar contra minha vontade.
Não tenho esperanças. Porque é como dizia outro grande poeta: "a esperança é um urubu pintado de verde". Mas resisto feito a garrafa meia cheia. Espero como alguém espera um irmão - que já se foi - chegar no próximo trem. Fico lá, sob a chuva, encostado no rosto da noite.

Sou leal, até onde sei. Quero pensar assim, mesmo que esteja, talvez, equivocado. O Urubu de vez em quando desbota uma das asas.

Enfim, eu sou isto, aquilo e talvez aquilo outro:
uma história sem trama,
personagens de mim mesmo
narrativas
não lineares.
talvez...
só sei que nunca comecei,
e portanto, nunca terminarei.

sou isto: uma incoerência. 

(reynaldo bessa)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um maluco me disse que Nietzsche salvou sua vida. E eu digo que Friedrich não salvou minha vida coisa nenhuma. Ele era um maluco. Sim, genial, mas maluco. Nunca gostei de quem acredita ou desacredita demais em algo. E o filósofo alemão desacreditava tanto que me fazia acreditar no inacreditável. Dizem que a mãe era uma religiosa. Bom, quem salvou mesmo minha vida foi Bukowski. Porque sempre gostei de quem desacredita mas mantém uma esperançazinha no canto do olho. Como um dia de sol com gotas estalando na janela. Como ainda conseguir um sorriso depois de levar um soco no rosto, dado por um imbecilóide da escola, porque a gostosinha também da escola beijou o mesmo rosto. Gosto dessa esperança ridícula como uma chuva ameaçando cair sobre crianças brincando no recreio. 

Poucos me salvaram a vida. Porque essa brincadeira sem graça é como um quebra-cabeças faltando peças. E uma caixa de quebra-cabeças tem apenas uma possibilidade de estar certa. Só há apenas uma imagem completa. Se você balançar a caixa a caminho de casa terá um caos colorido: inúmeras possibilidades de erros na imagem. Porque a tendência é o caos. 

Ah, mas falo de Bukowski, mas antes dele tem Henry Miller, e muito antes desse, tem Louis-Ferdinand Debouches. Sim, o Céline. Este me fundiu a cuca com sua cuca fundida. Ou fudida, sei lá. Porque nada mais é doído e engraçado que Bukowski. E se ele está abrindo uma garrafa enquanto uma mulher está no banheiro e prestes a sair com um vestido azul, então... Porque Bukowski num é triste nem feliz: é uma mescla disso: feito vestidos de ontem, suados e perfumados, dentro de um cesto de roupas sujas. Melhor que isso, só se Deus apagar a lua antes de dormir...


(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

o relógio
não marca o tempo,
masca as horas.
o tempo não tem tempo, ora.
é agora.

 (Reynaldo Bessa)
cansaço, talvez,
por um momento me pareceu
que a realidade se abria e dela surgia outra realidade
como se algo tivesse feito um corte na pele disso que achamos que vemos
e logo outra realidade tentasse se esgueirar pela fenda.
olhei para o horizonte e por alguns minutos achei que seria tomado, invadido, banhado por essa coisa sem nome.
quando a sensação se foi
me senti como um personagem de um sonho de alguém
que dorme eternamente
para que eu não desperte.

(Reynaldo Bessa)
Gosto das mulheres, mas gosto ainda mais dos seus movimentos. Por exemplo. Fico sem ação, feito um macho que recebe uma boa dose de veneno, quando uma beldade, em poucos movimentos, prende o cabelo. Penso que foi assim que Deus criou o mundo e a confusão...
Movimentos são diferentes, assim como o sinal verde é pra passar e o vermelho... Bom, o semáforo já é clichê, mas os movimentos de uma beldade nunca os são.
Uma mulher se vestindo ou se despindo: são como palavras diferentes numa mesma sentença. Um veredicto: a cadeira elétrica ou o vento da liberdade lânguida na cara. Quando ela caminha dá pra perceber se corre para o filho que a espera ou para o amante que se desespera. Quando uma mulher olha pra você e os olhos se agitam, se inquietam, se perdem, fogem e depois voltam como um devoto pedindo perdão ao seu santo predileto ou entregando suas curvas tortuosas a Sade é porque, se tudo der certo, haverá muito movimento... não aguento isso... tudo é movimento.. e em se tratando de mulher, tudo é um quase terremoto. Até parada a mulher faz o mundo rodopiar... e eu... Eu? Eu olho... e por enquanto, basta.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

a foto do meu pai ainda jovem:
seus olhos longe feito navios encalhados,
e seus óculos com um durex em uma das pontas – como sempre - e
isso me prende como alguém tentando enxergar no escuro...
e vejo o corte do cabelo, sua camisa branquinha, e
feito um motorista dirigindo sob a chuva, tento ler algo na paisagem,
mas tudo é como num sonho espatifado e que
tento evitar um corte nos inúmeros cacos espalhados pelo chão... (Cortázar detestava as reticências)
sua boca sutilmente puxada para o canto me faz pensar numa alfinetada do destino segundos antes do click...
parece que não tinha ainda bebido nada, pois seus cabelos estavam sagradamente penteados e sua pele não era a de um índio pintado para a guerra
olho a foto e me vejo nela
como meu rosto refletido num lago.
é como se a foto me olhasse de dentro do seu tempo.
feito um bichinho assustado me espreitando da toca:
talvez os olhos dele que também são meus,
talvez seus sonhos esquecidos pelo caminho que é onde estou agora
e ele me olha
e eu o olho
e quem é quem?
por um momento penso ter ouvido uma pergunta,
e logo me concentro em seus navios encalhados....
sua papada, sua camisa branquinha...
quantas palavras naqueles olhos...
sei que é apenas uma foto,
talvez por isso mesmo farei agora todas as perguntas
que o tempo, a covardia e a distância não me permitiram...
pai, lembra daquelas cítaras que o.....



(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Por que essa obsessão por sexo? Ora, devemos mesmo perguntar ao sorveteiro o que ele carrega no carrinho, ou o porquê das pessoas escolherem sempre a janela quando vão viajar? Devemos mesmo perguntar por que ninguém escolhe o corredor? Há os que acendem velas, os que recitam mantras antigos e incompreensíveis, há ainda os que caminham sem destino, sobem escadas infinitas, e se alimentam de gafanhotos, há os que precisam vomitar verdades, caminhos, regras, há os que necessitam pisotear o outro com seus coturnos de ferro e suas palavras de arame farpado, há os que querem mostrar seu vestido novo e seu moderno corte de cabelo. Até os anjos, que não existem, precisam mostrar sua nova bondade comprada em doze parcelas no cartão de crédito. Preciso mesmo colorir aquela umazinha que gosta de uma barba grisalha e se delicia com um anel no mindinho? Ela queria ser casta e acabou gasta? É isso? Ah, por que essa obsessão por sexo? Talvez porque num natal qualquer, papai noel, entediado, exausto de tantos afazeres, tenha me enviado sua secretária boazuda. E ela tenha chegado num vermelhinho básico... apertado feito o bolso de um sovina...e sem a barba, claro. Porém, com dentinhos entramelados de infinitas noites lânguidas.. Ora, devo mesmo perguntar por que o coveiro está cavando? Ai, ai...


(Reynaldo Bessa)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

acabei de morrer
daqui a pouco o Datena vai anunciar
a minha morte
estou aqui, em meu velório, rindo do meu corpo
tão frágil, arrumadinho, limpinho, perfumado para o estrago.
ah, a morte, pensei tanto nela como pensei
num amor impossível
imaginei tantas coisas sobre ela
como imaginei curvas sob vestidos
mas não é nada daquilo que eu pensei e
agora não quero escrever sobre isso porque
nem há mais a necessidade.
não há papel, nem lápis aqui. Computador? puurrr
nada.
agora sou tudo o que sempre quis:
apenas uma chama de um pensamento
parte de uma chama maior.
descobri que eu era apenas uma vela sonhando em iluminar o mundo todo.
cada qual no seu cada qual.
estou aqui diante de mim e cada vez mais distante de mim
como alguém, em algum lugar diminuindo o zoom....
não posso evitar um risinho sacana no canto da boca.
oh, benevolência.
o homem pinta o que ele é.
ele tem a paz ou a turbulência que lhe cabe.
nascerá no país que pediu
terá os filhos que merece.
hummm...e estas árvores? E este vento?
o que virá agora?
haverá tédio também aqui?
pode ser. Pode ser.

(Reynaldo Bessa)
ah, tantas coisas
saía de casa
repleto de amor
e queria comer
beber
andar
ver
estava cheio de energia
apesar de ter gastado metade do meu ser
mas queria andar
e o sol
e o frio
um no outro
como uma discussão
como uma gritaria
e meu desejo havia pousado
num ninho falso
mas eu queria
e eu ia
e como esta taça de vinho aqui nas mãos
eu acreditava nas ruas
e eu não queria fidelidade
queria apenas um beijo quente
um beijo estranho e quente...

(Reynaldo Bessa)
talvez, mas eles ficaram bonitos com a tua bonitez
ela ficou de vez
porque plantei olhar todos os dias
e molhei teu corpo e teus olhos com a chuva e o Shiva dos meus olhos

Ei, tá virando poesia de novo
só queria que virasse você
mas isso já seria poesia de novo

(Reynaldo Bessa)
POESIA DE SEGUNDA:
Curadoria: Fabrício Corsaletti.

dia 01/09 (segunda) as 21h - Edson Cruz & Reynaldo Bessa

veja alguns dos nomes que já passaram por lá:

Alberto Martins e Reinaldo Moraes
Paulo Henriques Britto
Dirceu Villa e Joca Reiners Terron
Ronaldo Bressane e Juliana Frank
Eucanaã Ferraz
Mário Bortolotto
João Bandeira e Arnaldo Antunes
Samuel Titan Jr., Fabrício Corsalett
Nuno Ramos...

entre outros...

(Reynaldo Bessa)
gosto destas poças deixadas pela chuva:
espelhos vivos, tremulantes onde anjos narcisos e vira-latas sedentos 

dividem o mesmo espaço. Onde meninas de havaianas saltam as luzes líquidas dos postes e os estudantes risonhos partem a lua em mil pedaços. 
gosto destas poças deixadas pela chuva:
onde bêbados mijam no céu e as senhorinhas se distraem
com nuvens preguiçosas tremendo de frio
gosto mesmo destas poças deixadas pela chuva.
onde mais poderíamos seguir uma estrela cadente com a ponta
do dedão do pé?

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tenho alguns grandes amigos. Poucos. Sim, mas nunca é de menos e nunca, nunc demais. Apenas exato, Assim, como um aperto de mão. E isso é como uma confraria, uma máfia do bem. É olhar e entender e perguntar: o que foi? Eles são lindos. Eles lutam, criam seus filhos, pagam suas contas, e principalmente acreditam. E acreditam muito. Eles sabem muito bem que a violência passeia lá fora, mas eles continuam indo a feira, ao parque, ao supermercado como se tudo isso fosse coisa da sessão da tarde. E poderia ser diferente? Meus amigos. Encho a boca com esse número tão pequeno e tão grande. E eles me ouvem com os ouvidos do coração, e eles me abraçam com seus olhos úmidos... E eles me amam como eu os amo. E eles soam como a abertura dos desenhos da Disney. Eles são velozes como o Tom e o Jerry. Eles são mais malucos que a Corrida Maluca. Eles são espertos como o Pica-Pau e ingênuos como o Catatau. Eles são legais, ainda mais legais que o Pepe Legal... Às vezes eles somem... e dói, mas só o amor exige frequência, a amizade, não. Borges já dizia isso. E é verdade. A amizade só exige uma coisa: aquele telefonema ou aquela visita naquela noite que parecia perdida...

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

se eu tivesse que guardar uma única lembrança, guardaria minha mãe cheia de movimentos, energia, sorrisos enquanto preparava uma imensa árvore de natal. Ela estava mesmo cheia de vida, e havia tantas caixas pelo chão, e sob meus pés estalavam caquinhos de vidros coloridos e a alegria tinha som de papéis de chocolates, e do forno saía um cheiro bom, e meu pai tinha uma cabeleira enorme, e minhas irmãs usavam vestidos coloridos e riam sem parar, e o meu irmão queria ser cientista e tinha os dentes tão brancos que acendiam as noites. Era só isso. E era tudo. E o futuro: esse senhor de capa escura e de olhar soturno que um dia entrou sem bater na porta era apenas um apito de trem ao longe, longe, longe, longe, longe, longe, longe....

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Na ficção construi uma família que nunca tive. Sobrevivi a inúmeros saltos do décimo quinto andar, apesar de sempre morar numa casa. Com a mulher que me deixou, casei, e com ela vivi por toda a eternidade. Devo muito a ficção. E assim sei, que quando morrer, serei apenas um conto inacabado.

(Reynaldo Bessa)
Ele se chamava Um. Era o primogênito. Logo nasceu seu irmãozinho que se chamava Dois. Tinha três sonhos, seu pai quatro carros, sua mãe cinco gatos e seis desilusões. Ele apostava sempre no sete, mas de tanto perder, seriamente pensava em apostar no oito. Seu pai o chamava de nove: noves fora nada. Morreu no dia dez, mas se achava um zero.

(Reynaldo Bessa - contos mínimos)
de tanto insistir, meu pai deixou minha mãe trabalhar. No fundo ela só queria preencher a ausência dele pelas inúmeras viagens na ânsia de ver seus filhos vestidos, educados, alimentados, limpinhos. Ele comprou uma máquina Singer, alguns tecidos, linhas, modelos e ela super animada fez um curso. Curso que nunca terminou. Mas pedalou até, e eu, ainda um menino, adorava cheirar os tecidos cheirosos e imaginar as mulheres que iriam vesti-los. Tocava-os e pensava nas coxas que os roçariam. Cheirava, cheirava até que minha mãe me perguntasse o que eu estava fazendo. Eu parava por um tempo e respondia que só estava testando a resistência do futuro.

(Reynaldo Bessa)
era tanto silencio que eu até podia ouvir seus quadris em movimento no escuro...

(Reynaldo Bessa)
não minto
tinto
eu vou ou
eu vinho?
tento
cá estou
extinto.

(Reynaldo Bessa)
Definitivamente sou da geração touch. Mas isso não é de agora. Hace mucho tiempo. Adoro tocar. Tocar um corpo que me quer.... No escuro, como um cego lânguido lendo em braile, ou no claro, com os olhos dos dedos bem abertos...

(Reynaldo Bessa)
Não sei de onde tiro as palavras. Só o que sei é que elas me tiram do sério.

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 29 de abril de 2014

seus olhos não eram menos interessantes:
duas borboletas azuis de asas enormes e repletas de hieróglifos e 

que abriam-se minuto a minuto como um relógio lânguido... úmido... 
sonolento..cheio de vida movediça...
mas quando vi a sua boca fiquei ali como um homem esperando
um navio que um dia havia cruzado um dos seus sonhos.
Cílios de pura hesitação como uma fruta pronta e que
a qualquer momento pode cair.
E eu tinha que ver aquela queda vermelha de tanto vermelho maduro... De repente o diálogo era uma boca, eu era uma boca, o mundo era uma boca... tudo era uma boca...
pude sentir a umidade de cada vinco...confesso que me perdi neles como um homem que chega numa cidade desconhecida... eram vincos como ruas largas que acabam em becos sem-saída... como uma música da Ella Fitzgerald que nunca acaba e dói, dói e dói...
E meus olhos estavam entregues como condenados em seu último dia de liberdade
E eu a olhava e pensava, que boca, que boca...
E as palavras não me serviram para nada... Elas eram como um sabre nas mãos de um soldado morto....
E eu a olhei como uma pintura de uma escola que ainda iria chegar e a li como um cego.... ou um analfabeto diante da grande literatura vermelha, doendo... e eu a guardei como um mineiro que sai da mina escura e sente um cheiro bom e diz.... o que é isso? O que é isso? O que é isso? E morre sem resposta... E era só uma boca, uma boca, uma boca... Uma catedral dissolvendo-se em minha língua.

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 11 de março de 2014

Na estrada paro para esticar as pernas e fumar um paieirinho. Ao redor, por todos os lados, há um domingo azul cheirando a manga rosa. O quitandeiro conta a medida da sombra do seu sonho, coloca-a no bolso e depois sorri pra si mesmo. Meu Deus, que planeta, hein? Por segundinhos que valem toda a infância do futuro penso que não necessito de mais nada. Só o estar aqui me basta. Só o ser eu mesmo já é suficiente. Porque às vezes o reflexo no espelho é muito mais você do que você mesmo. Os carros param, meninos como que atirados pelos bancos dos veículos disparam para fora. Seus olhos chegam antes deles a barraquinha de mangas. Sorrio para mim mesmo. Fumo. Há um sorriso ainda maior dentro de mim. O paieiro apagou. É um sinal. A estrada mexeu suas longas mechas. Tenho que ir. Pensei. E fui, ainda sorrindo e com uma frase saltitando em minha mente: que planeta, hein?
 
(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

não minto
eu tinto
eu vou ou
eu vinho?
eu tento
cá estou
extinto.

(Reynaldo Bessa)
Letes ou Mnemósine? Não encontro mais as marcas dos passos sobre minha memória daquele rapaz em sua fuga geográfica e com seu tambor de guerra fora da caixa e com Ela doendo na alma. Ele fugindo dela e ao mesmo tempo com todas as suas unhas cravadas nas costas do passado. Agarrado a ela como seu último fio. Letes ou Mnemósine? Não encontro mais a sombra daquele solitário de mochila e olhos úmidos olhando a igrejinha de Marseille por entre as venezianas da loja da Virgin. A igrejinha lá em cima como se quisesse rasgar o céu e derrubar todos os anjos. A igrejinha e o rapaz em seus gritos de peixes. Quem serei amanhã?

(Reynaldo Bessa)
noite quente
de paladar no corpo
de vinho e língua.
e que a morte
morra
à míngua

(Reynaldo Bessa

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O acaso é uma moeda que num dado momento cai em sua cabeça. Dois apostadores anônimos a jogaram para cima numa aposta insana e ela resolve cair bem em seu cocoruco. Ora, ao balcão, comendo um sanduíche de ricota com espinafre e tomando uma taça de vinho, um rapaz tímido resolve puxar assunto. Anhã! Mas ele insiste. Há algo em mim que cutuca a vida dele. Vai saber. Então, o destino com o seu sorrisinho típico de canto da boca dá o ar de sua graça: é o rapaz da britadeira que assassina a minha tentativa de sossego diário. E ao saber disso lhe encaro como se envenenasse a sua comida. Mas ele diz que acabou de casar e que sua filha acabou de nascer e que ele comprou o quartinho dela em 12 vezes e que seu chefe o odeia e que pega no seu pé e que ele tem medo de sair do emprego antes de terminar de pagar o quartinho de sua filha e diz também que tem alergia ao pó. Ele sorri apertado como se as lacunas do seu sorriso guardassem o pouco do cimento que ele acha que não engole. E ele diz que o pai está doente e que lhe pede dinheiro. Mas eu sei também que estou diante do cara de macacão que trepida sobre os meus ouvidos. Que pisoteia as minhas manhãs. O rapaz que fuça a boca do meu silêncio com sua escova de dentes de aço. Mas ele também é o rapaz com as juntas comprometidas e com uma mulher que acabara de ter uma filha e que já prepara outra. E ele diz que está juntando dinheiro para ir embora para um lugar sossegado e sem violência e sem perdição para sua filha se criar longe de todo o mal. E eu penso que esse lugar só existe na Bíblia ou na cabeça dele, mas ele continua lá, falando como se rezasse. E eu não sei se lhe dou um tiro na cabeça ou algum dinheiro. Referente ao tiro, seria bem possível que ele se ajoelhasse bem ali na minha frente, de pronto, o dinheiro, bom, ele não aceitaria, de jeito maneira. Queria trabalhar até o fim de sua vida. Ora, ele só tem vinte anos e já fala com a filosofia de uma bengala, é um pensamento reumático. Isso é o que dá roubar o silêncio de cada dia de um escritor. É a maldição das letras. Sai e acendi um paieiro. Depois joguei uma moeda imaginária para cima e escolhi uma de suas faces.Que ela caísse em outro cocoruco.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

se foi...
numa tarde silenciosa e sem nome
e eu tão longe...
sem saber
que todas as pipas seriam cortadas
que todas as ondas não mais se ergueriam
que todas as tardes seriam confusas
como sorrisos sem dentes.
cílios entrecruzando-se num silêncio de morte
e eu fazendo um café, pagando contas, sonhando sonhos
inalcançáveis.
foice...
num arder solitário e sem dono
e eu tão longe...
sem saber
que todos os pássaros seriam silenciados
que todos os frutos amargariam
que todas as folhas ficariam suspensas
feito palavras que não foram ditas
olhos semicerrados num meio adeus à vida
e eu sem fé, com ideias tontas, chorando amores
impossíveis.
fiquei...
ainda mais morto do que ele...


Reynaldo Bessa

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ponto final

(Reynaldo Bessa - o menor conto do mundo)