Espertos

domingo, 22 de novembro de 2015

As badaladas dos sinos da Sé
caindo sobre minha cabeça feito imensos girassóis.
Por alguns segundos sinto o arrepio da vida.
Aquela dentada que nos tira da morte sem mortalha.
E estou na superfície
posso ver...
posso ver...
Vejo meu corpo morto tentando me arrastar para o fundo...
e vejo os golpistas desdentados e loiros lambendo minha panturrilha
e ouço suas vozes de tobogã e sinto suas línguas de mel e veneno
e lembro daquelas que mentiram entre velas e garfadas afetadas
e com suas joias sorrindo serpentes
e por um segundo, esqueço a perda feito doídos buracos negros da memória
lembro das estrelas que me levaram,
o passado feito um coração chamuscado
posso ver...
posso ver...
na superfície, imensa e brilhante, onde não há navios,
nem horizontes, nem céu, nem dia e nem noite,
apenas um gigantesco girassol descendo lentamente feito uma aranha de ouro... e ,ali, eu, sem morte e sem medo,
ouvindo as badaladas dos sinos da Sé
arrastando-me feito uma linda sereia de peito arfante...


(Reynaldo Bessa)

o finalzinho dourado da tarde feito um pingente barato
o cheiro de café novinho, e o arrastar dos chinelos da minha mãe
meu irmão espreguiçando-se feito um gato manhoso, enquanto eu coço a orelha e penso nas figurinhas repetidas... e nas raras também...
as ruas engasgadas de vozes, longe
cachorros latindo feito cartas que nunca chegaram...
saudades do futuro
medo do ontem
e eu toco o meu irmão
como quem quer guardar um sonho no bolso
por quê? Será que as crianças são Deuses em calções curtos?:
as tarde assobiam canções de países longínquos:
idiomas estranhos que a minha melancolia sabe de cor. blackbird em meu peito franzino.


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

eu estava fora da vida
olhava-a de longe feito Moisés contemplando a terra proibida.
eu era um menino olhando um brinquedo e já sabendo que não poderia mais brincar com ele
via tudo e todos que um dia foram meus. a cada dia a vida ia-se.
até que ficou da distancia de um braço.
e eu olhava-a. Agora ela parecia um quadro na parede.
e cada vez mais longe.
eu ainda podia sentir as pinceladas na ponta dos dedos, mas ela continuava indo...
e eu me perguntei - mesmo sabendo que não havia mais ninguém para me escutar - é isso morrer? Na verdade, quem está indo? Pararemos um dia de fazer estas perguntas?
até que um dia ouvi apenas o raspar da minha unha na tela e vi um farelo da existência cair sobre o assoalho...
E depois... depois mais nada.


(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A poesia salva. Eu e um amigo, também poeta, saíamos de um lançamento de um dos nossos livros. Era madrugada. O banco de trás do carro estava abarrotado dos encalhes dos nossos queridos exemplares recém-lançados, além de alguns presentes literários de outros tantos poetas que foram nos prestigiar. A cidadezinha dormia tal qual um bebezinho no berço. As ruas eram todas nossas. Eu cochilava um pouco pelo cansaço e também por algumas taças da pinot noir. Meu amigo dirigia como se escrevesse versos pelo asfalto. Logo ao dobrar uma esquina havia um carro parado, bem no meio, impedindo nossa passagem. Paramos, de supetão, claro, quer dizer, o meu amigo parou, enquanto eu ainda voltava de um dos meus tantos mergulhos nos lagos dos olhos de Morfeu. Olhei a cena e não gostei nada. Nisso, pedi que meu amigo desse ré no carro, rapidamente. Pequenos segundos repletos de universos. Mas o meu amigo estava paralisado. Pedir que fizesse alguma coisa era como esperar que as ruas nos cantassem hinos. Foi quando apareceram três rapazinhos. Dois ficaram na frente do carro e um, mansamente, veio em nossa direção, e logo debruçou seu rosto de lua cheia bem na cara assustada do meu amigo ainda paralisado. Depois de algumas perguntas totalmente sem respostas e um silêncio AlfredHitchcockiano, ele nos perguntou: "O que é isso ai atrás?" O meu amigo pigarreou e quase num engasgo disse, livros. "Livros de quê?" de poesia. "Hum. deixa eu ver". Folheou, folheou e logo começou a rir. Leu outro poema e riu ainda mais, agora sem controle. Pra minha infelicidade, pela capa, percebi que era um dos meus livros. E o cara ria e até já chamava um dos parceiros pra dar também uma conferida no troço aberto em suas mãos. E agora os dois riam sem parar, enquanto o terceiro já se inquietava de tanta curiosidade, e eu me encolhia ainda mais. Ele pediu outro livro. Meu amigo, sem olhar para trás, assim como quem tira uma carta de baralho num jogo de azar, puxou outro. E agora o cara se rachava de tanto rir. De repente ficou sério e disse: "é disso que vocês vivem?" Meu amigo disse, não é que... "Tá, entendi. Vocês são loucos. Gostei dessas coisas ai. É poesia, né?". E nesse momento ele olhou pra mim e nisso pude ver seus olhos acesos feito dois besouros de fogo lutando com a noite. Eu disse, sim... é... "Tá. As que a professora me pedia pra ler na aula eram uma merda. Então, manos, vão andando, beleza? Que a gente precisa trabalhar" Imediatamente, respondemos juntos, eu e meu amigo: SIM. Logo ao sairmos, ainda podemos ouvir um "Que malucos, mano" e ainda mais risadas. Foi a melhor crítica literária que já tivemos. As outras foram um tanto agressivas. Já faz tanto tempo. Lembrei-me disso porque senti saudades do meu amigo. Só a poesia salva.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

uma tarde longa, longe
estalando feito papel amassado
uma só tecla no tempo: go

(reynaldo bessa)
o rosto de minha mãe feito uma roupa rota,
úmida num varal em um quintal qualquer e escuro
farelos da linearidade em meus dedos finos
sonidos num corredor que já foi demolido há várias décadas
no meu coração há manchas de quadros quebrados
é uma parede bolorenta,
a lua descola-se feito uma pele morta
meu pai amordaçado pela mão peluda e gorda de alguém com ponteiros na testa.
minha coleção de selos flutuando feito estrelas atiradas aos pássaros mais agourentos.
uma casa sem portas
numa espiral dentro de outra espiral,

o tempo fumando num quarto de um hotel barato e soltando baforadas
redondinhas e risonhas, uf, uf.
universos inteiros dentro dessas coisinhas grávidas de efemérides
um sonho antigo feito uma velha gaiola cheirando a alpiste e morte
os compartimentos da casa sem casa são feitos de léguas e cansaço, e asma.
sou um grão, algo assim, e sobre minhas costas caem gotas salgadas do rosto velho dependurado num varal em um quintal qualquer e escuro, muito escuro, e longe.


(Reynaldo Bessa)

sábado, 27 de junho de 2015

Na fila do supermercado vi o sorriso da minha mãe no rostinho de outra senhorinha. Ali estava ele, feito um besourinho emaranhado numa teia de rugas, uma luzinha como uma réstia de sol do primeiro bocejo da manhã. E a menina do caixa me chamava de tão longe, longe e eu ali, bem ao seu lado preso àquele sorriso. E a senhorinha me olhava e eu tentava lhe dizer coisas com meus olhos afogados. E eu me vi voltando pra casa, e eu não tive medo de nada, e corri por alamedas, e subi em árvores, e puxei carinhos, e senti dedos em meus cabelos, e ouvi uma voz me chamando para o jantar, mas só depois de lavar as mãos... Eu ali e alhures. Puxado feito um cabo de guerra da realidade e da memória. Ouvindo algumas pessoas reclamando na fila e vendo a moça com um sorriso que não se parecia em nada com aquele no qual eu estava enlaçado. Voltar à realidade era duro, doído, um parto ao contrário. Era tudo estranho que eu estranhei até o adulto que eu era. Errei o cartão, errei a senha várias vezes, porque nem que eu quisesse eu conseguia sair da magia do sorriso da minha mãe que havia sido emprestado por alguns segundos àquela senhorinha, que quase me fez beijá-la, como quem beija uma rosa no jardim logo pela manhã.

(Reynaldo Bessa)
Enquanto todos amavam a Lua: poetas, namorados, insones, seresteiros, bêbados, solitários & cia, eu a odiava. Não, eu a temia. Quando, ainda menino, fui ao cinema, a primeira coisa que vi, naquilo que mais parecia o meu lençol estendido na parede, foi a Lua. E ela veio para cima de mim como se tivesse se soltado do Céu. E só não caiu bem em minha cabeça ou em meu colo por que bateu a cara rechonchuda na tela, pelo lado de dentro, claro. Mas eu vi que ela olhava pra mim feito um cão raivoso preso no portão. Só não corri por que meu irmão me segurou pela mão e disse: "senta ai, idiota". precisei de muito tempo para fazer as pazes com ela. Sempre que caminho pela madrugada e a vejo ali, feito um grande pássaro de luz numa gaiola escura, eu dou, vez em quando, uma olhadinha nela, pra conferir se continua lá, bicando as estrelas.

 (Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

sei lá, mas me cansa ler essas citações ou trechos sobre determinados autores, nas capas, prefácios e orelhas de alguns livros. As pessoas falam das outras como se estivessem olhando-se no espelho. Disparam adjetivos como quem procura o ego que caiu debaixo da cama. Assim, na maioria das vezes, sem mais nem menos, sem ver nem pra quê. Ora, se há mesmo tantos gênios, por que há, então, tantos livros ruins?

(Reynaldo Bessa)
podem continuar com a roubalheira, podem mentir, podem pisotear a vida e o meu país. Ah, a minha pátria é a minha míngua.... e não quero só roçar a língua de Pessoa, pessoalmente, agora, quero roçar a minha língua à língua de Saramago. Meu coração se parte. A língua, ah.... meu coração tem uma língua enorme...

(Reynaldo Bessa)
Não tenho medo mais, talvez ainda tenha medo de não ter medo. Fui convidado a me retirar da minha infância, fui ao velório do meu super-herói e vi tudo como um descrente ajoelhado no primeiro banco da igreja. Vi minha mãe caminhando sobre nuvens de palavras pagãs, vi meu pai de terno preto quando atravessava o sol, vi os lábios murchos dos corações mentirosos, ah, vi tantas despedidas que ainda aceno ao menor sinal: um tilintar de pratos, por exemplo... vi minha música ser retirada logo ao começar, ah, vi minha vitrola ser despedaçada, me mordi pensando em lábios cheios de vincos úmidos, e vestidos esvoaçantes com seus risos de esguelha, tive sonhos líquidos em banheiros fechados e repleto de silêncios fofoqueiros, ouvi, e ouvi, Pink Floyd para tentar me proteger de mim mesmo, mas não sabia que o inimigo era ainda mais eficiente com sua cantilena desafinada... li tudo como uma forma de me isolar e quando vi estava dentro de um mundo ainda mais repleto de pessoas... ah, essa vontade de voar que me persegue desde a primeira surra... ainda guardo a capa de superpoderes do meu irmão. Ele agora conserta um vazamento no Paraíso... e essa vontade de voar... o asfalto, as girafas, as luzes, e ainda essa vontade de voar... vou abrir mais um vinho...quem sabe apareça um birdman em minha janela... quem sabe o salto não demore tanto, ou eu possa voltar a fita como num velho cassete... e que esteja tocando.... algo.... algo que eu não goste e que não me lembre nada... até...até o beijo nos lábios escuros da viúva sacaninha.... e pronto.

(Reynaldo Bessa)
Na minha família os homens, contrariando as normas, decidiram tomar a frente das damas e se mandaram. Do mais velho para o mais novo, feito uma escadinha cadafalso. Pela lógica eu sou o próximo. Que seja, tirei zero em lógica, sou um sujeito completamente incompleto, abstrato por natureza, e subjetivo pela linguagem.... Então nao discuto, ponho um disco e escuto e não espero, porque esperar é jogar cartas e roubar a si mesmo... nao espero, fico num lero, lero, leio bula de remédio, manual de engenharia, nomes de crianças da renascença, até leio epitáfio.....mas nao espero...fico aqui, olhando para os lados e tentando arranjar um jeito de sair da fila, lógica, bendito zero.... como diz um amigo meu, o 10 é uma nota definitiva, o zero, ah, o zero é aquele amigo que te ouve e até deixa vomitar nele quando voce achou que saquê nao pega... ah, nem sei mais o que eu quis dizer.... tô na adega...

(Reynaldo Bessa)
demolido
pelo tempo,
sim
mas não a casa
que mora
em mim


(Reynaldo Bessa)
Andei por tantos lugares, ah, os canais de Amsterdã, as bicicletas e as pernas estonteantes pedalando o tédio e empurrando a cidade fria com os coturnos trágicos ainda ressoando nos paralelepípedos. Não há o longe nem o perto, tudo é o que é. E todos querem ser diferentes, mas a saudade, feito um peixinho no aquário é sempre a mesma, assim como a solidão encostada na esquina e palitando o futuro, assim como a chuva caindo.... E o que ela poderia fazer além disso?

(Reynaldo Bessa)
Quando num determinado dia o sol põe a língua de ouro pra fora e mostra o céu da boca azulzinho, e você cheio de si aperta o play, e ouve uma música que há muito havia esquecido - assim como se esquece fotos em gavetas abarrotadas - percebe que já não é mais o mesmo. Para onde você foi nesse meio tempo? Onde esteve e por que resolveu não voltar? O que há de tão interessante por lá? É, você já não é mais o mesmo. E não adianta reclamar. Cada minuto, cada segundo contou e está contando, como um taxímetro que só irá parar quando você descer de si mesmo. E ainda assim, o táxi irá embora carregando um dos que você já deixou de ser. O que desceu muito em breve deixará de sê-lo para tornar-se um sonho alheio. É que só lembramos de nossas velhas malas quando já embarcamos... E não há muita coisa a fazer... com a Vida só podemos lutar a favor... e não há coisinhas e nem coisas mais importantes, há somente ela, a Vida... Não há como se embebedar com seus vislumbres sem estremecer com seus olhos cheios de mistérios e esquinas...

Foo fighters no máximo volume....

(Reynaldo Bessa)
Quando os caminhos eram longos e meu campo de ação ia só até onde alcançava o grito do meu pai: "ei, menino", eu queria ver a rua logo que a noite adormecia com suas longas mechas caindo sobre o assoalho. Todos os barulhos sobrevoando a cabeça dessa bela moça de cílios longos e bem negros. Os grilos, a cachorro latindo ao longe (nunca me parecia com aqueles cachorros sonolentos sob os balcões dos frigoríficos, no dia seguinte) um choro de bebê saindo pela fenda de alguma janela, passos na rua, às vezes até um sussurro. Eu queria ver a rua na noite, assim, deitada em seu leito e em sono profundo, mas eu não podia. Além das advertências do meu pai, eu precisava de um querer ainda maior que o meu medo da noite, daquela rua tão deserta, misteriosa e além de mim, e cheia de barulhos que só surgiam quando o dia saía de fininho feito um aluno matando aula. Eu queria. Ai eu cresci, e lá estava eu, sem nem bem perceber, diante da rua, em plena noite escura. E os caminhos ficaram curtos e não havia mais os gritos do meu pai: "ei, menino". E havia o quê? Não era a mesma coisa. Aquela rua no meio da noite não era a mesma que eu queria ver, cara a cara. Eu havia crescido ou a noite havia diminuído? Ai pensei, um pensamento em gotinhas salgadas cheias de tempo ainda morno: eu podia ter alfinetado aquela minha rua como eu fazia com minhas borboletas, eu podia ter colado em meu álbum em cima de alguma figurinha da qual eu não gostava muito, eu podia ter colocado moldura nela, na minha rua, e pregado-a aqui, bem no meio do meu peito, mas não, deixei-a só em minha lembrança, feito aquela música que só a ouvimos quando sentimos que não há mais nada para querermos ver. Há noites assim.

(Reynaldo Bessa)
Fragmentos de noites, como se de fogueiras apagadas, cinzas caíssem sobre minha cabeça: ah, aqueles morcegos chupando os dentes podres, em sibilo desesperado. Pareciam ratos fugindo de gatos voadores.

(Reynaldo Bessa)
Tentando sentir o cheiro das coxas da minha mãe, assim como Tarkovsky tentando abrir a porta no meio da umidade.

(Reynaldo Bessa)
OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA
OFICINAS CULTURAIS ALFREDO VOLPI
Coordenação: Reynaldo Bessa (músico, professor, escritor e poeta)
29/7 a 16/9 – quartas-feiras – 19h às 21h30
Público: estudantes e interessados a partir de 16 anos
Inscrições: 14/7 a 24/7
Seleção: questionário
15 vagas


(Reynaldo Bessa)
O futuro
De vestido novo
Tudo velho

(Reynaldo Bessa)
Saudade
É o amolar
De facas

(Reynaldo Bessa)
o coração tem que bater, deixa
mas, aturdido, apanha tanto
que se esquece de dar queixa.

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Há algum tempo, quando este não passava de um quadro na parede, disse que no ano 2000 eu estaria com uma certa idade. Esta. Chegou, e chegou cedo, muito antes do leiteiro por o leite na porta. Agora, toda idade é incerta, assim como as minhas equações do 2º grau que nunca batiam, ou como quem marca seus compromissos em antigas agendas. Bah! Mesmo que o tempo não queira, eu o coloco novamente pendurado na parede, simplesmente porque não posso pendurar a minha conta em sua mercearia cósmica. É a vingança cronológica. a minha impossibilidade de empurrar o mês do meu marco zero. A experiência é mesmo um médico que chega sempre atrasado.

(Reynaldo Bessa)
às vezes saio da rota
como se mudasse meus passos da marcha
do tempo. Como uma foto que se desprende do velho álbum.
e fico ali, parado, feito quem vê o mundo pela primeira vez.
no meio de um carrossel, vejo as cenas repetindo-se, indo, vindo,rodando
e rio do meu nome, do que faço, do que sou
rio dos meus sonhos.
e escuto os sussurros das coisas. E vejo o invisível que sempre esteve ali
a folha na calçada em seu murchar ensurdecedor
o arranhar do sol, feito uma unha rasgando um tecido
o anjo pedindo socorro
e eu não tenho pai, nem mãe
e eu não vim de nenhum lugar
nem vou a lugar algum
e a morte não me mete medo
e eu não penso nos tapas que ela já me deu
apenas a vejo, feito um homem que observa uma silhueta de um desconhecido ao longe... olho tudo isso como se tivesse caído numa das armadilhas do tempo
sou como um bebê hipnotizado com o móbile
quando eu saio da rota, e mudo meus passos da marcha do tempo
ouço o frufru do vestido da vida
e, parado, como um peça eliminada do tabuleiro...
longe do jogo do afã insano, rio, apenas rio
e isso já é muito.


(Reynaldo Bessa)
O dedo sujo do medo
O espelho com luvas de cetim
A noite feito mil gatos pretos enforcados
A alegria tal qual um bombom ainda envolto no papel
e tilintando nos dentes
NatoxeL, LirtroviR, + medo com água e açúcar
O amor no varal
Silêncios sem cais
A infância com seus sonhos de dentes de leite coalhado
brincando na chuva e rindo com rimas de pesadelo
O passado como o hálito ruim do futuro
O gelo boiando e batendo no copo feito um barco fantasma
A esperança num leito de hospital
O Nada se balançando na cadeira
Olhos querendo rios,
O mar de Tudo boceja
Enquanto alisa a pança.
O escaravelho come larvas no jardim.

(reynaldo bessa)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

meia nove
é a única respiração
boca a boca
que pode salvar
uma noite
afogada


(reynaldo bessa)
estive com Caetano Veloso,
cara a cara; um lance meio Odara, sabe?
até achei que ele fosse me beijar na boca ou
me cantar leãozinho, falar do GIl, do Chico ou do pelourinho.
pensei ainda que ele viesse pra cima, com uma rima meio à sua
música Língua, mas, não, não minto, ele só apertou o cinto
ajeitou os óculos, e disse bom dia.
ou não? Caetano é o mundo todo.
um menino lindo.


(Reynaldo Bessa)
ainda não nasci.
estou grávido de mim mesmo.
espero-me ansiosamente.
essa coisa de data de nascimento
é de morte.

(Reynaldo Bessa)
A morte tem seu próprio calendário.

(reynaldo bessa)
sou arrastado
meus dedos agarram-se
na mão lisa do passado
estamos por um triz
o futuro, este padrasto senil,
me segura pela cintura
e me promete um brinquedo
que já sabe, não pode comprá-lo:
só quero minhas lembranças
a corda, com todas as suas rodinhas e sirenes
giratórias...


(Reynaldo Bessa)
há algo de melancólico nestas placas,
também naquelas árvores ao longe feito camelos indolentes.
a estrada lânguida dança sob meus pés,
a minha frente,atrás também...
uma dançarina contorcendo seu ventre de concreto.
há um mundo veloz lá fora,
mas dentro deste tambor bem no meio do
meu peito há ainda mais mundos e ainda mais velozes.
de novo na estrada. Que paisagem! Tento lambê-la,
mas sei que isto será o mesmo que um homem que
lambe o vidro da vitrine de uma loja de doces.

(Reynaldo Bessa)
num hotel longe de tudo
onde penteio a franja do mar
um vinho daqui, uma gentileza da casa:
vou pinot noirando minha língua
a camareira agacha-se feito uma rainha,
dobra o lençol como se fechasse uma carta de amor.
Penso em tudo. O menino que sou puxa a camisa do homem que sou, e indo...
há uma calma de altar
na porta do meu coração, há também, um
"Please, Disturb" Sempre.
bata suavemente com os nós dos seus dedos trêmulos na porta dos meus lábios.
E entre...


(Reynaldo Bessa)
acordei com ares de Fusca,
colorando RQ.
Vontade de usar um macacão,
deixar o cabelo crescer,
e as costeletas também.
Vontade de ouvir meus discos tão rabiscados quanto eu,
chegar nos amigos com o dedo em V, cabelo ao vento, sorriso 78 rotações por minuto.
Vontade de dizer "pode crer"
de atrasar os relógios, usar pulseirinhas fedorentas,
ficar à toa,
comprar uma prancha de surf só para guardá-la no quintal,
ver álbuns de fotos dos meus futuros filhos,
sorrir para a barriga da minha mulher que ainda ficará grávida, e 
pensar se arranjo um emprego ou brinco de Atari, War ou Banco Imobiliário. 
Vontade de ver Brasil e México, de novo e de novo. 
Vontade, Vontade...
É uma coisa embaladinha em papéis coloridos e estaladinhos, 
desses que roubam a atenção das pessoas numa sala de cinema escurinha e silenciosa. 
Vontade meio boca de sino e fivelas astronômicas. 
Vontade flashback. 
Isso sempre me chega toda vez que esse sol de olhos de Cristo de calendário e 
hálito de barbearias me confidencia que tem vontade em minhas vontades. .

(Reynaldo Bessa)

domingo, 19 de abril de 2015

Inumano, demasiado, inumano.


Muitas vezes não sabemos bem o que pensamos, e ainda pior; o que sentimos. Uma coisa tá ligada à outra, claro: sentimos o pensar e pensamos o sentir. Somos sinestésicos, assim como a bananeira é uma pacoveira, porém tudo isso acontece mais rápido que num piscar de olhos, e portanto, muitas vezes nem percebemos o porquê tal coisa nos causa tal sensação. Enfim, não gosto das vozes metálicas dos anúncios nos Metrôs. Não importa onde. Pode ser em São Paulo, Madrid, Paris, Londres ou até até mesmo nos Jardins Suspensos da Babilônia. O perfil é sempre o mesmo. Por algum motivo, não me sinto bem, já disse, com estes avisos que invadem a nossa paciência sem nem bater os pés no tapete da porta da frente.

“Srs. Usuários, não ultrapassem a faixa amarela”.

Srs, usuários? Não há mesmo uma expressão mais camarada? E o verbo sempre no imperativo? Eles não aprenderam a conjugar os outros modos do mesmo verbo? Há um tempo mais antipático e autoritário do que o imperativo? É só perguntar às crianças. Perguntem-lhes o que elas sentem diante de um: coma, durma, cala a boca, beba, e por ai vai... 

“Sr. Francisco, por favor, comparecer a SS, Ó!

Por Deus! Será que ele vai ser fuzilado? Ou até mesmo demitido? (Porque hoje em dia é melhor ser fuzilado que demitido). Bom. Mais uma:

“Srs, usurários, perdão, usuários não fiquem na região das portas”.

Claro que a maioria das pessoas gostaria mesmo era de estar na região nordeste, na praia, tomando uma gelada... Porém não é o caso aqui, né? Estamos mesmo é ali no canto, apertadinhos, espremidos, buscando o lugarzinho mais próximo possível da porta, para conseguirmos descer na estação do nosso destino. Porque os educados; aqueles que vão lá para o centro do trem, descem sempre duas estações depois, e isso quando conseguem descer. E nós, espermatozoides preguiçosos, mal-educados, apenas ficamos, ali, esperando o impulso da multidão desenfreada, para conseguirmos enfim, desembarcar. 

“Solicitamos a todos que evacuem a estação”.

Nossa mãe, "todos"? Todos quem? Nós? TODOS. Então, por que eles também não evacuam a estação? E "evacuem"? Palavrinha polissêmica, neutralizada pelo contexto, é certo, mas será que todos entendem o que significa polissemia, contexto, neutralidade? Acho que não. Então, enquanto um senhorzinho já desafivelava o cinto, fui logo lhe dizendo: “sinto, mas o senhor não entendeu. Num é “na” estação, é “a” estação. E tem um banheiro logo ali, ó!” Mas voltando a voz metálica, evacuar a estação por quê? Fica a nossa pergunta e o nosso olhar de gato que foi expulso pelo rato. Nunca sabemos o porquê.

Bom, há tantas outras e outras que ouvimos todos os dias sem pena. Avisos feito flechas saindo da floresta de concreto e frieza. uma ordem disfarçada de solicitação. Temos a impressão de que é preciso ficarmos em posição de sentido ou até mesmo batermos continência, sim, quando ouvimos estas vozes de lata arranhando nossas orelhas e o nosso dia de lata. 

ah, tem um jeito sim, sempre tem. O cara lá em cima ou lá embaixo, sei lá, vai saber, poderia dizer:
“Ei amigo, sim, você aí, é, você não está me vendo mais eu estou te vendo, coisas do ofício, mas amigo, poderia, por obséquio, dar dois ou três passinhos para trás da faixa amarela? Sim, é que se eu não te pedir isso, o meu chefe, sabe? Então, valeu, camarada, obrigado”. Ou:

“Queridíssimos amigos, aí, que estão nas portas, sei que é difícil, acredite, quando não estou aqui, nesta saleta gelada, estou ai também, e faço exatamente o mesmo que vocês, senão depois fica difícil descer, né? Gente demais, trem de menos, correria... mas amigos, amigos queridos do meu coração, poderiam afastar só mais um pouquinho para o canto. É que algumas pessoas vão descer na próxima estação, pode ser? Valeu camarada. Obrigadinho”.

Ah, e quando a voz de mulher, seria bom que fosse aquela voz rouca, malemolente, sensual, assim despertando todos os meus sonhos adolescentes dormindo sob a marquise da minha vida sem tempo. "Ei, bonitão, tudo bem? Sim, você, por favor, gatinho, não embarque nesse trem, ok? Porque ele não prestará serviço. Está com problemas técnicos e portanto vai para a revisão, mas olha, estou aqui, tá? Sempre prestativa. Tá a fim de pegar a sessão das cinco?

Ah, e ele ou ela, não importa, ainda podia, uma hora ou outra, nos intervalos dos anúncios, até assobiar  uma canção, tamborilar um sambinha do Adoniran... Também podia me pagar uma gelada, uma hora dessas, quem sabe, ou enviar-me, no meu aniversário, um email simpático, ou até mesmo um cartão, no natal, então, podia, nénão...?


(Reynaldo Bessa)

sábado, 4 de abril de 2015

só
ficar
é
ficar
só


(Reynaldo Bessa)
Dicionários:
ora, foder não é o mesmo que copular.
quando você quer foder alguém, você fode,
não copula.
copular é Coppola,
foder é Almodóvar. 


(Reynaldo Bessa)
meia nove
é a única respiração
boca a boca
que pode salvar
uma noite
afogada



(reynaldo bessa)
Estive com Caetano Veloso,
cara a cara; um lance meio Odara, sabe?
até achei que ele fosse me beijar na boca ou
me cantar leãozinho, falar do GIl, do Chico ou do pelourinho.
Pensei ainda que ele viesse pra cima, com uma rima meio à sua
música Língua, mas, não, não minto, ele só apertou o cinto
ajeitou os óculos, e disse bom dia.
ou não? Caetano é o mundo todo.
Um menino lindo. 



(Reynaldo Bessa)
eu não tirava os olhos dela:
nunca a esqueci, ali, de olhos fechados, mãos juntinhas, esperando os seus pecados dissolverem-se. Eu olhava aquelas panturrilhas atrevidas sobre aqueles genuflexórios mofados, enquanto via aquele vento pecaminoso jogando o leve vestido contra seu corpo feito ondas batendo nas pedras de uma ilha virgem, enquanto o meu desejo derretia-se em minha boca... Eu tinha que fazer um esforço danado para acreditar que era o corpo dela em minha língua perdida, e não a do Salvador...

(Reynaldo Bessa)
Meu beijo fala a tua língua.

(Reynaldo Bessa)
ainda não nasci.
estou grávido de mim mesmo.
espero-me ansiosamente.
essa coisa de data de nascimento
é de morte.


(Reynaldo Bessa)
entre mim e ela,
nenhum diálogo.
então, que nasça
o dia logo.


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ela se foi
com sua senilidade no bolso de trás.
logo estará pelas ruas e
dormirá sobre um vidro de janela quebrada e
sentirá o grito dos seus ossos pontudos
e receberá ordens de subalternos e
o presente, o passado e o futuro virão
feito credores insanos
e ela fará perguntas sem respostas
e se esquecerá do filho morto, assim como uma criança
esquece o troco sobre o balcão e
sentirá o coração bater sem pretextos
e sua respiração varrerá o mundo
e perguntará onde poderá se desligar
para se esquecer em seu esquecimento.
e ela pensará que o barulho do mar
é o seu vestido de casamento arrastando-se pelo chão de uma igreja vazia
e o dia queimará suas retinas cinzentas de cansaço
e ela não perguntará onde estão os seus filhos
porque é a sua vez, depois de muito velha, de ser a filha mais nova,
a caçula no meio da maldade madura,
no meio da indiferença de cabelos brancos...
e ela terá medo, muito medo
porque não existe mais solidão
do que toda essa lucidez particular
a lucidez do pássaro voando ao contrário

não existe notícia pior
do que alguém que se foi para bem longe
quando você ainda o tem preso
ao cordão umbilical bem no meio do umbigo do peito.
quando você ainda está sobre o colo,
chorando porque apanhou na escola
Mas que colo? Que escola? Que choro?
Que o quê?
Ela se foi...
e você é um órfão da distância... O tempo, o passado
são só o toque do dedo em riste da sineta do intervalo que durará
toda a vida de morte
Ela se foi. 


(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Gosto de olhar a rua esparramada e só. Maquiada feito uma viúva que espera o marido para o jantar. Depois da chuva, ela lá, feito um cão tentando lamber a bunda da noite. Cortinas solitárias de uma peça em fim de temporada. Mas eu olho a rua que nem uma mãe olha seu filho no berço. E nunca se sabe quem cuida de quem. Olho a rua vaidosa e a lua deslizando suave feito um batom sobre seus lábios negros. Olho a rua ou a rua me olha?

(Reynaldo Bessa)
Oscar Wilde disse que um homem é sempre menos sincero quando fala de si mesmo. "Dê-lhe uma máscara e ele contará a verdade",mas, penso que tenho mesmo duas idades - segundo o poeta:  em vida e em morte. Portanto, no momento só tenho uma, esta.

Faço o que gosto, por isso, não trabalho. Ganho o meu pão com o suor do meu riso de olhos úmidos. Meu trabalho é meu lazer: leio, escrevo, viajo, degusto, amo, desamo, leio... e tudo de novo e de novo como o desejo-autorama. Escrevo não para autografar, posar de intelectual, comer as menininhas, quem dera. Escrevo para escapar de mim mesmo. Mas acho que já disse isso aqui diversas vezes. Sei, é um saco.

Não sou filho único, graças, isso seria um fardo muito pesado. Teria que conversar com minha própria sombra e iria querer saber mesmo suas opiniões.

Às vezes, gosto das pessoas. Como não poderia? Há muito de mim em cada uma delas.
Às vezes não gosto das pessoas. Como não poderia? Há muito de mim em cada uma delas.

Tenho sonhos, "ainda", e este "ainda" teima em vicejar contra minha vontade.
Não tenho esperanças. Porque é como dizia outro grande poeta: "a esperança é um urubu pintado de verde". Mas resisto feito a garrafa meia cheia. Espero como alguém espera um irmão - que já se foi - chegar no próximo trem. Fico lá, sob a chuva, encostado no rosto da noite.

Sou leal, até onde sei. Quero pensar assim, mesmo que esteja, talvez, equivocado. O Urubu de vez em quando desbota uma das asas.

Enfim, eu sou isto, aquilo e talvez aquilo outro:
uma história sem trama,
personagens de mim mesmo
narrativas
não lineares.
talvez...
só sei que nunca comecei,
e portanto, nunca terminarei.

sou isto: uma incoerência. 

(reynaldo bessa)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um maluco me disse que Nietzsche salvou sua vida. E eu digo que Friedrich não salvou minha vida coisa nenhuma. Ele era um maluco. Sim, genial, mas maluco. Nunca gostei de quem acredita ou desacredita demais em algo. E o filósofo alemão desacreditava tanto que me fazia acreditar no inacreditável. Dizem que a mãe era uma religiosa. Bom, quem salvou mesmo minha vida foi Bukowski. Porque sempre gostei de quem desacredita mas mantém uma esperançazinha no canto do olho. Como um dia de sol com gotas estalando na janela. Como ainda conseguir um sorriso depois de levar um soco no rosto, dado por um imbecilóide da escola, porque a gostosinha também da escola beijou o mesmo rosto. Gosto dessa esperança ridícula como uma chuva ameaçando cair sobre crianças brincando no recreio. 

Poucos me salvaram a vida. Porque essa brincadeira sem graça é como um quebra-cabeças faltando peças. E uma caixa de quebra-cabeças tem apenas uma possibilidade de estar certa. Só há apenas uma imagem completa. Se você balançar a caixa a caminho de casa terá um caos colorido: inúmeras possibilidades de erros na imagem. Porque a tendência é o caos. 

Ah, mas falo de Bukowski, mas antes dele tem Henry Miller, e muito antes desse, tem Louis-Ferdinand Debouches. Sim, o Céline. Este me fundiu a cuca com sua cuca fundida. Ou fudida, sei lá. Porque nada mais é doído e engraçado que Bukowski. E se ele está abrindo uma garrafa enquanto uma mulher está no banheiro e prestes a sair com um vestido azul, então... Porque Bukowski num é triste nem feliz: é uma mescla disso: feito vestidos de ontem, suados e perfumados, dentro de um cesto de roupas sujas. Melhor que isso, só se Deus apagar a lua antes de dormir...


(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

o relógio
não marca o tempo,
masca as horas.
o tempo não tem tempo, ora.
é agora.

 (Reynaldo Bessa)
cansaço, talvez,
por um momento me pareceu
que a realidade se abria e dela surgia outra realidade
como se algo tivesse feito um corte na pele disso que achamos que vemos
e logo outra realidade tentasse se esgueirar pela fenda.
olhei para o horizonte e por alguns minutos achei que seria tomado, invadido, banhado por essa coisa sem nome.
quando a sensação se foi
me senti como um personagem de um sonho de alguém
que dorme eternamente
para que eu não desperte.

(Reynaldo Bessa)
Gosto das mulheres, mas gosto ainda mais dos seus movimentos. Por exemplo. Fico sem ação, feito um macho que recebe uma boa dose de veneno, quando uma beldade, em poucos movimentos, prende o cabelo. Penso que foi assim que Deus criou o mundo e a confusão...
Movimentos são diferentes, assim como o sinal verde é pra passar e o vermelho... Bom, o semáforo já é clichê, mas os movimentos de uma beldade nunca os são.
Uma mulher se vestindo ou se despindo: são como palavras diferentes numa mesma sentença. Um veredicto: a cadeira elétrica ou o vento da liberdade lânguida na cara. Quando ela caminha dá pra perceber se corre para o filho que a espera ou para o amante que se desespera. Quando uma mulher olha pra você e os olhos se agitam, se inquietam, se perdem, fogem e depois voltam como um devoto pedindo perdão ao seu santo predileto ou entregando suas curvas tortuosas a Sade é porque, se tudo der certo, haverá muito movimento... não aguento isso... tudo é movimento.. e em se tratando de mulher, tudo é um quase terremoto. Até parada a mulher faz o mundo rodopiar... e eu... Eu? Eu olho... e por enquanto, basta.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

a foto do meu pai ainda jovem:
seus olhos longe feito navios encalhados,
e seus óculos com um durex em uma das pontas – como sempre - e
isso me prende como alguém tentando enxergar no escuro...
e vejo o corte do cabelo, sua camisa branquinha, e
feito um motorista dirigindo sob a chuva, tento ler algo na paisagem,
mas tudo é como num sonho espatifado e que
tento evitar um corte nos inúmeros cacos espalhados pelo chão... (Cortázar detestava as reticências)
sua boca sutilmente puxada para o canto me faz pensar numa alfinetada do destino segundos antes do click...
parece que não tinha ainda bebido nada, pois seus cabelos estavam sagradamente penteados e sua pele não era a de um índio pintado para a guerra
olho a foto e me vejo nela
como meu rosto refletido num lago.
é como se a foto me olhasse de dentro do seu tempo.
feito um bichinho assustado me espreitando da toca:
talvez os olhos dele que também são meus,
talvez seus sonhos esquecidos pelo caminho que é onde estou agora
e ele me olha
e eu o olho
e quem é quem?
por um momento penso ter ouvido uma pergunta,
e logo me concentro em seus navios encalhados....
sua papada, sua camisa branquinha...
quantas palavras naqueles olhos...
sei que é apenas uma foto,
talvez por isso mesmo farei agora todas as perguntas
que o tempo, a covardia e a distância não me permitiram...
pai, lembra daquelas cítaras que o.....



(Reynaldo Bessa)