_Demorei muito a chegar?
_Não
_Quer uma bebida?
_Obrigado.
Não bebo em serviço._Quer uma bebida?
_Por
favor, sente-se. Fique a vontade.
_Obrigada.
_Posso
lhe fazer algumas perguntas?
_Claro.
Quantas quiser.
_Você
é feliz?
_Sim.
_Não
se sente meio culpada?
_Não.
_Certo. E como será?
_Eficiente
_Eficiente
_Há algum jeito de
mudar isso?
_Jeito há, o que não há mais é tempo. E o que você teria para oferecer?
_Penso, que nada. Parece-me um trabalho monótono, pesado, chato, não?
_Não o considero chato. Existe um método, sim e eu o sigo à risca, mas não poderia chamá-lo de chato. Há outras coisas além disso. É como uma coisa que mantêm muitas outras funcionando e vice-versa. Quando uma moeda é colocada em movimento, suas faces se misturam, e por isso há tanta filosofia que pensa se referir à uma, quando na verdade esta falando acerca da outra. Uma na outra, mas mesmo assim, independentes. Olhar nem sempre é ver. Sei, isso é um clichê. Perdoe-me.
_Jeito há, o que não há mais é tempo. E o que você teria para oferecer?
_Penso, que nada. Parece-me um trabalho monótono, pesado, chato, não?
_Não o considero chato. Existe um método, sim e eu o sigo à risca, mas não poderia chamá-lo de chato. Há outras coisas além disso. É como uma coisa que mantêm muitas outras funcionando e vice-versa. Quando uma moeda é colocada em movimento, suas faces se misturam, e por isso há tanta filosofia que pensa se referir à uma, quando na verdade esta falando acerca da outra. Uma na outra, mas mesmo assim, independentes. Olhar nem sempre é ver. Sei, isso é um clichê. Perdoe-me.
_E quem a põe em movimento?
_Outros
movimentos. Você que sempre gostou tanto das palavras, das comparações,
explicações – sou lacônica, e nada afoita à explanações – compare-me à um
simples carteiro. Entrego cartas, porém desconheço o teor e seus respectivos remetentes.
Meu contato, direto e reto, é com o destinatário. Sou um emissário que
desconhece o emissor, e quer saber, isso não importa, não conta. Como disse
anteriormente: uma coisa que mantêm outras funcionando. Só isso. Entende?
_ Uma
definição muito bonita para um trabalho tão odiado.
_O
ódio é uma carta escrita para si mesmo. Vejo você ai, curvado diante da sua bebida. Olho você e suas rugas e seu olhar de peixe morto. E cá estou para resolver esse entrave, essa velhice que é arrastada como um segundo corpo morto. Chama
isso de trabalho odiado? Olho você flácido, triste, e que apesar de ter se
perguntado tanto, toda a vida, acabou se cansando de esperar pelas respostas, e
que a única resposta que tem agora é a de que se vai. Porém, saiba, toda essa
decadência envolve algo que eu não
saberia explicar. Como disse, sou sucinta e nada adepta a explicacionice. Além do que, esse
algo trata do existir e eu só entendo do não existir. Essa coisa é como aquele menininho vestido de marinheiro, que num
domingo de sol e céu azul, sentava diante da porta de sua casa, vez ou outra
conferindo a esquina, para ver se sua mamãe surgia com seu sorriso acolhedor.
Esse menino ainda existe, lá dentro, encoberto por esse corpo roído, cansado, carcomido,
enrugado, caído, fraco, destroçado. Não se preocupe, no menino não tocarei.
Não tenho esse poder. Esse menininho é como a semente que de alguma forma ainda
vive na árvore que apodreceu. Elimina-se o efeito, nunca a causa.
_Perdoe-me,
não quero parecer mal-educado, mas preciso deitar-me um pouco. Se não se
importa. Estou muito cansado. Mas acho que você sabe muito bem disso...
_Sem
problemas.
_Obrigado.
E depois disso, como quiser...
_Ok!
Ele
entrou no quarto. Deitou-se. A cama rangeu. Depois veio um silêncio como se o
mundo tivesse adormecido também. Ellae
ficou na sala, no mesmo lugar onde estava anteriormente. Só cruzou as pernas e conferiu
o relógio. Sabia que ia ter que esperar algumas boas horas, talvez um dia
inteiro, mas não dois. No máximo pela manhã, bem cedo, teria que partir. Entrou no quarto. Sentou-se num
canto escuro. Fitou-o. Conferiu alguns objetos: o relógio de pulso sobre o
criado-mudo, o despertador empoeirado, o quadro torto, os sapatos juntinhos. Demorou-se
no crucifixo. Voltou a mirá-lo: dormia reto e com as mãos sobre o peito. Nunca se esparramava pela cama. No dia
seguinte seu leito parecia intacto. Ao levantar-se, deslizava as mãos pela
colcha e pronto. Parecia não querer amassar a noite com receio de não conseguir consertá-la pela manhã. Pior do que guardar suas próprias lembranças era ter que
guardar as lembranças dos outros também. Pensou. Sentiu a costumeira sensação de que pesava
o dobro do seu peso. Veio a vertigem, o turbilhão. Depois o vazio. A unicidade. Por fim, o
restabelecimento. Olhou em volta. Apagou as luzes e em seguida fechou a porta
atrás de si. Estava amanhecendo. Gostava dessa hora entre a noite e o dia, como
a moeda em movimento que falara há pouco. Que comparação mais babaca. Pensou.
Lembrou-se dele. Mais um, ou menos um: questão de ângulo. Logo o esqueceria. Era assim com todos. Respirou profundamente, e por fim, cheia de orgulho,
disse: ainda sou muito boa nisso.
(Reynaldo Bessa - Pequenos textos sobre o fim)

