Espertos

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Não escuto muito o cantar dos passarinhos, aqui, da minha varanda. Às vezes, aos domingos, quando as britadeiras são abandonadas, e os carros baixam suas febres, aí, eu escuto até o tiritar dos dentes da Catedral da Sé, morrendo de frio, e a estátua do Adoniran assobiando um novo samba. Mas eu estou falando de uma quinta-feira, não de um domingo cheirando a barbearias... Ah, esta chuva paulistana. Esta que quando você olha para um lado e depois se volta para o outro e já é chuva. Aí da varanda, com uma caneca esfumaçando, apuro os ouvidos e fico ouvindo esta canção, esta, sim, tá ouvindo? A água pegando carona nos pneus dos carros na tentativa de voltar ao céu. Ao céu cinzento desse meu amor transparente por essa cidade de não sei....

(Reynaldo Bessa)

sábado, 28 de setembro de 2013

Esperei o meu pai toda a vida. A vida toda. Conheci todas as esquinas, artimanhas. O tempo: o conheci mais que Einstein. Também todos os seus brinquedos e suas formigas mortas. Esperas, esperas. Mas nenhuma se compara a última espera. Eu não podia mais usar meus olhos como o bastão que o impediria de cair, porque ele não dobraria mais a esquina como um homem que procurava seus pés como se estivessem desprendidos de suas pernas. Um Chaplin que sai da tela e busca o caminho de casa. Ele agora era um papel dobrado, bem dobrado dentro de uma gaveta. Um papel que ninguém queria ler. Quando aquele carro feio olhou pra mim, eu até pensei em fazer uma careta. Uma das minhas caretas mais terríveis, mas esse tempo já havia passado. Sim, não havia mais tempo para caretas. Eu só franzi a testa, mordi os lábios e...aos solavancos, disse: é aqui... Só isso.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Ellae


_Demorei muito a chegar?
_Não
_Quer uma bebida?
_Obrigado. Não bebo em serviço.
_Por favor, sente-se. Fique a vontade.
_Obrigada.
_Posso lhe fazer algumas perguntas?
_Claro. Quantas quiser.
_Você é feliz?
_Sim.
_Não se sente meio culpada?
_Não.
_Certo. E como será?
_Eficiente
_Há algum jeito de mudar isso?
_Jeito há, o que não há mais é tempo. E o que você teria para oferecer?
_Penso, que nada. Parece-me um trabalho monótono, pesado, chato, não?
_Não o considero chato. Existe um método, sim e eu o sigo à risca, mas não poderia chamá-lo de chato. Há outras coisas além disso. É como uma coisa que mantêm muitas outras funcionando e vice-versa. Quando uma moeda é colocada em movimento, suas faces se misturam, e por isso há tanta filosofia que pensa se referir à uma, quando na verdade esta falando acerca da outra. Uma na outra, mas mesmo assim, independentes. Olhar nem sempre é ver. Sei, isso é um clichê. Perdoe-me.
_E quem a põe em movimento?                                                        
_Outros movimentos. Você que sempre gostou tanto das palavras, das comparações, explicações – sou lacônica, e nada afoita à explanações – compare-me à um simples carteiro. Entrego cartas, porém desconheço o teor e seus respectivos remetentes. Meu contato, direto e reto, é com o destinatário. Sou um emissário que desconhece o emissor, e quer saber, isso não importa, não conta. Como disse anteriormente: uma coisa que mantêm outras funcionando. Só isso. Entende?
_ Uma definição muito bonita para um trabalho tão odiado.
_O ódio é uma carta escrita para si mesmo. Vejo você ai, curvado diante da sua bebida. Olho você e suas rugas e seu olhar de peixe morto. E cá estou para resolver esse entrave, essa velhice que é arrastada como um segundo corpo morto. Chama isso de trabalho odiado? Olho você flácido, triste, e que apesar de ter se perguntado tanto, toda a vida, acabou se cansando de esperar pelas respostas, e que a única resposta que tem agora é a de que se vai. Porém, saiba, toda essa decadência envolve algo que eu não saberia explicar. Como disse, sou sucinta e nada adepta a explicacionice. Além do que, esse algo trata do existir e eu só entendo do não existir. Essa coisa é como aquele menininho vestido de marinheiro, que num domingo de sol e céu azul, sentava diante da porta de sua casa, vez ou outra conferindo a esquina, para ver se sua mamãe surgia com seu sorriso acolhedor. Esse menino ainda existe, lá dentro, encoberto por esse corpo roído, cansado, carcomido, enrugado, caído, fraco, destroçado. Não se preocupe, no menino não tocarei. Não tenho esse poder. Esse menininho é como a semente que de alguma forma ainda vive na árvore que apodreceu. Elimina-se o efeito, nunca a causa.
_Perdoe-me, não quero parecer mal-educado, mas preciso deitar-me um pouco. Se não se importa. Estou muito cansado. Mas acho que você sabe muito bem disso...
_Sem problemas.
_Obrigado. E depois disso, como quiser...
_Ok!
Ele entrou no quarto. Deitou-se. A cama rangeu. Depois veio um silêncio como se o mundo tivesse adormecido também. Ellae ficou na sala, no mesmo lugar onde estava anteriormente. Só cruzou as pernas e conferiu o relógio. Sabia que ia ter que esperar algumas boas horas, talvez um dia inteiro, mas não dois. No máximo pela manhã, bem cedo, teria que partir. Entrou no quarto. Sentou-se num canto escuro. Fitou-o. Conferiu alguns objetos: o relógio de pulso sobre o criado-mudo, o despertador empoeirado, o quadro torto, os sapatos juntinhos. Demorou-se no crucifixo. Voltou a mirá-lo: dormia reto e com as mãos sobre o peito. Nunca se esparramava pela cama. No dia seguinte seu leito parecia intacto. Ao levantar-se, deslizava as mãos pela colcha e pronto. Parecia não querer amassar a noite com receio de não conseguir consertá-la pela manhã. Pior do que guardar suas próprias lembranças era ter que guardar as lembranças dos outros também. Pensou. Sentiu a costumeira sensação de que pesava o dobro do seu peso. Veio a vertigem, o turbilhão. Depois o vazio. A unicidade. Por fim, o restabelecimento. Olhou em volta. Apagou as luzes e em seguida fechou a porta atrás de si. Estava amanhecendo. Gostava dessa hora entre a noite e o dia, como a moeda em movimento que falara há pouco. Que comparação mais babaca. Pensou. Lembrou-se dele. Mais um, ou menos um: questão de ângulo. Logo o esqueceria. Era assim com todos. Respirou profundamente, e por fim, cheia de orgulho, disse: ainda sou muito boa nisso.

(Reynaldo Bessa - Pequenos textos sobre o fim)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Meia triste

_Minha mãe está meia triste.
_Meio triste, seu burro, meia não existe. Por um acaso, sua mãe está metade triste e metade feliz?
_Sim. Ela está exatamente assim. Metade dela sorri e a outra metade, não. Já contei piada, plantei bananeira, soltei pum, nada. Só a outra metade sorri. Nem percebe que não foi pra ela que eu fiz tudo isso. Sabe aquelas máscaras que têm lá na nossa escola: uma com cara feliz e a outra com cara de mau?
_ Tragédia e comédia...
_isso, pois é só cortar metade de uma e metade da outra e depois juntar as duas metades: isso é minha mãe. Mas já tô me acostumando com duas mães, quer dizer, duas metades de uma mãe. Eu converso muito com a metade triste. Ela me ouve e não quer só falar, falar e falar... sabe? Mas a metade que gosta de falar e falar, sempre entra na conversa. Sempre nos interrompe. Acho que no fundo ela fica meio atrapalhada porque quando faço uma pergunta para minha mãe triste, minha mãe sorridente sempre responde. Quando conto uma piada para mamãe-triste, a mamãe-feliz sempre ri primeiro. É estranho. Minha mãe triste não me cobra o dever de casa, não quer ver minhas notas, não me manda escovar os dentes, tomar banho. Só a metade mamãe-sorriso que faz isso. Ah, gosto da mamãe-tristeza.
_E quando e como isso aconteceu com sua mãe?
_Ah, foi um pouco tenso. Estávamos almoçando, aí minha mãe parou de comer, ficou em silêncio – enquanto isso eu fazia uma torre do meu purê – e depois correu para o quarto. Meu pai e minhas irmãs correram logo depois, e pouco antes de fecharem o quarto, me disseram para ficar do lado de fora brincando com o Fred. Ouvi gritos. Choro. O Fred ficou meio agitado. Metade dele ficou comigo e a outra metade ficou lá dentro do quarto. Depois de um tempão, eles voltaram, menos a minha mãe. Aí, veio uma ambulância e levou a minha mãe. A casa ficou um pouco vazia, meio abandonada. Toda silenciosa. Depois a ambulância voltou e trouxe minha mãe de volta. E só depois de alguns dias pude perceber que eu tinha duas mães. Saiu uma e voltaram duas. Pessoas podem já nascer adultas ou só bebês?
_Acho que só bebês, mas têm uns caras fazendo uns experimentos que sei lá viu...
_É?
_Unhum.
_Na verdade, às vezes eu gosto disso tudo, porque minha mãe agora só fica metade brava comigo, mas às vezes, não gosto porque sinto seus carinhos só pela metade. Metade da minha mãe se mexe, grita com meu pai, arruma a casa, chama o Fred, e a outra metade, nem tchan. Nadinha. Mas eu gosto dela. Ela aceita tudo. Toda semana o médico vai lá em casa e examina ela. Depois de conversar muito com as duas metades, conversa com meu pai, minhas irmãs, e só muito depois, apoiando-se nos joelhos, espana meus cabelos, e com uma voz diferente, me diz que infelizmente não pode curar minha mãe, mas que fará tudo pra deixar ela...
_Caraca, meu.... "Deixá-la..."
_É, deixá-la bem. Toda animada. Mas ele nem me pergunta se eu quero mesmo isso. Eu não quero que minha mãezinha-triste vá embora. Gosto dela. Gosto das duas metades.
_E isso que sua mãe tem, como chama?
_Hum, sei não. Sempre que pergunto o que minha mãe tem, o meu pai vem com meias verdades... ih, agora fiquei um pouco perdido: é meia verdade ou meio verdade? Porque meia verdade é metade verdade e metade mentira e meio verdade é um pouco mentira também...
_Xi, agora você me pegou. Sei não. Vou ver depois e te digo...
_ Tá. Então. O médico disse várias vezes o que minha mãe tem, mas é uma palavra meio esquisita, sabe? Um pouco complicada de se falar. É uma palavra que parece não sorrir nunca. Como se eu não pudesse segurá-la em minhas mãos, entende? Uma palavra que parece maior que minha boca. Sabe aqueles trava-línguas?
_Sim... eu...
_Pois é... Não consegui guardar...
_E pega, sabe dizer?
_Acho que não, porque meu pai continua inteiramente bravo, minhas irmãs completamente bisbilhoteiras, e o Fred totalmente folgado. E eu, sei lá... acho que não pega. Mas eu adoraria que fosse contagiosa, pois assim o meu pai ficaria como a mamãe e não inteiramente bravo.
_É... Preciso ir. Hoje à noite o meu pai vai comprar pizzas.
_Preciso ir também. Ih, agora fiquei confuso de novo. Minha mãe inteira gostava de pizza metade portuguesa e metade escarola. Agora que ela está dividida, preciso perguntar para as metades, de quais metades elas gostam... Será que elas comem uma pizza inteira?

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

quando cortaram minha pipa,
você foi buscá-la e a trouxe pra mim.
quando meu zíper emperrava, você dizia: "espera" e o fazia funcionar.
quando a ponta do meu lápis quebrava, você a fazia e eu voltava às minhas garatujas.
quando os barulhos da noite saltitavam no jardim, você dizia que eram cavalinhos de cristal protegendo a casa.
quando os trovões arranhavam o céu e eu te olhava com meus olhos de grandes bolas de gude, você dizia que era Deus, de novo mudando de casa. E sobre os raios? Eu logo perguntava. E você dizia que era Deus fotografando seus vizinhos para nunca os esquecer.
quando minhas espinhas viraram meu campo de batalha, você disse que se eu ficasse menos tempo no banheiro, logo elas iriam desaparecer
quando eu não consegui aquele emprego, você disse que eu era melhor do que ele.
quando eu a quis colocar dentro do meu coração, e ela não quis entrar, e que de tão apertado achei que ele fosse sumir, você passou a noite toda comigo, tomando cervejas e indo ao banheiro pra chorar, que eu sei.
e quando nosso pai, de tanto ir (se acostumou a isso), e  foi-se de vez, você disse que ele foi na frente pra arrumar a nossa nova casa...(a nossa, enfim, casa própria)
e quando eu saí de casa, você, com seus olhos de chuva, disse, "você ja é um homem. 

Hein? Aí você se foi de vez....
Há tantos barulhos no jardim
há tantos trovões e raios, e
há também "ela"
coloquei algumas cervejas na geladeira...
Maninho, maninho, eu tenho tantas perguntas ainda, eu tenho ainda mais, espera, eu tenho um milhão delas, maninho...milhões delas

(Reynaldo Bessa)

sábado, 10 de agosto de 2013

Quando voltava do Red Light District e entrei no hostel, mandei um "are you ok?" para a recepcionista. Ela era linda mas eu havia desistido dela porque era tão formal quanto um arquivo de escritório: me imaginei fazendo sexo com ela como quem escolhe uma cor para um apartamento. Gostava de olhá-la ou de lhe dirigir algum atrevimento só pra ver aqueles trejeitos duros e aquela simpatia protocolar. O que eu queria mesmo era me jogar em minha cama como um suicida que se atira do décimo andar. Mas ao abrir a porta do meu quarto encontrei uma mulher extremamente linda - sei que a beleza é relativa - esparramada em minha cama. Um metro e oitenta, branca como a neve, encolhida como se tivesse acabado de nascer e respirando como um sonho distante. Cílios enormes (postiços?) e...e...ah. pensei: Deus, sou um pecador, esqueceu? Fui lá fora e fiz um cigarro, e outro...e.... Entrei e saí diversas vezes. Podemos brigar com tudo, menos com o sono. Então voltei. Procurei um lugarzinho naquele paraíso apertado e cheirando a tijuana. Com uma delicadeza hipócrita, tentei afastar aquele monumento vivo e pulsando. Encolhi-me como alguém que vai morrer. Mas ai ela me abraçou e me agarrou como se tivesse se afogando em sua vida turbulenta. Ela soltou o zíper de todas as suas e as minhas interrogações, e só assim eu pude entender, (será?) e respirar...e assim..dormir em holandês...


(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ao voltar da adega, sempre tento decifrar essa alegria que sinto toda vez que vejo estes táxis - um atrás do outro - com suas luzinhas acesas. Penso que talvez seja esta alegria que sentiremos no nosso último instante aqui (o que seria, na verdade, esse "aqui"?), mas também sempre me lembro do filósofo que disse que a morte não é um episódio da vida. Ela não acontece enquanto você está pregando um quadro na parede. Até acontece, mas quando ela vem, você já não é mais esse homem pregando o quadro na parede ou com o saco de pão sob o braço. Quando ela acontece você já não está mais lá. A morte não dá ouvidos aos seus passos imprecisos sobre paralelepípedos sardônicos. Ela nem lhe conhece, nem sabe seu nome, e muito menos tem ideia de seus sentimentos. A morte não se envolve, nunca. Ela cospe no chão pra essa suposta alegria que você sente quando percebe os táxis vazios... Ela é uma carta com seu endereço, mas que você não terá tempo de lê-la....

(Reynaldo Bessa)

terça-feira, 6 de agosto de 2013


Cheguei ao Charles de Gaulle às quatro da manhã. Meu voo para o Brasil era as seis. Confesso que um cemitério qualquer de Paris estava mais animado do que esta invenção transparente feito um brinquedo de um bebê gigante. Caminhei impaciente, cansado e ansioso por entre a frieza silenciosa e polida. Sempre que estou neste aeroporto, me vem a mente o conto "O Avião da Bela Adormecida" do Gabriel Garcia Márquez, e sempre tento adivinhar onde o autor comprou o último sorvete.

Dentro do avião não pude deixar de reparar na bela aeromoça. Ela parecia muito Ela quando tinha apenas vinte e sete anos,

Meio pra mim, meio pra todo mundo, eu disse, em português - pra que ela não entendesse - "você não vai me deixar de novo, né?", e pra minha surpresa, ela riu, e me devolveu um: "Não, senhor, até o avião pousar não poderei ir a nenhum lugar. Viajaremos juntos pela eternidade de um voo". Ela era brasileira. Eu ri como alguém que põe algumas moedas num bolso furado.

Quando o avião pousou em meu país - depois de treze horas de voo - eu desembarquei com a desenvoltura de um aleijado. Ela me deu um "bom dia" embrulhado num papel de pão de ontem com um sorriso fresco de um amanhã que nunca amanhece... Só quando entrei no táxi cheirando a multidão mofada foi que percebi que estava realmente sozinho...sempre isso...

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A única coisa que eu sabia era que estava em um lugar imenso e que procurava algo. Era um ambiente completamente desconhecido para mim, a despeito sentir que aquilo já me fora tremendamente familiar. Divisei uma enorme poltrona que mais me pareceu um trono. Aproximei-me com a sensação de que estava diante de uma divindade. No trono, me deparei com um bebê saudável, risonho, feliz. Sorria como se me perguntasse: “e aí, o que esperava... um velho de barbas longas e brancas?”. Rodopiei dentro do recinto como se procurasse algum indício pelo qual o bebê pudesse ter uma visão de todo o universo... Devia haver algo. “por que você procura de olhos abertos?” Perguntou-me. Fechei os olhos e cai num imenso escuro. Mais à frente mergulhei em bilhões de estrelas que me pareceram gotas d’água que caíam de algum lugar ao longe e que logo depois se espatifavam e cresciam lentamente como flores se abrindo, e que minutos (segundos, talvez) depois, cristalizavam-se. O bebê levantou-se, veio em minha direção, passou por mim, em seguida se voltou e por fim olhou-me. Agora eu era o bebê e o bebê era eu. Dois seres olhando-se num só olhar. Foi aí que percebi...

(Reynaldo Bessa)

sábado, 13 de julho de 2013

Malicioso esmero...




Estava sentada como se fosse viver ali toda a sua existência. Levava o garfo à boca, como se com um batom, pintasse seus lábios carnudos, de vermelho doído. Mastigava, bebericava sua coca-cola-gelo-e-limão, dava uma olhadela no ambiente com seus olhinhos saltitantes – gazelas cor de mel - e conferia o celular. Sempre isso. Depois de uma garfada, eu já ansiava por outra. Deslizava seus dedinhos – talvez cheirando a frango – sobre o visor do celular como quem prepara uma delicada fórmula mágica. Em suas costas, vale reforçar: eu poderia erguer um reino encantado. Torneadas com o malicioso esmero. Sobre elas, cabelos longos, e ainda adormecidos, desgrenhados, me fazendo pensar em seus lençóis sobre sua cama ainda desfeita. Uma jaqueta jeans, jogada sobre o corpo, com a desenvoltura de quem está vestindo uma toalha de banho. Uma blusinha amarela, surrada, sob a jaqueta. Alcinhas do sutiã gargalhando sobre os ombros andinos. - a típica preguiça sabática, pensei - Com os olhos da intuição, penso, percebeu a minha presença – ou seria a minha ausência? – e meus olhos telescópicos, sedentos, atrás dela. Levantou-se como se fosse fazer um cumprimento a alguém invisível a sua frente, puxou a calça jeans apertada – também... - e nisso deu aquela típica reboladinha que as mulheres gostam tanto quando querem erguer a calça jeans incumbida da difícil tarefa de manter curvas tortuosas em seu devido lugar. Depois, como a princesa que era, voltou ao seu trono. Deu metade de uma olhadinha para trás – para mim? – e nisso desceu a blusinha amarela para tentar cobrir, o que na verdade, deveria mostrar aos quatro cantos. A blusa puxada sem piedade me remeteu ao Grito, de Munch. Ainda mastigando, cruzou as coxas – o pezinho frenético em ação. Percebi uma pulseirinha microbiana em sua canelinha de Vênus: as cores da Jamaica já iam longe, devido a tantos banhos, praias, chuvas e outras coisas mais... Por um momento quis encontrar algo nela que pudesse transformar toda aquela beleza em pó. – essas coisas doem, sabem? – mas, enquanto mais eu a olhava, mais me sentia como um inseto preso em uma teia. Ficar parado também, nem pensar. Levitar, talvez. Arrumou os talheres – juntinhos. - Seria uma dica? – depois, levantou-se como se fosse dançar, olhou em volta – aquilo seria um biquinho? – Pagou sua conta. Para o garçom, como gorjeta, deixou seu sorriso tímido e algumas palavras que não passaram de seus dentinhos brancos. Para mim, apenas a sua ausência perfumada.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ela entra. Pisa firme como o fim do mundo. De vestido preto, justo, e com armadilhas no canto dos lábios carnudos e com inúmeros beijos alheios e esquecidos em cada vinco, me sorri. Joga a bolsinha brilhante e repleta de estrelas decaídas para algum dos precipícios da casa. Depois enrosca-se em meu pescoço, e de leve, com unhas pintadas para as guerras noturnas e aladas, o arranha. Sorri ainda mais armadilhas tiradas das cacholas dos infelizes . Joga-se na cama - que agora lhe pertence - e cruza as coxas: brancas, roliças, tenras: o preto no branco como um abraço assassino. Olha-me como se me escaneasse - um sorriso sacana fingindo intimidade - . Em seus olhos digitais: duas horas piscam em contagem regressiva: é o tempo da solidão que ecoará para o resto da minha noite vazia.


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quando a coisa esquentava e o meu pai entrava e saía de casa como quem não cabe em si, eu subia na laje e procurava um cantinho sob alguma estrela tão aflita quanto eu, e ficava horas conversando com a velha antena de tv e sentindo a tristeza úmida da caixa d'água, até que meu irmão mais velho viesse me buscar. Eu conhecia seus passos e podia senti-los como afagos nos cabelos. Ele aparecia com um leve sarcasmo entre os dentes brancos. No rosto, um certo prazer por me ver naquela situação, mas ao mesmo tempo, uma certeza de que eu estava seguro por ele estar ali, ao meu lado. "Ei, pirralho, desce, o velho já dormiu. Cansou de te procurar" Eu ria ridiculamente como uma estrela que não consegue ficar presa no peito de um trêmulo xerife. Hoje me pergunto como deve estar aquela casa vazia, aquele espaço sem antena, e aquela caixa d'água transbordando de passado. E eu, onde estou mesmo, aqui ou lá? E o meu irmão, quando vai mesmo decidir subir por essa escada que não mais existe?

(Reynaldo Bessa)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

com uma esperança desesperada, por baixo de sua blusinha surrada e com a imagem de uma bandinha de rock que eu desconhecia, saltaram duas pérolas com o sabor da existência em suas auréolas rosadas.

(Reynaldo Bessa)

sábado, 8 de junho de 2013

Quando cheguei na estação de trem de Marseille, mochila nas costas e muito cansado, rodei um pouco para guardar as últimas imagens da cidade em que Rimbaud havia amputado a perna. Olhei o vai e vem, os abraços, as despedidas, os choros, as angústias, o grito das crianças que um dia também iriam chorar numa estação, mas que agora só se preocupavam em construir castelos coloridos no ar. Olhei a correria e pensei que a alma fala um idioma só e que não é preciso uma pronúncia perfeita para ser compreendido. Basta um olhar e pronto. Eu estava mesmo muito cansado. Já estava viajando há muito tempo. Quando cheguei em Marseille logo de cara odiei a cidadezinha. Cheguei faminto e era um domingo e não havia nada aberto, nada vendendo nada. Então fui dormir alimentado apenas por um belo e melancólico por do sol sobre o mar se espreguiçando ao longe. Meu francês já estava afiadíssimo e me sentia em casa apesar de querer ir embora. Pra onde? não sabia. Queria apenas ir. Ela, e Ela pregava sem pena em meu coração um prego cabral de distância com o martelo pesado da incerteza. Até onde mais eu poderia ir para ficar longe desse passado? Quanto mais eu deveria fugir para que pudesse me esconder de mim mesmo? Ao comer aquele "pain au chocolat" tive a impressão de sentir os lábios Dela. Pensei ter ouvido sua voz. "Pain au lágrimas" Talvez. Meu trem chegaria logo e em breve eu estaria em outro país, outra cidade e eu diferente de mim e ainda assim eu mesmo. Entrei numa loja da Virgin e pus pra tocar um cd de um novo cantor francês que em breve faria uma grande besteira com sua música e ficaria mundialmente famoso. Disco lindo (só o primeiro). Pus os fones e pelas frinchas das janelas da loja olhei a igrejinha sobre o morro ao longe e me pareceu que ela também chorava....


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)
penso que só não sentimos a saudade todo o tempo porque não suportaríamos. O nosso instinto de sobrevivência a divide em parcelas: umas maiores outras menores. Concebo a saudade como uma árvore que vez em quando desprende um de seus frutos. O som que ele produz ao atingir o solo entra em uníssono com algum coração descompassado de presente e cria um ritmo particular, um lugar alhures, um tempo dentro do tempo: um tempo onde as palavras não alcançam. Ficam em outro compartimento olhando pelo olho mágico "aquele algo mais" e que estão além delas. Aí despertamos com aquela energia extra, aquela força última, aquele oxigênio de reminiscências e nos vemos cobertos de pó. E o mundo ao nosso redor não mais nos interessa. Porque o que realmente era, já foi. Dias assim acordo ouvindo Gardel no máximo volume. Sinto cheiro de creme de barbear, de loção pós barba. Ouço o sábado, o domingo tilintando em meu bolso como brindes da vida. Em minhas mãos sinto a cabeleira do meu velho. Sem me dar conta, sinto meus dedos movendo-se em busca de cabelos lisos e bem penteados e cheirando a "Trinite" (nem sei se é assim que se escreve. Faz tanto tempo). Não são só as canções em si. Nem só a voz do Gardel. Nem muito menos as letras. Há algo mais. Como se eu pudesse ver o tempo dançando sozinho no meio do salão num fim de baile. Acordo assim, vez em quando, e me sinto como se acordasse pela primeira vez em minha vida.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

     Do longo tempo que passei na Europa – minha fuga geográfica – apesar dos vislumbres, minha única vontade era voltar para o meu país. Uma música me acompanhou como uma oração ou um chute na bunda. Tanto faz. Morei boa parte do tempo em Paris, e depois resolvi ir atrás de confusão. Afinal de contas os conflitos só mudam – quando muito – de código de barra: em qualquer lugar do mundo os homens querem beber, e depois disso querem brigar ou chorar no ombro de um desconhecido ou de uma mulher que não lhes quer, as mulheres querem ser amadas, e choram quando isso não acontece. Em qualquer esquina de qualquer país a solidão dorme sob alguma marquise. De Londres fui até Dublin. Queria folhear aquelas famosas ruas e quem sabe até encontrar Joyce em algum pub escuro e cheirando a vômito. Poderia até ser seu sósia. Mas não o encontrei. Nem Joyce nem o seu sósia. Na verdade me empanturrei de Guiness’s. No começo, ao tocar a boca da tulipa transbordante, senti como se beijasse os lábios de uma velha de cem anos ou mais, mas depois tudo mudou. Com a Guiness é preciso beijar os lábios mordidos pelo tempo para só depois lamber os poros dourados da alegria. Voltei a Paris com folhas despencando e rindo sob as calçadas. Eu estava sozinho e forte como o exército de um homem só. Ela, e sempre Ela vibrava em meu coração como uma peça solta numa máquina de lata; meu coração não passava de uma boneca de pano sob a chuva. Um pé gordo dentro de um sapato pequeno demais, apertado demais. Doendo demais. Quando a música disparou em meu ipod e eu vi aquelas folhas marrons, e aquele vento assanhou meus cabelos, e aquela tarde caiu como um véu sobre o corpo de uma bela noiva e eu senti o arder de minha cigarrilha em meu peito, sorri, e só depois pude perceber que era o sorriso do esquecimento...o que eu faria agora?...essa pergunta despencou do abismo da nova descoberta. Até então eu era apenas uma lembrança....

(Reynaldo Bessa - Crônicas Agudas)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Às vezes me vem uma alegria cheirando a cera, detergente e cozido de carne. Parece tudo muito limpo, mas havia muitas nódoas de tristeza...

(Reynaldo Bessa)

segunda-feira, 29 de abril de 2013




[...] Em suas anotações epigramáticas do real, percebe-se que estas superfícies de comunicação sugerem um curioso movimento duplo que envolve os métodos cut-up e pick-up. O leitor poderia acomodar-se nestas superfícies devido à força comunicativa que está em jogo, mas isto até perceber o quão deslizantes são estas superfícies. É que os recortes de realidade operados por Reynaldo Bessa aproximam-se da experimentação técnica da colagem cut-up – aquela inventada por Bryon Gysin que William Burroughs desenvolveu e popularizou através de sua poesia e em produções cinematográficas – mas que também deslizam para um grau considerável de tartamudez, de silêncio indizível [...]

do Poeta/performer, Ricardo Corona (orelha) sobre meu novo livro de poemas "Cisco no olho da Memória" (Terracota editora / Selo Musa Rara) - lançamento dia 29/06 - 2013.


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Capa oficial do meu novo livro de poemas, "Cisco no olho da Memória" (Terracota Editora/Selo Musa Rara) - Lançamento: dia 29/junho (sábado) Espaço Terracota Editora

foto: Adrebal Lírio

Reynaldo Bessa é um músico que entende e gosta de poesia. Entendi melhor a sua escolha por fazer um disco de poemas musicados. Trata-se de uma escolha pelo difícil. E quem canta sabe do que estou me referindo. Foi uma boa surpresa ouvir nossa parceria "Tambor", na voz personalíssima de Bessa, com suas cordas elétricas do seu violão, intensificando versos como "coisas grudam na / agulha / na ferrugem / na pane do som letal...". Também gosto dos títulos que ele dá para seus discos. Um achado esses com os dentes.

O poeta, Ricardo Corona, sobre nossa parceria "Tambor" no meu disco ao vivo "Com os dentes".
[...] Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes? Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda [...]

o poeta/cronista, Fabrício Carpinejar sobre o meu livro de poemas "Outros Barulhos ( Jabuti 2009 - Poesia) - [Trecho da orelha]
[...] Aproxime-se. Deixe o delicado enlevo penetrar você. Observe as complicadas relações familiares em Oh! esses acordes menores e O dia em que o silêncio falou mais alto. Tente recuperar um pouco das amizades perdidas em G & M e Fê. Delicie-se com as mulheres misteriosas e sedutoras de Ainda algumas lembranças II e Are you lonesome tonight? Acompanhe de perto a decadência física em Branco, branquinho, o desencontro sonolento em Noite estranha e o horror hospitalar em Charuto. Viaje numa dessas Kombis inesquecíveis (mas perigosas) em Os domingos e o carro de Apolo e Olhos verdes, sarcasmos e despedidas.
Esses contos e os outros deste livro tocam a corda mais sensível de nossa fantasia. Por isso certos parágrafos doem tanto. Há alfinetes neles. Há imagens pontiagudas e poéticas, que laceram as retinas do leitor. Reynaldo Bessa sabe injetar na prosa o lirismo mais inquietante. Não podemos esquecer que ele também é um poeta de mão cheia, autor da coletânea Outros barulhos (prêmio Jabuti de 2009 na categoria poesia) [...]

O escritor, Nelson de Oliveira, sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" (editora Patuá) - [trecho da orelha]
[...] São contos, mas também são fragmentos de memória. Quase sempre o pai, o irmão, a mãe. Alguns amigos. Outros tantos amores. Personagens que Reynaldo Bessa parece querer que se tornem também parte de nossas lembranças. Não satisfeito com suas quase inconfidências regadas ao lirismo atordoante de uma prosa direta, ele vai compondo uma trilha sonora ao longo do percurso: Simon & Garfunkel, Lou Reed, Neil Young...Você termina de ler uma história e depois a refaz mentalmente acrescentando a canção sugerida de fundo [...]

O crítico, Jurandir Renovato, sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" para o Guia Livros da Folha de São Paulo.
[...] Reynaldo Bessa oferece-nos contos belos e pungentes, exorcizando a memória dolorosa da infância e juventude, e dialogando com a figura dura e marcante de seu pai. Seu narrador, quase sempre em primeira pessoa, nos conduz pela mão em um passeio intermitente entre o tempo passado, rememorado e o tempo presente cristalizado e esburacado pelas vivências não cicatrizadas.
E ao final, com os olhos marejados, só nos resta a música que ressoa em nossa memória (para quem a tem), aprofundando ainda mais a dor, como um tiro de misericórdia. Vários exemplos poderão ser extraídos do livro, mas os belíssimos e emocionantes “Os domingos e o carro de Apolo” e “Oh! Esses acordes menores” atestam com precisão o que balbuciante tento dizer [...]

o poeta, Edson Cruz sobre o meu livro de contos "Algarobas Urbanas" [trecho do prefácio]
[...] Nesta nova obra, Bessa prossegue na sua viagem pessoal e literária, aprofundando seu mergulho existencial e estético. Os contornos de seu ethos ficam mais nítidos, seu corpo-textual ganha mais corpo: parece que todos os estilhaços deste eu fragmentado, disseminados em tantos contos, poemas e canções, vão se juntando e nos ajudando a montar o quebra-cabeça desta cabeça quebrada (que quebra-caBessa!). Se a memória sempre esteve presente em suas obras, agora está explícita no título, como se a mostrar ao leitor que o autor conscientemente quer se mostrar como poeta da memória, inscrevendo-se no rol de nossos grandes memorialistas, ao lado de nomes nobres como Pedro Nava (leitor de Proust, também buscando a impossível reconstituição do tempo perdido) [...]

O poeta, Paulo César de Carvalho, sobre o meu novo livro de poemas "Cisco no olho da memória" (Terracota Editora/Musa Rara) - [trecho do prefácio] - lançamento em junho de 2013. (orelha do poeta, Ricardo Corona)
"Enquanto a prosa dos novos autores brasileiros se fixa no bizarro e no grotesco, a lírica concentra-se no sublime e na memória. Se real ou inventada, não importa. Como não importam também os choques ideológicos nem a militância em defesa dessa ou daquela poética (marginal, pop, conservadora, concreta etc.)
Reynaldo Bessa é músico, com cinco CDs na praça.
Familiarizado com harmonias e melodias sonoras e verbais, ele sabe que uma boa letra de música não é necessariamente um poema. Algumas são, mas muito poucas.
Para o Reynaldo poeta, um bom poema é mais do que qualquer outra coisa, um tipo peculiar de barulho, não de música.
Os poemas de “Outros Barulhos” em português e inglês, denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético – a verdade no falso – que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada “mal-estar”

Nelson de Olivieira
Escritor e Mestre em Letras pela USP.
APCA 2001 e 2003

(sobre o meu livro de poemas "Outros Barulhos" para o Guia Livros da Folha de São Paulo)

terça-feira, 23 de abril de 2013

eu lavava as mãos.
havia dois tipos de água - ele dizia:
água com e sem luz
havia uma casa enorme
um homem velho por fora jantava bem no meio da sala também enorme
ouvi uma voz de mulher que ditava o que havia no jantar
a porta estava semi-aberta e enquanto eu passava, o velho me olhou de relance:
nem simpatia e nem desdém, apenas um olhar técnico.
um enorme jardim. Um brinquedo quebrado. Ruas sem fim. Outro tempo.
Uma alameda, folhas quase beijando o chão.
A lua enorme parecia presa nos galhos das árvores que fechavam o céu.
café charmosos dos dois lados.
pessoas com cardápios presos ao peito e sorrindo como se me conhecessem.
eu sabia que era um estranho ali.
havia uma saudade, ainda uma dor, mas pareciam distantes ou dentro de um outro tempo. Não havia medo.
eu não queria ser, eu era.
Não queria ir, eu ia.
e viver era isso.

(Reynaldo Bessa)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tenho overdoses de palavras. Sofro com a abstinência de livros. Na minha larica sinto vontade de comer frases, beber parágrafos. Durmo e sonho com capítulos geniais que na manhã seguinte não passam de capítulos. Amanheço como o passar de páginas pelos dedos lambidos do sol. Não ha tratamento. Mas no caso de insistência podem me internar numa livraria numa biblioteca ou num sebo.

(Reynaldo Bessa)
Logo que desperto, escrevo. Às vezes uma única palavra como um estampido seco do inconsciente ergue minhas pálpebras num movimento brusco, preciso, assim, enchendo meus olhos de mundo. Mundo indesejado. Porque ainda estou lá: em um lugar que desejo ficar mesmo sem o conhecer. Ainda sob o calorzinho do edredom, procuro a caneta e o papel. Estão sempre ali, pois já conheço esses momentos, como reconheço o rosto de um velho amigo. Com exceção da mão que escreve, evito movimentos apressados com receio de espanar pensamentos tremulantes, frágeis como ventos leves, rápidos e faceiros.

A frase: “serás sempre o menino”

Sim, serei sempre o menino de cinco anos, num adulto, onde este se agarra a vida como aquele se agarrava ao vestido da mãe que andava apressada para fugir de si mesma. Sobre carnes tenras, aquele vestido era seu único meio de não ver-se sozinho em plena rua – que para um menino de cinco anos, era uma rua infinita – e entre toda aquela gente de sorriso triste. Serei esse menino.

Não importa. Por mais que todas estas fotos desdigam aquelas em que me vejo de olhos espantados, cabelos desgrenhados e lábios úmidos de futuro e incertezas, serei sempre o menino. E mesmo depois de muitos anos, montado em minha velhice e bradando a minha bengala como a espada que espantará o gigante do fim, serei ainda esse menino. E quando um dia, o velho se curvar sob o peso do impávido tempo, esse menino ainda tentará erguê-lo para uma última partida de bola de gude.

Esse menino seguirá trocando figurinhas com a morte até que ela, entediada, diga-lhe que é hora de “entrar”. E aí, o menino será o primeiro a chegar ao meu velório e ao mesmo tempo, deitado, se deliciará com a maciez do seu último travesseiro. E quando a noite cheirando a madeira tornar-se pequena, apertada, e ainda mais escura ele acenderá a luz dos seus sonhos inalcançados, assim, como Proust fazia com sua lanterna mágica na intenção de despertar seus cavalinhos e a sonoridade das cores. E quando essa noite retangular colocar-se em movimento lento e vez ou outra bater em algo, esse menino pensará que é seu irmão lhe ensinando a andar de bicicleta. E dentro dessa escuridão temporária e ainda em movimento, olhando o velho adormecido que não mais quer brincar, ele pensará que é a chuva, quando punhados de areia caírem sobre a madeira reluzente. Punhados que cairão das mãos engelhadas de meninos de cinco anos, assim como ele. E quando cessar todo o burburinho. Quando um silêncio de pedra lhe vedar o mundo que vai deixando de caber em si, ele procurará a sua típica posição de dormir, dará três pancadas na cara infantil do travesseiro macio, e com um sorriso branco de eternidade, esperará o beijo de boa noite da mãe. E ela lhe dirá: “você continua o mesmo menino”.

(reynaldo bessa)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

por que não consigo calçar esse sapatinho que calcei quando tinha quatro anos? me sinto o mesmo menino. Sinto ainda os solavancos da pipa, ouço ainda os canários nas gaiolas do vizinho. A chuva nem terminou. E meu irmão so foi até a esquina comprar sorvete. Meu pai logo chegará...e perguntará: vc ainda não calçou os sapatos?

(Reynaldo Bessa)
O menino sempre permaneceu no mesmo lugar desde o início. Sempre soube o que queria. Foi o adolescente que pensou demais e foi o homem que saiu por ai atrás de países ainda não inventados ou em ruinas. Foi o homem que resolveu amar e com isso descobriu que as pessoas só conseguem amar a si mesmas...agora, o homem e o adolescente vêm ao encontro do menino. E ele está lá. Esperando os dois. Lá, de onde nunca saiu. Foi uma música que me disse isso.

(Reynaldo Bessa)
fui criado por mulheres: meu pai nas estradas e meu irmão em outro mundo. Quando não eram as mãos da minha mãe, eram as da minha irmã mais velha. Mãos passando por todo meu corpo: virilhas, pernas, coxas, alma, tudo. Eu cabia dentro de uma bacia? Enquanto elas e seus dedos cheios de pressas banhavam meu corpo, eu abria bem os olhos e olhava a lua deslizando em sua preguiça noturna. Hoje, quando outras mãos percorrem meu corpo, eu fecho os olhos e vejo a mesma lua, deslizando nas minhas trêmulas, úmidas e noturnas pálpebras....

(Reynaldo Bessa)

sábado, 6 de abril de 2013

se foi
numa tarde silenciosa e sem nome
e eu tão longe...
sem saber
que todas as pipas seriam cortadas
que todas as ondas não mais se ergueriam
que todas as tardes seriam confusas
como sorrisos sem dentes
cílios entrecruzando-se num silêncio de morte
e eu fazendo um café, pagando contas, sonhando sonhos 

inalcançáveis.
se foi
num arder solitário e sem dono
e eu tão longe
sem saber
que todos os pássaros seriam silenciados
que todos os frutos amargariam
que todas as folhas ficariam suspensas
feito palavras que não foram ditas
olhos semicerrados num meio adeus à vida
e eu sem fé, com ideias tontas, chorando amores
impossíveis.
fiquei...
mais morto do que ele...



(Reynaldo Bessa - poemas de amor e morte)
"Eu te amo" é uma frase orégano. Espalha-se. Quando alguém não profere essa frase como uma confissão, como uma despedida no leito de morte, como um crime cometido, perde todo o sentido. Eu te amo é dita todos os dias como quem põe o lixo pra fora, como o beijinho de batom e café nos cabelos assanhados da manhã, como uma roupa que vestimos e perguntamos: e ai, como fiquei? Os "Eu te amo" que não são proferidos, não são ditos, por vezes, significam muito mais do que aqueles que são  utilizados em demasia, assim, comprometendo o sabor do prato principal. Ao pensar em dizer "Eu te amo" faça isso como se fosse sua única oportunidade de dizê-lo.

(Reynaldo Bessa)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

há vida demais.
tanta vida que até
morto duvida.

(Reynaldo Bessa)
escrevo porque quero por fogo em tudo aquilo que me queima.

(Reynaldo Bessa)
Às vezes mergulho na descrença. Que mal há nisso, afinal, toda moeda só se configura com dois lados. Seria desinteressante, chato, jogar uma moeda para cima e perguntar: “cara ou cara?” mergulho na descrença não como uma forma de cortar o fio da tomada, mas sim, como uma maneira de aumentar ainda mais a tensão, a energia, a potência. Crer não é aceitar, crer é questionar. E se uma religião te impede isso; alegando superioridade, ou mesmo semeando medo por falta de argumentos, não há porque segui-la. Todas as religiões de um jeito ou de outro, pregam a igualdade, e nem sempre isso funciona. A maioria das religiões prega a união, a fusão com uma entidade maior. E a literatura, ou mesmo as teorias de Jung mostram que a primeira experiência-visão de um homem que se dedica com afinco a algum tipo de religião é o contato com uma forma "irada" de um Ser, que na verdade (sei lá porque) esperava-Se dócil, delicado, acolhedor, simpático.

Mergulho muitas vezes nos meus edredons da descrença e fico lá. Mas me perdi, como dizia, muitas vezes é a diferença que une dois seres e não o que os tornam iguais. Em as aventuras de Pi, isso fica claro. Ele precisa alimentar o tigre para permanecer vivo. Se tivesse pensado de maneira rasa, precipitada, teria eliminado o tigre, e por conseguinte não teria sobrevivido. E é assim que fazemos com o que aparentemente nos incomoda: o eliminamos. E como consequencia deixamos de crescer. Em Pi, são as diferenças que os mantêm vivos, não o que há de comum aos dois. Mas, Saul Bellow já havia cantado isso antes. Em “Henderson: o rei da chuva”, o rei Dafu mantem uma leoa em cativeiro - ela está sempre faminta - E ele a visita todo final de tarde. Só ele e ela. Isso, talvez como uma forma de manter viva a ideia de que nossos sonhos, num átimo podem ser devorados, e que por isso mesmo precisam ser realimentados pela a ameaça constante. Sonhar nunca foi um sofá macio, mas na maioria das vezes, sim, um barco furado em pleno oceano. E ainda por cima em companhia de alguém que não conhecemos e que não temos a menor afinidade: um completo estranho. Muito próximo, ao nosso lado. Sonhar, muitas vezes, é como caminhar sobre um campo minado.

(reynaldo bessa)

sexta-feira, 29 de março de 2013

escrevo porque sou um insatisfeito. Nada me basta. Insatisfeito com minha adolescência, com minha fase adulta, com o envelhecimento e até com a minha infância: país que deixei contra a minha vontade. Enfim, insatisfeito com esse percurso desengonçado do crescer, viver. Parece-me que até a abundância me é insuficiente. E nessa insatisfação, tento inúmeras vezes passar minha saga de incógnitas a limpo. E nesse tentar, por diversas vezes, rasuro, mancho, maculo ou reescrevo-a de maneira ainda mais insuficiente. E vou tentando, sempre. Sei que nunca conseguirei, mas vou. Por isso escrevo...

(Reynaldo Bessa)
o tempo
nos varais
só o vento

(Reynaldo Bessa)
Sempre que saio à noite costumo deixar algum dinheiro na carteira para poder comprar produtos que alguns desses homens muito simples, resolvem vender quando a noite já está praticamente terminando. Compro tudo. Mesmo que depois não saiba ou não tenha o que fazer com eles. Aprendi isso com meu pai: numa certa noite, lá pelas 22h, vimos um homem de aproximadamente sessenta anos: banho tomado, cabelo bem penteado, e cheirando a loção pós-barba. Andava pelas ruas como se o dia tivesse acabado de nascer. Vendia sandálias feitas por ele mesmo. Carregava apenas três pares de números diferentes. Não pareciam novas. Apenas bem conservadas. Meu pai o chamou, e lhe perguntou o preço. O homem com gestos medidos e silenciosos, como um padre iniciando uma missa, numa voz titubeante - talvez por receio de perder seu único comprador em potencial naquela noite tão urgente – lhe respondeu. Meu pai comprou todos. O homem guardou o dinheiro no bolso como quem protege um remédio escasso que precisa levar para algum enfermo em casa. Nunca esquecerei o olhar que os dois trocaram nessa noite que ainda parece caminhar ao meu lado – antigamente os homens negociavam como se fizessem parte de uma confraria - Dentro da minha pré-adolescência labiríntica - na fase em que um frango começa a virar um galo, apesar de toda luta Perterpanica – com minha voz de gato engasgado, disse: “mas, pai, aqui ninguém calça esses números”. E ele me respondeu: “Mas a fome calça”.

(Reynaldo Bessa - Cores da infância)